sábado, 2 de dezembro de 2017

Sede de sangue (Conto), de Manuel Teixeira Gomes


Sede de sangue
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Alegrei-me deveras quando me constou que o Sr. Trovas alugara casa perto do meu escritório, resolvido a pôr ali venda e a continuar na exploração de todos os ramos do seu comércio.
Sempre de emboscada, espreitando a vida alheia, e sempre na vã expectativa de algum acontecimento que me galvanizasse e me arrancasse à modorra ambiente, bacorejava-me que da vizinhança do Sr. Trovas algo enfim de emocionante me adviria.
Neste vilório marítimo onde varei reformado em capitão, após uma valente campanha de reumatismos em Pangim — complicada de vírus de bailadeira, cujas dolorosas recordações persistem —, definha-se de inação e tédio.
Nem a própria política entretém: não consta que, aqui, se levantasse jamais oposição aos governos e muito menos ao... Governo. As minhas correspondências para o diário mais lido na capital, a Atualidade, fora dos constantes louvores exigidos pelas autoridades locais às suas pessoas, sem o que a gazeta não teria acolhimento condigno, cingem-se forçosamente ao mesquinho noticiário de chegadas, partidas, nascimentos, consórcios e óbitos, e por isso qualquer sucessozinho que se preste às variações da minha facúndia pode imaginar-se como será bem recebido.
Foi sem dúvida um grande erro o passo que dei, ao sair do Seminário, assentando praça. Se me tivesse metido pelos jornais e desenvolvesse a decidida vocação para a reportagem que, de muito novo, se me manifestou no sincero interesse que me despertavam os atos do próximo, seria talvez um outro Stanley — que evitando a Índia evitou as bailadeiras — e viveria agora considerado, rico e saudável nalgum grande centro mundial...
Mas a que vêm arrependimentos e devaneios?
Voltemos ao Trovas.
De há muito que ele me inspirava interesse e curiosidade e de há muito que eu lamentava não o ter mais ao alcance da minha observação, pois por si só era já uma bela figura para estudar sob vários pontos de vista, avultando o ético e o estético.
Não que o Sr. Trovas fosse algum Antínoo ou professasse as virtudes de S. Vicente de Paula: era um machacaz já na volta dos cinquenta anos, malfeito, curvado, com o corpo a bailar-lhe no fato velho, pois que se lhe haviam derretido os redenhos sem lhe dar ensejo a reformar o guarda-roupa, e a cabeça, de cabelo frisado e barba rapada, dando ao longe a impressão de pertencer a um cabotino venerável, de perto incitava a invencíveis desconfianças. Quanto a sentimentos piedosos, se recolhia as órfãs desvalidas era, certamente, para as industriar em artes perversas.
E tinha para esse fim a mais sagaz e ativa das colaboradoras na sua companheira, a Balbina Catada, antiga marafona que ele desposara em Lisboa e que o induzira a vir para a província onde ela pretendia estadear a sua regeneração pelo matrimonio aos olhos ofuscados das colegas e dos antigos amantes...
E apresentaram-se muito bem equipados, escrupulosos na convivência, que escolhiam entre pessoas de razoável reputação, e sempre assíduos nas devoções religiosas.
Ele, conquanto não blasonasse de ascendências mitológicas, rentava de bem aparentado, apontando mais de um visconde na família, e ela, dengosa ainda mas refeita em pudicícia, se não enjeitava a humilde parentela, limitava-se a receber em casa algum primo, marujo novo de boa e possante aparência, e penteada à japonesa, tão repuxado nas fontes o cabelo que lhe apanhava os olhos à musumé, trajando seriamente, saias lisas de cores honestas, lenços cruzados sobre o peito e xales escuros, não desmerecia por seus próprios méritos de marido tão genealogicamente bem prendado.
Mas estas eram aparências para embair o povo soez, que ao meu exercitado faro tudo tresandava o vício crônico. E daí toda a minha curiosidade.
Porque o ocultarei (visto ser inabalável intenção minha não sair nunca do anonimato), porque e para que o ocultarei? O vício é, na arquitetura da minha sociologia, o grande encanto da vida quando, bem entendido, se pratique sem crápula.
Sine arte, voluptas vulgaris, luxuries odiosa, seria a legenda que eu inscreveria no meu brasão, se o tivesse...
Assim, as minhas simpatias logo acolheram aquele casal tão conforme, tão bem sorteado — aqui está, ampliado, o ponto de vista estético e o ético — e quando o público murmurou por ver o Trovas ilustre fechar o período longo de ociosidade em que permanecera para montar na Ribeira uma casa de pasto, ou coisa parecida, eu aplaudi-o, na firme intenção de a frequentar.
Mas o estabelecimento não era para gente da minha categoria e receoso de que constasse a minha mulher, que é senhora de muito gênio, tão séria infração ao que eu devo à própria dignidade, abstive-me de lá entrar.
Ao estabelecimento afreguesou-se logo, na peugada dos bonitos moços primos da Balbina, a rapaziada das armações e grande parte da população marítima flutuante, como sejam tripulações de navios costeiros e companhas da pesca no alto mar.
Para que a vida lhes decorresse mais desafogada arrendaram uma propriedade de certa importância, com monte cômodo e boa vinha, em sítio bastante desviado da vila e junto a uma pequena praia solitária, o que lhes permitia veranear à beira-mar, recolher vinho sem mistura para gasto na tasca e secar bons figos que vendiam no Inverno.
Mas nunca lá iam os dois ao mesmo tempo, visto ser indispensável à direção da casa de pasto a presença de qualquer deles: ia o Trovas ou a Balbina, por uns dias, levando a Balbina ou o Trovas na sua companhia um ou dois ou mais primos, ou alguns bonitos moços amigos desses...
Para serviço da tasca arranjaram duas raparigas de sofrível presença e coração acessível que muito concorriam para chamar ao estabelecimento maior número de fregueses.
Mas embora a tasca estivesse de contínuo cheia não prosperavam, antes pareciam caminhar direito à ruína certa, tão variados e repreensíveis eram os expedientes de que lançavam mão para manter ilusórias aparências de bem-estar. Desses expedientes me chegou pronta notícia e como visse que a desgraça lhes vinha perto sinceramente me felicitei a mim mesmo por não haver cedido às sugestões viciosas que a princípio me induziam à sua convivência.
Mas nem por isso os perdia de vista e algumas vezes encaminhei meus ociosos passos para os lados onde tinham a renda e na pequena praia solitária os espiei, a cada um dos dois, no seu alegre convívio com os primos bonitos moços, marítimos, os quais, à medida que a miséria adiantava, iam, naturalmente, reduzindo-se a dois ou três malandrões terrestres de má catadura e ínfima espécie...
Em suma, quando vieram para a minha vizinhança havia muito que eu deixara de corresponder aos cumprimentos do chapéu fora, continência, etc., com que o Trovas me mimoseava na rua, e ao vê-los instalados no seu novo estabelecimento compreendi que tinham resvalado ao último grau da penúria.
De outra forma, também, como alugariam eles o arruinado casebre onde agora punham venda, pardieiro cujo proprietário, um farmacêutico avaro e fantástico, não era homem que mandasse nunca deitar rebocos ou pôr telha nova nos seus prédios?
No entanto, esse casebre, situado em boa rua à entrada da vila, no ponto de convergência de outras ruas e travessas, devia prestar-se admiravelmente ao comércio do Trovas, já reduzido, como verifiquei, à taverna.
Acompanhava-os uma fêmea sem idade apreciável, de olhos apagados, engelhada como tripa seca, andando a passinhos curtos e hesitantes, de quem joga a cabra-cega, mas com uma singular afetação de empeço, presumindo que lhe tolhiam as pernas imaginárias virgindades...
Da minha casa, ou, por outra, da casa que me servia de escritório e onde passava os dias e boa parte das noites — pretextando o necessário isolamento a que me forçava a composição das minhas correspondências para a Atualidade, eu obtivera da minha mulher, em cuja dependência permaneço, licença para conservar esse intelectual refúgio — do meu escritório, pois, via-se o que ia por casa dos Trovas em condições comparáveis às de um espectador, oculto na sombra do seu camarote, a quem nada do que se passa no palco escapa, e escusado será ajuntar com que vigilante cuidado os observei desde que os tive ali à mão...
Minha mulher, nessa época, afrouxara consideravelmente a rédea — expressão dura mas justa — que me sujeitava, imaginando, como eu a convencera, que das minhas correspondências para a Atualidade dependia o aumento do meu soldo. De tão rara lassidão me aproveitava eu gostosamente, prestando mais a miúdo preito a Eros e dando, de noite, no meu escritório, entrada a criaturas suspeitas que tão-pouco podiam escapar à curiosidade da gente da venda e, a fim de evitar denúncias que, pelo menos, seriam fatais à minha liberdade, recebi o Trovas com um sorriso indulgente, consentindo, à boa paz, que ele, umas vezes por outras, me viesse dar dois dedos de cavaco.
À taverna concorreu a melhor parte da freguesia angariada no estabelecimento da Ribeira, composta de moços do mar que entravam, bebiam, zombavam e saíam com a sem-cerimônia e a familiaridade, ou antes, com o desplante e as exigências que mesmo a excessiva confiança não desculpa, abraçando a Balbina Catada, beliscando as partes moles da velha virgínea e dando palmadas na sumida pança do Trovas, que tudo suportava sem perder o seu falso ar respeitável.
E quando a taverna estava repleta e o vinho transbordava pela boca da rapaziada, o Trovas, sempre venerável, sorridente, furfuráceo a ponto de parecer enfarinhado, sentava-se num banco junto ao balcão e, pitadeando, entretinha os moços com extensas narrativas priápicas...
No entretanto a Balbina Catada vinha repuxar as falripas para a porta da venda e ali ficava horas esquecidas, encostada à ombreira, mão na face, deixando flutuar ao vento o avental puído e amarelo como a bandeira do cólera; e a criada, aia, ajudanta ou o que fosse, a das recônditas virgindades, em suma, passava e repassava ao fundo da venda, fumando cachimbo e suspirando.
Em certas noites, num momento dado e como que obedecendo a um sinal do Trovas, a Balbina, subitamente, recolhia-se, fechava a porta e lá ficava toda aquela tropa fandanga a barafustar e a cozer o vinho até fora de horas e, viesse quem viesse bater, na venda ninguém lhe acudia.
Algumas vezes, e não poucas, nesses encerros rebentavam verdadeiras tempestades com gritos, pragas, vociferações e grossa pancadaria que se extinguiam por si ou desfechavam na expulsão dos encerrados, postos na rua de cambulhada, surgindo atrás deles, como o anjo do Paraíso, o Sr. Trovas entre os dois já referidos meliantes de má catadura e todos três armados não de espada flamejante mas de moca de azinho.
Pouco a pouco a freguesia, porém, começou a abandonar a venda até que um dia lá apareceu uma rapariga chamada Sancha: cabeça esférica e escaveirada, olhos sempre em alvo e o nariz arrendado pelos lavores das bexigas; e logo na outra semana uma Doroteia: negra, fabulosamente calipígia, as largas faces semeadas de lunares pilosos e trazendo as saias arregaçadas para mostrar as pernas que, de monstruosas, pareciam atacadas de elefantíase, metidas, ainda por cima, em meias de linha verde com riscas pretas...
Estas duas sereias não tardaram a atrair novamente a mocidade marítima ao estabelecimento que entrou em plena atividade: ao periclitante negócio da taverna juntou definitivamente o Sr. Trovas o mais rendoso e seguro da prostituição, encetando uma fase de invejável prosperidade.
Nos dias de mercado, quando acudia a concorrência da corredoura, que era próxima, e a Balbina Catada, mais romântica e oriental do que nunca, se punha à porta a frigir peixe, acolitada pela decrépita virgolina, e confeccionava vesugos de escabeche, não se cabia lá dentro, tanto era o povo a acotovelar-se ali: uns pelos vesugos, outros pelo vinho, outros pela Sancha, outros pela Doroteia e outros pelo próprio Trovas...
— Sim senhor, pelo próprio Trovas — dizia-me, raivoso, um taberneiro da mesma rua, sem freguesia.
— Isso é impossível, vizinho... — protestava eu.
— Impossível? Então o vizinho cuida que não há muita gente que gosta do queijo da Serra?...
— !?...
— Isto brada aos céus!... E eu que desgraçadamente não posso fazer o mesmo: sou um pobre pai de família... Aqueles cães ganham rios de dinheiro!...
Eu julgo que esta comparação — do queijo da Serra — ultrapassa até os próprios confins da liberdade poética e, por asquerosa, indignará, talvez, alguns leitores; mas registro-a em preito à verdade e na esperança de fornecer subsídio aproveitável a futuras filologias.
Dada assim uma amostra da irritação que lavrava no ânimo dos colegas do Trovas, não se estranhará que eles, invejosos da maneira propícia como lhe corriam ou pareciam correr os variados ramos do seu comércio, se dessem pressa em o denunciar à autoridade, queixando-se das continuadas arruaças e distúrbios noturnos provocados pela mistura do amor com a aguardente, e o Trovas foi intimado a especializar-se num único ramo da sua atividade. Optou, naturalmente, pelo mais lucrativo, senão, também, mais honesto: a prostituição.
Vieram novas pupilas para companheiras de Sancha e Doroteia, substituindo-se incessantemente umas às outras, sempre equivalentes em beleza, elegância, finura, asseio e mais predicados necessários a tais rameiras para uso do mais ínfimo bordel.
A guitarra nunca mais desamparou aquele antro, de onde, noite e dia, desabelhavam, para minha consolação, verdade seja, as suas molhadas notas doiradas.
Não se interrompiam os descantes nem se davam tréguas aos despiques, brigas e zaragatas que, sobretudo aos sábados, quando os serviços da pública higiene ofereciam aos frequentadores maiores garantias, tomavam proporções homéricas.
Como a casa não contivesse quantos lá pretendiam entrar, nesses dias privilegiados, o despeito e ânsia libidinosa daqueles a quem recusavam entrada pronta tornava-os endiabrados: insultavam, então, a Balbina e o Trovas, relembrando episódios que até certo ponto confirmavam as presunções do taberneiro pai de família; levantavam algazarras de ensurdecer e por fim apedrejavam a porta e a janela do estabelecimento, que invariavelmente ao domingo recebiam a visita do carpinteiro e sofriam, por vezes, importantes consertos.
A vizinhança queixava-se amargamente e renovou as denúncias à autoridade, a qual, tendo justamente por sagrados os direitos da prostituição, a nada atendia.
Sucedeu, mesmo, uma noite saírem à rua as marafonas, todas em pelo, seguidas pelos seus pares em igual compostura, e, embora se recolhessem logo ao imoral cenóbio, aquela visão da antiga saturnal escandalizou grandemente os moradores da nossa rua e das adjacentes.
Organizou-se uma comissão de protesto cuja presidência me foi oferecida e eu recusei, por sinal em termos que, se me não deixaram bem visto dos interessados, ao menos me tranquilizaram a consciência.
Sinceramente lhes disse que aquele espetáculo seria muito bem pago quando nos exigissem dinheiro para o ver e assim tudo nos induzia à indulgência...
Quanto ao Trovas, à Balbina, etc., resolvi terminantemente não lhes aceitar mais cumprimentos.
Mas um dia, pela porta da venda entreaberta, na penumbra do interior, divisei, sentada junto ao balcão, no lugar conspícuo e cômodo que o Trovas ordinariamente ocupava, uma criatura de todo em todo extraordinária: mulher ideal, diria, se tal epíteto jamais pudesse transpor, com justa aplicação, o limiar do Trovas!
Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em tênues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilônicos, imensos olhos ardentes que fascinavam...
Não mais desamparei o meu posto d’observação a verificar quanto havia de verdade naquela figura misteriosa, não fosse ela filha da minha fantasia, ajudada pela meia obscuridade donde mal se despegava, transformando o que devia ser horrível fregona em virgem do Murillo!
Daí a pouco tive-a à porta, em plena luz: nenhum engano, nenhuma ilusão, nenhuma fantasmagoria! A luz do Sol dourava-lhe o rosto e alisava-lhe de reflexos azuis as madeixas dos cabelos; na carne firme, roliça, dos braços que saíam, nus, das mangas largas, o sangue parecia correr com a abundância do sumo na polpa de certos frutos.
Era um raríssimo, um puríssimo tipo de bailadeira, de uma antiquíssima raça oriental que fortuitos cruzamentos com outras raças não conseguiram abastardar e eu, esquecido de quanto sofrera no convívio das suas afins, embeveci-me a ponto de abrir a janela de par em par, para que a sua imagem pudesse mais facilmente entrar-me por casa dentro e porque supunha, no encarecimento da admiração, melhor contemplar o seu corpo dando-lhe mais vasta moldura...
Apenas me lobrigou pasmado levantou, como quem agita uma flor de longo caule, a sua comprida, fina, nervosa mão de cigana e, tocando nos lábios, atirou-me um sonoro beijo enquanto pelos seus olhos passava um relâmpago de lascívia...
A afluência a casa do Trovas logo nesse dia cresceu a ponto de haver cola à porta e, ao contrário do que até ali sucedera, a rapaziada esperava a sua vez repousadamente. Tudo corria em silêncio e em silêncio permaneciam o Trovas, a Balbina, a donzela sorvada e as demais croias desprezíveis.
De quando em quando a cigana vinha à porta, arqueava o braço nu para tirar o cigarro dos lábios, soprava a tênue, infinita baforada de fumo azulado, e, com o mesmo relâmpago nas trevas do olhar, dizia, na sua algaravia luso-espanhola:
— Esperem, tenham paciência, rapazes; eu não me canso. Jesus! se há gente... Mas há de chegar a vez a todos...
E como algum mais impaciente e grosseiro a intimou, com obscenidades à mistura, a que se aviasse para o despachar, ela serenamente, replicou:
— És o único malcriado mas não penses que te tenho medo a ti... Olha que ninguém me mete medo; a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue... Sosseguem, rapazes, sosseguem... Há de chegar a vez a todos...
E os rapazes quando saíam do bordel traziam os olhos mais claros e, pálidos de satisfeito enlevo, falavam baixinho; pareciam enternecidos e diziam para os que ainda estavam na rua:
— Tenham paciência, esperem que terão boa paga... Nunca houve mulher igual a esta... Quem lhe beber o sangue não perde o seu tempo pois deve ser gostoso...
Mandei chamar o Trovas que ainda se fez rogado, para mais atear a minha curiosidade. Precisava descobrir a explicação do estranho enigma que era aquela mulher...
Mas o Trovas jurou que nada sabia e fê-lo em termos de me convencer. Tinha-lhe batido à porta quase de madrugada, sem trazer mais roupa do que a do corpo, oferecendo-se por poucos dias e dizendo sempre que se não admirassem se aparecesse alguém para lhe beber o sangue... A Balbina ainda se pusera de mantos de seda, porque não queria doidas em casa, mas ele percebera logo o peixe que era e teimou em aceitá-la... E era o que se estava vendo... De onde vinha nem ela o dizia nem se sabia, nem se desconfiava... Mas o que ele afirmava é que ela atravessara a serra pois a sua roupa cheirava a estevas que rescendia...
Cheirava a estevas!...
O cheiro tão penetrante e vivaz da resina das estevas, no fato que por elas roçou, em breve se transforma em perfume de mel novo e, logo, passa a lembrar a cera virgem e poucos dias tarda que não seja o característico cheiro de defuntos...
Assim considerava eu, sentado à entrada da ponte, no outro lado do rio, ao entardecer de um desses dias melancólicos sobre os quais paira uma tristeza igual e sem variação, como nevoeiro que vento algum dissipa.
Não quero dizer com isto que o dia estivesse de chuva ou que a temperatura baixasse a ponto de nos gelar as humanas carnes mortais: a meteorologia não vem aqui para o caso; dentro de mim é que o dia corria lúgubre; o cérebro parecia-me encortiçado e o coração queixava-se-me de mil saudosas ausências impossíveis de discriminar...
Delas se embebia o espírito sem que, no entanto, os sentidos se alheassem totalmente do mundo exterior e recordo que, pairando numa região ideal, entre palmares, onde os perfumes da Arábia perpassavam agitados por gráceis bailadeiras envoltas em musselinas transparentes, nem por isso deixei sem reparo um velho pobre pedinte que defronte de mim parou estendendo a mão à esmola e a mastigar sofregamente o seu pedaço de pão negro com um extravagante movimento de mandíbulas que ora lhe amachucava ora lhe enchia o rosto como fole em atividade.
Instintivamente lhe dei o perdão mas ficou-me a lembrança da sua singular figura que, por um fenômeno frequente em quem é dado a fundas meditações, me soltou da apertada rede dos meus pensamentos atirando-me para a vida ambiente e real.
E como se tudo já me sorrisse pus-me, encostado ao remate da ponte, a contemplar os movimentos de uma mulher do campo que passava, andando apressada, com o filhinho ao colo, mas compondo o xale que lhe escorregava dos ombros, a mecha de cabelos que lhe caía nos olhos, o lenço cujo nó afrouxava, e tudo isto sem hesitação, sem desequilíbrio, sem perturbação no ritmo do andar e afagando sempre a criança que se estorcia inquieta.
— Olé! — exclamei arrebatado. — Se este não é um espetáculo estético é que a estética não passa de uma vã palavra!...
E segui-a com o olhar pela avenida fora quando reparo numa espécie de gigante que vinha em sentido oposto e diante dela estacou, como que a querer-lhe embargar os passos, perguntando-lhe logo. Mas a mulher, evidentemente assustada, recuou, olhou para trás e ladeando-o, a abanar negativamente a mão solta, estugou o passo e, logo, quase deitou a correr...
A minha atenção convergiu toda para o gigante que, sem mais se preocupar com a campônia, enterrou o chapéu na cabeça e meteu rapidamente direito à ponte.
À entrada da ponte, a dois metros do sítio onde eu me encontrava, deteve-se, mostrando hesitação e, sem me ver, ou fazendo que me não via, ergueu os olhos, como que a perscrutar o firmamento, levou as pesadas mãos às abas do chapéu para mais o enterrar na cabeça e depois, abrindo desmesuradamente o imenso compasso das pernas, foi-se pela ponte em cujo tabuleiro as suas passadas retumbavam cavas.
No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente...
Experimentei ao vê-lo um violentíssimo rebate de temor e de curiosidade; sem mais reflexões pus-me a segui-lo, de longe, com a tenacidade e prudência de quem espreitasse um tigre real.
Até passar a ponte não demonstrou a mínima irresolução e sem vacilar entrou no povoado, seguindo a linha dos cais. Como ao princípio do primeiro largo houvesse ainda restos da feira, com uma barraca de cômicos junto à qual se ia aglomerando gente, torceu pela mais próxima travessa, transpondo duas ruas solitárias e metendo por outra rua que novamente o trouxe ao cais, mas a ponto menos frequentado.
Aí parou algo perplexo, numa indecisão de pouca dura; como se reconhecesse a topografia da vila anteriormente estudada num plano, seguiu afoitamente pela rua que leva ao meu escritório...
Começava o meu crepúsculo. Em frente do Trovas àquela hora era grande a concorrência de gente das fábricas e das armações que passava; o monstro não a evitou mas após um instante de hesitação escolheu assento cômodo entre as cantarias soltas que ali estavam destinadas a um prédio em construção e, acolhido à meia obscuridade de um andaime, deteve-se alguns minutos, cobrindo o rosto com a larguíssima, a disforme, a gigantesca mão, por cujos dedos entreabertos eu presumi que ele inspecionava o local e sobretudo a casa do Trovas.
Quando eu me aproximava soou-me a voz bem conhecida da cigana que, após uma gargalhada argentina, repetia o seu estribilho:
Hombre... a mi que me hace?... Mira que nó tardará mucho sin que me beban la sangre!...
Evidentemente estas palavras alcançaram os ouvidos do forasteiro, mas ele, sem dar mostras de sobressalto, correu a mão pela testa, como quem penosamente suspende um repouso necessário, repetiu o gesto de enterrar o chapéu na cabeça e levantando-se, na aparência alheio ao que lhe ia em redor, coou-se por entre os andaimes e seguiu ao longo da construção.
Ao tempo já eu lhe passara adiante e para não retroceder, única forma de lhe ir na peugada, fui postar-me numa espécie de encruzilhada próxima, onde estão estabelecidos os caldeireiros e onde me palpitava que ele passaria.
Não me enganei. Tive-o ali sem demora e vi-o acercar-se confiadamente do velho Ângelo que, à porta da oficina, fumava o seu cachimbo calabrês. Poucas palavras trocaram e ao gesto do caldeireiro, indicando-lhe a Rua do Colégio, o monstro continuou no seu caminho.
— Boa tarde, Sr. Ângelo — acudi eu.
— Boa tarde, senhor capitão...
— Quem será aquele homem?
— Um meu patrício mas não sei o que ele busca...
— Boa tarde, Sr. Ângelo...
— Boa tarde, senhor capitão.
O monstro seguiu, com efeito, a Rua do Colégio, atravessou o largo do Pelourinho, a Rua dos Surradores, e, como que atraído pela frouxa claridade do poente, dirigiu-se para fora da vila, cortando por um atalho e passando rente ao cemitério.
Era já sol-posto, como disse, e o crepúsculo a extinguir-se, envolvendo em meias trevas a vila que naquele ponto remata num outeiro onde assenta uma casa nobre. Todo o edifício jazia na escuridão; somente a balaustrada que o coroa sobressaía em relevo na faixa doirada do poente. Do outro lado do céu, um grupo d’árvores, alta mancha confusa mas recortada nitidamente na folhagem do contorno. Entre a balaustrada e a copa das árvores dobrava-se no céu um grande arco de carmim sangrento. Foi por esse fantástico pórtico que o monstro desapareceu, crescendo, em proporções, contra as regras da óptica, à medida que se afastava e desfazendo-se subitamente no derradeiro bruxulear da luz poente...
Dei por finda a minha tarefa entendendo que só uma vã preocupação romanesca atuara no meu espírito; se o aspecto do forasteiro era de molde a inspirar funda curiosidade, a última parte do trajeto que ele adotara e o seu desaparecimento pelo extremo oposto da vila patenteavam claramente a resolução de se trasladar a outro povoado e assim escapava à esfera da minha observação.
Pela volta das oito horas voltei ao meu posto no escritório, resolvido a passar ali o serão e, no intuito de me assegurar mais ampla liberdade, havendo prevenido minha mulher de que a composição de uma longa e urgente correspondência para a Atualidade sobre um casamento recente, me obrigaria a recolher mais tarde.
As feições, os rostos, a voz da cigana não me desamparavam a memória acendendo-me nos nervos rastilhos quase dolorosos de volúpia; tornava-se-me imprescindível a sua proximidade e já me sentia contagiado da febre de luxúria que atraía ao antro do Trovas a incessante romagem de rapazes...
Não tardaria muito que, perdido o resto da vergonha, eu também lhe fosse bater à porta...
Instalei-me comodamente na escuridão com o tabaco e mais petrechos de fumador ao alcance da mão, para não dar tréguas ao vício, e deixei correr as horas. Era naturalmente de noite que no estabelecimento do Trovas se davam os melhores espetáculos...
A concorrência continuava ativa como nas noites anteriores e desta vez o movimento dos fregueses, graças a um caso notável, parecia fazer-se por música, tão ritmado se produzia com os trechos executados num piano da vizinhança.
Era um velhíssimo piano cuja sonoridade o tempo e as vicissitudes haviam consumido ou transformado a ponto de não ser então mais do que um conjunto de notas secas, golpes de martelos de madeira em madeira rachada com, à mistura, algumas raras vibrações de arames bambos... Mas o caso é que se moldava à situação e embora a imagem da nova pupila do Trovas pedisse, talvez, algum descritivo dessa nova música alemã onde abundam os puríssimos solos de flauta em murmurantes fundos de pizzicatos, quando as estocadas de clarim não atravessam tempestuosas sonoridades — o leitor deve saber que eu sou músico e o meu instrumento favorito é o trombone —, embora a fantasia poética requisitasse, repito, composições de outra envergadura, as mazurcas e polcas tangidas ansiosa e incansavelmente no piano vizinho, naquela noite cingiam-se melhor ao libreto e não era sem tal ou qual prazer que eu me entregava à sua ação estética...
Foram passando as horas e já o sono me inquietava molemente as pálpebras quando, num instante de acalmia, encontrando-se a rua solitária e a porta do Trovas sem ninguém, o que é que veem estes olhos que a terra há de consumir?
Distintamente o vulto inconfundível do forasteiro sai das trevas, adianta-se resoluto e abeirando-se da porta do bordel começa a vibrar pequenos golpes espaçados com todo o ar de corresponderem a um sinal combinado... Imediatamente a vozearia e os descantes, lá dentro, cessaram e após breve pausa, de absoluto silêncio, a porta abre-se aparecendo numa réstia de luz branca o corpo airoso da cigana, com a brasa do cigarro acesa à altura dos lábios.
Da minha janela era impossível perceber o que se dizia a meia voz à porta do Trovas; apesar, porém, da escuridão não se perdia um gesto só...
Ela estendeu a mão direita para o peito do monstro e voltando-se para o interior da venda — sobre a luz de acetileno desenhou-se nitidamente o seu perfil risonho que me evocou a expressão do Camita, o afamado toureiro espanhol, uma tarde na praça de Badajoz, frente a frente com o negro Miúra que daí a nada o havia de colher mortalmente —, voltando-se pois para o interior da venda pediu que lhe fechassem a porta, acenando com a mão esquerda, como quem dizia que voltava já. Depois puxou a porta para si e quando se ouviu que, dentro, corriam o ferrolho, vi-a seguir, a rés das casas, o vulto monstruoso do outro, direito à baixa-mar.
Sem demora pus-me na rua, ainda a tempo de os divisar atravessando a pequena ponte que, mesmo ao fim do povo, galga um caneiro d’água salgada e conduz a umas vastas salinas.
Meteram pelas marinhas e eu, sentindo que a vista se me aguçava a ponto de perscrutar trevas que fossem de pura tinta de escrever, prudentemente, sem a mínima precipitação, rejuvenescido e farejando-os de longe, como se a alma de um pele-vermelha feito às mais delicadas pistas me houvesse invadido o corpo, de longe os segui.
Meteram-se às marinhas sempre cosidos um ao outro e reapareceram a mais de duzentos metros, tornejando para a vala grande. A disposição do terreno indicava-me que aí deviam parar e com efeito ali se detiveram mas logo se sumiram, como por um alçapão de mágica...
Mais familiarizado do que eles com a topografia do sítio, cortei por uma divisão lateral, tão pronto e lesto como se tivesse ainda os meus vinte anos — nem o pé tolhido em Pangim me embaraçava — e em menos de um minuto me encontrei tão próximo do ponto onde eles desapareceram que lhes percebia o leve sussurro das vozes...
Arrastei-me ao comprido pela parede da vala, todo ouvidos para nada perder do que dissessem, mas o que a princípio parecia ciciar de vozes foi-se convertendo num estranho ruído indefinível, como um estertor de espantosa lascívia...
Debrucei-me.
Os dois corpos estorciam-se um sobre o outro e percebia-se claramente que o monstro beijava com fúria a cigana e, sem lhe despegar os lábios do pescoço, como que lhe sorvia a vida grandes haustos...
Mas pouco a pouco o silêncio fez-se, absoluto; nem a respiração se lhes distinguia: dir-se-ia que na crise do gozo os dois haviam desmaiado...
Puro engano. O monstro ergueu-se lenta e cautelosamente e às apalpadelas procurou, debalde, por entre as ervas o que quer que fosse. Logo levantou o tronco inerte da cigana e, ajoelhado, segurando-a pelo braço esquerdo, rebuscou no chão e apanhou um objeto reluzente. Era uma faca aberta que ele limpou nas ervas, soltando ao mesmo tempo o corpo da cigana. No leito de murraça úmida que a baixa-mar deixara a descoberto, o corpo bateu sem ruído e permaneceu inanimado.
No entanto uma Lua escarninha, alongada e cor de fogo como a cabeça de um Mefisto descarapuçado, assomara e subira rapidamente sobre o horizonte iluminando este quadro estranho e à sua luz verifiquei que o rosto do monstro estava mádido de sangue, quando ele, circunvagando a vista, procurava sem dúvida certificar-se da ausência de testemunhas.
Instintivamente, ao perceber-lhe a intenção, escondi a cabeça no debrum da vala e dali a levantei somente quando deixei de ouvir as suas passadas que, primeiro, soaram patinhando nas poças do morraçal direito ao terreno vago que precede o cais e logo se extinguiram muito longe, em terra firme.
Então debrucei-me novamente e examinei com cuidado a cigana já toda iluminada pela pálida claridade da Lua. O seu corpo quase que não avultava sobre as ervas escuras; o tronco, metido no casabeque branco, fazia uma alva, larga e irregular mancha sem relevo e o rosto seco, terroso, de feições sumidas, imobilizara-se no característico rictus de cadáver, rosto já de múmia cuja boca os dentes saídos e juntos tapavam como placa de marfim...
Na minha passagem por Alexandria eu vira uma figura tal qual, mas no seu caixão de cedro: era uma sacerdotisa do tempo dos Faraós.
Ainda pensei em descer e apalpar o corpo da cigana mas tive medo — um como que terror quase supersticioso, não fosse eu profanar alguma divindade morta!...
Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.
E no entanto fora o vampiro quem lhe metera os lábios a uma das carótidas, aberta de um único e certeiro golpe, sugando-lhe o sangue e escamugindo-se depois tão habilmente que nesta data, volvidos quase seis anos completos sobre o acontecimento, ainda não houve dele novas ou mandados.

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