quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de Ribeiro do Couto)

O Corvo, de Edgar Allan Poe


Tradução de Ribeiro do Couto (1921)

Certa vez por triste e alta noite, enquanto a sós, eu doente e aborrecido velava, embebido na leitura de interessante e velha história, tonto de sono, cochilando, súbito percebi surdo ruído, como se de leve arranhassem, arranhassem a porta de meu quarto. "Talvez alguém”, disse comigo, “batendo para entrar... Somente isto e nada mais”.

Ah! bem me lembro, foi pelos frios de dezembro, e as brasas mortiças, ali e acolá espalhadas pelo chão, já se apagavam. Ansioso esperava eu que amanhecesse, e enquanto isto, tentava em vão achar na velha história à saudade que sentia perda de Leonor, a santa e inesquecível criatura, a quem os anjos no céu chamam Lenora, e por quem aqui, na terra, ninguém chamará jamais.

E o agitar monótono e inconstante dos refolhos das cortinas, amedrontou-me enchendo-me de fantástico terror, nunca então por mim sentido, tanto que para conter as ânsias de meu peito, levantei-me comigo dizendo: "É alguém que deseja aqui entrar; algum retardatário visitante procurando minha porta. Há de ser isso e nada mais."

Senti-me todo cheio de coragem e sem nenhuma hesitação, falei: "Senhor ou Senhora, peço-vos desculpas mil, pois estando eu a cochilar, batestes tão de manso e brandamente, que não tinha certeza de vos ter ouvido"... e dito isto escancarei a porta... Só havia escuridão profunda e nada mais.

Apesar, contudo, dessa escuridão profunda, da porta o limiar transpus e por tempo de pé fiquei, absorto, assombrado, cheio de dúvidas, imaginando coisas até ali por nenhum mortal sonhadas. Silêncio sepulcral, solidão funérea e a única palavra por mim então balbuciada e mesmo assim baixinho, foi “Lenora", que não obstante dita tão de leve, ainda o eco repetiu "Lenora". Apenas isto e nada mais.

De novo entrando, o peito sinto com em brasa ardendo e outro rumor percebo, algo mais forte que o primeiro. Certamente, disse eu, alguma coisa bate nas vidraças, vamos ver pois que possa ser, e de vez acabe-se este mistério; sossegue meu coração por um momento. "Talvez seja o vento e nada mais.”

De par em par abri pois a janela, quando alvoroçadamente esvoaçando entrou um majestoso Corvo dos bons tempos de outrora. Nem o mais leve cumprimento; sequer um instante não parou, nem se deteve. Mas com ares de lorde ou de mamada à porta de meu quarto trepou num busto de Palas, bem por cima dela colocado... Trepou, nele ficou e nada mais.

Então ao negro pássaro, pelo grave e severo aspecto que mostrava, a ponto de tornar meu triste pensamento num sorriso, disse eu, certo estou que não és nenhum medroso, apesar de trazeres o topete aparado e bem rapado. Feio, horrendo e velho Corvo, vindo de noturnas plagas, dize-me os teus títulos de nobreza, nos domínios de Plutão! E o Corvo disse: "Nunca mais".

Muito me espantou, da bruta ave ouvir resposta tão cabal, embora suas palavras pouco sentido, pouca significação tivessem, pois não podemos deixar de concordar, que nenhum humano ser vivente, jamais teve a ventura de ver um pássaro em seu quarto, ou outro animal trepado num busto esculturado, com semelhante nome: "Nunca mais”.

Mas o Corvo sempre quedo sobre tão plácido busto, nem mais disse, além daquela frase, como se sua alma nela única, toda se vazasse, outra não proferiu, nem mexeu uma só pena. Então medrosamente murmurei: "Outros amigos antes já se foram, deixar-me-á este ao amanhecer, como já todas esperanças me deixaram? Então o Corvo disse: "Nunca mais".

Estarrecido, ante o silêncio assim quebrado, com resposta tão cabida, “sem dúvida" disso eu, “é esta frase a única provisão por ele armazenada, aprendida de algum infeliz amigo, a quem cruel destino acompanhou de perto e mais de perto inda persegue, a ponto de seus cânticos tornarem-se estribilho e seus salmos de esperança nesta toada melancólica: “Nunca, nunca mais".

Tendo pois mais uma vez o triste pensamento transformado num sorriso, sentei-me em frente ao pássaro, sempre no busto trepado e afundando-me no aveludado da poltrona, procurei ligando ideias descobrir, que coisa, a tão, feia, bruta, horrenda e magra ave dizer queria, crocitando: "Nunca mais".

Fiquei pois imerso em conjecturas e nem palavra disse à negra ave, cujos olhos como fogo me requeimavam até o imo d'alma. E mais e mais sonhando, sentei-me com a cabeça reclinada no encosto de veludo da poltrona que recebia em cheio a luz de um lampião, e onde outrora se sentou Lenora, para depois não sentar-se mais.

Pareceu-me então que o ar mais denso se tornara, perfumado com incenso dum turíbulo, agitado por serafins que ao meu quarto tinham vindo. Infeliz, exclamei, por seus anjos manda-te Deus paz e alívio à dor que sofres com saudade de Lenora, aspira esta essência e esquece a bela extinta! E o Corvo disse: “Nunca mais".

Profeta, disse eu, raio de maldição, profeta sempre, sejas pássaro ou demônio, quer venhas do interno ou pela tempestade para aqui trazido, mesmo assim embora triste ainda intrépido, nesta casa pelo infortúnio açoitada, dize-me com franqueza, rogo-te, há balsamo em Gileade? Dize-me, dize-me por caridade, e o Corvo respondeu: "Nunca mais".

Profeta, insisti, raio de maldição, profeta sempre, pássaro ou demônio, por este céu que nos cobre, pelo Deus que ambos adoramos, dize a alma plena de desgostos se um dia lá no Éden, poderei ver e abraçar a boa e amorosa criatura a quem anjos chamam Lenora? E Corvo porém disse: " Nunca mais'.

Gritei levantando-me de pronto, regressa à tempestade e aos negros lares de Plutão. Não deixes uma só pena, que lembre aqui tua passagem, deixa-me na paz desta solidão, sai deste busto, desafoga-me o peito e vai-te para longe. Anda, faze algum gesto, ou dize uma palavra de adeus, e o Corvo disse: " Nunca mais”.

E o Corvo imoto sempre continuou firme no branco busto de Palas, e seus olhos pareciam os de um demônio quando em sonhos, e a luz do lampião de cheio, dando nele, espalhou-lhe a sombra pelo chão e acima dela que ali ficou, minh'alma nunca, nunca se erguerá jamais.

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