sábado, 24 de fevereiro de 2018

Tendências novas da poesia contemporânea


Tendências novas da poesia contemporânea

Texto publicado em 1874. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017

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A propósito das "Radiações da Noite" do Sr. Guilherme de Azevedo.

 O século XIX, cujos primeiros anos enflorou uma coroa poética de esplendor incomparável, tem mentido cruelmente às esperanças da sua aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os Oehlenschläger, não deixaram descendência digna daquela poderosa geração. O romantismo foi um meteoro. O grande canto do século esvaeceu-se gradualmente num murmúrio. A poesia contemporânea não tem unidade, e não tem sobre tudo o largo fôlego de inspiração, que caracteriza as verdadeiras épocas poéticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado. No meio das preocupações da atualidade, a poesia é como a canção de um conviva distraído que se afasta da sala do festim, e cuja voz se perde pouco a pouco no silêncio da Distância e da noite.


Depois do aparecimento do romantismo, a sua queda é o maior fato literário, do século. Porém essa queda, que como fato todos reconhecem, mas cuja fenomenalidade poucos tentam explicar, será uma justa sentença lavrada pela razão pública, ou será uma condenação arbitrária que desonra o tribunal que a firma? Indicará para o espírito do nosso tempo um progresso ou uma decadência? uma glória ou um deslustre aos olhos da história?

Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condenado. O século, com um sentimento lúcido da sua verdadeira missão, afastou-se daqueles que lhe falavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquência, cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do princípio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva, social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado, individual e subjetivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua alma pertencia ao passado; enquanto que o século, ainda nos momentos em que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava das tradições da Idade Média, contradiziam-se, negavam-se radicalmente. Um equívoco histórico pôde por um momento estabelecer aquele infundado acordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

Ainda há muita gente que sente, chora, crê, e aspira, à maneira dos grandes, melancólicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não comovem como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São vozes sem eco. É quanto basta para que nada signifiquem, historicamente: tanto mais que aquelas vozes frouxas não tem já o timbre ardente de indomável paixão, que nas outras nos comovia. A paixão destas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é já como então, um convencimento violento dos direitos da própria loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se criam os verdadeiros poetas.

Os poetas da geração atual veem-se pois, rasgado aquele véu fantástico da sentimentalidade de outrora, em face de uma sociedade, que eles não compreendem, porque ela mesma a si se não compreende bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem daquilo que a interessa e a preocupa, de se inspirarem da sua vida real e das suas verdadeiras aspirações. É desta situação anormal que resulta a incerteza, a anarquia, a fraqueza da poesia contemporânea. A ideia poética acha-se confusa, embaraçada no meio de fatos sociais, que se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quase seca: a nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões, uma água túrbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ela se chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam a medo um gole da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se acabassem de fazer uma ação má.

E todavia, é ali que é necessário beber, porque é ali, naquelas águas rumorosas e confusas, que se contêm os elementos da inspiração real, os Princípios vitais de que se nutre a sociedade, e de que tem por conseguinte de se alimentar também a poesia, sob pena de se tornar uma abstração, um fantasma, uma puerilidade. O problema da evolução poética na atualidade encerra-se todo nisto.

Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detém. Terá a sociedade contemporânea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais desolador utilitarismo) na sua atmosfera sufocadora de indústria, de lutas sociais e de ciência friamente analítica, condições de vida e desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas, das musas melindrosas e cismativas? Não será uma sociedade essencialmente antipoética, esta nossa, um mundo rebelde a toda a idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva e social? Será um ser poético o homem do nosso tempo?

Entendo que pode haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titânica aspiração de verdade e justiça, é poética, poética essencialmente, daquela poesia forte e audaciosa dos mitos de Prometeu e Ajax; que há uma fonte abundante de inspiração nesta luta histórica de nações, de classes e de ideias, que é a epopeia e a tragédia viva do nosso século; que, finalmente, à maneira que os fatos confusos da nossa época se forem desembrulhando, mais lúcida e evidente se irá mostrando a idealidade sublime que nesse caos aparente se contém.

E a ideia dessa poesia nova não só existe, mas deve ser superior à ideia poética das eras anteriores, porque corresponde a um período mais adiantado da consciência humana, penetra com maior intensidade a natureza e o espírito, extrai o belo da própria realidade universal, não das visões de um subjetivismo inexperiente, e dá por base ao sentimento, em vez de sonhos e intuições quase instintivas, os fatos luminosos da razão.

Os caracteres essenciais dessa poesia já hoje se podem indicar, e todos eles se consubstanciam numa palavra, que resume também as tendências da nossa civilização: o humanismo. A inspiração social e naturalista vem substituir a sentimentalidade toda subjetiva e pessoal, ou o transcendentalismo contemplativo de outras idades poéticas. A poesia deixa de duvidar e cismar, para afirmar e combater; mostra-nos o interesse profundo e o valor ideal dos fatos de cada dia; dá às ações, que parecem triviais, da vida ordinária, um caráter, e significação universais; e sorrindo maternalmente para as crianças, as mulheres, os simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.
Uma tal missão ninguém dirá que é mesquinha ou vulgar: há nisto com que tentar os mais altos engenhos. Cativar os corações mais generosos. E, sobretudo, deve seduzir os espíritos verdadeiramente poéticos acharem-se em comunicação direta e constante com o seu tempo, com as aspirações, os interesses, as crenças da sociedade que os rodeia, e de cuja vida vivem, como meio histórico a que fatalmente pertencem.

Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta é a evolução do ideal social, que a deve inspirar. Há um certo receio, e uma certa incerteza. O novo assusta: o indistinto faz hesitar, mas insensivelmente, e fatalmente também, caminha-se naquela direção. Os sintomas deste movimento tornam-se cada dia mais acentuados. Em França e Alemanha, sobre tudo, países aonde as ideias e tendências novas se pronunciam numa agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem significativos; em Alemanha ainda mais do que em França. Ali a poesia inspira-se resolutamente das lutas sociais e religiosas do tempo, e abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, às grandes composições épicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus tipos e paixões mais características. Entre nós, há apenas indícios tênues e raros, mas que, por isso mesmo, devemos recolher tanto mais cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente morto no espírito português, e nos animam a esperar com alguma confiança num melhor futuro.


ANTERO DE QUENTAL.

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