quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Mécia Mouzinho de Albuquerque)


O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução de Mécia Mouzinho de Albuquerque (1889)

Uma vez, à hora lúgubre da meia-noite, eu meditava, fraco, fatigado, quais adormecido, sobre muitos volumes interessantes e valiosos de uma doutrina esquecida. De repente, ouvi um ligeiro ruído, como de alguém batendo, ao de leve, à porta do meu quarto. “É alguma visita”, murmurei eu, e nada mais.
Estávamos em dezembro, lembro-me distintamente. As achas meio queimadas desenhavam no solo o reflexo da sua agonia.
Eu desejava ardentemente a manhã! Em vão pedia aos livros o e esquecimento das minhas mágoas... Pensava sempre nela, na minha Leonor perdida, na mulher rara e deslumbrante que os anjos chamam ainda Leonor e que os homens não chamam mais!
O vago sussurro dos reposteiros ondulantes penetrava-me de um terror fantástico e melancólico. Para acalmar a agitação que me assustava, levantei-me, repetindo: “É alguém que bate à minha porta, alguma visita tardia, que solicita a entrada do meu quarto; sim, é isso, e nada mais.” Então senti o espírito um pouco fortalecido, e sem hesitar mais tempo:
— Senhor, digo eu, ou senhora, tende a bondade de perdoar-me. Estava meio adormecido e bateste tão devagarinho que apenas tenho a consciência de vos ter ouvido.
Assim dizendo, abri a porta de par em par, mas vi só trevas e nada mais!
E a perscrutá-las profundamente, fiquei muito tempo cheio de espanto, de receio e de dúvida, fazendo sonhos que mortal algum jamais ousou sonhar; mas nada perturbou o silêncio e a imobilidade das trevas, senão um nome proferido por mim: “Leonor!” e o eco murmurando a seu turno “Leonor!” Só isto e nada mais!
Tornando a entrar no quarto, com a alma em fogo, ouvi um ruído algum tanto mais forte que o primeiro. "Há por força alguma coisa de extraordinário nas tabuinhas da minha janela; vamos ver o que é, exploremos este mistério. Provavelmente, é o vento, e nada mais!"
Abri então a janela, e um corvo majestoso, digno dos antigos tempos, entrou pelo quarto a dentro, com um bater de azas tumultuoso. Sem me fazer uma simples cortesia, adiantou-se com a importância de um lord ou de uma lady, e empoleirou-se num busto de Palas, colocado justamente por cima da porta do meu quarto.
A gravidade do seu aspecto e a severidade da sua fisionomia fizeram sorrir a minha triste imaginação:
— Embora tua cabeça, disse-lhe-eu, não tenha popa nem cimeira, não és por certo um pássaro ordinário. Dize-me qual o teu nome senhorial nas costas da noite plutônica?
O corvo disse:
— Jamais.
Fiquei pasmado de ver aquele desengraçado volátil compreender assim a palavra, posto que a sua resposta não tivesse um grande senso, nem respondesse de modo algum à minha pergunta; porque é preciso confessar que nunca foi dado a um homem vivo, ver, por cima da porta de seu quarto, um pássaro ou um bicho, sobre um busto esculpido, com semelhante nome: "Jamais!"
Mas o corvo, solitariamente empoleirado no busto plácido, não proferiu senão aquela palavra única, como se nela toda a sua alma se espargisse. Então murmurei em voz baixa:
— Todos os amigos me têm deixado: amanhã também este me fugirá, assim como todos os outros me fugiram, assim como voaram as minhas ridentes esperanças!
E o pássaro tornou a dizer:
— Jamais!
Ao ouvir aquela resposta tanto a propósito, estremeci.
— Provavelmente, disse eu consigo mesmo, não sabe senão esta palavra. Isto ele aprendeu com algum mestre infortunado, a quem a ímpia desgraça perseguiu sem tréguas, e cujos cantares acabaram por não ter senão aquele melancólico estribilho, espécie de De profundis de todas as suas esperanças:
— Jamais!
Mas o corvo induzindo ainda a minha alma triste a sorrir, puxei a cadeira para defronte dele, do busto e da porta, e comecei a ligar ideia com ideia, procurando adivinhar o que aquela ave agoureira de outros tempos, o que aquele triste, desengraçado, sinistro, magro e agoureiro pássaro de outros tempos, queria significar com o seu “Jamais!”
Assim me detive um tempo, sonhando, meditando, porém sem dirigir mais a palavra ao pássaro, cujo olhar ardente me abrasava até ao íntimo do coração. Eu procurava adivinhar o estribilho do corvo e muitas coisas mais, com a cabeça encostada ao estofo da cadeira; esse estofo macio de veludo violeta, onde a cabeça dela se recostava outrora!... onde não se recostará jamais!
Então pareceu-me que o ar se tornava mais espesso, perfumado por um turíbulo invisível, balouçado por serafins, cujos passos deslizaram pelo tapete do quarto.
— Desgraçado! exclamei eu; Deus, pelos seus anjos, manda-te tréguas e nepentes contra as saudades de Leonor! Bebe, oh! bebe este bom nepentes e esquece Leonor, perdida para sempre!
E o corvo tornou a dizer:
— Jamais!
— Profeta! disse eu de desgraça! pássaro ou demônio, contudo profeta! quer sejas um mensageiro do Tentador, ou um simples náufrago, lançado pela tempestade a esta terra deserta e enfeitiçada, a este lar de miséria e de horror, dize-me sinceramente — suplico-to! — é verdade que existe um balsamo da Judeia? oh! dize-mo, dize-mo por piedade!
O corvo respondeu:
— Jamais!
— Profeta, continuei eu, ser de desgraça! pássaro ou demônio, contudo profeta! Pelo céu que nos cobre, pelo Deus que ambos adoramos, dize-me se esta alma, esmagada pela dor, poderá um dia, no paraíso longínquo, abraçar uma donzela santa, preciosa e deslumbrante, a quem os anjos chamam Leonor?
O corvo disse:
— Jamais!
— Sejam as tuas palavras o sinal da nossa separação, pássaro ou demônio! exclamei eu, pondo-me em pé. Volta à tempestade e às costas da noite plutônica! Não deixes aqui nem uma só das tuas penas negras, em memória da mentira que acabas de proferir. Não violes por mais tempo a minha solidão. Tira-te da minha porta, arranca o teu bico do meu coração e precipita o teu espectro para bem longe deste quarto!
— Jamais!
E, imutável, continua sempre empoleirado no pálido busto de Palas, por cima da porta do meu quarto. Os seus olhos, com um brilho demoníaco, parecem pensativos; a luz da minha lâmpada projeta a sua sombra sobre o solo, e além do círculo desta sombra, que jaz flutuante sobre o solo, a minha alma não poderá elevar-se jamais!

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