domingo, 11 de março de 2018

Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil (Ensaio), de Gonçalves de Magalhães


Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil 

Publicado originalmente em 1836. Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018).

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A literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de mais belo na natureza, é o quadro animado de suas virtudes e de suas paixões, o despertador de sua glória, e o reflexo progressivo de sua inteligência. E, quando esse povo, ou essa geração, desaparece da superfície da Terra com todas as suas instituições, suas crenças, e costumes, a Literatura só escapa aos rigores do tempo, para anunciar às gerações futuras qual fora o caráter do povo, do qual é ela o único representante na posteridade; sua voz como um eco imortal repercute por toda parte, e diz: em tal época, debaixo de tal constelação, e sobre tal ponto da Terra um povo existia, cuja glória só eu a conservo, cujo nome eu só conservo, cujos heróis eu só conheço; vós porém, se pretendeis também conhecê-lo, consultai-me, porque eu sou o espírito desse povo, e uma sombra viva do que ele foi.

Cada povo tem sua Literatura, como cada homem o seu caráter, cada árvore o seu fruto. Mas esta verdade, que para os primitivos povos é incontestável, e absoluta, todavia alguma modificação experimenta entre aqueles, cuja civilização apenas é um reflexo da civilização de outro povo. Então semelhante às árvores enxertadas, veem-se pender dos galhos de um mesmo tronco frutos de diversas espécies, e posto que não degenerem aqueles, que do enxerto brotaram, contudo algumas qualidades adquirem, dependentes da natureza do tronco, que lhes dá o nutrimento, as quais os distinguem dos outros frutos de sua mesma espécie. Em tal caso porém as duas Literaturas marcham a par, e conhecer-se pode qual a indígena, qual a estrangeira. Noutras circunstâncias, como as águas de dois rios, que num confluente se anexam, e confundidas em um só leito se deslizam, as duas Literaturas de tal jeito se aliam que impossível é o separá-las. A Grécia, por exemplo, tinha uma Literatura que lhe era própria, que explica suas crenças, sua moral, seus costumes, uma Literatura toda filha de suas ideias, uma Literatura enfim toda grega.

A Europa de hoje, ou tomemos a França, ou a Inglaterra, ou a Espanha, ou Portugal, apresenta o exemplo da segunda proposição; além da Literatura, que lhe é própria, dessa Literatura filha de sua civilização originária do Cristianismo, nós aí vemos outra Literatura, que chamamos enxertada, que não é mais do que uma lembrança da mitologia antiga, e uma recordação de costumes, que ela não possui; e não só as duas Literaturas marcham a par, como muitas vezes um mesmo poeta se vota à cultura de ambas, e como diz Tasso falando do mágico Ismeno.

Anzi sovente in uso empio e profano
Confonde le due leggi a se mal note.

Para prova da terceira proposição, no caso em que as Literaturas de modo tal se mesclam, que se não pode separá-las, nós vemos, na Literatura Romântica de Espanha, uma mistura de ideias cavalheirescas, e Árabes, restos da antiga civilização dos Árabes; algumas vezes se ela é cristã no seu fundo, é ela Árabe quanto à forma.

Mas não são estas as únicas modificações, que entre os diversos povos experimenta a Literatura; outras há, que da natureza mesmo do homem, da civilização, e do progresso dependem; porque seja qual for a modificação, que a Literatura sofra, em acordo acha-se sempre esta modificação com o caráter, e estado de civilização desse povo. Assim a Literatura é variável como são os séculos, semelhante ao Termômetro, que sobe ou desce segundo o estado da atmosfera.

Por uma espécie de contágio, uma ideia lavra entre os homens de uma época; reúne-os todos numa mesma crença; seus pensamentos se harmonizam, e para um só fim tendem. Cada época representa então uma, ideia que marcha escoltada de outras, que lhe são subalternas, como Saturno rodeado dos seus satélites; ela contém, e explica as outras ideias como as premissas no raciocínio contêm, e explicam a conclusão. Essa ideia é o espírito, e o pensamento mais íntimo de sua época, é a razão oculta de todos os fatos contemporâneos. A Literatura abrangendo grande parte de todas as Ciências, e Artes, e sendo ela só filha, e representante moral da civilização, é mister um concurso de extensos conhecimentos para se poder traçar a sua história geral, ou particular, e não perder-se de vista a ideia predominante do século, luminoso guia na indagação, e coordenação dos fatos, sem o quê a história é nula, e sua missão iludida.

Aplicando-nos agora especialmente ao Brasil; as primeiras questões, que se nos apresentam são: qual é a origem de sua Literatura? Qual seu progresso, seu caráter, que fases tem tido? Quais os que a cultivaram, e as circunstâncias, que em diversos tempos favoreceram, ou tolheram seu florescimento? Havemos pois mister remontar-nos ao estado do Brasil depois de seu descobrimento, daí pedindo conta à história, e à tradição viva dos homens de como se passaram as coisas, seguindo a marcha do desenvolvimento intelectual, e pesquisando o espírito que a presidia, poderemos livremente mostrar, não acabado, mas ao menos verdadeiro quadro histórico da nossa Literatura.

Mas, antes de encetar a matéria, uma consideração aqui nos demora, e pede o caso que a explanemos. Lugar é este de expormos as dificuldades, que na execução desta obra encontramos. Aqueles, que alguns lumes de conhecimento possuem sobre a Literatura Brasileira sabem, que mesquinhos e esparsos são os documentos, que sobre ela consultar-se podem. Nenhum nacional, que nós conheçamos, ocupado se tem até hoje com tal objeto. Dos estrangeiros, MM. Bouterwech, Sismonde de Sismondi, e Ferdinand Diniz alguma coisa disseram. O primeiro apenas conhecia Cláudio Manuel da Costa, de quem alguns pedaços apresenta, o segundo inteiramente pauta-se sobre o primeiro; e a menção, que faz de alguns Brasileiros fora mesmo excluída do plano de sua obra sobre a Literatura do Meio-dia da Europa, se nela não entrasse como um apêndice à história da Literatura Portuguesa. No resumo da história literária de Portugal, e Brasil, por M. Ferdinand Diniz, posto que separadas estejam elas, e porventura mais extenso desenvolvimento esta última ofereça, contudo, basta uma vista de olhos para ver-se que ainda está longe de ser completa, servindo apenas para dar uma ideia a estrangeiros. Eis tudo o que sobre a Literatura do Brasil se tem escrito; e se por isto só nos guiássemos, na impossibilidade em que ficaríamos de nada podermos ajuntar, teríamos preferido o traduzir, o que de bem pouca monta fora para a história. Empenhados em dar alguma coisa mais meritória, começamos por estudar a nossa história, e desde aí deparamos com grandes embaraços para o nosso escopo. Necessário nos foi a leitura do imenso trabalho biográfico do Abade Barbosa, para podermos achar aqui e ali o nome de algum Brasileiro distinto, no meio dessa aluvião de nomes colecionados às vezes com bem pouca crítica. Ainda assim convínhamos ler suas obras; eis aí uma quase insuperável barreira; embalde por algumas delas, de que tínhamos notícia, investigamos todas as Bibliotecas de Paris, de Roma, de Florença, de Pádua e de outras principais cidades de Itália, que visitamos; foi-nos preciso contentar-nos com o que pudemos obter. Acresce mais que dos nossos primeiros poetas ignorávamos as épocas de seus nascimentos, que tanto apreço damos nós aos grandes homens, que nos honram, desses homens cuja herança é hoje nossa única glória. Essa dificuldade foi já reconhecida pelo ilustre editor do Parnaso Brasileiro, cujo trabalho tão digno de louvor, assaz serviu-nos. Enfim, depois de um longo e enfadonho estudo, vimo-nos quase reduzidos sem outro guia, que o nosso próprio juízo, a lermos, e analisarmos os autores, que obter pudemos, esperando que o tempo nos facilite os meios para o fim a que nos propomos. Todos estes trabalhos, e obstáculos indicamos, não com o fito de realçar o mérito deste nosso bosquejo, mas sim para podermos merecer desculpa de faltas, e penúrias, que borbulhar devem de todos os lados, e outrossim para que, à vista de tal incúria, e mendiguez, mais zelosos sejamos em pesquisar, e conservar os monumentos de nossa glória para as raças futuras, a fim de que não nos exprobrem nosso desmazelo, e de bárbaros não nos acusem, como faríamos com justa causa dos nossos maiores. Nós pertencemos ao futuro, como o passado nos pertence. A glória de uma Nação, que existe, ou que já existiu, não é senão um reflexo da glória de seus grandes homens; de toda a antiga grandeza da pátria dos Cíceros, e dos Virgílios apenas restam suas imortais obras, e essas ruínas, que tanto atraem a vista do estrangeiro, e no meio das quais Roma se sustenta, e se enche de orgulho. Que cada qual se convença do que diz Madame de Staël que: “A glória dos grandes homens é o patrimônio de um país livre; depois de sua morte, todos participam dela”. O aparecimento de um grande homem é uma época para a história, e semelhante a uma joia preciosa, que só possuímos quando a podemos possuir, o grande homem jamais se apresenta quando nós não o merecemos. Ele existe no meio de nós sem ser conhecido, sem se conhecer a si mesmo, como o ouro nas entranhas da terra, e só espera que o desencavem para adquirir seu valor. Empreguemos os meios, e nós possuiremos grandes homens. Se é verdade que a paga anima o trabalho, a recompensa do gênio é a glória, e segundo o belo pensamento de Mme. de Staël: “O Gênio no meio da sociedade é uma dor, uma febre interior de que se deve tratar como verdadeira moléstia, se a recompensa da glória não lhe adoça as penas”.

O Brasil descoberto em 1500, jazeu três séculos esmagado debaixo da cadeira de ferro, em que se recostava um Governador colonial com todo o peso de sua insuficiência, e de sua imbecilidade. Mesquinhas intenções políticas, por não avançar outra coisa leis absurdas, e iníquas ditavam, que o progresso da civilização, e da indústria entorpeciam. Os melhores gênios em flor morriam, faltos deste orvalho protetor, que os desabrocha; um ferrete ignominioso de desaprovação, na fronte gravado do Brasileiro, indignos o tornava de altos e civis empregos. Para ele obstruídas, e fechadas estavam todas as portas, e estradas que à ilustração o conduzir podiam; uma só porta ante seus passos se abria, era a porta do convento, do retiro, e do esquecimento. A Religião franqueava esta porta, a Religião a fechava sobre seus passos; e o sino que o chamava ao claustro, anunciava também sua morte para o mundo. O gênio em vida sepultado, cercado de místicas imagens, apenas saía para catequizar os Índios no meio dos desertos, ou para pregar aos fiéis as austeras verdades do Evangelho. Mas em vão; as virtudes do Cristianismo não podiam domiciliar nos corações embebidos nos vícios desses homens, pela mor parte tirados das cadeias de Lisboa, para vir povoar o Novo Mundo. Que Deus nos preserve de lançar o opróbrio sobre ninguém. Era então um sistema de fundar colônias com homens destinados ao patíbulo; era basear uma Nação nascente sobre todos os gêneros de vícios, e crimes; é ainda por um sistema igual que nós reservamos para defensores da Pátria, para sustentáculos dos nossos direitos, e guardas das nossas cidades os homens mais ignóbeis, corrompidos pela devassidão.

Tais homens (os primeiros habitadores do Brasil) de seu lado para seus próprios filhos olhavam como para uma raça degenerada, inepta para tudo; fatal preconceito, que ainda hoje medra entre alguns Portugueses. Quanto aos Índios, esses perseguidos eram, com ferro, e fogo, como se fossem animais ferozes; nem eles em outra categoria eram considerados. Sabe-se que necessário foi, que uma bula do Papa Paulo 3º declarasse que eram os Índios verdadeiros homens, e capazes por isso da fé de Cristo; sem o quê os Europeus talvez os houvessem de todo exterminado. Da barbaridade de tais homens traça-nos Vasconcelos um quadro, quando nos diz: “os Portugueses, que ali já estavam, e começavam a povoar esses lugares, viviam a modo de gentios; e os gentios com o exemplo destes iam fazendo menos conceito da lei dos Cristãos: e sobretudo, que viviam aqueles Portugueses de um trato vilíssimo salteando os pobres Índios, ou nos caminhos, ou em suas terras, servindo-se deles, e avexando-os contra todas as leis da razão". E mais abaixo diz ainda: "viviam (os Portugueses) do rapto dos Índios, e era tido o ofício de assalteá-los por valentia; e por ele eram os homens estimados”. Tal era o estado daqueles tempos. Que podemos nós ajuntar a essas citações? Tal era toda a indústria, a arte, e a ciência dos primeiros habitantes do Brasil. Triste é sem dúvida a recordação dessa época, em que o Brasileiro, como lançado em uma terra estrangeira, duvidoso em seu próprio país vagava, sem que dizer pudesse: isto é meu, neste lugar nasci. Envergonhava-se de ser Brasileiro, e muitas vezes com o nome Português se acobertava, para ao menos aparecer como um ente da espécie humana, e poder alcançar um lugar em seu país. Destarte circunscrito em tão curto estádio, estranho à nacionalidade, sem o incentivo da glória, este novo povo vegetava. Quem não dirá, que Portugal, com esse sistema exterminador só curava de atenuar, e enfraquecer esta imensa colônia, porque conhecia sua própria fraqueza, e ignorava seus mesmos interesses? Quem não dirá, que ele temia que a mais alto ponto o Brasil se erguesse, e a glória lhe ofuscasse? Assim é que um bárbaro senhor algema seu escravo, receoso que ele se escape, e só lhe desprende o braço ou outro quando dele algum trabalho requer. A Economia política tem combatido vitoriosamente o erro, que desde muito lavrava na política, que um povo não se pode engrandecer senão à custa de outro povo, e com o sacrifício de tudo que o rodeia. Política esta, que, à imitação dos Romanos, e de todos os povos dos baixos tempos, Portugal exerceu sobre o Brasil.

O tempo sancionou estas verdades, que a história, e a memória de recentes fatos nos indicam, e o tempo, em sua marcha prosseguindo, irá mostrando aos homens qual é o destino, que a Providência tem marcado a este Império da América. A Deus praza, que este perigoso fermento, que entre nós gira, este germe de discórdia, ressaibo ainda da não apurada educação, e sobretudo a escravidão, tão contrária ao desenvolvimento da indústria, e das artes, e tão perniciosa à moral, não impeçam sua marcha, e seu engrandecimento.

Estas considerações parecerão talvez fora do objeto a que nos propomos; mas elas intimamente a ele se ligam, e o explicam: ainda uma vez, e por outras palavras diremos, que o nosso fim não é traçar a biografia cronológica dos Autores Brasileiros, mas sim a história da Literatura do Brasil, que toda a história, como todo o drama, supõe lugar da cena, atores, paixões, um fato progressivo, que se desenvolve, que tem sua razão, como tem uma causa, e um fim. Sem estas condições nem há história, nem drama.

Ao través porém das espessas trevas em que estavam mergulhados os homens no novo continente, viram-se alguns gênios superiores brilhar de passagem, bem semelhantes a essas luzes errantes, que o peregrino investigador admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos, que no meio das trevas fosforeiam. E poder-se-á com razão acusar o Brasil de não ter produzido gênios de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pode cantar com harmonia, quando o retinido das cadeias, e o ardor das feridas sua existência torturam? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros, e curvado para a terra, a voz ergueu no meio do Universo, e gravou seu nome nas páginas da memória? Quem, não tendo o conhecimento de sua própria existência, e só de cenas de miséria rodeado, pôde soltar um riso de alegria, e exalar o pensamento de sua individualidade? Não; as Ciências, a Poesia e as Artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo; Irmãs da glória, fogem do país amaldiçoado onde a escravidão rasteja, e só com a liberdade habitar podem.

Se refletirmos, veremos que não são poucos os escritores para um país que foi colônia Portuguesa, para um país no qual ainda hoje o trabalho dos Literatos, longe de assegurar-lhes, com a glória, uma independência individual, e um título de mais, ao contrário parece desmerecê-los, e desviá-lo da liga dos homens positivos, que desdenhosos dizem: é um Poeta; sem distinguir se apenas é um trovista, ou um homem de gênio; como se dissessem: Eis aí um ocioso, um parasita, que não pertence a este mundo; deixai-o na sua mania. Aí canta o vate por mera inspiração celeste, por esta necessidade de cantar, para dar um desafogo a seu coração. Ao princípio cantava-se para louvar a beleza, a virtude, e seus amores; cantava-se ainda para adoçar as amarguras da alma; e tanto que a ideia de Pátria apareceu aos poetas, começaram eles a invocá-la para objeto de seus cânticos. Mas sempre, como o peregrino no meio dos bosques, que canta sem esperar recompensa, o Poeta Brasileiro, não é guiado pelo interesse, e só o amor mesmo da poesia, e de sua Pátria o arrasta. Ele pode dizer com o épico português:

Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil.

Se em total esquecimento muitos deles existem, provém isto em parte da Língua em que escreveram, que tão pouco conhecido é o Idioma Luso na Europa, e particularmente em França, Inglaterra, e Alemanha, onde mais alto soa o brado da fama, e colossal reputação se adquire; em parte sobre nós deve recair a censura, que tão pródigos somos em louvar, e admirar os estranhos, quão mesquinhos nos mostramos para com os nossos, e deste jeito visos damos de que nada possuímos. Não que pretendamos, que a esmo se louve tudo que nos pertence, só porque nos pertence, fora insuportável; mas porventura vós, que consumistes vossa mocidade no estudo dos clássicos Latinos ou Gregos, vós que ledes Voltaire, Racine, Camões ou Filinto, e não cessais de admirá-los muitas vezes mais por imitação, que por sua própria crítica, apreciais vós as belezas naturais de um Santa Rita Durão, de um Basílio da Gama, de um Caldas?

Toca ao nosso século restaurar as ruínas, e reparar os erros dos passados séculos. Cada Nação livre reconhece hoje, mais que nunca, a necessidade de marchar. Marchar para uma Nação é engrandecer-se, é desenvolver todos os elementos da civilização. Há mister reunir todos os títulos de sua existência, para tomar o posto, que justamente lhe compete na grande liga social, como o nobre recolhe os pergaminhos de sua genealogia, para em face do Rei fazer-se credor de uma nova graça. Se o futuro só pode sair do presente, a grandeza daquele se medirá pela deste. O Povo que se olvida a si mesmo, que ignora o seu passado, como o seu presente, como tudo o que em si se passa, esse Povo ficará sempre na imobilidade como o Império Indochinês.

Nada de exclusão, nada de desprezo. Tudo o que poder concorrer para o esclarecimento da história geral dos progressos da humanidade merecer deve nossa consideração. Jamais uma Nação poderá prever o seu futuro, quando ela não conhece o que ela é, comparativamente com o que foi. Estudar o passado, é ver melhor o presente, é saber como se deve marchar. Nada de exclusão; a exclusão é dos espíritos apoucados, que em pequena órbita giram, sempre satélites, e brilhantes com luz emprestada. O amante da verdade porém, por caminhos não trilhados, em tudo encontra interesse, e objeto de profunda meditação. Como o viajor naturalista, que se extasia na consideração de uma florzinha desconhecida, que o homem bronco tantas vezes vira com desprezo. O que era ignorado, ou esquecido romperá destarte o envoltório de trevas, e achará devido lugar entre as coisas já conhecidas. Depois de tantos sistemas exclusivos, o espírito eclético anima o nosso século, ele se levanta como um imenso colosso vivo, tendo diante dos olhos os anais de todas as gerações, numa mão o archote da Filosofia aceso pelo gênio da investigação, com a outra aponta a esteira luminosa, onde se convergem todos os raios de luz, escapados do brandão que sustenta. Luz, e progresso; eis sua divisa. Não, oh Brasil, no meio do geral movimento, tu não deves ficar imóvel e tranquilo como o colono sem ambição e sem esperanças. O gérmen da civilização depositado em teu seio pela Europa, não tem dado ainda todos os frutos, que deveria dar; vícios radicais têm tolhido seu desenvolvimento. Tu afastaste de teu colo a mão estranha, que te sufocava; respira livremente, respira, cultiva as ciências, as artes, as letras, a indústria, e combate tudo, que entrevá-las pode.    

Não se pode lisonjear muito o Brasil de dever a Portugal sua primeira educação, que tão mesquinha foi ela, que bem parece ter sido dada por mãos avaras e pobres; contudo boa ou má dele herdou, e o confessamos, a Literatura, e a Poesia, que chegadas à América não perderam seu caráter Europeu. Com a Poesia vieram todos os Deuses do paganismo, espalharam-se pelo Brasil, e dos céus, das florestas, e dos rios se apoderaram. A Poesia do Brasil não é uma indígena civilizada, é uma Grega, vestida à Francesa, e à Portuguesa, e climatizada no Brasil; é uma virgem do Hélicon, que, peregrinando pelo Mundo, estragara seu manto, talhado pelas mãos de Homero, e sentada à sombra das palmeiras da América, se apraz ainda com as reminiscências da Pátria, cuida ouvir o doce murmúrio da Castália, e o trépido sussurro do Lodon, e do Ismeno, e toma por um rouxinol o sabiá, que gorjeia entre os galhos da laranjeira. Encantados por este nume sedutor, por esta bela Estrangeira, os Poetas Brasileiros se deixaram levar pelos seus cânticos, e olvidaram as simples imagens, que uma natureza virgem com tanta profusão lhes oferecia; semelhante à Armida de Tasso, cuja beleza, artifícios, e doces palavras atraíram, e desorientaram os principais guerreiros de Gofredo. É rica a mitologia, são belas suas ficções, mas à força de serem repetidas, e copiadas, vão desmerecendo, além de quê, como o pássaro da fábula, despimos nossas plumas para nos apavonarmo-nos com antigas galas, que nos não pertencem. Em Poesia requer-se mais que tudo invenção, gênio, e novidade; repetidas imitações o espírito embrutecem, como a muita arte, e preceitos tolhem, e sufocam o gênio; as primeiras verdades da ciência, como os mais belos ornamentos da Poesia, quando a todos pertencem, a ninguém honram. O que mais dá realce, e nomeada a alguns dos nossos poetas não é certamente o uso destas ficções; mas sim outro gênero de belezas naturais, não colhidas nos livros, mas que só a Pátria lhes inspirara. Ora tão grande foi a influência, que sobre o Gênio Brasileiro exerceu a Grega mitologia transportada pelos Poetas Portugueses, que muitas vezes Poetas Brasileiros em pastores se metamorfoseiam, e vão apascentar seu rebanho nas margens do Tejo, e cantar à sombra das faias.

Mas existe no homem um instinto oculto, que, em despeito dos cálculos da educação, o dirige; e de tal modo este instinto aguilhoa o homem, que em seus atos imprime um certo caráter de necessidade, a que nós chamamos ordem, ou natureza das coisas. O homem colocado diante de um vasto mar, ou no cume de uma alta montanha, ou no meio de uma virgem e emaranhada floresta, certo, não poderá ter os mesmos pensamentos, as mesmas inspirações, como se ele assistisse aos olímpicos jogos, ou na pacífica Arcádia habitasse. Além destas materiais circunstâncias, variáveis nos diversos países, que assaz influem sobre a parte descritiva, e caráter da paisagem poética; um elemento há, sublime por sua natureza, poderoso por sua inspiração, variável porém quanto a sua forma, que é a base da moralidade Poética, que empluma as asas ao Gênio, que o abala, e o fortifica, e ao través do mundo físico até Deus o eleva; este elemento é a Religião. Se sobre tais pontos meditassem um só instante os primeiros Poetas Brasileiros, certo que logo teriam abandonado esta Poesia estrangeira, que destruía a sublimidade de sua Religião, paralisava-lhes o Gênio, e os cegava na contemplação de uma Natureza grandiosa, reduzindo-os afinal a meros imitadores. Não; eles não meditaram, nem meditar podiam; no princípio das coisas obra-se primeiro, depois reflete-se. Acreditava-se então que mitologia, e Poesia, uma e a mesma coisa eram. O instinto porém guiou-os; e posto que lentamente, as encanecidas montanhas da Europa humilharam-se diante das sempre verdes e alterosas montanhas do Novo Mundo; a virgem homérica, semelhante à convertida esposa de Eudoro, abraça o Cristianismo, e neófita ainda, mal iniciada nos mistérios arcanos de sua nova Religião, resvala às vezes, e no enlevo da alma, no meio de seus sagrados cânticos, se olvida, e adormentada sonha com as graciosas mentiras, que o berço lhe embalaram. Não, ela não pode ainda, posto que naturalizada na América, esquecer-se dos sagrados bosques do Parnaso, a cuja sombra se recreara desde o albor de seus anos; dir-se-ia que ela é combatida pela moléstia da Pátria, e que nos assomos da nostalgia à Grécia transportada se julga, e com seus deuses delira. Saudosa moléstia, que só o tempo pode curar. Mas enfim é já um passo; e praza ao céu que a conversão seja completa, e que os vindouros vates brasileiros achem no puro céu de sua Pátria um sol mais luminoso que Febo, Angélicos Gênios, mais sublimes que as Piérides, que os inspirem.

Se comparamos o atual estado da civilização do Brasil com o das anteriores épocas, tão notável diferença encontramos, que cuidar-se-ia que entre o passado século, e o nosso tempo ao menos um século mediara. Devido é isto a causas, que ninguém hoje ignora. Com a expiração do domínio Português, desenvolveram-se as ideias. Hoje o Brasil é filho da civilização Francesa; e como Nação é filho desta revolução famosa, que balançou todos os tronos da Europa, e repartiu com os homens a púrpura, e os cetros dos reis. O Gigante da nossa idade até à extremidade da Península enviou o susto, e o neto dos Afonsos aterrorizado como um menino temeu que o braço do árbitro dos Reis cair fizesse sobre sua cabeça o palácio de seus avós. Ele foge, e com ele toda a sua corte, deixam o natal País, e trazem ao solo brasileiro o aspecto novo de um Rei, e os restos de uma grandeza sem brilho. Eis aqui como o Brasil deixou de ser colônia, e à categoria de Reino Irmão foi elevado. Sem a revolução francesa, que tanto esclareceu os povos, este passo tão cedo se não daria. Com este fato uma nova ordem de coisas abriu-se para o Brasil. Aqui deve parar a primeira época da História do Brasil. Começa a segunda, em que ele colocado sobre a mais ampla estrada, se apresta para conquistar a liberdade, consequência necessária do seu estado de civilização. As épocas da História do Brasil são como espécies de contrapancadas, ou ecos dos grandes fastos modernos da Europa. O primeiro, como vimos, devido foi à Revolução Francesa, o segundo à promulgação da constituição em Portugal, e apressado pela volta do Rei a Lisboa. O Brasil então não podia mais viver debaixo da tutela de uma metrópole, que de suas riquezas se nutria, e o pretendia reduzir ao antigo estado de colônia. Necessária era a Independência; todos a desejavam, impossível era sufocar o grito unânime dos corações brasileiros ávidos de Liberdade, e de progresso. E quem pode opor-se à marcha impetuosa de um Povo, que conhece sua própria força, e firma sua vontade? A Independência foi proclamada em 1822, e reconhecida 3 anos depois. Mais tarde a experiência mostrou que tudo não estava feito; coisas, há que se não podem prever. O Brasil, que parece pautar suas ações, e seguir as pegadas da Nação Francesa, no ano seguinte ao de 1830 em que caiu do trono da França o Rei, que o ocupava, acorde movimento experimentou ele; e a coroa, que cingia a fronte de um Príncipe Português, reservado pela Providência para assinalar-se na terra de sua Pátria, e cujo coração não palpitava de amor por sua Pátria adotiva, passou para o jovem Imperador, que fora ao nascer pelas auras da América bafejado, e pelo sol dos trópicos aquecido. Assim tem sempre o Brasil medrado, olhando para a França, e nós nos lisonjeamos que ele não retrogradará, tomando esta grande mestra por guia.

De duas distintas partes consta a história do Brasil: compreendendo a primeira os séculos XVI, XVII e XVIII; a segunda o curto espaço, que de 1808 até os nossos dias decorre. Examinemos agora quais os escritores são desses diferentes tempos, qual o caráter, e o progresso, que a Literatura tem feito. No século XVI, que é o do descobrimento, nenhum escritor existiu de que notícia tenhamos. No século XVII alguns aparecem Poetas, e Prosadores, de que falaremos em particular em um artigo consagrado a este objeto. Em geral diremos que, como debaixo dos auspícios da Religião, e trabalhos dos Jesuítas as primeiras povoações se fundaram, a Literatura nesse século notável propensão Religiosa mostra, particularmente a prosa, que toda consiste de orações sagradas. É no século XVIII que se abre a carreira Literária no Brasil, sendo a do século anterior tão minguada, que apenas serve para a história. Neste século os moços, que à Europa colher iam os frutos da sapiência, trouxeram para o seio da pátria os germes de todas as Ciências, e Artes; aqui benigno acolhimento acharam nos espíritos ávidos de saber, e destarte se propagaram as luzes, dado que a estrangeiros, e a alguns livros impedido fosse o ingresso. É inegável que com a França o nosso comércio científico, e literário particularmente tem existido. Originais, ou traduzidos deram os Autores Franceses a Portugal no século XVIII as Ciências, e as Letras, e por conseguinte ao Brasil. Então vasto campo Literário abriu-se no Brasil, todos os ramos da Literatura aí foram cultivados; homens de subida têmpera mostraram que os gênios dos incultos sertões da América podiam dilatar seu voo até as margens do Tejo, e emparelhar com as Tágides no canto. No século XIX com as mudanças, e reformas políticas, que tem o Brasil experimentado, nova face Literária apresenta. Uma só ideia absorve todos os pensamentos, uma nova ideia até ali desconhecida, é a ideia da Pátria; ela domina tudo, tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, Liberdade, instituições sociais, reformas, política enfim, tais são os objetos, que atraem a atenção de todos, e os únicos, que ao povo interessam. Tem-se convindo, e com que razão que contrárias à Poesia são as épocas revolucionárias. Em tais crises a poesia, que nunca morre, só fala a linguagem do entusiasmo Patriótico, e das paixões, é a época dos Tirteus. Mas longe estamos por isso de amaldiçoarmos as Revoluções; nós conhecemos sua missão na história da humanidade; elas são úteis, porque meios são indispensáveis para o progresso do gênero humano, e até mesmo para o movimento, e progresso Literário. Quando elas agitam as sociedades, é verdade, a cansada Literatura para um pouco, e desmaiar parece, mas é para de novo continuar mais bela e remoçada em sua carreira, como o viajor repousa assustado, quando negras nuvens trovejam, e propínqua tempestade ameaçam; mas, finda ela, continua sua marcha, gozando a perspectiva de um céu puro e sereno, de um ar suave, e de um campo por uma nova vegetação esmaltado.

Aqui terminamos a vista geral sobre a história da Literatura do Brasil, desta Literatura não no País nascida. Antes porém de entrarmos na descrição e análise dos escritores, uma questão se levanta, e requer ser aqui tratada, questão toda concernente ao País, e aos seus indígenas. Pode o Brasil inspirar a imaginação dos Poetas? E os seus indígenas cultivaram porventura a Poesia? Examinemos.

Tão geralmente conhecida é hoje esta verdade, que a disposição, e caráter de um país a mais decisiva influência exerce sobre o físico, e moral de seus habitantes, que nós a passamos como um princípio, e cremos inútil insistir em demonstrá-lo com argumentos, e fatos por tantos Naturalistas, e Filósofos apresentados. Aí estão Buffon, e Montesquieu, que assaz a demonstram. Ainda hoje Poetas Europeus vão beber no Oriente suas mais belas inspirações. Byron, Chateaubriand e Delamartine sobre seus tumultos meditaram. Ainda hoje se admira o tão celebrado céu da Grécia, o céu que inspirara a Homero, e a Píndaro, e o céu que inspirara a Virgílio e Horácio. Nós vimos o céu, que cobre as ruínas do Capitólio, e as do Coliseu. Sim, ele é belo; mas oh! que o do Brasil não lhe cede em beleza! falem por nós todos os viajores, que, por estrangeiros, de suspeitos não serão tachados. Sem dúvida fazem eles justiça, e o coração do Brasileiro, não tendo muito de ensoberbar-se quanto aos produtos das humanas fadigas, que só com o tempo se adquirem, enche-se, e palpita de satisfação, lendo as sublimes páginas de Langsdorff, Neuwied, Spix e Martius, Saint-Hilaire, Debret e uma multidão de outros viajores, que as belezas de nossa Pátria conhecidas fizeram à Europa.

Este imenso e rico país da América, debaixo do mais belo céu situado, cortado de tão pujantes rios, que sobre leitos de ouro, e pedras preciosas rolam suas águas caudalosas; este vasto terreno revestido de eternas matas, onde o ar está sempre embalsamado com o perfume de tão peregrinas flores, que em chuveiro se despencam dos verdes dosséis pelo entrelaçamento formados dos ramos de mil espécies; estes desertos, remansos, onde se anuncia a vida por esta voz solitária da cascata, que se desempenha, por este doce murmúrio das auras, que se embalançam nas folhas das palmeiras, por esta harmonia grave e melancólica das aves, e dos quadrúpedes; este vasto Éden separado por enormíssimas montanhas sempre esmaltadas de verdura, em cujo tope, colocado se crê o homem no espaço, mais chegado ao céu que à terra, e debaixo de seus pés vendo desnovelar-se as nuvens, roncar as tormentas, e disparar o raio; com tão felizes disposições da Natureza o Brasil necessariamente inspirar devera seus primeiros habitadores; os Brasileiros músicos, e poetas nascer deviam. Quem o duvida? Eles foram, eles ainda o são. Por alguns escritos antigos sabemos que várias tribos índias pelo talento da música, e da Poesia se avantajam. Entre todas, os Tamoios, que mais perto das costas habitavam, eram também os mais talentosos; em suas festas, e por ocasião de combates, inspirados pelas cenas, que os torneavam, guerreiros hinos improvisavam, com que acendiam a coragem nas almas dos combatentes, ou cantavam em coros alternados de música, e dança hinos herdados dos seus maiores.

Em um manuscrito antigo, cujo Autor ignoramos quem seja, lemos o seguinte: “São havidos estes Tamoios por grandes músicos, entre o gentio e bailadores, os quais são muito respeitados dos gentios por onde quer que vão”. Mas não só a raça dos Tamoios as outras superava pelo gênio musical e poético; os Caetés, e mais ainda os Tupinambás, que em paz viviam com os primeiros, e em costumes a eles se assemelhavam, também cultivavam a poesia. No mesmo manuscrito lemos ainda: “Os Tupinambás se prezam de grandes músicos, e ao seu modo cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes, mas todos cantam por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e suas voltas, que acabam no consoante do mote, os quais cantam e bailam juntamente em roda.” Do respeito religioso que tais bárbaros consagravam aos seus homens inspirados uma prova dá-nos o mesmo autor, quando diz: “Entre os Gentios são os músicos muito estimados, e por onde quer que vão são bem agasalhados, e muitos atravessaram já o sertão por entre os seus contrários sem lhes fazerem mal”. Tal veneração para os poetas, e músicos, lembra-nos esses Trovadores, que de Estado em Estado livremente peregrinavam, e ante quem se abriam as portas dos castelos dos senhores da média idade; e ainda a respeitosa magnanimidade do grande conquistador antigo para a família do Lírico Grego. É, que à Poesia e à Música é dado o assenhorear-se da liberdade humana, vibrar as fibras do coração, abalar, e extasiar o espírito. Por meio destas duas potências, sabiamente empregadas pelos Jesuítas missionários do Brasil, os selvagens abandonavam seus desertos, e amoldavam-se ao Cristianismo, e à civilização[4]. Só as teorias de alguns homens positivos, que mal estudam a Natureza, desmerecer podem a importância destas duas sublimes irmãs na sociedade, e apenas considerá-las como meras artes de luxo, e de recreação de ociosos. Mas não é nosso caso agora tecer seu panegírico.

Os apóstolos do Novo Mundo, tão solícitos nos desertos do Brasil na propaganda da Fé católica, compunham em linguagem Túpica alguns hinos da Igreja, para substituir a seus cânticos selvagens; mas não consta que ao trabalho se dessem de verter em língua vulgar os cânticos dos Índios. Posto que nenhum documento sobre isso possuímos, todavia, talvez que nas bibliotecas conventuais, com especialidade as da Bahia, se achem a todo o tempo algumas instruções. Que precioso monumento não fora para nós desses povos incultos, que quase têm desaparecido da superfície da Terra, sendo tão amigos da liberdade, e da independência, que com preferência ao cativeiro em cardumes caíam debaixo das espadas dos Portugueses, que embalde tentavam submetê-los a seu jugo tirânico. Talvez tivessem eles de influir sobre a atual Poesia Brasílica, como os cânticos do Bardo da Escócia sobre a Poesia influíram do Norte da Europa hoje, harmonizando seus melancólicos acentos com a sublime gravidade do Cristianismo, em toda a Europa dominam. Do que dito havemos, concluímos, que à Poesia não se opõe o país, antes pelas suas disposições físicas muito favoneia o desenvolvimento intelectual; e se até hoje a nossa poesia não oferece um caráter inteiramente novo e particular, é que os Poetas, dominados pelos preceitos, atados pela imitação dos Antigos, que como diz Pope, é imitar mesmo a Natureza (como se a natureza se ostentasse sempre a mesma nas regiões polares, e nos Trópicos, e diversos sendo os costumes, as leis, e as crenças, só a poesia não partilhasse essa diversidade) não tiveram bastante força para despojarem-se do jugo dessas leis, as mais das vezes arbitrárias, daqueles, que se arrogam o direito de torturar o Gênio, arvorando-se Legisladores do Parnaso. Depois que Homero, inspirado pelo seu Gênio, sem apoio de alheia crítica, elevou-se à grandeza da Epopeia, criação sua, e Píndaro pelo mesmo caminho à sublimidade da Lírica, vieram então, os críticos, e estabeleceram as regras. Convém estudar os Antigos, e os modelos dos que nas diversas composições poéticas se avantajaram, mas não escravizar-se. “O poeta independente, diz Schiller, não reconhece por lei senão as inspirações de sua alma, e por soberano o seu gênio.” Só pode um Poeta chamar-se grande se ele é original, se de seu próprio Gênio recebe as inspirações. O que imita alheios pensamentos, nada mais é que um tradutor salteado, como é o tradutor um imitador seguido; e igual é o mérito e talento de ambos; e por mais que se esforcem, por mais que com seus modelos emparelhem, ou mesmo que os superem, pouca glória por isso lhes toca, tendo só afinal aumentado a daqueles. Como nós estudamos a história, não com o único fito de conhecer o passado, mas sim para tirarmos úteis lições para o presente, assim no estudo do que chamamos modelos não nos devemos limitar a sua reprodução imitativa. A estrada pelos nossos ilustres maiores aberta, que podemos considerá-la traçada em caracol numa montanha, não tocou ainda ao seu cume; se intentamos chegar a ele, o mais curto caminho é trilhá-la, mas com o cuidado que não nos deixemos encantar pela harmonia das vozes dos cisnes, que a ladeiam, ouvindo-os para adoçarmos a fadiga, admirando-os, porém marchando sempre, empenhemo-nos por prolongar a estrada; se faltos de força, em seu meio ficamos, outro que nos preceder, por que desejará prosseguir, nos arredará; nós recuaremos; e certas aves mordazes, que sobre o caminho esvoaçam, que nada ousam, mas que de tudo grasnam, contentes com a nossa queda, se amontoarão sobre nós, tomando-nos para objeto de sua zombaria. Oh como é encantada essa estrada! De um lado e de outro essas aves nos gritam: tomai por esta parte, não subais mais, que vos arriscais a cair; à direita, à esquerda. Se as escutamos, se o nosso gênio não nos guia, grande é o risco, segura é a queda. Quanto a nós, a nossa convicção é, que nas obras de gênio o único guia é o gênio, que mais vale um voo arrojado deste, que a marcha refletida e regular da servil imitação.
  
D. J. G. DE MAGALHÃES
(1836)

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