sábado, 2 de dezembro de 2017

O Cadáver (Conto), de Eduardo de Barros Lobo


O Cadáver
Soube-se um dia em Lisboa que tinha aparecido um assassinado para as bandas do Campo Grande, alta noite, mesmo ao pé do muro da quinta. Era em pleno Estio, quando a população da capital emigra para todos os seus arredores. Nesse ardor anual de bucólica, a notícia caiu como um mensageiro de terrores, e a vida do campo criou subitamente, aos olhos dos emigrados, um aspecto torvo de crime.
Pairava sobre esse caso trágico um mistério profundo. Não se suspeitava quem fosse o assassino. Não se calculava sequer que causa determinara o crime. Posta em campo, a polícia nem ao menos conseguiu lançar-se numa pista falsa; faltavam-lhe completamente todos e quaisquer indícios, desde o rudimentar rasto de passadas até ao boato inexplicável do povo.
O assassinado tinha um nome na sociedade elegante de Lisboa. Era novo, rico, alegre, sem inimigos, sem ligações aventurosas. Sabia marcar cotillons. Montava a cavalo. Estimavam-no sem reservas, como a uma criatura neutra pelo espírito e pela alma. Gozava a suprema ventura de não ser ninguém neste mundo.
A autópsia ao cadáver, descoberto por volta da madrugada, estabeleceu que a morte fora produzida por um tiro de pequeno calibre na fonte direita, com largo derramamento interno e externo, e devia datar aproximadamente das onze horas da noite. Nas algibeiras do morto tinham-se encontrado papéis sem importância, dinheiro em ouro e em prata, o seu relógio e cadeia, uma lapiseira de marfim. Era evidente que não tinham assassinado aquele pobre rapaz para o roubar. E ninguém se perdia em conjecturas, porque, na verdade, não havia conjecturas possíveis em face de tal extravagância.
Minutos antes da descoberta do cadáver, vinha do Campo Grande, a pé, sozinho, pelo belo luar da noite, o Fernando de Morais, um valsista infatigável de todos os bailes do campo. Excelente moço, de uma finura precoce de nervoso, com delicadezas superiores à sua magra instrução, necessidades estranhas e inconscientes de ideal, — tirara o chapéu ao fresco da noite, e vinha por ali fora pausadamente, gozando o silêncio em que apenas cantavam cigarras, e em que a Lua derramava uma claridade alvacenta.
A partir do cotovelo da estrada, o muro de uma quinta projetava a sua sombra no macadame, cortando-o em duas fitas de cores diferentes. Fernando, seguindo pelo mesmo lado em que vinha, entrou na zona da sombra. De repente, distraído, tropeçando em qualquer coisa de mole, caiu de bruços para a frente, com as mãos estendidas. As suas mãos bateram numa superfície fria e molhada; e quando ele rapidamente se quis firmar para se pôr em pé, encontrou cabelos; o seu olhar já habituado ao escuro reconheceu um cadáver ali estatelado, de ventre para o ar, com a cabeça um pouco de lado, lívida e horrorosa sob o luar alvacento.
Pôs-se a pé de chofre, gelado até à medula, sentindo-se aniquilado e pálido como aquele defunto. Depois, afastou-se estugando o passo, com as pernas trêmulas, a garganta contraída por um terror. Vinte passos andados sentiu atrás de si patadas de cavalos avançando vagarosamente; e, no silêncio da noite, ouviu o tilintar dos freios. Depois, o baque surdo das patadas parou; e ao cabo de um minuto, Fernando ouvia apitarem como desesperados, com um rolar ininterrupto de assobio, enquanto as patadas dos cavalos se precipitavam na sua direção. Cheio de um medo irracional, subitamente galvanizado no seu terror que o punha trêmulo, deitou a correr com quanta força tinha. A pequena distância, enfiou por um atalho sombrio que desembocava na estrada; quase ao mesmo tempo, dois municipais a cavalo passavam à desfiada na estrada, atrás de si, arrebatados num galope infernal, apitando sempre.
Viu luz a pouca distância, no escuro, e correu sempre direito a ela, cego para tudo que não era ela. Tropeçou num barranco, levantou-se imediatamente, tornou a correr, mais adiante tropeçou outra vez numa árvore caída, pôs-se a pé, e chegou esbaforido à orla de um caminho, depois de ter andado alguns cinco minutos por entre campos. A luz estava do outro lado do caminho, agora, mas ficava a muito maior distância do que o fizera supor a escuridão. Parou, instintivamente; seria denunciar-se, aparecer assim alvoroçado diante de alguém.
Reconheceu uma taberna ainda aberta. Deu umas sacudidelas ao fato, verificou se teria o chapéu amolgado pelas quedas, compôs o laço da gravata encarnada. Depois, atravessando o caminho, chamando a si todo o ânimo, entrou, bateu palmas. A taberneira acudiu lá de dentro, chegando a sua cara engelhada de velha à luz baça da candeia pregada na porta interior.
— Dê-me... dê-me aguardente — disse Fernando.
E pensava:
"Se eu estarei pálido! se eu estarei trêmulo!..."
Sentara-se, quase se deixara cair sobre um banco de pinho alinhado com uma extensa mesa, ao fundo sombrio da taberna. A velha trouxe-lhe uma grande garrafa branca, oitavada, cheia de um líquido turvo, dum amarelado ligeiramente vinoso, e um copinho. Não falou, tinha olhos de sono, parecia casmurra de a terem ido incomodar. E retirando-se logo para junto da porta interior, agachou-se no chão com os braços cruzados no peito e a cabeça pendente, como para continuar o sono interrompido.
Fernando encheu um copinho, e ia levá-lo à boca, maquinalmente, quando os seus olhos se fixaram na sua mão cortada de laivos de sangue já seco, de um vermelho escuro. E voltou-lhe todo o seu terror. A espaços, considerava-se verdadeiramente assassino, e horrorizava-se de si próprio. Pousou o copo sem beber, e meteu a mão no bolso do casaco, como quem esconde um facínora num cacifo. Depois, sentiu-se branco como a cal, pensando de novo:
"Estou decerto cheio de sangue... talvez com sangue na cara, com sangue no fato..."
E estremecendo, viu defronte de si a velha, imaginou que ela o espionava com o seu perfil adunco, pressentiu-se denunciado por ela. Teve ímpetos de deitar outra vez a fugir, e de correr, de correr sempre para a frente, doido, com a cabeça vazia de intenções e de pensamentos, até ao fim do mundo, vertiginosamente, numa fuga fantástica adiante dos esquadrões de cavalaria que o perseguiriam também sempre, apitando. Então, num esforço violentíssimo da sua vontade contra o seu terror louco engoliu de um trago o copinho cheio, encheu outro e bebeu-o, depois encheu outro, e outro, e outro, engoliu-os sem quase saber o que fazia, bateu na mesa com cinco tostões que tilintaram acordando a velha, saiu sem esperar pelo troco, e meteu-se a caminho ao acaso, como um espectro, olhando sem ver, com o cérebro cheio de alucinações atrozes, até que caiu num valado e adormeceu como uma pedra, vendo em torno de si uma dança macabra de cadáveres lívidos, empastados de sangue.
Quando acordou era meio-dia, entrava-lhe o sol pelo quarto dentro; e Fernando, erguendo-se meio estonteado, com uma vaga recordação muito confusa da sua terrível noitada, notou que a única porta do seu quarto estava fechada à chave por dentro, e que uma acumulação de móveis formava barricada de encontro a essa porta. Fez-se então mais nítida, no seu espírito, a evocação dos acontecimentos da noite. Voltou-se, o seu fato estava sobre a cadeira do costume, e tinha vestígios de lama. De repente levou a mão direita aos olhos; e viu-a, — cortada de laivos de sangue já seco, de um vermelho escuro. Era pois verdade tudo! Mas como viera ele ali parar, depois da queda exânime no valado, após a qual de nada se lembrava?
Entretanto, o luminoso sol, o movimento da rua, o dia — entravam-lhe agora no cérebro e clareavam-lho; e expulsavam de lá os terrores fantásticos, — simplesmente os terrores irracionais. Fernando via agora os fatos lucidamente, e apenas estabelecia no seu espírito este aforismo sensatíssimo:
"Se se lembrarem de propalar que furtei sub-repticiamente o zimbório da Estrela, a primeira coisa que tenho a fazer é fugir para o estrangeiro, e justificar-me de lá..."
Raciocinou então o seu caso, metodicamente, e pôs-se à obra. Examinou nas menores minuciosidades o seu vestuário, encontrou uma nódoa de sangue no colete, outra no lenço da algibeira. Acendeu uma vela, queimou o lenço, fez depois uma larga queimadura no colete. Procedeu em seguida a uma revista suplementar, e reconheceu que tudo o mais estava em perfeita ordem. Então, fez a sua toilette com precauções infinitas, empregando todos os sabonetes, todos os cosméticos; e degredando para o fundo do seu baú o seu vestuário da véspera, vestiu-se todo de novo, — sempre com a porta implacavelmente fechada como um homem que fizesse moeda falsa. Depois, desarrumando os móveis encostados à porta, saiu, foi almoçar ao restaurante, e andou todo o dia alegre, mal pensando de tempos a tempos na sua aventura da véspera.
À noite, no Martinho, os seus olhos caíram sobre um jornal em que vinha a notícia do fúnebre achado, e acertou logo com estas palavras: — "O cadáver tinha dedadas de sangue na cara. A polícia anda na pista do assassino." — Teve um calafrio, turvou-se-lhe instantaneamente a vista, como se visse os beleguins diante de si.
E todo o horror da noite precedente lhe voltou, viu-se caindo sobre aquele corpo inerte, as suas mãos palpando o frio úmido do rosto do cadáver, os seus dedos ficando assinalados em sangue na face do morto. Olhou de repente para as mãos, e pareceu-lhe vê-las cheias de sangue ainda fresco e morno, fumegando como ao esguichar da ferida de um assassinado. Ergueu-se, cambaleando; e levantando a gola do casaco, derrubando para os olhos o chapéu, cosendo-se com as paredes, escondendo-se na sombra, tremendo e ficando-se palpitante ao ver alguém que parecia dirigir-se-lhe, foi meter-se em casa com precauções de ladrão, com esquivanças de assassino que se evade.
O escuro da escada fez-lhe medo, via de repente alvorecer em certos pontos da treva a face lívida do cadáver — do seu cadáver — e tomar-lhe os degraus. No seu quarto fechou-se por dentro, acendeu a luz, e passou toda a noite sentado numa cadeira, absolutamente imóvel, na atitude boquiaberta e desvairada do assombro perante qualquer coisa de infinitamente horroroso, tendo um solavanco elétrico a cada rangidozinho do caruncho nas madeiras, pelo silêncio cavo da noite.
Por volta da madrugada, adormeceu.
Viu-se deitado num esquife, assassinado, com um buraco de bala na fronte; e assim morto, atrozmente pálido, com as mãos encruzadas sobre o peito, um polícia da segunda divisão agarrava-o pelo ombro, dizendo-lhe:
— Está preso! ande lá pra esquadra!...
Teve um sobressalto e acordou. Ao cabo de cinco minutos, adormeceu de novo.
Viu-se na estrada do Campo Grande, por horas mortas da noite, fazendo uma espera ao assassinado, apertando na mão crispada um punhal. E esse punhal era feito de uma velha gazeta, mortiferamente retorcida. Mas uma patrulha da guarda municipal surpreendia-o, e forçava-o a confessar o seu criminoso intento, apontando-lhe à cabeça, com arreganho, um apito.
Acordou de novo, alagado em suor frio. Era manhã clara. Seriam oito horas.
Levantou-se, marchou maquinalmente para a porta num passo hirto de fantasma, e saiu. Um amigo disse-lhe na rua, rindo:
— Vais sem chapéu?!...
Não fez reparo nas palavras nem no fato. Entrou num comissariado de polícia, e contou ao comissário:
— Venho dar-me à prisão. Fui eu que matei esse homem no Campo Grande. Matei-o agora mesmo... porque precisava absolutamente de matar esse morto...

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