segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Lavradores (Conto), de Coelho Neto


Lavradores

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Entre as sábias máximas dos etruscos, esses criadores da riqueza do campo latino, máximas que Plínio, mui judiciosamente, aplicou “orácula”, uma das mais concisas devia ser escrita em taboas que fossem levantadas em altos postes, fincados nas encruzilhadas, nos férteis outeiros, entre as plantações, impondo-se como preceito a todos os agricultores que, de passagem, de manhã, em rumo aos talhões e, à tarde, recolhendo à casa, vissem e meditassem as suas singelas palavras: "Mau é o lavrador que compra aquilo que a terra lhe pode dar".

Esses povos de tanta rusticidade, quase bárbaros, dedicando-se exclusivamente à terra com um amor avaro, vendo num torrão uma riqueza, numa semente de trigo ou de linho ou pão ou o fio, considerando o alqueive como a melhor fortuna, esposando a leira pela qual viviam sacrificando aos deuses para que lhes não faltassem com a água fecunda nem lhes demorassem nos canteiros as geadas esterilizadoras, gozando deliciosamente o suave aroma dos fenos cortados, alegrando-se com o lourejar da seara, ondulante, extasiando-se com o fresco cantar das regas, ao mugir melancólico dos gados, ao zumbir dos enxames, tinham noções exatas da verdadeira economia e da ciência fácil e tão pouco praticada do bem viver. "Mau é o lavrador que compra aquilo que a terra lhe pode dar".

Assim tiravam eles da terra o barro e as ripas com que edificavam a casa e modelavam o forno, a lenha que queimavam, o trigo que amassavam e coziam, o linho que as mulheres fiavam e com que teciam os vestidos e a lençaria doméstica, a fruta, o azeite e o vinho.

Nos pastos engordavam o armentio que lhes fornecia os bois robustos que, ao doce cerrar da tarde, lentamente, pelos caminhos cheirosos, levavam o pesado carro das colheitas, a vaca de ubres pejados, a rês para o corte e a ovelha que se despia da lã para vesti-los.

A água era bebedouro no remanso e, correndo, escoava na azenha de onde saía repartindo-se em acéquias que iam abeberar as raízes; e, isolados nos seus casais, tinham os lavradores todo o necessário para a vida e das sobras abundantes faziam comércio levando-as às feiras periódicas.

A terra não se recusa a criar a semente qualquer que ela seja: prometa árvore frondosa ou seja o simples gérmen de um arbusto; o seu seio acolhedor é uma grande maternidade — ali acham abrigo favorável todas as plantas: a seiva que alimenta o jequitibá não deixa inanida a relva, circula de uma a outra distribuindo-se equitativamente.

Uma das causas da decadência do nosso lavrador é a mania rotineira da monocultura. A propósito dessa contumácia intransigente já houve quem declarasse que a nossa desgraça era o café. Toda a confiança do lavrador funda-se nessa cultura: o café é o senhor absoluto da terra, só ele tem o direito de vida, só as suas flores trescalam, só a sua folhagem, que já cingiu a coroa, é bela — por ele veio o negro da África, por ele veio o colono da Europa.

As máquinas, que se instalam nas fazendas, são para beneficiar o café; os ladrilhos que entram vão dilatar os terreiros; o adubo que se caldeia vai para o cafezal; o melhor gado trabalha nos eitos; a gente mais robusta é para lá destacada. Ali fuzilam as melhores enxadas, a melhor água corre para os tanques de lavagem e, como para que lhe não saia das vistas o precioso grão, o fazendeiro aconchega ao domicílio a casa das máquinas e as tulhas, para que sempre ouça o frêmito das Lidgerwood, para que sempre veja o enxame de cascas voando dos ventiladores, para que sempre tenha, a acariciar-lhe o olfato, o cheiro acro das sementes novas.

Se há moinho para triturar o milho é um pobre casebre esquecido num fundo de grota; se há paiol é uma minaria — só o café tem agasalho digno em taboas lisas, sob telhados, entre muros fortes. Se alguém, mostrando uma faixa de terra, lembra ao lavrador a vantagem de uma plantação de cereais ou de cana ou indica uma baixada úmida como excelente vargedo para um arrozal, ele sorri superiormente declarando: “Não vale a pena, isso é quitanda. O café dá para tudo”. O resultado é que não há residência mais desprovida que a do fazendeiro — ele compra os cereais para a despensa, a carne, o toucinho, o fubá, o milho e a forragem para os animais.

Entretanto no quintalejo do colono europeu viceja a horta sempre fresca de rega, o milho apendoa-se, enfeixam-se touceiras de cana, sobem verdes latadas de vinha e de gordas abóboras, verdeja em estendal a rama da batata, o feijoal enfestoa espiraladamente as hastes dos milhos e ainda no chiqueiro grunhe o cevado, coincham os bacorinhos, a cabra lá está de peitos rijos, ruminando; na casa, pendente das cordas, defumando-se, os salpicões, o chouriço, o lardo e a um canto, em largas vasilhas, a carne em salga.

A previdência do campônio europeu, que vem da miséria, tão bem descrita por Michelet, tendo de realizar prodígios de trabalho para fecundar vageiros e sáfaros terrenos eriçados de pedregulho, colhendo uns galões de vinho, que não bebe, umas medidas de trigo, que não come, umas estrigas de Unho, que não veste, porque tudo é para o mercado ficando-lhe apenas a broa e o cânhamo de que se nutre e com que se cobre, sempre a pensar nos invernos, guardando avaramente todo o ramalho que encontra, aproveitando todas as migalhas, deve ser um exemplo para o lavrador brasileiro.

Posto que, com a fertilidade da terra e a amenidade do clima, o colono vá, aos poucos, relaxando ainda assim com a ideia fixa de tornar à pátria levando o necessário para viver regaladamente no seu campo natal, trabalha e acumula, passando sobriamente porque, pelo hábito e ainda pela ambição, o melhor da colheita e da criação desce ao mercado mais próximo, quando não é vendido ao próprio fazendeiro.

E o preço do café mantém-se miserável, mal dá para o custeio da fazenda, e o plantador, sem recursos num mar de abundância, com os terreiros cobertos, as tulhas atestadas e ainda os galhos vergados de fruto, sai a procurar capitães para acudir às necessidades da lavoura: ao salário do colono, à provisão da despensa e, como sempre viveu em fortuna, sem preocupação de miséria, não se retrai — mantém, como dantes, a mesa farta, os quartos de hóspedes preparados, veste a família com esplendor, confiado na alta do precioso produto, certo de que, com um simples movimento na praça, resgatará o seu compromisso hipotecário, saldará os seus débitos particulares, ficando lhe ainda capital bastante para abastecer a casa e beneficiar a terra no ano próximo de compensadora carga, lindamente anunciada pela fluorescência.

Infelizmente, porém, a sua ilusão desfaz-se e os dias correm. Vai-se-lhe a última nota e só, diante do cofre aberto e vazio, o grande senhor rural compreende a sua miséria e, com as folhas que arranca ao bloco do anuário, vão-se-lhe as esperanças.

E que sucede? O colono, submisso e risonho enquanto recebe regularmente a feria, torna-se altivo e hostil à falta de um pagamento. O fazendeiro, sitiado pelos seus próprios homens, vendo aproximar-se o dia do vencimento da letra fatal, esmorece. O café baixa a mais e mais, as notícias do comissário são desesperadoras — que fazer?

Lá fora, na colônia, o administrador procura, debalde, convencer os trabalhadores a voltarem ao serviço — negam-se, exigem o pagamento imediato, ameaçam com o cônsul, com o ministro, alguns até no rei falam e logo, ingratamente, rompem referências despeitadas à miséria da terra, à inclemência do sol, à aspereza dos outeiros; lamentam as fadigas, as privações; referem-se a moléstias imaginárias, arrependidos de haver deixado a pátria, linda e rica, com as suas vinhas e os seus trigais cor de ouro. E o fazendeiro, emparedado, sem esperança de salvação, vê, com terror, chegar a data tremenda.

Lá fora o cafezal murmulha com o vento, jorram as águas soltas pelos canais, o gado muge disperso e na casa, a portas fechadas, a família reunida despede-se, chorando, daquelas veneradas paredes que foram levantadas pelos avós, daquelas terras amadas, para recomeçar a vida, onde? no desconhecido, aventurosamente, miseravelmente e com o humilde vexame dos decaídos.

Os otimistas dirão que exagero e eu respondo-lhes que traio a verdade para não a mostrar tão desoladora como se me apresentam; sou, porém, do número dos desesperados, dos que veem perdido o campo, dos que não confiam na terra, não! Ha. um mal que tende a desaparecer, porque vai sendo substituído por um bem — o mal é o lavrador por herança, o que entrou na vida pela porta dourada, o que não conheceu o trabalho e foi sempre um mimoso da Sorte; o que achou a árvore carregada, tendo apenas o trabalho de estender a mão e colher.

Criado na abastança, entre negros humildes, vendo-se obedecido em todos os caprichos, senhor de homens, teve uma grande e espantada surpresa, só comparável à que teria um pastor que visse, de repente, tresmalhar todo o seu rebanho, quando, a 13 de maio, os negros, deixando os ferros, saíram para a estrada livre, ansiosos de liberdade.

Sem expediente, só, diante do vasto domínio, como em ermo mal-assombrado, o fazendeiro julgou-se perdido. Ouvindo, porém, falar em colonos, tratou de adquiri-los. Despachou emissários para contratá-los por qualquer preço, contanto que não se perdesse a colheita nem o mato subisse sufocando a lavoura. E os colonos chegaram, a fazenda perdeu a sua antiga feição feudal — o sistema modificou-se radicalmente, passando o senhor a patrão: o ato humilhante da compra foi substituído pelo compromisso recíproco do contrato.

Esse foi o primeiro golpe no fazendeiro antigo ou, dizendo melhor — foi a morte do valho regime de trabalho. O pagamento das primeiras férias foi feito com mal contida indignação. Aqueles que acudiam à chamada com as suas cadernetas eram como ladrões que assaltavam. Essa mesma revolta cessou e o fazendeiro julgou-se, de novo, feliz quando viu chegar o primeiro carro da safra a transbordar pelos caminhos o café em bagas purpurinas.

A terra, essa continuava submissa e fecunda, bela e fiel escrava! e, confiado nela, o fazendeiro, à primeira dificuldade, sem energia para vencê-la, sem ânimo para afrontá-la e não podendo privar-se dos gozos habituais — o seu descanso, a mesa lauta, o seu verão nas praias, o sem inverno na cidade, faustosamente instalado, confiando a fazenda ao administrador, recorria ao empréstimo, prendia-se à hipoteca e, dessa hora em diante, enlaçado pelo constritor, lá foi indo para a miséria, aos arrancos, torturado, ansiado, até a hora dolorosa do abandono da casa.

Para salvar a lavoura aí está o fazendeiro novo, tipo perfeito do homem de ação, inteligente e enérgico, empreendedor e ativo. Desse não fica na varanda molemente estendido no pliant ou na rede, ouvindo o cantarolar guaiado das lavadeiras riacho e o zumbir monótono das abelhas errantes. Cedo está de pé, pronto para sair, a cavalo ou de trole, e lá vai, ao ar fino da manhã, rompendo as névoas que se desenrolam, fiscalizar o trabalho. Caminha pelos torrões que o arado levanta ou pela terra fofa que espera a sementeira, olha, examina, indaga. Entra no cafezal, dirige a carpa ou anima a colheita, lança uma vista de olhos ao gado no pasto, sobe ao moinho e, sem maior atenção à poeirada loura que se desprende da mó, toma o fubá entre os dedos, experimenta-o. Corrige uma falta, ativa um serviço, atende a uma reclamação, despacha um próprio e ei-lo na casa das máquinas atento à pesagem, depois nas tulhas e já o veem a correr à estrebaria examinando as baias para que não falte a ração aos animais e para junto ao chiqueiro, chega ao paiol, percorre a abegoaria, vendo como interessado, não confiando no administrador, que é apenas um intermediário entre ele e os colonos.

Se, pelo céu, se vão arrumando nuvens de chuva e há café nos terreiros, ele é o primeiro a lançar mão do rodo dando o exemplo para que se ajunte e recolha e, à noite, na sala vasta, enquanto a esposa acalenta o pimpolho, debruçado sobre um livro, cercado de jornais e revistas, lê, anota observações sobre a terra, respigando o que lhe convém, aqui, ali: uma máquina útil, uma sementeira rica, um novo adubo, certo processo de enxertia e, ao primeiro bocejo, levanta-se, abre uma janela, respira largamente o ar puro da noite, sentindo em torno a terra viva e forte, tratada carinhosamente como animal de raça, fecundando, florindo, frutificando ao esplêndido luar silencioso.

Dirão sorrindo: “Mas não há vida mais material, Deus do céu! Não há vida melhor nem há vida mais calma!”

Que falem os errantes, esses que palmilham, sem destino, as estradas que dantes pisavam como senhores e que agora vão trilhando como banidos. Essa é a vida feliz do lavrador inteligente para o qual a crise é apenas um acidente e não um descalabro.

Saiba o lavrador aproveitar a terra e o elemento novo que a fecunda e a lavoura, no Brasil, será, em pouco, urna das mais prosperas e compensadoras do mundo. Para isso, porém, é necessário que não fique simplesmente nessa ilusão do café, porque a agricultura não se limita nem se pôde limitar a uma produção única. O país do vinho é o país do azeite, é o país do pão, é o país do linho e é o país da fruta. Da nossa agricultura pode, e com razão, dizer-se que dá apenas para encher uma xícara porque, em verdade, toda ela se reduz ao café, ao sul, e ao açúcar, ao norte.

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