terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Negro Pachola (Conto), de Sílvio Romero


O Negro Pachola
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia uma senhora de engenho casada e sem filhos. Adoecendo o marido e morrendo, ficou em lugar dele um preto africano, chamado Pai José. Assim que Pai José ouviu dizer que ia governar o engenho, ficou muito orgulhoso.

Logo que foi distribuir o serviço com os outros negros, passou ordem a eles que de ora em diante não o tratassem mais por Pai José, e sim por Sinhô Moço Cazuza.

Os negros obedeceram e quando o viam, diziam: “Abença Sinhô Moço Cazuza.” O negro, muito concho, respondia: “Bênção de Deus”.

Não ficou só aí o orgulho do negro. Quando chegou em casa, disse para a senhora: “Meu sinhá, quando Sinhô Moço Cazuza chegava em casa cansado, meu sinhá não mandava botar logo banho para ele? Pois eu também quer.” A senhora, coitada, não teve outro remédio senão mandar botar banho para o Pai Zosé.

Não satisfeito ainda, disse o negro: “Meu sinhá, não mandava mulatinha esfregar costa de meu sinhô? Pois eu também quer”. A senhora mandou a mulatinha esfregar as costas de Pai Zosé. Este ainda continuou: “E meu sinhá não dava camisa grosmada pra meu sinhô vestir? Pai Zosé também quer”. A pobre moça foi buscar uma camisa engomada, deu para José vestir, e, vendo que devia acabar com as pacholices daquele negro, falou com os dois criados, muniu-se de bons chicotes e mandou-os esconderem-se no quarto. Esperou que o negro pedisse mais alguma coisa e não tardou que este dissesse: “Meu sinhá, quando meu sinhô acabava de tomar banho e de vestir camisa grosmada, ia para o quarto pra meu sinhá catar piolho nele. Pai Zozé também quer”.

A moça não teve dúvida. Mandou-o entrar para o quarto e deu ordem aos criados que empurrassem o chicote.

Se ela bem ordenou, melhor executaram os criados.

Pai Zosé apanhou tanto que escapou de morrer.

No outro dia bem cedo foi para a roça ainda muito magoado das pancadas, e quando os negros o saudaram: “Abença, Sinhô Moço Ca-zuza”, ele muito zangado respondeu: “Eu não sou Sinhô Moço Cazuza, não, eu sou Pai Zosé”.E deu nova ordem para tratarem pelo seu próprio nome. Os negros muito admirados ficaram, sem saber a causa daquela mudança.

Nunca mais Pai José pediu banho, nem camisa engomada, nem à senhora para catar piolhos.

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