segunda-feira, 12 de março de 2018

Descobrimento da América: expedições exploradoras (Ensaio), de Rocha Pombo



Descobrimento da América: expedições exploradoras

1 - Já vimos como não causa grande sensação em Lisboa a notícia que levara Gaspar de Lemos.

Não só se contava com o êxito de Cabral, como a ilusão da índia, o sonho de que vivera quase um século a monarquia, anda incendendo toda a corte.

Sentia D. Manuel, naquele instante, o entusiasmo da sua fortuna; e os negócios da Etiópia e da Ásia preponderavam no ânimo daquela geração. De sorte que o que retarda agora a ação de Portugal no Atlântico é a própria situação que a sua obra lhe criara do mundo. O seu teatro fizera-se muito mais amplo, além de vário e descontínuo, de longínquo e disperso. Mas ainda que todas as preocupações estivessem voltadas para a Ásia, não era possível descurar de todo o que estivesse dentro da jurisdição que com tanto esforço se conseguira fixar.

Nem isso se explicaria, quando não por mais nada, pelo menos por se saber positivamente que valor tinha o feito de Cabral, e que proporções teriam as terras descobertas neste lado do oceano.

Além disso, os sucessos da coroa portuguesa nos mares, e afinal os da Espanha, com a expedição de Colombo, haviam despertado da sua incredulidade e desídia outros povos da Europa; e seria muito natural que se apresentassem, como logo se viu, temerosos concorrentes no Atlântico.

Era urgente, portanto, que se fizesse um reconhecimento completo da ilha de Vera Cruz; e para isso preparou-se uma flotilha de três navios, cujo comando se confiou ao próprio capitão Gaspar de Lemos, que de Porto Seguro voltara a Lisboa em 1500.

E a prova de que essa expedição viera incumbida, não apenas de verificar a extensão da nova terra, mas de revelar tudo que se incluísse no hemisfério português segundo o tratado de Tordesilhas está no fato que já fizemos notar, de ter vindo a primeira flotilha exploradora alcançar terra a cerca de 10 graus para o norte de Porto Seguro.

2 - Tanto nesta, como na segunda expedição, tomou parte o famoso navegante Américo Vespúcio, que D. Manuel havia chamado a seu serviço.

Parece, no entanto, que Vespúcio, pela sua autoridade em cosmografia e em ciência náutica, andava encarregado secretamente pelo rei de algum trabalho mais que simples exploração da terra descoberta.

O que sobretudo suscita essa suspeita é a circunstância de haver ele perlongado a costa como às pressas, vendo tudo de relance, e parecendo ter sempre a atenção dirigida para a solução de algum problema.

Seja ou não legítima esta desconfiança, o que é certo é que Vespúcio nada fez em relação ao conhecimento da terra; e tanto assim que D. Manuel o dispensou, ou por essa razão, ou por não ter ele dado conta satisfatoriamente da outra tarefa.

Nesta primeira expedição não se sabe em que condições teria vindo o piloto florentino, nem mesmo se tivesse o comando de alguma das naus.

Partiu de Lisboa a flotilha em maio de 1501, poucos meses, portanto, depois que lá chegara o emissário de Cabral com o anúncio da descoberta.

Em agosto tinham os expedicionários vista de terra a cerca de 4 ou 5 graus de latitude. Ali desembarcaram alguns, e sentiram logo que os selvagens se mostravam desconfiados, conquanto muito curiosos. Assim que os estrangeiros se recolheram às naus, multidões de íncolas afluíram à praia, parecendo que desejavam comunicar-se. Dois homens de bordo obtiveram permissão, e afoitaram-se a ir à terra metendo-se entre aquela gente; e nunca mais foram vistos.

Alguns dias depois mandou o capitão à terra um escaler com uns quantos homens, à busca de notícias daqueles aventureiros. Grande número de mulheres os receberam, ficando, porém, a certa distância da praia, suspeitosas, mas dando mostras de quererem entrar em relações com os hóspedes.

Um rapaz taludo e destemido não hesitou em ir para o meio delas. Maravilhadas o examinavam, quando de outeiro próximo vem, armada de clava, outra mulher, e de um golpe, à traição, prostrou morto o mancebo incauto.

Enquanto as mulheres conduziam o cadáver para o bosque vizinho, uma porção de flechas se lançavam contra os do batel, ainda na praia.

3 - Este caso é realmente estranho, como a alguns autores parece, por singular nos primeiros tempos. Mas a parte da costa, onde se deu, já estava ocupada por aquele gentio que depois se tornou famoso pela repulsa heroica aos colonizadores: os potiguares. Ainda assim, não se sabe se aquele seria o primeiro encontro do bárbaro com o europeu, como bem pondera um dos nossos historiadores.

Desenganado de encontrar por ali da mesma gente que recebera os portugueses em Porto Seguro, levantou ferros a esquadrilha, e continuou a navegar à vista da costa, rumo sueste.

No dia 16 de agosto dobrava o cabo a que se deu o nome de São Roque. E veio descendo, sem arriscar-se demais a tentativas de entendimento com os naturais.

Como se tivesse à vista um calendário, ia o capitão dando o nome do santo do dia aos acidentes da costa que mais se destacavam: cabo de Santo Agostinho (28 de agosto); rio São Miguel, rio São Jerônimo (29 e 30 de setembro); rio São Francisco (4 de outubro); baía de Todos os Santos (1 de novembro); rio de Santa Luzia (13 de dezembro); cabo São Tomé (21 do mesmo mês); rio de Janeiro (1 de janeiro de 1502); angra dos Reis (6 de janeiro) ; ilha de São Vicente (22 de janeiro).

Do cabo de Santo Agostinho em diante é que se fizeram mais frequentes visitas a paragens da costa, descendo à terra mais confiantes os próprios capitães, à medida que encontravam menos hostis os selvagens.

Chegara a expedição em fevereiro à latitude de 32 graus, nas vizinhanças do cabo Santa Maria. Ali assumiu Vespúcio o comando da flotilha, e fez provisões para longa viagem, conservando, porém, o seu intento em segredo.

Afastou-se, então, da terra tomando rumo sueste, e descendo além dos 50 graus. Dali teve de voltar para o norte; e alcançando a costa africana, foi em setembro (1502) chegar a Lisboa.

Esta expedição, que não se pode mais contestar, prestou o grande serviço de verificar a extensão da terra, e de fazer boa parte da nomenclatura do litoral.

4 - Por menos que tivesse feito esta primeira expedição relativamente ao conhecimento do país, fizera o bastante para autorizar uma tentativa no sentido de descobrir pelo extremo sul uma passagem para as índias.

Viria, no entanto, a segunda expedição ainda como exploradora, dissimulando assim o seu intuito principal, ao mesmo tempo que conseguisse adiantar alguma coisa quanto à terra descoberta.

O que confirma plenamente esta versão é o fato bem significativo da indiferença em que caiu a metrópole em seguida ao novo esforço tentado. Saíra do Tejo a frota de Gonçalo Coelho em julho de 1503. Comandava-lhe um dos seis navios o mesmo Américo Vespúcio, que era o mais afanoso em assegurar ao rei a possibilidade de ir à Ásia pelo poente. Logo que se fizeram ao mar, entraram em desavenças Coelho e Vespúcio. Este é o primeiro a voltar para o reino, sem haver descido sequer até o porto da costa onde já estivera, e dando logo como perdido o chefe da expedição. Gonçalo Coelho, abandonado de Vespúcio, depois de visitar várias paragens da costa talvez até o rio que mais tarde se chamou da Prata, retrocedeu até à baía do Rio de Janeiro, onde esteve cerca de dois anos. Daqui regressou em 1506 para Lisboa.

Frustrara-se ainda uma vez aquele intento, para o qual não mostrou Vespúcio as qualidades de Colombo.

Desiludido, dispensou D. Manuel os serviços do piloto florentino; e tão escarmentado ficou das desilusões que nunca mais deu ouvidos a quantos "visionários" insistiam na inculca de semelhante projeto. Já para os fins do seu reinado, ainda fez com Fernão de Magalhães o que fizera D. João II com Cristóvão Colombo.

Afinal, com os insucessos de Vespúcio não perdera a coroa portuguesa mais que a prioridade da navegação do Pacífico e a glória da primeira volta ao globo: pois o tal caminho da índia pelo ocidente nada ofereceu de mais vantajoso que o aberto já pelo Gama contornando a África.

5 - Depois do insucesso da segunda expedição, limitou-se o governo de Lisboa a manter capitães de vigia nos mares litóreos, e a deixar que se fizesse o tráfico pela costa, fechando os olhos a tudo que não revelasse intento de fixação no país, e até estimulando os próprios súditos a concorrer com os contrabandistas, concedendo-lhes favores convidativos.

É assim que ao lado de intrusos se encontravam, nos primeiros tempos, traficantes do reino em perfeito convívio, auxiliando-se mutuamente.

Desde 1503 pelo menos (e até desde a expedição de Cabral) havia em certos pontos da costa aventureiros portugueses vivendo entre os índios.

Explica-se deste modo a circunstância de haverem todas as expedições subsequentes a 1515 encontrado europeus em vários sítios do litoral primeiro conhecido.

Cabo Frio, por exemplo. São Vicente, Bahia (e talvez alguma outra enseada) tornaram-se estações certas dos navegantes; e por aí tinham sempre os capitães muito cuidado em não facilitar o desembarque do pessoal de bordo, para evitar as deserções a que de terra se induzia a marinhagem.

Também os aventureiros que viviam aqui quase todos explicavam a sua presença entre os selvagens dizendo-se vítimas de naufrágios: o que, na maioria dos casos, era natural, pelo temor dos castigos em que haviam incorrido pela deserção.

6 - Teria sido mesmo de plano assentado que D. Manuel começou assim, procurando tirar proveito do espírito de aventura, só garantindo a posse da terra, e pondo tudo o mais à mercê de especuladores, a quem desse modo entregava a difícil tarefa daquele primeiro encontro com uma natureza desconhecida.

Para entender-se bem essa política, é preciso não perder de vista umas tantas circunstâncias daquele momento, e sobretudo o que se dizia do país descoberto, principalmente depois que se divulgou a notícia dos horrores praticados pelos índios contra os primeiros visitantes da costa.

O que era natural, pois, é que, assegurada a posse da terra, todo o empenho da coroa estivesse em contar com gente que se incumbisse de desbravá-la. E nem D. Manuel disfarçou esse intuito quando foi até fazer da terra um valhacouto de criminosos e bandidos.

É por isso que se exagera talvez o pouco interesse com que o monarca venturoso cuidou da ilha de Vera Cruz, mesmo depois que ela crescera até fazer-se um continente. O fato de não haver D. Manuel juntado, aos seus títulos, o de senhor da nova terra, parece ainda estar indicando a pouca importância que o rei ligara ao feito de Cabral. De fato, quem se fizera logo senhor da Guiné não se lembrou de ser também senhor da Santa Cruz, ou do Brasil.

Sem embargo de tudo isso, hoje não seria mais possível contestar que se conservou sempre aqui um ou alguns navios de guarda da costa; e que, portanto, a desídia em iniciar a conquista e o povoamento era menos desinteresse pela terra, que expediente, o único que era possível naqueles dias, a embaraços cuja solução era preciso deferir sem sacrificar a causa da monarquia.

7 - O próprio D. Manuel teve por fim de ir mudando de orientação relativamente à parte americana do seu vasto patrimônio, e de ir fazendo alguma coisa mais que estimular o espírito de ganho e de aventura com as concessões que fazia aos traficantes.

Está averiguado que em 1516 ordenara ele "por alvará, ao feitor e oficiais da Casa da índia (a nova repartição por onde corriam os negócios do ultramar) que dessem machados e enxadas e toda a ferramenta às pessoas que forem povoar o Brasil". Logo depois, por outro alvará, ordenara aos mesmos funcionários que "procurassem e elegessem um homem prático e capaz de ir ao Brasil para dar princípio a um engenho de açúcar; e que se lhe desse sua ajuda de custo, e também todo o cobre e ferro e mais coisas necessárias para a fatura do dito engenho".

Sente-se que em relação à América vai entrando em aflições a corte portuguesa. Os vigias da costa já não podiam conter a especulação, que tomava cada dia proporções inquietantes. Nem mesmo, em competição com ela, as poucas " pessoas que se dispunham a povoar" uma terra bravia e desconhecida, se animariam a aproveitá-la.

Por sua parte multiplicam-se os entrelopos e fortalecem-se, constituindo-se em associações poderosas, e tornando-se assim graves empecilhos para o futuro, quando a metrópole quisesse colonizar o país.

Criava-se, pois, para Portugal uma conjuntura que com o tempo se agravaria, e da qual era preciso sair quanto antes.

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