quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O Bicho Manjaléu (Conto), de Sílvio Romero


O Bicho Manjaléu
(Contos populares do Brasil - Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez existia um velho casado que tinha três filhas muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamelas para vender. Quando foi um dia chegou à sua porta um moço muito formoso, montado num belo cavalo, e lhe falou para comprar uma de suas filhas.

O velho ficou muito magoado, e disse que, por ser pobre, não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que se não lha vendesse o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito dinheiro.

Retirando-se o cavaleiro, o pai da família não quis mais trabalhar nas gamelas, por julgar não o precisava mais de então em diante; mas a mulher instou com ele para que não largasse o seu trabalho de costume, e ele obedecia.

Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro moço, ainda mais bonito, montado num cavalo ainda mais bem aparelhado, e disse ao velho que queria comprar-lhe uma de suas filhas. O pai ficou muito incomodado; contou-lhe o que lhe tinha acontecido no dia antecedente, e recusou-se ao negócio. O moço o ameaçou também de morte, e o velho cedeu.

Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais e foi-se embora.

O velho de novo não quis continuar a fazer as gamelas e a mulher o aconselhou até ele continuar. Pela tarde seguinte, apareceu outro cavaleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma forma, carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.

A família cá ficou muito rica; depois apareceu a velha pejada e deu à luz um filho que foi criado com muito luxo e mimo. Quando chegou o tempo do menino ir para a escola, num dia brigou com um companheiro, e este lhe disse: “Ah! Tu cuidas que teu pai foi sempre rico!... Ele hoje está assim porque vendeu tuas irmãs!” O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em casa; mas quando foi moço lá num dia se armou de um alfanje e foi ao pai e à mãe e lhes disse que lhe contassem a história de suas três irmãs, senão os matava. O pai lhe teve mão, e contou o que se tinha passado antes dele nascer. O moço então pediu que queria sair pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu. Chegando em um caminho, viu numa casa três irmãos brigando por causa de uma bota, uma carapuça e uma chave. Ele chegou e perguntou o que era aquilo, e para que prestavam aquelas coisas.

Os três irmãos responderam que àquela bota se dizia: “Bota, me bota em tal parte!”, e a bota botava; à carapuça se dizia: “Esconde-me, carapuça!”, e ela escondia a pessoa que ninguém a via; e a chave abria qualquer porta.

O moço ofereceu bastante dinheiro pelos objetos, os irmãos aceitaram, e ele partiu. Quando se encobriu da casa, disse: “Bota, me bota na casa de minha irmã primeira.” Quando abriu os olhos estava lá. A casa era um palácio muito ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e falar com a irmã, que estava feita rainha. Ela não queria aparecer, porque dizia que nunca tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instância, deixou o estrangeiro entrar; ele contou toda a sua história, a irmã o acreditou, e o tratou muito bem.

Perguntou-lhe como podia ter chegado ali àquelas brenhas, e o irmão disse-lhe o poder da bota. Pela tarde, a rainha se pôs a chorar e o irmão lhe indagou da razão, ao que ela respondeu que seu marido era o rei dos peixes, e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar com tudo e não queria que ninguém fosse ter ao seu palácio... O moço disse-lhe que por isso não se incomodasse, que tinha com que se esconder e não ser visto, e era a carapuça. Pela tarde, veio o rei dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do palácio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: “Aqui me fede a sangue real, aqui me fede a sangue real!... ”, do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou o banho e se desencantou num belo moço.

Seguia-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe: “Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?” — “Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça”.

Foi a resposta do rei. O moço apareceu, e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restavam duas irmãs a visitar.

O rei lhe indagou que préstimo tinha aquela bota, e quando soube do que valia disse: “Se eu a apanhasse ia ver a rainha de Castela.” O moço, não querendo ficar, despediu-se, e, no ato da saída, o cunhado lhe deu uma escama, e disse-lhe: “Quando você estiver em algum perigo, pegue nesta escama, e diga: “Valha-me o rei dos peixes!” O moço saiu, e, quando se encobriu do palácio, disse: “Bota, me bota em casa de minha irmã segunda”; e, quando abriu os olhos, lá estava. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma dificuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita conversa, a sua irmã do meio se pôs a chorar, dizendo que era “por estar ele ali, e, sendo seu marido rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando muitas marradas, em termos de matar tudo”.

O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se esconder. Dali a pouco chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito alvo e belo na frente; este entrou e os outros voltaram. (Segue-se uma cena em tudo semelhante à que se passou na casa do rei dos peixes).

Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma lãzinha, dizendo: “Quando estiver em perigo, diga: Valha-me o rei dos carneiros!” Também disse, depois de saber a virtude da bota: “Se eu pegasse esta bota, ia ver a rainha de Castela”.

O moço foi reparando nisto, e formou logo consigo o plano de ir vê-la. Saiu, e pela mesma forma foi à casa de sua irmã mais moça. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que os outros dois. (Seguem-se as mesmas cenas que nas outras duas visitas) Era o palácio do rei dos pombos, e este, na despedida, deu ao cunhado uma pena, com as palavras: “Quando se vir nalgum perigo, diga: Valha-me o rei dos pombos”. Na despedida, sabendo o rei do préstimo da bota, mostrou também desejos de ir visitar a rainha de Castela.

Logo que o moço se viu longe de palácio, disse: “Bota, bota-me agora na terra da rainha de Castela.” Assim foi. Chegado lá, ele indagou e soube que “era uma princesa que o pai queria casar, e que era tão bonita que ninguém passava pela frente do palácio que não olhasse logo para cima para vê-la na janela; mas a princesa tinha dito ao rei que só casava com o homem que passasse por ela sem levantar a vista”.

O estrangeiro foi passar, e atravessou toda a distância sem olhar, e a princesa casou com ele.

Depois de casados, ela indagou pela significação daqueles objetos que seu marido sempre trazia consigo; ele tudo lhe contou, e a princesa prestou muita atenção ao prestígio da chave.

O rei, seu pai, tinha no palácio um quarto que nunca se abria, e neste quarto, onde era proibido a todos entrar, estava, desde muito tempo, trancado um bicho Manjaléu, muito feroz, que sempre o rei mandava matar e sempre revivia. A moça tinha muita curiosidade de o ver, e, aproveitando a saída do pai e do marido para uma caçada, pegou na chave encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: “A ti mesmo é quem queria!... ” e fugiu com ela para as brenhas.

Quando voltaram os caçadores, deram por falta da princesa, e ficaram muito aflitos. O rei foi ao quarto do Manjaléu, e achou-o aberto e vazio, e o novo príncipe conheceu a sua chave... Ao depois valeu-se de sua bota e foi ter aonde estava sua mulher. Esta quando o viu, estando ausente o Manjaléu, ficou muito alegre e quis ir-se embora com ele. Mas o marido o não consentiu, dizendo que ela ficasse ainda para indagar do monstro onde estava a sua vida, para assim dar-se cabo dele. O príncipe foi-se embora. Quando o Manjaléu voltou conheceu que ali tinha estado bicho homem; a moça o dissuadiu, e quando ele se acalmou, ela lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e disse: “Ah! Tu queres saber de minha vida mais o teu marido para darem cabo de mim! Não te digo, não!”

Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, ele foi amolar um alfanje, dizendo: “Eu te digo onde está a minha vida; mas se eu sentir qualquer incômodo conheço que ela vai em perigo, e, antes que me matem, mato a ti primeiro, queres?”

A princesa respondeu que sim. O Manjaléu amolou o alfanje, e disse-lhe: “Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão, dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo, dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar eu morro.” O bicho saiu e foi procurar frutas; chegou o príncipe, soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléu veio e deitou-se no colo da moça com o alfanje ali perto. O príncipe chegou com a sua bota à praia do mar num instante; lá pegou na escama, que tinha, e disse: “Valha-me o rei dos peixes!” De repente uma multidão de peixes apareceu, indagando o que ele queria.

O príncipe perguntou por um caixão que havia no fundo do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo cotó soubesse. Foram chamar o peixe do rabo cotó, e este respondeu: “Neste instante dei uma encontroada nele.” Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora. O príncipe o abriu e deu com a pedra; aí pegou na lãzinha e disse: “Valha-me o rei dos carneiros!” De repente apareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra. O Manjaléu lá começou a sentir-se doente, e dizia: “Minha vida, princesa, corre perigo!” E pegou no alfanje; a moça o foi dissuadindo e engambelando. Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O príncipe pegou na pena e disse: “Valha-me o rei dos pombos!” Chegaram muitos pombos e correram atrás da pomba até que a pegaram. O príncipe abriu-a e achou o ovo. Quando estava nisto, lá o Manjaléu estava muito desfalecido, pegou no alfanje e ia dando um golpe na princesa. Foi quando cá o príncipe quebrou o ovo, e apagou a vela; aí o bicho caiu sem ferir a moça. O príncipe foi ter com ela, e levou-a para palácio, onde houve muitas festas.

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