sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Três charutos (Conto), de Garcia Redondo


Três charutos
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Três anos havia já que eu não visitava o meu amigo Eduardo da Silveira quando, uma noite, ao entrar no meu quarto, encontrei sobre o criado-mudo um cartão postal desse velho camarada que dizia o seguinte:
Por Júpiter!... Parece que estamos de relações cortadas!... Há um século que não apareces. Vem amanhã almoçar comigo e traze o teu xadrez de algibeira para jogarmos uma partida sob a mangueira frondosa do meu jardim. Estou agora à rua de São Clemente, nº... em um ninho minúsculo, mas confortável e tranquilo. Cá te espero sem falta.
Fui, e quando entrei sem-cerimoniosamente no gabinete de trabalho desse ditoso rapaz, envelhecido prematuramente nos gozos da vida elegante, encontrou-o de robe de chambre, sentado em frente à sua secretária e pondo em ordem alguns papéis dentro de uma gaveta estreita, comprida e funda.
Caímos nos braços um do outro e depois das exclamações habituais: "Até que afinal!... Mas... como estás velho!... — Como estás mudado!..." etc., Eduardo fez-me sentar a seu lado, dizendo-me:
— Deixa-me concluir o arranjo desta gaveta e estou todo ao teu dispor.
E tagarelando, tagarelando sempre, com a sua inextinguível verve, o meu velho amigo ia passando para dentro da gaveta uma montanha de papéis que se avolumavam sobre a secretária, quando, de repente, os seus dedos pousaram sobre um envelope largo e bojudo, que parecia conter um objeto duro.
— Ah! Cá estão, cá estão eles... É uma preciosidade!... — exclamou.
E passando-me o envelope:
— Sabes o que é isto?
Tomei o envelope e apalpei-o:
— Serão charutos?... inquiri duvidoso.
— Exatamente, são três charutos que têm uma história triste. Custaram-me três contos de réis.
Encarei-o, admirado, sem compreender.
— Espera, espera um pouco; eu concluo já esta tarefa e depois contar-te-ei esse caso.
E, sorrindo, abriu o envelope e dele tirou três pequenos charutos, castanhos e esguios, apertados por uma cinta de papel branco, onde havia estes dizeres:
Herança de Palmira
Rs. 3:000$000 16 de março de 1891.
— Aqui os tens; admira-os, enquanto acabo com isto.
E continuou na sua tarefa de ordenar os papéis dentro da gaveta, enquanto eu examinava curiosamente os charutos, sem atinar com o motivo de tão elevado custo.
Cinco minutos depois, Eduardo empurrava a gaveta e voltando-se para mim dizia-me:
— Sou todo teu agora. Vamos portanto à história dos charutos, que naturalmente te está intrigando. Lembras-te da minha afilhada Palmira, filha da Marta do Recreio Dramático?
— Tenho uma lembrança vaga.
— Pois bem: essa criança, há três anos, ficou órfã de mãe que, como sabes, morreu tísica; e a pobre Marta, que eu tanto amei nos tempos em que a sua graciosa figura fascinava os ociosos da rua do Ouvidor, vendo-se definhar, poucos dias antes de morrer mandou-se chamar, pediu-me que velasse pela Palmira e entregou-me três contos de réis, fruto das suas economias e única herança da filha.
"Aceitei o encargo, e no dia em que conduzi a linda e voluptuosa Marta à sua última morada trouxe a filha para minha casa. Não saí nessa noite muito de indústria para distrair e consolar a pobre criança que me fora entregue e que, ferida cruelmente pela morte da mãe, tinha caído em um desespero bem fácil de ser compreendido por aqueles que já perderam o único ente querido que lhes restava. Mas, no dia seguinte, depois do almoço, saí, levando no espírito a preocupação de colocar a pequena fortuna da pobre órfã em condições de lhe produzir a máxima renda possível. E, então, cogitando durante o dia inteiro no melhor emprego para esse capital, lembrei-me de comprar com ele uma pequena propriedade, bonitinha e bem tratada, que, um mês antes, eu vira no Engenho Novo e cujo preço não excedia então de quatro contos. Era possível que a propriedade ainda não tivesse sido vendida e também não era impossível que, em tal caso, o proprietário fizesse abatimento no preço, cedendo-a pelos três contos. Não me enganei, porque, indo nesse mesmo dia ao Engenho Novo, lá combinei a compra pelos três contos, ficando assentado que a escritura seria lavrada no dia seguinte.
Dei, nessa mesma tarde, a notícia a Palmira, e no dia imediato, depois do almoço, meti na minha carteira os três contos e parti em direção ao cartório onde a escritura devia ser assinada. Mas, ao sair de casa, encontrei, junto ao portão do jardim, a Palmira de fisionomia abatida e de olhos vermelhos. Chorava evidentemente e no seu olhar havia ainda uma tristeza infinda. Comoveu-me o pesar dessa infeliz órfã e, procurando consolá-la, atraí-a ao meu peito e beijei-a. Notei então que a cabeça e as mãos da criança estavam quentes e perguntei-lhe se sentia algum incômodo. Respondeu-me que nada sentia, mas pediu-me que não saísse, que ficasse com ela, que estava com medo de ficar só. E recomeçou a chorar. Tranquilizei-a, e desculpando-me com a necessidade de estar na cidade, nesse dia, à hora marcada para assinar a escritura, parti, prometendo que voltaria cedo e que a levaria ao teatro.
A Palmira ficara junto ao portão do jardim e do carro, em que entrei, ainda a vi durante algum tempo, seguindo-me com os seus olhos vermelhos e tristes. Quando o carro começou a ocultar-se ao dobrar a primeira esquina, eu vi o braço dessa criança erguer-se para agitar um lenço na direção que eu levava.
Confesso-te que, nesse momento, tive ímpetos de retroceder, mas lembrei-me do meu compromisso relativo à escritura e deixei-me conduzir à cidade, prometendo a mim mesmo regressar o mais cedo possível.
Na cidade, encontrei um bilhete do dono da propriedade cuja compra eu ajustara, desculpando-se de faltar ao rendez-vous que me havia marcado e pedindo-me que voltasse ao Engenho Novo para entender-me com ele sobre assunto de interesse comum.
Fui, e depois de resolvida com o proprietário uma pequena dificuldade relativa a uma hipoteca que pesava sobre o imóvel, assentamos de novo que a escritura seria passada no dia imediato, sem falta. Na volta, muito satisfeito com a solução desse negócio, fui jantar ao Clube, resolvido a partir imediatamente depois para casa, a fim de conduzir a Palmira ao teatro. Mas, no Clube jogava-se, e da sala do jantar eu ouvia o ruído das fichas e a vozeria dos pontos em torno da mesa da roleta, em uma sala próxima. De estômago cheio, bem disposto e satisfeito, depois do jantar, quis arriscar uma centena de mil-réis e dirigi-me à sala do jogo. Quando entrei, um dos pontos, o Boaventura, aquele Boaventura das suíças vermelhas e do dedo torto, disse-me: Em quarenta e quatro bolas, dadas até agora, já saíram todos os números, menos o 9. Essa revelação deu-me um palpite: jogar no 9 obstinada e exclusivamente. E comecei a jogar nesse número, onde, para principiar, apostei três fichas de 1$. Não veio o 9, e na segunda parada eu arriscava seis fichas, depois nove, depois doze, continuando assim até 100$, que era o máximo permitido. Durante uma meia hora mantive-me nesse jogo, mas depois, já dominado pela febre, querendo readquirir o perdido e ter lucro, comecei a fazer jogo largo, e em cada parada arriscava o máximo. Na minha frente, um rapaz de dezoito anos, ainda imberbe, louro, de olhar brilhante, amontoava uns sobre outros cartões do valor de 50$ e tinha um grande lucro, calculado pelos pontos em cerca de doze contos, adquirido com uma entrada de 20$ apenas. Pela originalidade do seu jogo, que consistia em apostar exclusivamente nos zeros e nas cores, esse ponto feliz era o alvo das atenções de toda a sala, principalmente do banqueiro, que não perdia de vista a montanha de cartões de 50$, que ele acumulava na sua frente e sobre a qual pousava a sua mão alva e trêmula. Na sala, completamente cheia, fazia um calor abrasador e a atmosfera, carregada do fumo do tabaco e das emanações da carne, abafava e entorpecia os sentidos. De vez em quando, um criado do Clube percorria a sala oferecendo refresco e charutos aos pontos. Ouvia-se um vozear contínuo, exclamações de prazer ou de decepção dos jogadores, à mistura com o ruído das fichas e com a voz do banqueiro anunciando os números e fazendo os pagamentos. Às onze horas da noite, consultei a carteira: dos três contos de Palmira só possuía quatrocentos mil-réis!... O 9 tinha engolido o resto e até esse momento a bola havia girado setenta e seis vezes sem cair nele!...
O que me restava em dinheiro dava apenas para quatro paradas, se eu persistisse em jogar o máximo.
Ora, evidentemente, as probabilidades a favor do 9 aumentavam, e por isso arrisquei ainda e continuei a apontar nesse número.
Na última parada, quando nada mais tinha do que cem mil-réis que eu, com mão convulsa, depositei no centro do quadrado em que estava o 9, o banqueiro anunciou o 2. Levantei-me então. O rapaz que jogava na minha frente e que já estava na deveine disse-me: Uma vez que o senhor abandona o 9, vou agora jogar nele. E fez a mesma parada que eu fizera até esse momento. Conservei-me ainda na sala para assistir a essa jogada e, por uma ironia da sorte, a bola caiu no 9. Saí desalentado, e para castigar o corpo fui para casa a pé, pensando na pobre órfã confiada aos meus cuidados, cuja herança eu acabara de dissipar estupidamente. Que dia e que noite tristes deveria ter passado essa criança, isolada, reclusa no meio de uma casa silenciosa, sem distrações, inteiramente entregue à sua dor!... Este pensamento afligiu-me. Quando entrei em casa, o criado comunicou-me que a Palmira estava doente. Cheio de remorsos, fui vê-la. Estava deitada na sua pequena cama de mogno e ardia em febre. Um médico, que mandei chamar a toda a pressa, diagnosticou a varíola. Torturado pelo remorso e atormentado por pressentimentos maus, passei o resto da noite ao lado dessa infeliz, que delirava chamando repetidas vezes pela mãe. No dia seguinte, o diagnóstico confirmava-se: a varíola aparecia. Durante uma semana conservei-me à cabeceira da doente, servindo-lhe de enfermeiro e disputando-a à morte. Mas, de nada serviram a minha dedicação e os cuidados do médico, porque, ao cabo desses sete dias, a desventurada Palmira exalava o último suspiro, horrivelmente desfigurada e chamando sempre, até o último momento, pela mãe, que ela via nos seus delírios e que certamente também chamava por ela lá do humilde jazigo, onde dormia o eterno sono. Nessa mesma tarde cumpri a piedosa missão de depositar a filha ao lado da mãe no cemitério de São João Batista da Lagoa e, quatro meses depois, sobre a terra que guarda os ossos dessas duas infelizes, fiz erguer um mausoléu modesto, mas elegante em três contos de réis.
E como o Silveira cessasse de falar e ficasse com os lábios um pouco trêmulos e os olhos mais brilhantes do que o costume, parecendo ter dado fim à narração, disse-lhe:
— É na realidade comovente a história que acabas de contar-me; mas o que tem tudo isso com estes charutos?
— Ah! sim, tens razão. É que na manhã seguinte à noite em que perdi a herança da Palmira, encontrei no mesmo bolso em que guardara o dinheiro, em vez dos três contos de réis, esses três charutos que me foram oferecidos pelo criado do Clube durante o jogo e que eu maquinalmente aceitei e guardei. E, como os charutos estavam ali substituindo a quantia perdida, rotulei-os com esse dístico que aí vês e no dia em que levei a pobre criança ao cemitério, sobre a sua sepultura jurei que nunca mais tornaria a jogar. Nunca mais joguei, de fato, a não ser o xadrez como exercício mental e, para recordar-me sempre do triste episódio que te acabo de narrar, conservei esses três charutos, que efetivamente me custaram um conto de réis cada um. São um tanto caros, não achas?
— Pelo contrário, acho-os baratíssimos. Quantos contos de réis terias tu perdido na roleta, de então para cá, se estes três charutos te não tivessem custado a herança da Palmira?...
O Silveira fez um sinal de assentimento e, tomando silenciosamente os charutos, beijou-os e meteu-os na gaveta da sua secretaria, que só então fechou à chave.
Meia hora depois, à sombra convidativa da frondosa mangueira do seu jardim minúsculo, e em frente a um tabuleiro de xadrez, meditávamos no xeque-mate que devíamos dar um no outro, enquanto as cigarras chiavam alegremente abençoando essa alma boa de solteirão solitário.

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