terça-feira, 6 de março de 2018

Disco da Morte (Conto), de Mark Twain



Disco da Morte

Conto publicado na revista "O Echo", no início do século XX.  Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)
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Passou-se o fato no tempo de Oliver Cromwell, cujo protetorado foi uma das épocas mais brilhantes da história de Inglaterra. Antes, porém, de tornar-se senhor absoluto do poder, Cromwell, tão hábil quando ambicioso, não recua diante dos mais cruéis castigos, para punir aqueles que ousavam opor-lhe a menor resistência.

O coronel Maytfair era o oficial novo de seu posto nos exércitos da República; tinha apenas trinta anos; havia assistido a inúmeros combates, e sua coragem e seu valor lhe haviam conquistado a admiração de todos; deveria ter sido feliz. Então, que lhe acontecera? Por que apresentava esse ar triste e acabrunhado?

Estava-se no inverno e já era noite: lá fora reinava a escuridão e bramia a tormenta; no interior pairava um silêncio melancólico. O coronel e a sua jovem esposa, sentados diante do fogão, de mãos dadas, haviam esgotado o tema de seus pesares. Haviam orado juntos, e agora nada mais lhes restava fazer senão esperar, não muito tempo, sem dúvida; a esposa tremia só ao pensar nisso.

Tinham apenas um filho, uma menina, Abby, com a idade de sete anos, que idolatravam. Ela não devia tardar, como todas as noites, a vir abraçá-los e beijá-los. O coronel, quebrando o silêncio, disse à mulher:

— Enxuguemos nossas lágrimas por amor de nossa filha. Que ela de nada desconfie!

Uma linda menina loura, de cabelos cacheados, toda risonha, mas tendo um ar decidido, apareceu em camisa de dormir na porta entreaberta e, feliz por ver os pais, entrou a correr e trepou sobre os joelhos do coronel, que, apertando-a contra o peito, a beijou com efusão.

— Papai, papai, não me abraces assim! Estás me apertando demais; me fazes mal e me despenteias!

Ela ia a descer, mas o pai deteve-a nos braços, dizendo:

— Não, não te vás embora, fica sobre os meus joelhos. Eu fui mau, perdoa-me. Que devo fazer para penitência?

Em um instante o sorriso e a alegria iluminaram o rosto da criança que, apoiando a cabeça contra a face do pai, lhe pediu uma história, uma história!

— Escutemos!...

Os pais contiveram a respiração e escutaram. Apesar do rugido vento, ouviram-se passos, a princípio ao longe, depois mais perto, mais pesados, mas que passaram e se afastaram.

O coronel e sua esposa respiraram longamente, como se acabassem de escapar a um perigo.

Depois, muito tranquilamente, disse aquele:

— Pedistes uma história, uma história alegre, sem dúvida, minha Abby?

— Oh! mas não, papai conta-me antes uma história triste, muito triste, que me faça tremer, como se fosse verdade. Mamãe, aproxima-te, dá cá a mão. Agora pode começar, papai.

— Era uma vez três coronéis; numa batalha haviam cometido uma falta contra a disciplina. Havia-lhes sido ordenado fazer um ataque falso a forte posição, a fim de distrair o inimigo e dar tempo aos exércitos da República de baterem em retirada. No seu entusiasmo, porém, os três empenharam uma verdadeira batalha, que afinal ganharam. O general em chefe, apesar de cumprimentá-los, reprovou a sua desobediência e ordenou-lhes seguirem para Londres, onde acabam de ser julgados.

— O general chefe é Cromwell, não é, papai?

— Sim.

— Eu o conheço bem, já o vi. Quando ele passa montado em um grande cavalo, à frente de seus soldados, todos têm medo dele, mas eu não, eu não tenho medo nenhum, ele me olha com bondade.

— Minha pequena tagarela!... Os coronéis estão, pois, em Londres, prisioneiros sob palavra; permitiu-se-lhes visitar suas famílias pela última vez.

***

Escutemos. Passos ainda...

Desta vez também os passos se afastaram.

A mãe colocou a cabeça sobre o ombro do marido para ocultar a palidez.

— Eles chegaram hoje pela manhã...

A menina arregalou os olhos.

— Mas, papai, a história é mesmo verdadeira?

— Sim, queridinha.

— Oh! como eu te amo, mamãe; está chorando? por quê? Fala.

— Por nada, meu amor, eu estava pensando... nas pobres famílias.

— Não chores mais, mamãe; vamos, tudo há de acabar bem, há de ver. E depois... esta manhã, onde estiveram eles, conta, papai!

— A princípio foram conduzidos à torre. Aí foram interrogados pelos países, que os reconheceram culpados, e todos três foram condenados à morte.

— Que maldade! Mamãezinha, continuas ainda a chorar! não chores mais; hás de ver, eles não vão morrer. Mas, papai, anda depressa, conta-me o fim.

— Estou refletindo, antes de falar.

— Não precisa disso; você sabe bem a história. Para começar, você conhece os três coronéis?

— Sim, queridinha.

— Eu também desejaria conhecê-los, eu gosto muito dos coronéis; eles há de gostar que eu os beijasse, não acha?

— Um deles, sobretudo, muito havia de apreciar os teus beijos, respondeu o coronel com voz trêmula. Beija-por ele.

— Sim, e depois pelos dois outros também, e se os visse dir-lhes-ias: “meu pai é também um coronel meu pai muito bravo, que teria feito o que fizestes; não deveis, pois, vos envergonhar. Ambos vós tivestes razão. Eis tudo!”

***

— Escutem!... Escutem...

— O vento? Não.

— Em nome de Lord General, abri!

— Papai, são soldados; deixa-me, deixa-me, eu vou fazê-los entrar.

Ela correu vivamente para a porta, abriu-a para traz, gritando:

— Entrem, entrem!...Papai, são granadeiros!

Os soldados entraram, de armas ao ombro; o oficial mandou; o coronel, de pé, correspondeu à continência. Sua pobre mulher, completamente pálida, perto dele, ocultava o mais possível seu pesar e angústia. A menina olhava aturdida...

O pai abraçou por longo tempo a mulher e depois a filha...

— À Torre. Para diante, marche.

Então o coronel deixou à casa à frente dos soldados.

— Oh! mamãe, como o papai é belo, como ele marcha bem. Então ele vai à Torre; ele vai vê-los, ele...

— Pobre filhinha, vem a meus braços, vem!

No dia seguinte, pela manhã, a pobre mãe não pôde levantar-se do leito. A pequena Abby, tendo recebido ordem de ir brincar fora, para não despertar a mãe, saiu de casa, brincou diante da porta e julgou que faria bem em ir avisar seu pai do que se passava em casa, em sua ausência.

Uma hora mais tarde, o conselho de guerra estava reunido em presença do Lord General.

— Nós lhes pedimos — disse um dos juízes — que escolhessem o que deve morrer; porém eles se recusam a isso.”

A fisionomia do Protetor contraiu-se.

— Não morrerão todos. Tirar-se-á a sorte entre eles. Mandai-os vir, colocai-os neste quarto, lado a lado, com o rosto voltado para a parede e as mãos no rosto. Preveni-me quando estiverem prontos.

Ficando só, pareceu absorver-se em tristes reflexões e, depois, tendo chamado um oficial, disse-lhe:

— Traga-me a primeira criança que passar pela porta.

O homem voltou quase imediatamente, trazendo Abby pela mão.

Ela dirigiu-se afoitamente para o chefe do Estado, e, sem cerimônia, trepou-lhe no joelho, dizendo-lhe:

— Eu vos conheço bem, senhor; sois o Lord General. Eu vos tenho visto passar muitas vezes diante de nossa casa. Todo o mundo tinha medo, mas eu não...

Um sorriso veio suavizar as linhas severas do semblante de Cromwell.

— Como? vós vos lembrais? Pois eu não vos esqueci.

— Eu também nunca te esquecerei, dou-te a minha palavra. Havemos de ser sempre amigos.

— Sim, eu o quero assim, mais então embala-me como faz o meu pai.

— De bom grado, porque tu me lembras a minha netinha. Quando ela tinha a tua idade, era tão interessante e gentil como tu. Que Deus te abençoe por isso!

— Vós amáveis muito a vossa netinha? Papai também gosta muito de mim.

— Oh! sim, eu a amava, ela mandava e eu obedecia.

— Pois eu vos amo também. Não quereis me beijar?

— Certamente, mas isso é um privilégio. Aí tens, este beijo é para ti e este outro para ela. Tu a representas e o que ordenares eu farei.

A menina bateu palmas, alegre; depois, de ouvido à espreita, exclamou, ouvindo os tambores:

— Soldados! soldados! Lord General, Abby quer vê-los!

— Tu os verás daqui a um momento, queridinha; antes, porém, vou encarregar-te de uma comissão.

Um oficial entra, saúda em voz baixa e diz:

— Eles aí estão. Depois retira-se.

O Protetor deu a Abby três pequenos discos de cera, dois brancos e um vermelho. Dos três coronéis, àquele a quem couber em sorte o disco vermelho será o condenado a sofrer a pena de morte.

— E para mim?

— Não, queridinha; levanta essa cortina, que aí está, e hás de ver três homens com o rosto voltado para a parede. Cada um deles tem aberta uma das mãos, na qual hás de depositar um dos três discos, e, isto feito, voltarás para junto de mim.

Abby desapareceu por detrás da cortina. O protetor, ficando só, disse:

— Só Deus sabe em quem irá recair a escolha deste inocente mensageiro, que ele me enviou. Que seja feita a sua santa vontade!

A menina deixou cair a cortina, conservou-se imóvel um instante, admirada da meia escuridão que reinava no aposento e da imobilidade dos soldados e dos prisioneiros, e por fim seu semblante iluminou-se alegremente.

— Oh! diz ela, mas papai está ali, eu o reconheço pelas costas. Ele vai ganhar o disco mais bonito.

E, correndo para os prisioneiros, depositou-lhes os discos nas mãos abertas; depois, esgueirou-se por debaixo dos braços de seu pai, dizendo-lhe a sorrir:

— Papai, olha o que tens na mão, eu te dei o mais bonito!

Ele deitou um olhar sobre o fatal presente, caiu de joelhos e prorrompeu em soluços.

Os soldados, os oficiais, os prisioneiros, testemunhas desta horrível tragédia, não puderam também conter as lágrimas.

***

Decorridos alguns minutos, o oficial da guarda dirigiu-se pesaroso a seu prisioneiro e bateu-lhe no ombro, dizendo:

— E muito penoso para mim, coronel, porém o meu dever me obriga...

— Quê, pois? diz a menina.

É preciso que eu o conduza o tenho isso grande pesar.

— Levas papai? não quero! Mamãe está doente; eu vim buscá-lo.

E, dizendo isto, pulou para as costas do pai, passando-lhe os braços em roda do pescoço.

— Aí está... Vamos, papai.

— Minha pobre filha, não posso, é preciso que eu vá com eles.

A menina desceu, correu para o oficial, e, batendo com o pé indignada, disse:

— Eu vos disse que mamãe está doente, ouvi-me. Deixem vir o papai. Eu o quero.

Abby, como um relâmpago, saiu do quarto, voltando logo depois, trazendo o Protetor pela mão.

Com esta terrível aparição ergueram-se todos; os oficiais fizeram continência e os soldados apresentaram armas.

— Detende-os, senhor! Minha mãe está doente, eu vim buscar papai e eles querem levá-lo.

O Lord General exclamou:

— Ele é, pois, o teu pai, minha filha?

— Certamente que é o meu pai e por isso é que eu lhe dei a coisa mais bonita, a vermelha. Eu o amo tanto!

— Que fazer, meu Deus, que fazer, exclamou Cromwell!

Abby, desolada e impaciente, apertou mais fortemente a mão de Lord Protetor e disse:

— E preciso deixá-lo vir comigo. Ainda há pouco me dissestes que eu podia ordenar, e agora, na primeira coisa que vos peço, não quereis atender...

Cromwell, com o semblante iluminado, exclamou passando a mão pela cabeça da menina:

— Demos graças a Deus pela promessa que ele me inspirou fazer-lhe. Graças também a ti, incomparável criança, por me teres lembrado!

— Oficiais, acrescentou ele, obedecei à sua ordem; ela fala em meu nome. O prisioneiro está perdoado; ponde-o em liberdade.

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