sábado, 10 de março de 2018

Castro Alves: amor ao teatro e às atrizes (Ensaio), de Afrânio Peixoto


Amor ao teatro e às atrizes

Castro Alves, moço e apaixonado, iria ao teatro divertir-se, como toda a gente, mas principalmente lá o haviam de levar dois outros motivos, um de sentimento, outro de ambição, qual mais exigente. Aplaudira a Furtado Coelho, a Joaquim Augusto, a Amoedo, a Eugênia Câmara, a Adelaide Amaral, a Ismênia dos Santos... como todas as plateias do Brasil nesse tempo, mas, desde 1866, tinha ele ainda 19 anos, e já era homem na estatura e nos modos, sem deixar, na beleza de efebo, e na graça da adolescência, de ser o mais sedutor dos rapazes, quando se apaixona por uma das atrizes mais festejadas do momento, que tem o bom gosto de corresponder a estes sentimentos e ei-lo admirador e amante de Eugênia Câmara, sonhando viver romanticamente ao seu lado e na sua intimidade os êxtases de arte que ela representava na Dalila e nas Mulheres de Mármore. Essas noitadas de triunfo seriam seguidas de ceias alegres e buliçosas, na companhia de outros rapazes entusiastas e outras raparigas sensíveis, pronunciando-se, o que é da índole dos moços, e de brasileiros ainda mais, dois partidos que haviam de dividir a plateia, em torno de duas damas, alvo da admiração e, para algum, ou mesmo alguns... como para Castro Alves, do afeto de seus parciais.

Isto que ocorria por todo o Brasil foi notado e ficou na memória dos cronistas, no Recife, em 66. Eugênia Câmara e Adelaide Amaral tinham seus admiradores e partidários e Castro Alves e Tobias Barreto eram os corifeus destas hostes, mais aguerridas para as represálias do que mesmo para a harmonia dos coros de bênção ou de louvor. Também é sempre assim no Brasil — os partidos são mais contra alguém, do que em favor deste ou daquele. Castro Alves, esse era por Eugênia Câmara, a quem recitava versos, comparando-a aos anjos ou aos gênios, ou lhe definindo a glória:

... A glória é isto...
É ser tudo... é ser qual Deus...
Agitar as selvas d'alma
Ao sopro dos lábios teus...

Dizer ao peito — suspira!
Dizer à mente — delira!
A glória inda é mais: é ver

Homens, que tremem — se tremes!
Homens que gemem — se gemes!
Que morrem — se vais morrer!

A glória é ter com o tridente
Refreada a multidão,
— Oceano de pensamentos
Que tu agitas com a mão!
..................................
Harpa imensa feita de almas,
Que rompe em hinos e palmas
Ao teu toque divinal.

Também dos contrários havia de consolá-la, de mágoas e insultos:

Do gênio a maior grandeza,
O ser divino é sofrer...
.............................
Nest'hora grande não sentes
Longe os silvos das serpentes
Que tentam morder-te os pés?

Inda é a glória — rainha
Que jamais caminha só...
Aí! Quem sobe ao Capitólio
Vai precedido de pó.

Dos entusiasmos da cena passaria Castro Alves para os de sentimento, e em vez da publicidade do teatro e das ceias alegres procuraria, no pudor dos amorosos, que se escondem, para amar mais livremente, uma casinha discreta, num subúrbio do Recife, no povoado do Barro, onde se refugiou com a apaixonada, também por ele tomada do mesmo sentimento e tão veemente, sincero e desinteressado, que até os seus contratos e o seu empresário havia de abandonar, para ser dele exclusivamente. Em Eugênia Câmara, porém, ele amaria não somente uma bela mulher — menos bela talvez que graciosa, bem feita, moça e ardente, razões todas que, para quem ama, hão de fazer bela a qualquer mulher — mas uma atriz aplaudida e admirada: ele poeta aplaudido e apaixonado pelo teatro só podia ter um pensamento de arte digno dela e de sua paixão — escrever um drama, que ela vivesse em cena, representando-o, glorificada pelo talento dele, consagrado em público pela sensibilidade, — ele diria — pelo gênio dela.


MELODRAMAS ROMÂNTICOS

O teatro, de então,vinha dos poemas dramáticos, com que o Romantismo inaugurara a sua ascendência literária, para a peça de hoje, com que o Realismo firmou o seu domínio no palco: estava no drama histórico ou moral, melodrama ou dramalhão, que iria dar o teatro de tese ou teatro simbólico, antes de chegar à comédia ou peça contemporânea. Basta para ter uma ideia, lembrar o repertório da época: é o Antony, de Dumas Pai, a Dama das Camélias, de Dumas Filho, as Mulheres de Mármore, de Barrière e Thiboust, a Dalila, de Octávio Feuillet... a que se juntavam Pedro sem mais nada, de Mendes Leal, Purgatório e Paraíso, de Camilo Castelo Branco, a Onfália, de Quintino Bocaiuva, Um Mistério de Família, de Franklin Távora... quando não bastavam só os títulos, que eram programas: Redenção, o Poder do Ouro, Quedas fatais, Cinismo, Ceticismo e Crença, e outros.

Para evocar esse teatro, em toda a sua ênfase sentimental, bastam breves exemplos. Seja um a cena final do Antony. O herói e a heroína que se amam, depois de um longo combate moral, resolvem quase procurar a felicidade, com a fuga. Quase, porque na hora do rapto, ela ainda não está decidida e ele quase a arrasta. Mas eis que o marido, com quem não contavam, aparece, batendo à porta. Que fazer? Já não podem mais fugir. Então doida de amor para não recuar, prevendo a desonra que não quer sofrer, tomada de remorsos que não pode suportar, grita a desgraçada ao amante: "Mata-me, por piedade!" Ia a porta ser arrombada, e ela que insiste e implora esta salvação, e ele que indaga se, no último suspiro, não odiará ao seu assassino. "Eu o bendirei... a morte, eu a peço, a quero, a imploro. Vou buscá-la..." E atira-se nos braços do amante. A porta cede, entra o marido, e vê a mulher apunhalada:

Antony — Sim! Morta! Ela me resistia, eu a assassinei...

O público é que não resistia, sem aplausos, nem lágrimas, a semelhantes dramas. Ainda hoje poderemos ouvir de homens provectos e damas menos moças desse tempo o que eram essas representações. A Dalila, de Feuillet, foi considerada obra-prima no gênero: era a gema do repertório de Eugênia Câmara e Furtado Coelho. André Roswein, um poeta lírico, é desencaminhado por uma hetaira, a Dalila fatal, dos castos amores de uma inocente rapariga filha de um velho compositor, a qual, por isso, definha e vem a morrer. Carnioli, um cínico e cético, refere a cena, não sem comoção: "Durante este tempo, os dedos do velho descansando sobre as cordas tiravam de quando em quando do instrumento sons... gemidos, que penetravam até o fundo d'alma. Ela acordou e disse: — Meu pai, tenho favores a pedir-lhe... o primeiro é que me dê um ar de riso — o velho tentou sorrir-se. — Depois, continuou ela, que me toque hoje o Cântico do Calvário. — Não, não, disse o bom velho, com voz pungente, querendo simular uma alegria, só no dia do teu casamento. Ela sorriu, e olhou-o fixamente; ele abaixou os olhos sem replicar. Com um gesto doloroso, sacudiu os cabelos brancos sobre a fronte mais pálida que o mármore, e pegou no arco... Ouvi então o famoso Cântico do Calvário... o cântico sublime!... Enquanto tocava, grossas lágrimas lhe caíam uma a uma sobre as mãos trêmulas e inspiradas... chorava!... Chorava o instrumento... choravam as cordas... o arco, a madeira, o cobre... tudo chorava!... Só ela não chorava, porque já não tinha lágrimas!..."

Leio de um velho número do Correio Paulistano, de 1861: "ninguém, absolutamente ninguém poderá ouvir Furtado Coelho recitando esta narração dolorosa, e arrebatadora ao mesmo tempo, sem que sinta estremecer-lhes as fibras do coração e o pranto orvalhar-se o rosto, traindo o sentimento que o provocou". E não é exagero: todos os depoimentos são acordes. Talvez haja aqui alguém desse tempo, que tenha chorado, como toda a gente, nesse lance, pois que choravam o velho compositor, e o arco, as cordas, a madeira e até o cobre do violino, e "só ela não chorava, porque já não tinha lágrimas..." Não sejamos exigentes, nós de outra sensibilidade: compreendamos, e como Alfred de Musset compassivos e indulgentes:

Vive de melodrame où Margot a pleuré!

Estava aí, nesse teatro, uma sugestão a Castro Alves. Havia, porém, uma circunstância que havia de ter o seu valor. Eugênia distinguia-se na comédia e nos papéis burlescos; quando muito, representava as mulheres fatais, Lenora, ou a Dalila, e a Marcô, das Mulheres de Mármore, que exigiam mais desplante que sentimento. Na Imprensa Acadêmica, de São Paulo, um crítico do tempo de Castro Alves, talvez seu colega, escreveria: "Suas tentativas em papéis sentimentais foram sempre infelizes, porque em tais papéis a Sra. Eugênia é sempre de uma falsidade inexcedível e nos lances dramáticos faz perder toda a ilusão ao espectador. Não falamos de sua voz chorosa, que faz rir".

Teria o poeta clarividência para o perceber, embora apaixonado, e, por isso mesmo, fugiria à situação que a diminuísse, aos próprios olhos, e aos do público, que também a amava. Além disto ainda, amoroso de teatro e de uma atriz, não abdicaria Castro Alves de sua personalidade forte e seu apostolado já começado: antes, essas duas paixões iam servir a outra, primeira e maior — a de suas ideias. Desde 63 que a causa da Abolição lhe aparecera como uma vocação do seu gênio; em 65 escrevera quase todo o seu poema dos Escravos, na pausa do amor e para a glorificação da mulher amada, havia de tornar a eles, mas seria agora com um drama, um drama social, portanto.


O TEATRO DE IDEIAS


Teatros antigos do Brasil: Teatro Municipal de São Paulo

Até aí Hugo continuava a ser o seu mestre. Num artigo de jornal, em 66, precisamente sobre Eugênia Câmara, ele escrevia que se para Beaumarchais "o teatro é uma tribuna", para Hugo "é uma escola". E convidava a mocidade a assistir e mesmo a descer "como o mergulhador indiano àquele turbilhão de paixões". Veriam o cinismo, a infâmia, todos os crimes, todos os horrores: "lá no fundo está a pérola", "é uma ideia, ideia boa, santa e justa, ideia moral, ideia religiosa". "E quando a alma vier à tona, de todos esses turbilhões trareis um talismã... que vos dê melhores sentimentos, que vos ensine o perdão à mulher desgraçada, a proteção à criança indefesa; que vos instrua no ódio à hipocrisia, que se chama — honra, à infâmia que se alcunha de nobreza... Ouvireis uma voz que vos diga: — Amemo-nos um aos outros... e então com a cabeça mais prenhe de bons sentimentos, os seios mais túmidos de afetos, a boca mais cheia de perdões — abençoareis o teatro, e crereis que ele é um altar". Assim, pois, o poeta épico da Abolição e da República salvaria o moço, apaixonado por uma atriz, de lhe cometer um melodrama; a influência de Hugo lhe ia sugerir, para exaltá-la, um poema dramático como os dele, que seria também glorificação de uma ideia, numa tribuna, a maior das tribunas, que era como uma escola, a da propaganda de suas ideias. Foi assim que nasceu o Gonzaga.

Teatros antigos do Brasil: Teatro Municipal de Belo Horizonte

Como lhe aconteceria mais de uma vez na vida, Castro Alves refugiado num recanto com os seus amores, "tendo por musa o amor e a natureza", nesse encantamento bucólico e sentimental, não esqueceria que a sua vocação e o seu dever era ser poeta, função social de grave responsabilidade para ele... No campo sentia-se mais inspirado, "a alma fica melhor no descampado", e ao lado de Eugênia, que deixara o teatro para ficar com ele, seria inspirado para uma obra que ela pudesse representar.

Nessas férias de 66-67 pensou, e em fevereiro deste ano escreveu o Gonzaga: a data é precisa, e dada pelo seu amigo Regueira Costa. Do lugar pitoresco que habitava, próximo ao canavial de um engenho, no povoado do Barro, nas cercanias do Recife, ficou imagem numa cena do drama. Gonzaga recorda a Maria: — "Verei de novo a minha herdade... aquela casinha levantada no tombo da ladeira, como um ninho de pássaros no ramo, com sua colina suave como um colo de mulher; e abaixo um canavial imenso, verde e dourado como um mar de esmeraldas, e longe... ao longe aquele horizonte de montanhas onde os crepúsculos se talhavam num céu de sangue. Lembras-te?"


Vista interna de um teatro brasileiro antigo (Rio de Janeiro)

Se era um poema dramático ao qual o amor não podia faltar, segundo as incitações que o poeta sentia de sua missão social, não deixaria também de ser obra de propaganda de suas ideias favoritas de emancipação; a Inconfidência Mineira dava-lhe os motivos republicanos, sua arte juntaria os abolicionistas, mas, sobretudo essa escolha, de tal incidente de nossa história lhe estava imposta, porque nela havia também um poeta, e como ele um poeta amoroso: o drama portanto havia de ser em torno de Gonzaga, exalçado a uma preeminência que lhe não daria a História, mas que lhe conferiu, pelas necessidades de sua causa. Outro, que não Castro Alves, com os seus sentimentos, elegeria Tiradentes, herói mais verossímil de tragédia heroica, ou os Inconfidentes, reunidos na diversidade dos gênios, interesses, critério, bravura, inconsequência. Sem esquecer nenhum desses endereços para um drama romântico, Castro Alves tomou o melhor partido.

Teatros antigos do Brasil: Teatro Municipal de Campinas (São Paulo)

O GONZAGA E A HISTÓRIA

Não é destituído de interesse indagar até quanto, com o que se conhecia dessa história em 67, Castro Alves conseguiu seguir, quando o pôde, com fidelidade, a História. E isto era tanto mais difícil quanto, ainda hoje, melhor informados, continuamos a formar juízos diversos, dados os diversos sentimentos, desse trecho da História do Brasil. Para comprovar o acerto contar-vos-ei uma anedota pessoal. Quando, em 1907, publicou Capistrano de Abreu os seus magníficos Capítulos de história colonial, fui eu o seu primeiro leitor, porque, tendo conhecimento de minha admiração a sua sabedoria, e me havendo o acaso posto em seu caminho quando lograra as últimas provas do livro, ele m'as dera a ler, exigindo uma opinião, como para aferir a de seus inúmeros admiradores.

Procurei-o dias depois, para lha dizer, e fui, entre respeitoso e admirado, enunciando, uma por uma, as excelências que encontrara nessas belas e fortes paisagens e frescos de nossa história colonial. O sábio abanava a cabeça negativamente, com ar de ironia, senão de despeito. — Era isto, pusera o melhor de seu querer e seu sentir num volume, e a intenção dele escapava a um leitor de boa vontade, que era seu amigo... que esperar dos outros? Como insistisse em saber dessa intenção, aprender da voz dele o que não escrevera, Capistrano perguntou-me pelo que aí referira da Inconfidência... Procurei lembrar-me... Nada! Fora surpresa a Conjuração Mineira... Não existia aquele sargentão paroleiro do Tiradentes, com que a ênfase republicana, havia tanto, nos clamava, por toda a parte, atroadoramente. O mérito de seu livro era este: suprimira o alferes Xavier, da História do Brasil.

Aí está; ainda hoje, um trecho de nossa vida passada, um vulto de nossa história é assim julgado, de boa fé, ânimo inteiro, por um grande historiador que vale certamente muitíssimo de seus contemporâneos: um suprime-o da memória, outros o colocam no panteão dos glorificados: não há juízes, há parciais; não julgamos ideias e fatos, nos inclinamos por sentimentos e pessoas. Poderia um poeta, entre tais juízos, tomar qualquer partido... — Em 67, no regime monárquico, quando Tiradentes tinha menos favor, e até se diz que, para agradar à Coroa, Joaquim Norberto no seu livro agravara a loquacidade leviana e a desassisada propaganda do Alferes Xavier, como para desfavorecer o seu sonho republicano, quando o partido de Capistrano estava no poder, Castro Alves seguiu o que viria a ser, o dos contemporâneos, os da República, e se Gonzaga dá o título ao drama, é porque é o poeta e é o amoroso, em torno do qual se há de mover a ação sentimental, que outro poeta e amoroso lhe consagra: certamente, a figura de Tiradentes atravessa aquelas cenas com uma nobreza, e uma ênfase, de herói corneliano; se é de Gonzaga, por causa de Maria, que a gente se condói, é ao Xavier, pela causa da Pátria, que a gente admira. De outra feita nô-lo mostrara o poeta, significativamente.

O Tiradentes sobre o poste erguido
Lá se desata das cerúleas telas,
Pelos cabelos a cabeça erguendo
Que rola sangue, que espadana estrelas!

Aliás também o Gonzaga teve e terá de sofrer as vicissitudes da História. Ainda há poucos dias, Viriato Correia, num formoso volume, documentado como um livro de história e alegre, umas vezes, e outras comovido, como grande obra de arte, escrevia: "Gonzaga foi uma das mais antipáticas e das mais miseráveis figuras do belo movimento de 1789". Entretanto, "a história guindou-o à posteridade gloriosa, o sentimentalismo nacional sagrou-o na emotividade gongórica do poema de Castro Alves".

Ni cet excès d'honneur, ni tant d'indignité! Desta vez o poeta é apenas generoso, segundo a tradição, mas o injusto foi ainda o historiador. Recorrendo à mais autêntica fonte de informação, o "Processo da Inconfidência", verifica-se que Gonzaga nega (nega como todos os outros, nega como o próprio Tiradentes, até ser reduzido) sistematicamente a sua coparticipação no movimento, mas por uma série de razões, lógicas e verdadeiras: era português de nascimento e filho de mãe portuguesa, acabava de ser promovido a desembargador na Bahia, ia casar, desaconselhara a derrama a Barbacena, como podendo provocar o levante, etc., etc., o que tudo poderia valer pouco, ou nada, contra o fato provado e documentado de sua adesão aos conjurados. Ora, essa prova e documentação não foi feita. Tiradentes o inocenta, explicitamente, apesar de seu inimigo, jurando perante Deus — e era um crente fervoroso —, não o encobrindo entretanto de outros. Francisco de Paula Freire de Andrade insta que ignorava ser Gonzaga entrado no levante. José Alves Maciel nem sequer o menciona. Domingos de Abreu Vieira contesta-o, formalmente. Resta apenas uma referência do Padre Carlos Correia de Toledo ao denunciante Joaquim Silvério dos Reis, retificando ao irmão, sargento-mor Luís Vaz de Toledo, — que sentia haver falado em Gonzaga, porque era falso ter ele entrado na conspiração —; resta o depoimento de Alvarenga Peixoto, que o dá como presente a um conluio de conjurados, quando, estes mesmos, citados, o contestam; resta, finalmente, o depoimento de Cláudio Manuel da Costa, que narra conversas liberais, hipotéticas, em casa de Gonzaga, — onde o Tiradentes, quando aparecia, era mal recebido, e, anunciado, dizia Gonzaga ao criado "que o mandasse embora, que lhe não queria falar, que era homem que lhe aborrecia, e que um homem daqueles podia fazer muito mal à gente, pelo seu fanatismo; quanto a ele, Cláudio Manuel, "acha mais verossímil que "o ódio que conceberam a ele, o quisessem compreender com o Dr. Gonzaga, de quem era amigo". Aí está. Se todos os outros brasileiros, e o mesmo Tiradentes, a princípio, negaram, estando comprometidos, porque havia de o desembargador português Gonzaga declarar-se criminoso, quando era inocente?

O que há contra Gonzaga é a essência mesma da conspiração: a leviandade e a inconfidência. Para aliciar prosélitos, propalavam-se os nomes dos conspiradores; a posição de Gonzaga, vulto influente, poeta e magistrado, facilitava, para os fins da causa, que o desejassem entre eles e o dissessem um aos outros; e logo lhe davam a função de fazer as leis da nova república, senão de dirigir o movimento, como chefe da conspiração: o Padre Carlos Correia de Toledo declarou, penitenciando-se do falso testemunho "que dizia aos sócios da conjuração que este réu entrava nela, para os animar, sabendo que entrava na ação um homem de luzes e talento, capaz de os dirigir".


UM INCIDENTE AMOROSO

Gonzaga, em vez de apostrofado, injustamente, de covarde e miserável, pelos brasileiros de hoje, teria o direito de se queixar dos seus amigos brasileiros de então, que o envolveram numa conjura, impatriótica para ele, quando, galardoado com uma promoção, em vésperas de partir para o seu posto na Bahia, preparava-se para casar, todo dado a escrever liras sentimentais e até muito dado, no momento, à suave ocupação de bordar um vestido. A este refere-se Castro Alves: "Breve te enfeitarei com o vestido que bordei para minha noiva". Pereira da Silva, Joaquim Norberto, Homem de Melo, Araripe Júnior, Goulart de Andrade, também a ele se referiram. A origem do boato teria sido do próprio Gonzaga, numa das suas liras, o que podia ser ficção, e declaradamente no seu depoimento quando alega "estar entretido a bordar um vestido para o seu casamento". Alberto Faria, o erudito investigador, não quer entretanto que seja um vestido para a noiva e sim próprio, e por prova traz o depoimento de um afilhado do poeta, que o faz "ocupado a bordar um vestido que, dizia, lhe havia de servir dali a oito ou dez dias para o seu casamento". Este "lhe", = a ele, parece-lhe ao ilustre crítico, indubitável que se refere a Gonzaga, quando, entretanto, na comunidade conjugal, o que serve aos noivos serve-lhes a qualquer deles, conjugados que são no mesmo sentir e no mesmo querer. O caso tem importância literária, porque não se compreenderia bem a lira:

Pintam que estou bordando um teu vestido
Que um menino com asas, cego e louro,
Me enfia nas agulhas o delgado
O brando fio d'ouro.

Faria parte de sua conjectura, para emendar a versão corrente em

Pintam que estou bordando um meu vestido

Se fosse cabível a hipótese, isto é, o vestido seria para ele Gonzaga, não parece sem propósito contar o poeta, à noiva, incidente tão prosaico, façanha menos de jurisperito ou de namorado, que de modista ou algibebe? "Dela", o vestido, seria sim, mais natural, lhe referisse:

Que um menino com asas, cego e louro
Me enfia nas agulhas o delgado
O brando fio d'ouro.


LICENÇAS ROMÂNTICAS: FINALIDADE DE SOCIAL DO TEATRO

Onde Castro Alves deliberadamente deixa o trilho da história é na composição da figura do Visconde de Barbacena que, para a urdidura das paixões do drama, fez um apaixonado, movido, pela sensualidade e pelo ciúme, a perder o preferido da mulher desejada, quando é fato que o governador general da Capitania era casado, com filhos, vivia no seu retiro da Cachoeira do Campo e na administração fazia grande diferença, para melhor, do seu antecessor, o que até contrariou aos conjurados. Essa deformação do caráter histórico de Antônio Furtado de Castro do Rio de Mendonça, além de exigida pela situação dramática, talvez fosse uma imposição patriótica. Do mesmo jaez é a negregada figura de Joaquim Silvério dos Reis, português, delator da Inconfidência, a quem o poeta confere singular parecença com Iago, apenas um Iago "lial" na traição, a soldo da paixão alheia, em busca do próprio proveito.

Cláudio Manuel da Costa, velho vate clássico e arcádico, maior de sessenta anos, vagamente liberal, que não esperou ver talvez as utopias discutidas com amigos, germinarem na mente de inconsiderados e levianos, esse é rejuvenescido à idade das paixões, ardendo por Eulina, a musa do Glauceste Satúrnio, entretanto desesperançado e cético, como que preparado para o suicídio na cadeia de Vila Rica. Alvarenga Peixoto — passa, incidentemente, sem acentuação pessoal, nem vacilação de caráter, antes e depois da prisão, sobretudo sem alusão ao seu caso passional, o desta Bárbara Heliodora, heroína de tragédia, que merece, só ela, drama ou poema, dos quais um ato, ou um canto, já foi nobre e comovidamente escrito por Goulart de Andrade.

A grande novidade do Gonzaga, porém, não é nem o sonho de independência do Brasil, posto em cena, nem a república, entrevista em 1789 por poetas e visionários, e que outro poeta e vidente entrevia em 1867, mas a aspiração mais cobiçada por Castro Alves, em que não cuidaram sequer os Inconfidentes e que o Poeta dos Escravos soube aliar às outras, como se, profeticamente, quisesse exprimir que a causa da Monarquia no Brasil estaria aliada à da Escravidão. Esse drama patriótico da Independência e da República é, principalmente, um drama da liberdade em sua expressão mais lata, um drama da abolição no seu significado mais restrito. Para isso dois escravos entram em cena, manietados à revolução um, o outro à traição, porque o cativeiro, que lhes espoliou a vida e o sentimento, os tornou aptos para o crime e para a dedicação, como autômatos perigosos, e nefastos. Sem a escravidão, o drama de Castro Alves não seria possível, porque é dos sentimentos violentados de uma escrava que sobrevém a delação, que perde todos os conjurados. O sonho de liberdade se dissipará, porque a liberdade política não pode abandonar a liberdade civil. Conseguiu assim o grande abolicionista prender no mesmo elo as duas causas. Se a Independência viesse, como veio, seria incompleta sem a Abolição; e como esta tardava, sob a Monarquia, seria talvez mister apelar para a República... Está como a propaganda social se alçava à florescência de uma obra de arte.

Castro Alves, fugindo ao melodrama, por índole própria e por exemplo do seu mestre Hugo, só poderia no teatro achar essa fórmula dramática. Também a Hugo acharam intenções sociais nos grandes dramas Hernani, Le Roi s'amuse, Marion Delorme... que seriam proibidos, por mais de um governo. Castro Alves quando, em 68, leu o Gonzaga a uma assembleia de jornalistas e letrados, no salão de festas do Diário do Rio de Janeiro, que o aplaudiram e glorificaram, também teve, na mesma folha, quem perguntasse: "convém que o drama seja levado à cena, na quadra agitada que atravessamos? Respondo pela negativa. Há palavras que cumpre sopesar bem, antes de atirá-las ao meio das turbas. Liberdade, Revolução, eis duas dessas palavras. Dois instrumentos de renovação social; dois instrumentos de destruição social. Dois faróis que alumiam, dois que incendeiam. Cuidado. É insânia brincar às bordas do abismo". E o jornalista tem medo até de continuar: Não prosseguirei..." e muda do assunto, perigoso. O poeta, porém, não queria outra coisa — a propaganda. Mas, para servi-la, havia a obra de arte.

Não seria só Hugo, mas Schiller ou, muito antes, Shakespeare, que lhe dariam as receitas de um drama romântico. Com efeito, há aí uma paixão senil e luxuriosa de Barbacena oposta à lírica e jovem de Gonzaga, como no Hernani se opõe a deste herói à do velho tio de Doña Sol. Carlota, mascarada, e Maria, que se disfarça sob uma capa de bandido, estão nas regras românticas, como Francisco I, de estudante, e Branca, de cavalheiro, em Le Roi s'amuse. As coisas tem missões ocultas: é um crucifixo no Ângelo; uma cruz em Torquemada; um rosário serve de senha aos conjurados do Gonzaga. No D. Carlos, de Schiller, há uma exaltação liberal e republicana; no Júlio César, de Shakespeare, há uma conspiração, e o sopro oratório submerge a ação e o próprio lirismo, sob a eloquência, como no drama de Castro Alves. Vede que ele tinha razão de dizer de si mesmo:

... sou pequeno, mas só fito os Andes!

Há ainda o desrespeito intencional àquela regra das três unidades; cada ato, tais os dramas de Hugo, tem um título, como índice simbólico da ação. Além da ideia que o anima há sobretudo as tiradas, os discursos, as respostas enfáticas, que dão à prosa, pedestre na vida, sermo pedestris, já diziam os latinos, traduzindo os gregos, uma atitude monumental, que confina com a poesia heroica: e se isso é Hugo, Schiller ou Shakespeare, é bem Castro Alves, mais eloquente que eles. José de Alencar foi o primeiro a vê-lo: "sob essa imitação de um modelo sublime, desponta no drama uma inspiração original". "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos.

Demais, esses palavrões "de penacho" ou "palavras equestres" já foram denunciadas num precursor recuadíssimo do Romantismo, se é possível, o divino Ésquilo. Essa eloquência talvez hoje no teatro, adaptado à vida, como possibilidade ou verossimilhança, seja intolerável... é que o teatro romântico envelheceu, ou nós, realistas do tempo, somos desenganados, mas ainda hoje há cenas e discursos desse Gonzaga que dão um grande frêmito de entusiasmo ou arrepios trágicos de pavor, do mesmo efeito cênico ou literário. É a vingança do drama bem escrito, contra a peça bem vivida: esta representada comove, lida aborrece; como a representação é efêmera, a melhor parte cabe a esses dramas-poemas, de Ésquilo, Shakespeare, Schiller, Hugo, que serão sempre lidos e aplaudidos.


O DRAMA - UM INCIDENTE LITERÁRIO - ELOQUÊNCIA E POESIA.

O Gonzaga também merece leitura. Logo no I ato, entre Luís, o cativo a quem roubaram a filha e que a procura, e os conjurados, há cenas belíssimas, em que a emancipação domina a aspiração da liberdade política. À voz máscula dos homens, que discutem, como heróis antigos, mistura-se a cantilena de uma escrava, que geme distante:

Eu sou a pobre cativa
A cativa de além-mar.
Eu vago em terra estrangeira
Ninguém me quer escutar.

Tu que vais a longes terras,
Ó viageira andorinha,
Vai dizer a minha mãe
Que eu vivo triste e sozinha.

Mas dize a pobre que espere
Que o vento me há de levar
Quando eu morrer nesta terra
Para as terras de além-mar.

Citei estas três comovidas estrofes, para aludir a uma das mais petulantes intrujices literárias de que há memória em nosso país. Eunápio Deiró, o conhecido jornalista baiano, que foi contemporâneo do poeta, contou pela imprensa, muitos anos depois, em 1897, que ouvira a Castro Alves ler-lhe o seu drama e neste ponto o detivera. Que relesse as estâncias. O poeta replicara:

— Está parecendo que esta canção é a melhor coisa do meu drama.

— É obra sua? e original? indagou Deiró.

Castro Alves, surpreendido, como que se escusava:

— Não é plágio...

— Sim, não se tratava disso. Conhecia alguma coisa nesse gênero? Nunca lera as obras de André Chénier?

Castro Alves afirmou que não o conhecia e era a primeira vez que ouvia falar nesse poeta e em seus versos. Deiró diz que, da estante, retirara um volume e dera-o a ler ao poeta. Terminada a leitura, empalidecera, sorrira, e murmurara:

— A ironia das desilusões é sempre amarga e triste. Julgava-me o autor desta canção, e eis-me um plagiário!...

É inqualificável tamanha intrujice, ao lado de tanta ignorância! Deiró quis fazer crer aos seus leitores de 97 que convencera a Castro Alves de ter imitado ou plagiado La jeune captive, de Chénier, nove estrofes de seis versos, com a sua canção da escrava, três humildes quadrinhas ao gosto popular, as quais só têm de comum uma palavra, uma só, a palavra "cativa"!

Mais a jovem prisioneira de Chénier era uma fidalga, fora uma duquesa, Aimée de Coigny, detida pela Revolução e destinada ao cadafalso, o que o poeta lastima, dando-lhe voz às lágrimas:

Au banquet de la vie à peine commencé
Un instant seulement mes lèvres ont pressé
La coupe en mes mains encor pleine,

situação, em nada, absolutamente em nada comparável à de uma desgraçada escrava, desterrada em terra estrangeira e que só espera volver ao seio materno, quando, enfim, a morte a libertar. Xavier Marques, que primeiro defendeu Castro Alves desta ridícula aleivosia, lembra que seria incrível não conhecesse o poeta a Chénier e a esses seus versos, constantes em todas as seletas de ensino. Nas obras, ora publicadas de Castro Alves, há duas vezes citações precisas do nome de André Chénier — e da frase — j'ai quelque chose là — que as conhecia, portanto, alguns anos antes do Gonzaga, em 1864. O mais admirável é que os não conhecesse um velho jornalista, que assim depunha da própria insciência e atestava, tão cabalmente, a triste inveracidade de suas reminiscências.

No II ato manifestam-se os conjurados com a têmpera de caráter que o poeta lhes conferiu: Cláudio, cético; Gonzaga, apaixonado; dissimulado e arteiro Barbacena, heroico e abnegado Tiradentes: as cenas entre o alferes Xavier e o capitão-general, e entre este e Maria leem-se, ainda hoje, com profunda emoção.

A ação que se prepara tem a sua perfeição no III ato em que os revolucionários são traídos: aí é nobilíssima a cena, em que, podendo um deles salvar-se com a senha e o sinal, todos se esquivam nobremente, e quando a sorte escolhe Gonzaga e este também evita a ventura que o privaria do martírio, pesam-se os afetos e é Maria quem decide com o seu egoísmo de amorosa, alegando, além da vida a salvar, ainda mais, a salvação da honra... Luís reconhece por fim a filha, esta encontra finalmente o pai, quando já o traíra e aos seus parciais, exatamente para o achar: como se não fora bastante a tragédia íntima, mata-se para evitar a corrupção na senzala, que seria o seu castigo. Antes do sangue de Tiradentes, é o seu, derramado pela Revolução; a causa da abolição do cativeiro precede assim, no martirológio, à da liberdade política.

Finalmente, o IV ato, de "agonia e glória", é o desenlace, é a apoteose. Barbacena é confundido na sua cavilosa intriga e vinga-se dos amantes, que se reconhecem fiéis no martírio, como o foram na esperança, com a prisão e o desterro de Gonzaga. O monólogo do poeta na masmorra é uma página eloquente, na qual as antíteses românticas, aquele jogo hugoano de trágico e burlesco tem uma sublimidade de modelo ou exemplo do gênero.

Ela nos vai dar amostra da eloquência de Castro Alves:

GONZAGA ()
Prisioneiro de Estado!... Eis o que eu sou?... condenado à morte!... eis o que serei... Hoje a masmorra — amanhã a cova... Dilema terrível! Uma boca de pedra que tem fome de um cadáver — Uma boca de granito que tem fome de uma alma! Oh! mil vezes a cova!... Ela é fria, negra, solitária, imunda... mas o defunto é mais frio, mais negro, mais imundo... É um par igual — uma pedra e um osso. Mas a prisão?!... — Deus fez a cova — o homem fez a masmorra! É uma coisa que vos esmaga, vos ouve, vos vê; sem vos apertar, sem vos escutar, sem vos olhar. E a imobilidade é o frio, é a estupidez, é a morte abraçando, rodeando, aniquilando a atividade, o fogo e a vida... Dir-se-ia que o homem é uma mosca dourada debatendo-se na garganta de um sapo morto!!... Olha-se — é a cegueira! — canta-se — é a surdez! — Grita-se — apenas algum morcego voa como uma ideia negra pela fronte da abóbada! Chora-se — e a lagrima transforma-se em lodo no chão. Então um pensamento estranho, mão fria... uma dúvida visionária, mas terrível, passa pela cabeça do homem, que diz com um riso de louco: "Quem sabe se eu já morri?!..." mas, para convencer-se, faz tremendo alguns passos — nada ouve... o chão é úmido... Espantado encosta-se à parede — ela é gelada, mas seu peito ainda é mais... "Eu estou tão frio como um defunto, murmura passando a mão pelo rosto — o que ele toca é uma caveira... "Ah!" clama o desgraçado, cai sobre a lájea mais estúpido que ela... Então escuta... escuta... escuta!... Começa a ouvir um ruído surdo em seu peito, e uma coisa que se agita lentamente em seu cérebro... — É o verme que rói aqui (leva a mão ao coração), é a larva que morde cá! (leva a mão à cabeça). Sim, desgraçado! É o desespero que se apascenta no coração, é a loucura que mastiga o cérebro, é a alma que apodrece... Desesperar! enlouquecer! apodrecer! eis meu destino. Oh! é horrível! É o pesadelo do cataléptico... Lá fora está a vida, um punhado de homens que rasgam, rindo, minha mortalha, que preparam os círios de minha agonia, as tochas de meu saimento. E eu os escuto... quero gritar! mas parece que a voz sai da garganta. — Eles continuam a falar pacificamente... Cá dentro um outro diálogo ainda mais sombrio — "Eu tenho frio, diz a pedra — Eu tenho fome, diz a terra — Esperemos, ele nos virá aquecer e saciar!" E eu, que os escuto, quero fugir; mas a imobilidade me agarra, enquanto elas continuam a conversar na sombra!... Ah! eu não tenho medo de morrer!... mas não aqui — sentindo a escuridão e o silêncio em torno de mim... e sobre minha cabeça este outro fantasma ainda mais negro — o esquecimento!... Não, eu não sou o réptil que morre no charco, nem o fogo fátuo que se extingue no pântano... Eu quero a praça, o povo que turbilhona, a acha que cintila, o sol que resplandece... Eu quero também o meu cortejo, o cortejo da minha realeza de mártir... Lá, sim, eu quero morrer!...

Depois é o despeito de Barbacena, é Silvério desgraciado, é Gonzaga conduzido ao exílio, mas resignado porque é correspondido no seu amor e por ele esperançado até a terra ou até o céu. O governador desespera porque "eles são ainda mais felizes na sua desgraça", do que ele "na sua vingança". Eis o castigo!

Para em tudo acabar romanticamente, isto é, contra as leis naturais da realidade e da verossimilhança, Maria, tomada de um delírio patriótico, esquece a si própria, ao próprio amante, e, contra o público, recita um daqueles épicos poemas de Castro Alves, que sacudiam as multidões e as tornava comovidas e delirantes:

Desgraça! Eis tudo o que resta
Da raça dos Prometeus!
Um mundo — sem liberdade
Um infinito — sem Deus!
No dorso das cordilheiras
Batem rijas agoureiras
As marteladas do algoz

É o carrasco, negro, imundo,
Pregando o esquife do mundo
No seu sudário de heróis...


O GONZAGA LIDO, REPRESENTADO E ACLAMADO

Escrito o drama em fevereiro de 67, terminadas as férias, como as aves de arribação, "foram-se os passarinhos e os amantes". Castro Alves e Eugênia Câmara deixaram o Recife e embarcaram para a Bahia, onde a atriz se engaja na Companhia que trabalhava no teatro de São João, e onde cuida de levar à cena o Gonzaga. De fato a 7 de setembro de 67 foi o drama representado pela primeira vez, cabendo o papel de protagonista a Lapa Pinto, um poeta e funcionário público, e o de Maria a Eugênia Câmara. Na sala repleta e acalorada recitaram-se versos do poeta, coroado em cena aberta, no delírio da turba que o conduziu sob ovações até a casa. Ele mesmo o narra em carta a Augusto Álvares Guimarães: "No dia 7 de setembro tive um triunfo como não consta que alguém tivesse na Bahia". Entretanto dessa representação ficaria a Castro Alves a impressão que fora "uma caricatura", como mais tarde dirá ao ator Joaquim Augusto, a qual lhe dera "ímpetos de atirar ao fogo o drama, como as mães da China o fazem aos filhos monstruosos".

No Rio, em 68, por onde passou, apresentado a Alencar e a Machado de Assis, recebeu destes animação e aplausos. "Há no drama Gonzaga exuberância de poesia", escreveu o primeiro; "a sobriedade vem com os anos", quando um dia reler a sua obra, o poeta "há de achar um drama esboçado em cada personagem". O outro conveio: "O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.

O público, além desses juízos, teve a notícia da leitura na redação do Diário do Rio de Janeiro perante uma assembleia que bastaria por si só para glorificar a estreia de um poeta; e de fato foi um verdadeiro capitólio de onde saiu laureado o Sr. Castro Alves que nessa noite nos proporcionara a leitura do seu drama-poema Gonzaga.

Não se contentou com isso o poeta e quis sua obra vivida pelo maior ator brasileiro do tempo e pleiteou por carta a Joaquim Augusto essa representação, em São Paulo, perante uma plateia de moços, só eles capazes de o compreenderem. Assim foi e a 25 de outubro de 68, no Teatro de São José foi levado à cena o Gonzaga, declarando o anúncio ser a "primeira" representação. Joaquim Augusto e Eugênia Câmara tinham os primeiros papéis.

O crítico do O Ypiranga, o jornal liberal de Salvador de Mendonça e Ferreira de Menezes, dizia a 27: "Recebido pelos espectadores com todas as honras do triunfo, já apresentado com elogio por grande parte da imprensa do Império... o que pudéramos dizer já todos sabem e já o nosso público sancionou na prova solene da exibição cênica... o 3º ato, o mais belo e perfeito acorda o coração do espectador e acende-lhe na cabeça ideias fortes e varonis. Os adeuses dos conjurados a Gonzaga constituem uma cena das mais tocantes a que temos assistido em teatro".

Não escapou ao crítico a significação heroica daquela eloquência, que não seria da vida trivial como a realidade nos oferece, mas a da idealização simbólica, como o exige a propaganda das grandes causas sociais. "Todas aquelas figuras parece que falam de um pedestal: por ventura as esboçou assim o autor, teve na alma as harmonias da Marselhesa, e viu passar-lhe pelos olhos em caminho do cadafalso os vultos dos Girondinos saudando a posteridade... Em conclusão, o melhor elogio que possamos fazer ao Sr. Castro Alves é que não pudera ser obra senão de uma alma livre e não ser feita senão para um povo de homens."

Castro Alves previra esse êxito e até o preparara, escolhendo o seu público. A Joaquim Augusto, na carta em que se empenhava por essa representação escrevera: "O meu trabalho precisa de uma plateia ilustrada. Precisa talvez mesmo de uma plateia acadêmica. O lirismo, o patriotismo, a linguagem, creio que serão bem recebidos por corações de vinte anos, porque o Gonzaga é feito para a mocidade. Mesmo talvez este desnortear-me do trilho e estilo seguidos lhe seja um mérito perante tal público."

E foi; a mocidade de São Paulo teve um estremeção de patriotismo e de esperança, ouvindo um vate que era como o profeta da liberdade tanto dos cativos como dos homens forros mas submissos à Coroa, núncio da Abolição e propagandista da República. Por isso, a ele a quem já haviam chamado o "Poeta dos Escravos", um dos seus grandes condiscípulos, Joaquim Nabuco, chamaria o "Poeta republicano do Gonzaga".

Castro Alves, com a consciência que lhe dava o orgulho do gênio, devia sorrir satisfeito ao seu destino breve, mas cumprido. Parafraseando Hugo, vê-se que a evolução poética da humanidade tem também a sua lei dos "três estados" ou períodos, ou épocas: a idade lírica, os tempos primitivos ou a adolescência; a idade épica, os tempos antigos ou a mocidade; a idade dramática, os tempos modernos ou a idade viril. Em poucos anos, porque lhe sobrara engenho e generosidade, o poeta endereçara aos delicados e sensíveis os mais suaves cantos ao amor e à natureza; havia sacudido e arrepelado multidões com as odes mais vibrantes de entusiasmo comunicativo pela Abolição e pela República; e agora perfazia o ciclo encantado, consagrado no teatro, grande tribuna moderna, grande escola popular, para ele um templo e um altar, onde o seu gênio oficiava pela causa santa do Bem e da Liberdade!


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Referências bibliográficas a icnográficas:
Afrânio Peixoto: "Castro Alves - O Poeta e o Poema". Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016.
Castro Alves: o olhar do outro. Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 1997.
Site: http://objdigital.bn.br (Biblioteca Nacional Digital)

Site: http://memoria.bn.br/ (Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Brasil)

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