segunda-feira, 5 de março de 2018

A morte do feiticeiro (Conto), de Júlio Ribeiro


A morte do feiticeiro


Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Foi como que um sinal.

Os negros todos achegaram-se a Joaquim Cambinda; uns davam-lhe punhadas, outros escarravam-lhe, outros atiravam-lhe areia nos olhos.

— Peste do diabo! coisa ruim!

— Feiticeiro do inferno!

— Enforque-se já este demônio!

— O melhor é queimar!

— Que se que se queime! que se queime!

E numa confusão horrorosa foram arrastando o desgraçado.

Ao pé do paiol estava um montão de sapé seco e junto dele uma mesa velha de carro, com uma roda só, desconjuntada, meio podre.

Em um momento, amarraram o mísero sobre essa mesa apesar da resistência Iouca que ele então procurou fazer a pontapés, a coices, a dentadas.

Trouxeram sapé, aos feixes, encheram com ele o vão que ficava por baixo da mesa.

— Querosene! gritou uma voz, tragam querosene.

Um moleque correu ao engenho e de lá voltou com uma Iata quase cheia.

Um preto tomou-lha, subiu à mesa do carro, começou a despejar petróleo sobre Joaquim Cambinda: o líquido corria em fio farto, claro, transparente, com reflexos azulados, resaltava do peito piloso do negro, da sua calva lustrosa, embebia-se-lhe nas roupas imundas, misturado, confundido no suor que manava em camarinha.

Os olhos do miserável revolviam-se sangrentos; seus dentes rangiam, ele bufava.

— Fósforos! fósforos! quem tem fósforos? perguntou o preto, depois que esvaziou a lata e que fez desaparecer Joaquim Cambinda sob um montão de sapé.

— Eu! acudiu a negra que dera princípio ao motim, e estendeu-lhe uma caixa de fósforos.

O preto saltou abaixo, tomou-a, abaixou-se, riscou um fósforo, protegeu-lhe a chama com a mão em forma de concha, encostou-a ao sapé, junto do chão.

Ergueu-se uma fumarada espessa, azul claro por cima, cor de ferrugem por baixo; a chama cintilou em cumpridas línguas gulosas, lambeu, rodeou a mesa do carro, chegou ao sapé de cima e ao corpo do negro. As roupas deste embebidas em petróleo, fizeram uma como explosão, inflamaram-se repentinamente. Ele soltou um mugido rouco, sufocado, retorceu-se frenético...

Tudo desapareceu num turbilhão crepitante de fogo e de fumo.

As faúlas voavam longe, o vento carregava a distâncias enormes as moinhas carbonizadas.

Sentia-se um cheiro nauseabundo, de acre, chamusco, de gorduras fritas, de carnes sapecadas.

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