sábado, 10 de março de 2018

Castro Alves: o lírico do amor e da natureza (Ensaio)


Castro Alves: o lírico do amor e da natureza

A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa o Amor e a Natureza...
Castro Alves

Natureza, eu voltei, e eu sou teu filho!
Castro Alves

Um dia, Castro Alves se quis definir através de uma citação de Henrique Heine; foi na epígrafe da Cachoeira de Paulo Afonso: "a poesia, seja qual for o meu amor por ela, foi sempre para mim apenas um meio, consagrado a um santo objetivo... Nunca dei grande apreço à glória dos meus poemas; pouco me importa que os louvem ou censurem... O que eu fui, foi um bravo soldado na guerra de emancipação da humanidade". Assim ele pensava, assim o acreditavam os seus contemporâneos, assim até agora insistem em o julgar a maioria dos sufrágios de seus admiradores e até o maior número dos seus críticos e apologistas. Mas o mundo anda, as causas sociais passam, enquanto o sentimento subsiste e se os Châtiments de Hugo quase já não são lidos, de Heine o que se lerá sempre será o Intermezzo.

Aqui a campanha da Abolição teria em 71 o seu primeiro triunfo, que ele previra, suplicando,

Senhor Deus, dá que a boca da inocência
Possa ao menos sorrir
Como a flor da granada abrindo as pétalas
Da alvorada ao surgir.

para conseguir todo e definitivo em 88, como confiara

Moços, creiamos, não tarda
A aurora da Redenção!

No ano imediato alcançaria o Brasil a primeira e alta reforma que lhe permitiria todas as outras:

República, voo ousado
Do homem feito condor!

Se vivesse ate nós, Castro Alves teria encerrado o seu apostolado, deposto as armas, e em vez de "trompa bronzeada" com que lhe imaginou a musa Raimundo Correia, tomaria a divina lira só afinada para os cantos ternos e íntimos, comovidos e comunicativos que ele tantas vezes entoara e que no seu entusiástico clangor e na sua fúria sonorosa abafaram as odes revolucionárias e os poemas sociais.

OS SENTIMENTOS RELIGIOSOS

Não viveu, mas, passando o tempo, trabalhou por ele, e quando em nossa lembrança desmereceu a emoção daqueles combates, foi da memória emergindo a comoção mais profunda e duradoura do outro poeta que ele era, e Castro Alves nos aparece agora ainda maior, porque é o nosso maior lírico, o nosso grande lírico da natureza e do amor. Não quero, porém, que me acrediteis sem provas; haveis-vos de convencer, ouvindo, afinadas, todas as cordas do seu lirismo, sem par no Brasil.

Foi Castro Alves religioso, de um deísmo liberal, como o que o Século XVIII legara ao XIX, entre a negação científica, que se pronunciava neste, e a reação ultramontana que lhe fez face e continuava a reação católica:

Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz. É Deus.

Dessa imagem graciosa ele passa a outra, mais atrevida: Deus é animador e fecundante da própria obra :

Deus fala, quando a turba está quieta
Às campinas em flor
Noivo — Ele espera que os convivas saiam,
E n'alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura — amor!

ou, se é preciso, ainda antropomorfizado, é um filósofo ou sociólogo progressista, animador à energia:

Trabalhar! brada nas sombras
A voz imensa de Deus
Braços, voltai-vos p'ra terra
Frontes, voltai-vos p'ra os céus...

sem os medíocres ciúmes de sua própria obra, como nos faz crer a moral dos homens:

Deus não corta a roseira porque medra...

entretanto que tudo predetermina, nuns fatalismo evolucionista, sem exceção:

...Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus:
Os raios tombam, as estrelas sobem,
Lutar com a sorte — é combater os céus...

A sua religiosidade governada pela imaginação, como das ideias de Hugo disse Renouvier, assume um aspecto grandioso, como se a natureza inteira rezasse louvor ou penitência ao seu Criador:

Na hora em que a terra dorme
Enrolada um frios véus,
Eu ouço uma reza enorme
Enchendo o abismo dos céus

Nos boqueirões há soluços...
Tem remorso o vendaval...
O mar se atira de bruços
Com a barba pelo areal

As nuvens ajoelhadas
Nos claustros ermos e vãos
Passam as contas douradas
Das estrelas pelas mãos...

Há luzes fosforescentes
Acesas pelos marnéis
São as larvas penitentes
Rezando pelos fiéis.

Monstro e anjo a noite agrupa
No pedestal da oração...
Quem sabe se a catadupa
Bate nos peitos do chão?

Reza tudo que tem boca
Cheio de graça ou terror
O ninho — junto da toca
Ao pé da cratera a flor!

Só, enquanto a reza enorme
Reboa pela amplidão
Como Loth... — o homem dorme
No colo da criação!

Desse "panteísmo", que testemunha entretanto, paradoxalmente, de um só Deus, há um sublime poema em versos difíceis, O Vidente, que é a mais formosa poesia religiosa escrita no Brasil:

Ouço os astros cantar no mar do firmamento;
No mar das matas virgens — ouço cantar os ventos
Aromas que se elevam, raios de luz que descem,
Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem
Tudo me traz um canto de imensa poesia
Como a primícia santa da grande profecia;
Tudo me diz que o Eterno na idade prometida,
Há de beijar na face à terra arrependida.
E desse beijo santo, desse ósculo sublime
Que lava a iniquidade, a escravidão, e o crime,
Hão de surgir virentes nos campos das idades,
Amores e esperanças, glórias e liberdades.
Então, no êxtase santo, escuto a terra e os céus.
E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

Hugo e Junqueiro, só eles alcançariam tamanha altura de inspiração religiosa; Lamartine ou Antero de Quental se honrariam em assinar aqueles versos, Pelas sombras, dos mais belos poemas das Espumas Flutuantes, em que o poeta volve à condição desamparada, do homem sem a fé, tateando na escuridão:

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante
A treva me assoberba... Oh Deus! dá-me um clarão!
E uma voz respondeu nas sombras triunfante
Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!

Senhor! ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna
Mas quando os vendavais rugindo, passam n'alma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva
Eu via-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.

Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Que fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na frente do oceano — ascende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante
Deixaste assoberbar-me essa funda escuridão!

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante,
"Acende ó Viajor! — a Fé no Coração!

A razão materialista fará luzes que acendam claridades à treva exterior no caminho do homem, no mundo... "mas ai! a treva interna — a dúvida constante", quem a pudera expungir, para alentar o caminhante da vida, na confiança e na certeza, para viver?

"Acende ó Viajor! — a Fé no Coração!"

Se à Igreja negou o poder temporal, e antes de 70, foi para desejar-lhe o retorno à tradição cristã, onipotente porque sem poder oficial, rica dos pobres que acolhia:

Quebre-se o cetro do Papa
Faça-se dele uma cruz.
A púrpura sirva aos pobres
P'ra cobrir os ombros nus.

mas não lhe negou nunca a missão divina das almas pela civilização cristã da catequese. Outro de seus poemas, épico pelo heroísmo de tom e das ideias é esse d'Os Jesuítas:

Homens de ferro! Mal na vaga fria
Colombo ou Gama um trilho descobria
Do mar nos escarcéus,
Um padre atravessava os equadores,
Dizendo: "Gênios! Sois os batedores
Da matilha de Deus!"

Depois as solidões surpresas viam
Esses homens inermes, que surgiam
Pela primeira vez.
E a onça recuando s'esgueirava
Julgando o crucifixo... alguma clava
Invencível talvez!

O martírio, o deserto, o cardo, o espinho
A pedra, a serpe do sertão maninho
A fome, o frio, a dor,
Os insetos, os rios, as lianas,
Chuvas, miasmas, setas e savanas
Horror e mais horror...

Nada turbava aquelas frontes calmas,
Nada curvava aquelas grandes almas
Voltadas p'ra amplidão.
No entanto elas só tinham na jornada
Por couraça — a sotaina esfarrapada...
E uma cruz — por bardão.
..........................................
Grandes homens! Apóstolos heroicos
Eles diziam mais do que os estoicos;

Dor — tu és um prazer!
Grelha, — és um leito! Brasa — és uma gema,
Cravo, — és um cetro! Chama — um diadema
Ó morte — és um viver!

Outras vezes no eterno itinerário
O sol que vira um dia no Calvário
Do Cristo a Santa Cruz,
Enfiava de vir achar nos Andes
A mesma cruz, abrindo os braços grandes
Aos índios rubros, nus.

Eram eles que o Verbo de Messias
Pregavam desde o vale às serranias,
Do Polo ao Equador...
E o Niágara ia contar aos mares...
E o Chimborazo arremessava aos ares
O nome do Senhor!

Não terá sido das mais singulares adivinhações de Castro Alves, ele que fez tantas profecias, como vate e vidente, que era, que a dessa imagem, quarenta anos depois dele feita uma concreta realidade, entre dois mares, aproximando dois mundos para que de outros climas e de todas as crenças venham homens achar nas terras da América

...nos Andes
A mesma cruz abrindo os braços grandes...

Para Cristo só achou Castro Alves na terra um pedestal, e a posteridade lhe ratificou a escolha, dando à sua imagem a representação adequada — Cristo nos Andes!

LIRISMO CÓSMICO

Essas imagens, de alcance moral tão surpreendente, têm, vezes sem conta, tal grandeza na eloquência desmedida e entretanto perfeita, que me acode chamar a esse de Castro Alves — lirismo cósmico.

São mais que "palavras equestres", como as de Ésquilo, são imagens-meteoros, são comparações siderais, são metáforas-relâmpagos, que resumem céus, mundos, auroras, vendavais, luares ou crepúsculos, em alguns termos breves, exatos e felizes:

Calcinado aos relâmpagos da glória...
........................................
O pensamento indômito, arrojado
Galopa no sertão.
........................................
...com o sol — pena de ouro — eu escrevia
Nas lâminas do céu.

A amplidão celeste, essa "amplidão", e esse "infinito" de que tanto ele abusou, é

Cúpula imensa de um sepulcro enorme...
........................................
Desperta o infinito... Co'a boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
.............................................
E tinha nos olhos fulgor de meteoros
Um céu de procela no escuro cabelo.
.............................................
E o mar — corcel que espuma ao látego do vento...
.............................................
Vagas! Dalilas pérfidas
Moças, que abris um túmulo,
Quando de amor no cúmulo
Fingis nos abraçar.
.............................................
Morreste... E ao teu saimento
Dobra a procela no céu
E os astros — olhar dos mortos
A mão da noite escondeu...

Se o tom baixa algumas oitavas, e já não é a fúria sonorosa ou a gravidade apreensiva, mas a observação pinturesca, a fantasia deleitosa, nem por isso, esse lirismo cósmico é menos admirável.

Como um negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola o teu cabelo...
.............................................
As trevas rolam como as tranças negras
.............................................
...Iam caindo
Dos dedos do crepúsculo os véus de sombra
Com que a terra se vela, como noiva
Para o doce himeneu das noites límpidas

Como a modéstia e o pudor que se escondem, e escondem a grandeza,

Também o espaço esconde-se entre névoas
E no entanto é... sem fim!
..........................................
...a tarde, quando o sol, condor sangrento
No ocidente se aninha sonolento
Como a abelha na flor...
..........................................
...Do céu azul a cúpula azulada
Como uma taça para nós voltada
Lança a poesia a flux!
..........................................
A terra é como inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento
Cujo cális pendeu!
..........................................
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela como um fruto louro

O poeta, no entanto,

Pega da lira... canta, uma canção de amor
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de languor...

Nem em Hugo antes dele, nem em Junqueiro depois — os dois poetas do século que se recordam, lendo Castro Alves, nenhum deles teve dessas imagens nem tão profusas, nem tão belas, dessa magia cósmica da natureza. E tão perfeitas são, que, uma vez lidas ou ouvidas, nunca mais se as pode esquecer. Confesso-vos que, se me vejo a sós no campo escuro, numa dessas maravilhosas noites estreladas em que a gente sente a misteriosa palpitação da vida também no céu, dois grandes poetas me lembram... Um é Corneille, que lhes definiu a "obscura claridade":

L'obscure clarté qui tombe des étoiles...

o outro é Castro Alves, que lhes contou a profusão, a forma, o brilho ou oriente, as variedades de tamanho e uma languidez romântica em que tremeluzem, a inconstância da cintilação:

As estrelas no céu cintilam lânguidas
Pérolas soltas de um colar sem fio...


SINCERIDADE DE EXPRESSÃO: IMPRESSIONISMO SUGESTIVO

Um problema de estética que interessa principalmente à arte literária é este da definição própria ou vaga do que se quer descrever. Buffon, no seu célebre discurso sobre o estilo, aconselhava a não chamar às coisas senão pelos "termos mais gerais", preceito que adotado no Século XVIII deu uma literatura perifrástica, frouxa e bamba, antes envolvendo e dissimulando, do que pintando e definindo. Entretanto a doutrina clássica era em tudo contrária a esses arrebiques e disfarces; censurava Pascal: "os que mascaram a natureza"; queria Fénelon que se chamassem "às coisas pelos seus nomes; Boileau era incisivo, impondo que se devia chamar "um gato" a "um gato"; finalmente, La Bruyère resumia essa estética, dizendo que o mérito de um autor "consiste em bem definir, e pintar bem... exprimir a verdade, para escrever naturalmente, fortemente, delicadamente". Mas a expressão exata da verdade pode chegar a tão fina minúcia e tão complexa, que, ao invés de sugestão perfeita da realidade, dê notação difusa e confusa do objeto descrito. Foi o que aconteceu à estética do naturalismo, que, em vez de reproduções da vida nos dava inventários exaustivos das qualidades e impressões da vida. Vigny acertara entretanto, definindo: l'art, c'est la vérité choisie; Taine viria a insistir em história e crítica, no petit fait caracteristique. Louvou a Tolstoi, Merejkowski, por um prodígio de sua arte, que consistia em lograr profundos efeitos realistas, não com intermináveis descrições reprodutivas, mas apenas com a acentuação firme e exata de pequenos incidentes ou reparos materiais, os quais melhor definem uma situação ou um objeto de que epítetos repetidos e circunlóquios perifrásticos. A arte de Castro Alves, devia dizer o seu gênio espontâneo, porque

 não há tratado de estética que isto ensine, se não é do gosto e da índole, tinha esse dom maravilhoso:

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

Quereis em menor número de palavras pintura mais acabada de um interior, uma mulher que dorme descuidada, numa rede que oscila brandamente, entremostrando o colo pelo decote, os cabelos soltos e o pé descalço a roçar a fímbria da tapeçaria? Entretanto, as palavras são as mais exatas e insubstituíveis na sua precisão, é a "verdade", mas "escolhidas" para o efeito.

Por mim eu sei que há confidências ternas
Um poema saudoso, angustiado
Se uma rosa de há muito emurchecida
Rola acaso de um livro abandonado.

Este simples fato, "pequeno fato característico" — uma flor murcha que acaso cai de um livro — não contará todo um romance, não sugere logo confidências ternas, mais impressivas do que um longo poema de amor? Ela, a amada partiu há pouco e, apesar da saudade que cresce e aumenta com os minutos de ausência, ainda está tão viva a sua presença querida, que

Inda a almofada em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala.

A timidez dos jovens ao amor não se definiria senão por um livro de psicologia sentimental: pois bem, num verso a define Castro Alves quando diz, em intenção à amada, que não o saberá talvez nunca,

Que tremia ao roçar do teu vestido...

Entretanto, a essa timidez sensual não escapa o tormento de um colo opresso, — quem o pudera libertar! —

E o seio que palpita a rebentar a seda...

Que não será a maravilha desse colo, desejado pela própria luz, quando, despindo os adornos e roupagens,

N'alcova onde a vela ciosa... crepita...

Mas, nem assim será despida: há de resguardá-la um halo aromado:

O perfume é o invólucro invisível
Que encerra as formas da mulher bonita.

Confesso que essa ideia, ou essa imagem, de vestir com uma túnica de perfume à bela criatura amada, deve a ela ser mais sensível, a seu pudor, do que a ousadia oposta de Eugênio de Castro:

Embora, senhora andeis
De finas telas vestida
Por meus olhos sois despida...

Se muda o cenário, e de aristocrático se faz humilde, a notação do poeta não é menos exata

A grama um beijo te furta,
Por baixo da saia curta
Que a perna te esconde em vão.

Lembra aquela trova popular de Espanha:

Quisiera ser zapatito
De tu diminuto pié
Para ver, en ocasiones,
Lo que el zapatito vé...


EXPRESSÃO EXATA E IMPRESSIONISMO EVOCATIVO

Este assunto, da notação realista e exata, do poeta, nos traz outros, sem sair dele, dois outros casos de estilo. Reprocharam a Vítor Hugo, muitas vezes, na incontinência, a banalidade dos adjetivos; a Guerra Junqueiro, também rico e perdulário, a incoerência deles sem seriação nem progresso, ascensão ou declínio previsíveis, como um capricho, senão do ritmo ou da rima, ao menos de toda ausência de lógica. A Castro Alves essa culpa não caberia, nem nos qualificativos nem nas ações verbais, sempre rigorosamente exatas. É a "Deusa Incruenta", a Imprensa, que aparece, e a sucessão dos qualificativos é lógica, como a das ações verbais:

Quando ela se alteou das brumas da Alemanha
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha
Na dextra suspendendo a estrela da manhã
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes,
Das cimas do Peru às grimpas do Indostan.

Mirabeau investe titânico contra a Bastilha e o antigo regime:

Eriçado, feroz, suado, monstruoso
Magnífico de horror, divino, proceloso...

Se a amada canta, o poeta anota:

Depois suave, plena, harmoniosa
Uma voz de mulher se alevantava,
E o pássaro inclinava-se das ramas
E a estrela do infinito se inclinava.

Ainda outra voz, ou essa mesma:

Na voz clara, sonora, ardente, larga, extensa
Escada de Jacob — prendia a terra aos céus.

Se estes adjetivos se ordenam expressivos e seguidos, que dizer dessa notação fiel, ondeante, verista na sua exatidão cinemática?

Quando a sangrenta luz do alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge
Como uma alma a penar...

Castro Alves, se era um visual, era também um auditivo: os versos e as imagens que depõem por esses seus apanágios de sensação dariam para um curioso estudo de psicologia. Ele sabia pintar, não só desenhando com habilidade, como colorindo com viveza: tenho à vista provas disto! também tocava e gostava de ouvir cantar: a Agnese Murri, cuja bela voz lhe foi um dos últimos encantos, às mãos e ao piano de sua irmã Adelaide, ficaram versos preciosos que o atestam. Mas, nos seus poemas, as provas, por inesperadas, e não acinte, são mais interessantes. Muitas de suas poesias poderiam ser desenhadas e coloridas: são quadros de gênero, são paisagens e cenários reais. As Aves de arribação, A Queimada, Uma página de Escola Realista, veem-se. Vede se não sentis esta cena, como se pudésseis dizer, tal um outro poeta "vi claramente visto", essa evocação de uma aventura apaixonada numa "noite cúmplice", quando o luar escorre na caliça alvadia das paredes, e no balcão, fugindo talvez desataviada ao leito, Julieta ou Roxane, esperam uma prova de amor:

Como o gênio da noite, que desata
O véu de rendas sobre a espádua nua
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata...

O seio virginal, que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
Preludia um violão na serenata!

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-se os suspiros, Marieta!
Oh, surpresa! Oh, palor! Oh, pranto! Oh, medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!

Nesse quadro admirável o visual debuxou o desenho, mais foi o auditivo que lhe deu a harmonia íntima: ouvem-se lá fora os passos "furtivos" que morrem no lajeado da rua; resvala do balcão a escada que sobe Romeu; morrem abafados nos lábios cautelosos os beijos que de outras ocasiões cantam uma música feliz:

Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão, discreta...

CULTO DA FORMA E AMOR DO SENTIMENTO 

 
Não é admirável? Sobretudo, porque em tudo se antecipou Castro Alves, como acontece com os gênios a seu tempo, não em ideias sociais e políticas, como ainda em estética. Alberto de Oliveira, com a autoridade de grande poeta e de príncipe dos nossos parnasianos, já lhe conferiu a primazia, em data, sobre Gonçalves Crespo, havido por Veríssimo, como o nosso primeiro parnasiano: as Miniaturas foram publicadas um ano depois das Espumas Flutuantes.

Castro Alves, o romântico hugoano atingia a era seguinte, do culto da forma, como os românticos Banville e Gautier se misturaram aos Lecomte de Lisle e Herédia, do Parnaso, como se fora aqui o traço de união entre as gerações de Álvares de Azevedo e Fagundes Varela, de um lado e a de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, do outro. Por prova, mandariam José Veríssimo e Luís Murat ler às Vozes d'África em que reconheceram aquela perfeição de forma; nós preferimos seguir Alberto de Oliveira citando um soneto, o mimo preferido desses cinzeladores de mármore e ouro... Este tem algo daqueles primores exóticos, no espaço e no tempo, de Gautier e de Herédia, com uma alma que nem sempre puseram nos seus:

Vem! no teu peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa caxemira
Como as Judias moles do Levante.

Alva a clâmide aos ventos — roçagante...
Túmido o lábio, onde o psaltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas não... Brisa da pátria, além revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa...

Qual nas algas marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro.

Mas o "parnasianismo" era uma estética não só de forma sintáxica e métrica perfeita, como de contexto impassível.

Est elle en marbre ou non, la Venus de Milo?

à qual se havia de substituir outra poética reacionária, de metros diversos e bizarros, às vezes sintaxe descuidada, mas de alma comovida e profunda, a qual Verlaine, que definira a outra e dela foi trânsfuga, viria também a definir na sua arte poética:

De la musique avant toute chose...

Se o parnasiano é visual, o simbolista, o decadente, o verlainiano é auditivo... Castro Alves visual, como auditivo, antecedeu ao Parnaso, como à poesia verlainiana. Como neste soneto a Ester se misturam delicadamente as impressões desses sentidos, elas se misturam também vivamente no quadro e na orquestração da A Queimada.

...Já de listrões vermelhos
O céu se iluminou,
Eis súbito, de barra do ocidente,
Doido, rubro, veloz, incandescente,
O incêndio que acordou!

A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
Espantado a gritar...
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas
Galopando no ar.

Mas as notações auditivas mais puras são nos quadros íntimos. O murmúrio da cidade, essas ilhas de ruído e torvelinho, em meio da natureza, ouve-se de longe, n'amplidão do campo solitário, como:

Som vago que gagueja em meio à imensidade

No silêncio e na solidão, as horas se estiram indefinidamente:

As horas passam longas, sonolentas...

Às vezes pesam, apavorantes:

Parei... volvi em torno os olhos assombrados...
Ninguém! A solidão pejava os descampados!

Albert Samain, um simbolista, não anotaria mais fielmente:

Le silence est si grand que mon coeur en frisonne...

Nesta placidez do deserto até os sons ajudam a emoção da soledade:

Ouviam-se, alongando a paz dos ermos
Os sons doces, plangentes, de um piano...

Na solitária casa paterna, ouve e revê o passado com a lembrança

Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão
Fala-me o teu silêncio — ouço-te a solidão.

No jardim familial, ora triste e abandonado:

Oh jardim solitário! Relíquia do passado
Minh'alma como tu é um parque arruinado!

Não é uma precursão, e mais dolorosa, daquele simbolista lusitano, Eugênio de Castro:

Casas abandonadas, minhas irmãs!?

Eu prefiro o outro Castro, e o repito, porque é um estado de alma em dois versos:

Oh jardim solitário! Relíquia do passado
Minh'alma como tu é um parque arruinado!

Certamente que há precursão até nas extravagâncias, que não o são, porque são do domínio da psicologia, naquele "trasfert" de sensações, muito de moda na música moderna e na poesia decadentes. Recordemos Cesar Franck que diz da sua Redenção: "Pus apenas tons sustenidos nesta partitura para dar o efeito luminoso de Redenção", ou Artur Rimbaud, no seu soneto das Vogais:

A, noir, E, blanc, I, rouge, U, vert, O, bleu, voyelles

é a audição corada; também o oposto é possível, a visão sonora, e até a audição aromada: Castro Alves as teve todas, logrando efeitos deliciosos de impressionismo:

Ontem à tarde, quando o sol morria
A natureza era um poema santo;
De cada moita a escuridão saía
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria
"Larga harmonia" "embalsamava" os ares!

É que os sentidos são como portas do Palácio Encantado das Imagens por onde entram e saem, sem tento, sem preferência, o Estro e os Ritmos, as Impressões e a Inspiração... Baudelaire o dissera:

Comme des longs echos que loin se confondent
En une ténebreuse et profonde unité
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se repondent.

Castro Alves traz seu testemunho:

No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento...
O POETA DA NATUREZA BRASILEIRA

No lirismo de Castro Alves tão colorido, musical, fiel à sensação, delicioso de impressões, íntimo e profundo tantas vezes, há porém mais, muito mais, a analisar. Não me quero, entretanto, desviar do objetivo que me impus de estudar aqui o poeta da natureza e do amor.

Entre os maiores elogios que tem Castro Alves merecido, está certamente este: foi um poeta brasileiro! Não creiam que me desvaire na ênfase nacional que supõe um mérito, e o maior, o ser desta terra e desta gente: não há civilizado antigo ou moderno, heleno ou americano do norte, bárbaro da vetusta Assíria ou da África selvagem, que não tenha tido ou não tenha ainda o mesmo ingênuo orgulho. Ele não é vão, porque esse patriotismo é o egoísmo social coletivo, autofilia ou egocentrismo naturais, pois que são rudimentares e iniciais afirmações da personalidade: sem ela uma nacionalidade não pode ter noção própria da existência. O patriotismo é a consciência da nacionalidade...

Não é, porém, aqui o caso. Apesar do patriotismo político, sempre em toda a parte e em todo o tempo, houve alienígenos, literários e artísticos, inevitáveis. Também é uma lei natural: é imitando os mais perfeitos, que nos aperfeiçoamos. Desprezavam os romanos politicamente os gregos, aos quais submeteram a jugo, e entretanto se impregnaram de sua língua, filosofia, ciências, poética e artes plásticas, servilmente adotadas e copiadas; os escravos gregos lhes ensinavam aos filhos o aticismo, como eles em tempo o iam mesmo aprender em Atenas. O ódio alemão ou o orgulho britânico não impediram nunca a Albion de ter a sua própria divisa em francês e a Frederico II de nesse idioma escrever suas próprias obras... Os nossos escritores coloniais foram lusitanos: Gonçalves Dias o foi ainda, e é o nosso maior poeta português. Aqui não há só estrangeiros, como até almas do outro mundo; há poetas franceses e novelistas à russa: há quem imite Vieira ou se castigue à Bernardes: como se o mérito de ser romano em Roma ou escrever bem a língua de seu tempo não devesse ser o dever e o galardão de um escritor de juízo. É que "não vamos, voltamos à Europa", pois que de lá somos, daqui não queremos ser.

José de Alencar na prosa de ficção, e Castro Alves na poesia, são os precursores de um brasileirismo, natural e intencional, como que a nossa independência literária. Antes deles, aqui e ali haveria as primeiras manifestações desse espírito novo, mas eles foram os orientadores certos e fortes do movimento. Basílio da Gama, no seu medíocre poema épico o Uraguay, já tem formosas paisagens americanas; raras em Casimiro de Abreu, mais frequentes em Fagundes Varela, neles já se revelam aspectos nacionais: em nenhum, como em Castro Alves, a nossa natureza se retratou com mais naturalidade e portanto maior perfeição.

Daí a sua originalidade: no Brasil não quis ser grego, latino, francês ou lusitano — foi brasileiro. Não descreveu mármores helenos, façanhas romanas, nem pretendeu representar o seu drama em Paris ou que a vernaculidade de seu estilo pudesse agradar a Alexandre Herculano: méritos fáceis e medíocres. "É se nacionalizando, diz ilustre escritor, que uma literatura toma lugar na humanidade e significação no concerto do mundo... Que há de mais espanhol que Cervantes, de mais inglês que Shakespeare, de mais italiano que Dante, de mais francês que Voltaire ou Montaigne, que Descartes ou Pascal, que há de mais russo que Dostoievsky e entretanto de mais universalmente humano?" Castro Alves quis apenas e foi, somente brasileiro: teve a intenção e realizou-a.

Numa página de crítica escrita aos 17 anos ele acusou a nossa literatura da "falta de brasileirismo". "Dir-se-á que os poetas no Brasil, enquanto que Chateaubriand vem pedir aos panoramas da América a inspiração dos seus Natchez e à sombra destas selvas seculares, escrever as páginas olorosas de René e Atala, dir-se-á, digo, que os nossos poetas, não acham em tudo isto que nos cerca um canto de poesia".

Compara a alheia e a nossa poesia de natureza e exclama: "e no entanto quanto talento se tem naturalizado estrangeiro!" Castro Alves quis ser e ficou brasileiro; daí a sua originalidade.

Reconheceu-a Machado de Assis: "achei um poeta original". A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Fora mais adiante José de Alencar: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos". José Veríssimo viria a ser mais claro ainda: "poeta nacional, se não mais, nacionalista". Finalmente, José Oiticica os resume, incisivamente: "criou essas três coisas que não existiam na poética nacional antes dele: a paisagem brasileira, o estilo brasileiro, o tema social brasileiro".

Nem o ático Nabuco, nem o luso Gonçalves Dias são nacionais: brasileira é a ênfase do estilo de Castro Alves, grandiosa, colorida, sonora, terna ou saudosa. O tema brasileiro social no seu tempo não era evocar selvagens, orná-los de virtudes cavalheirescas para humilhar por contraste a nossa descendência de portugueses, quando havia muitos anos já nos emancipáramos das dependências coloniais; nem cantar uma guerra infeliz contra o Paraguai, na qual um ditador imperialista se vingava de nossas imprudentes intervenções imperialistas nos negócios alheios do Prata: era a abolição da escravatura, que nos degradava e a República que nos prometia enganosamente a liberdade. A paisagem brasileira não tem loureiros e mirtos, casais e castelos, rouxinóis e cotovias, parques e repuxos... como os que se veem na prosa e nos versos dos "nossos" escritores "estrangeiros". Por isso, porque se reconhecia nosso, de nossa natureza, só Castro Alves podia dizer

Abre-me o seio ó Madre Natureza
Regaços da floresta americana
..........................................
Natureza, eu voltei... eu sou teu filho!

E parte para ela, para a comunidade com ela.

Já do largo deserto o sopro quente
Mergulha perfumado em meus cabelos
Ouço das selvas a canção cadente
Segredando-me incógnitos anelos.
...........................................
Novo alento selvagem, grandioso,
Treme nas cordas desta frouxa lira,
Dá-me um plectro bizarro e majestoso
Alto como os ramais da sicupira.
Cante o meu gênio o dédalo assombroso
Da floresta, que ruge e que suspira,
Onde a víbora lambe a parasita,
E a onça fula o dorso pardo agita.

Onde, em cális de flor imaginário,
A cobra de coral rola no orvalho,
E o vento leva a um tempo o canto vário
Da araponga e da serpe de chocalho...
Onde a solidão é o magno estradivário...
Onde há músc'los em fúria em cada galho,
E as raízes se torcem, quais serpentes...
E os monstros jazem no ervaçal dormentes.

E, se eu devo expirar, se a fibra morta
Reviver já não pode a tanto alento,
Companheiro! uma cruz era selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!
Da chapada nos ermos... (o que importa?)
Melhor o inverno chora... e geme o vento.
E Deus para o poeta o céu desata
Semeado de lágrimas de prata.

Essa Natureza, mãe e confidente, ditar-lhe-ia os seus mais lindos versos:

Se aponta a alvorada por entre as cascatas
Que estrelas no orvalho que a noite verteu,
As flores são aves que pousam nas matas
As aves são flores que voam no céu.

Mais tarde, sol a pino...

Ali a luz cruel, a calmaria intensa,
Aqui a sombra, a paz, os ventos, a cascata...
E a pluma dos bambus a tremular imensa
E o canto de aves mil... e a solidão e a mata...

Depois ainda

...quando o sol, nas matas virgens
A fogueira das tardes acendia
E como ave ferida, ensanguentava
Os píncaros da longa serrania
...............................................

...embaixo o vale a descantar saudoso
Na cantiga das moças lavadeiras!
E o riacho a sonhar nas canabravas
E o vento a se embalar nas trepadeiras.

Ó crepúsculos mortos! voz dos ermos!
Montes azuis! sussurros da floresta!
..........................................
Hora meiga da tarde, como és bela
Quando surges no azul da zona ardente!
..........................................
De cada moita a escuridão saía
De cada gruta rebentava um canto
Ontem à tarde quando o sol morria.

É o lusco-fusco, a nambu trila a sua escala saudosa; andam pelos caminhos os bacuraus; as boninas, na terra, precedem as estrelas, no céu.

E a juriti do taquaral no ramo
Povoa soluçando a solidão...

Vem descendo os véus da treva

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas da brisa ao açoite
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça com as penas da noite...

 Então

Chora orvalhos a grama que palpita
...acende o vagalume o facho seu...

Tudo é paz e recolhimento... "tudo dorme e vela Deus" diria o poeta; não, no Brasil, o silêncio das noites tropicais é uma imensa orquestra em surdina:

Sussurro profundo! marulho gigante
Talvez um silêncio! Talvez uma orquestra
Da folha, do cális, das asas, do inseto
Do átomo à estrela... do verme à floresta.

As vezes, porém,

Das noites tropicais na mansa calma

...entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio...

O POETA DO AMOR E DA SAUDADE

Em nenhum dos nossos poetas, da prosa ou do verso, encontrareis tantas imagens da natureza, e da natureza do Brasil.

Seria de espantar, sendo assim, que fosse Castro Alves, um sensual e um sentimental, bem amável e bem amoroso, à brasileira? Ele mesmo se descreveu:

Tendo por musa — o amor e a natureza!

Amou muito, de fato, e ainda amor lhe sobrou, para as imagens mais formosas que essa paixão pode despertar. A natureza não vive aqui numa ebriedade erótica?

Tudo o que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
........................................
E que amores que sonham as esferas,
A brisa é de volúpia um calafrio!
Por isso, também o poeta quer o seu quinhão:
E do gozo de amar, louco, sedento,
Viver a eternidade num momento!

Nunca a mulher amada recebeu louvores mais íntimos, nem mais efusivos:

No seio de mulher há tanto aroma,
Nos seus lábios de fogo, há tanta vida...
..........................................
O seio da amante é um lago virgem,
Quero boiar à tona das espumas.
..........................................
O globo de teu peito entre os arminhos,
Como entre as névoas se balouça a lua.
..........................................
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos.
..........................................
Teu seio é vaga dourada,
Ao tíbio clarão da lua...
..........................................
Do seio às vagas — pede um outro amor.

Essa comparação de vagas e ondas torna outras vezes: o peito descoberto da amada é

Mar de amor onde vogam meus desejos.

Outras vezes é mais carinhoso:

Entram pela janela quase aberta
Da meia-noite os preguiçosos ventos,
E a lua beija o seio avinitente,
— Flor que abria das noites ao relento.

Não esquece também aos cabelos:

Como a violeta as faces escondendo,
Sob a chuva noturna dos cabelos
.........................................
Na selva sombria de tuas madeixas,
.........................................
Na torrente caudal de seus cabelos negros.
.........................................
É noite ainda em teu cabelo preto
.........................................
Como um negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola o teu cabelo.
.........................................
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos!

Também esses olhos...

Teus olhos são negros, negros
Como noites sem luar
..................................
Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante
Dize: quando em fogo teu olhar transborda
Não vês minh'alma reviver ovante
..................................
Meus olhos nos teus morriam...

Considerai nessa imagem e dizei se alguma jamais foi tão expressiva e tão simples — é a perfeição da verdade e da sensualidade amorosa

Meus olhos nos teus morriam...

Já alguém notou que o fraco de Machado de Assis eram os braços... todos temos os nossos — lede O Pé de José Bonifácio ou a Pata de Gazela de José de Alencar — ou o nosso fetichismo, se não quisermos dizer as nossas preferências, se não somos ecléticos: Castro Alves teria bom quinhão — o colo e os cabelos, — mas não era exclusivista:

...teu riso me penetra n'alma
Como harmonia de uma orquestra santa
É que teu riso tanta dor acalma
...................................

Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
.....................................
A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos
Ó deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doido afago de meus lábios mornos

...em toda a parte
Meu pensamento segue o passo teu

Até as fitas, as rendas, as roupas

Não rias... prendi-me... num laço de fita!
......................................
Tu levas minh'alma, ó filha
Nas rendas desta mantilha

Seria a mantilha, a de Eugênia Câmara, que muitas vezes lembram os versos de Castro Alves.

Esse amor não será o amor terno e respeitoso à Lamartine, nem o tranquilo e feliz à Hugo, é o comovido e sensual à Musset que está mais em nossa índole e foi propriamente o de Castro Alves. Com uma certa ingenuidade inexperiente, Nabuco, em 73, exprobrou ao nosso poeta não ter no amor o sentimento de Varela, ou do bardo das Meditações... Nem todos os vates têm a desgraça de perder um filho para chorar o Cântico do Calvário, nem a mulher amada — possuída e logo arrependida e extinta — para lembrar-se, chorar e esperar no O Lago, O Crucifixo, Imortalidade... Nada mais pessoal do que o amor, e por isso nada mais diverso do que a imagem dele que nos deixam os que o sentiram e sofreram bastante, para nos transmitirem os seus excessos na confidência da poesia. Castro Alves, como só acontece aos grandes poetas que sabem com sinceridade confessar-se, nos deu efígie fiel do seu.

A felicidade para ele, como para todo o mundo, seria o amor; como para poucos, os raros e os melhores, bastava-lhe, porém, apenas amar. Amabam amare, disse Santo Agostinho, que "gostava de amar". Confessa também o nosso poeta:

P'ra ser feliz basta amar.

E essa felicidade é tamanha que por ela cometeu a maior impiedade que já se escreveu na terra, se é que também por isso não pronunciou a mais bela declaração do amor que pudera ouvir uma criatura:

Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!

Chega a ser mais explícito:

Oh! se Deus algum dia orgulhoso
O seu livro infinito volvesse
E nas letras de estrelas relesse
Seu passado nas folhas azuis...

Não teria o orgulho que tenho
Quando o abismo dest'alma sondando,
No infinito de amor me abismando,
Eu me engolfo num pego de luz...

Sem ele, o amor, sem ela, o objeto dele, a vida não tinha alegria nem destino.

Mas tu vieste... e acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei p'ra luz...

O tronco morto refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado em flor
Abençoando a Primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!

A quem ama deste jeito, o sentimento correspondido ensina veementes indiscrições:

Oh! amar é viver... Deste amor santo
— Taça de risos, beijos e de prantos
Longos sorvos beber
No mesmo leito adormecer cantando...
Num longo beijo despertar sonhando...
Num abraço morrer.

Linguagem íntima incomparável, cujo magnífico despudor não sei se algum poeta — e eles são tão ousados, quanto inconfidentes! — já ousou algum dia:

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tu'alma, como lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias
Que escalas de suspiros bebo, atento!

Ai! canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion! É noite ainda,
Que importa os raios de uma nova aurora?

Como um negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola o teu cabelo
E deixa-me dormir, balbuciando
— Boa noite, formosa Consuelo!

Se ela tarda e demora, seu apelo é comovente:

Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas do brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!
'Stá vazio o nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro.
E tu não queres que eu fique
Solitário nesta vida...
Mas porque tardas, querida!
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro!
Ó minha amante, onde estás?

E se não vem, na sua insônia dolorosa, invoca o sono, que faz momentaneamente esquecer

O leite das eufórbias
P'ra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade!
Apaga-me esta dor!

porque ele mesmo diz

Sem Ela que é a vida?

E a razão íntima, secreta, pertinente, exclusiva, é esta: se todos sentem, os que amam verdadeiramente, só um poeta disse-o, nestas palavras que resumem melhor que todos os livros de psicologia amorosa, esse "egoísmo a dois" da paixão humana:

Eu não posso ser de outra... Tu és minha!

Para quem assim ama, seria a saudade um tormento exasperado e íntimo, depois não resignado e sempre doido, como só ele sabia exprimir:

Tudo vem me lembrar que tu fugiste
Tudo que me rodeia de ti fala...

É a almofada em que ela posou a fronte que exala o seu perfume, é o piano que ela tocava que ainda mostra a frase musical interrompida, são as horas de Ave-Maria que soam, é o vento da tarde, é a tristeza invasora e irresistível, e a sua voz balsâmica, seu riso santo que não o confortam mais:

É que tudo me lembra que fugiste
Tudo que me rodeia de ti fala
Como o cristal da essência do Oriente,
Mesmo vazio a sândalo trescala...

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras aves do céu... minh'alma o ninho!

Por onde trilhas um perfume espande-se
Há ritmo e cadência, no teu passo!
És como a estrela, que transpondo a sombra
Deixa um rasto de luz no azul do espaço...

E teu rasto de amor guarda minh'alma
Estrela que fugiste aos meus anelos
Que me levaste a vida entrelaçada
Na sombra sideral dos teus cabelos.

Depois disto todos concordaremos com Rui Barbosa: se é fato que "a natureza sorri, irradia, e magoa-se nos seus versos", também é verdade que "ninguém desferiu ainda mais maviosamente as cordas mais santas do amor humano".

Citei, de intenção, os poetas mais sublimes do seu tempo, parentes do seu gênio — Hugo, Musset, Gautier, Banville, Baudelaire, Herédia, Verlaine; acentuei a sua originalidade, espontânea, sincera, magnífica, irradiante, nova, como a nossa natureza, de que ele foi uma força e uma imortal expressão: concluo que "poeta do amor e da saudade" ainda uma vez foi ele fiel às paixões de sua gente, que, como nenhuma outra sabe amar e sofrer por amor, nesse desejo e naquela saudade: vós me direis, agora, se Castro Alves não foi e não é, portanto — o primeiro poeta brasileiro!


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Referências bibliográficas a icnográficas:
Afrânio Peixoto: "Castro Alves - O Poeta e o Poema". Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016.
Castro Alves: o olhar do outro. Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 1997.
Site: http://objdigital.bn.br (Biblioteca Nacional Digital)
Site: http://memoria.bn.br/ (Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Brasil)

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