terça-feira, 13 de março de 2018

História do Brasil: A flora e a fauna (Ensaio), de Rocha Pombo



A flora e a fauna

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


1. Quanto à flora, dividiremos o território do Brasil em duas grandes zonas gerais — a tropical e a subtropical —. O paralelo 21 marca mais ou menos, conforme a longitude e os acidentes do solo, a faixa de confins dessas duas zonas.

As espécies que as caracterizam são a araucária, na zona do sul; e na zona do norte, as grandes palmeiras.

O domínio de araucária é muito melhor delimitado: vem até São Paulo, avançando até o sul de Minas pelos lugares mais altos. Rareia, no entanto, à medida que se vem do Paraná para cima. Do Paraná para o sul, ostenta todo o seu esplendor. Só ali começam os grandes pinhais que dominam toda a flora do planalto, formando ilhas mais ou menos amplas na vastidão da campanha, e estendendo-se ao longo dos vales, como grossas linhas escuras assinalando o curso dos rios.

Mesmo nesta zona, entretanto, o domínio da araucária é limitado, a leste, pela cordilheira Marítima; e a ocidente, pelas florestas políticas da bacia do Paraná.

A flora dos campos é perfeitamente discriminada da flora tropical. A zona em que se acha melhor caracterizada é a que compreende os planaltos imediatos à Serra do Mar.

Uma observação digna de nota é a que reconhece na flora dos planaltos grande número de espécies da zona marítima muito atenuadas, ou tendendo ligeiramente a derivar-se do tipo comum. Isto se vê, sobretudo, na família das palmeiras. A buriti é a mais profusa, e é também a mais mesquinha. Mesmo a dos capões não dá ideia da palmeira gigantesca do Amazonas. O ticum, a brejaúva, o guariri e outras dão frutos aproveitáveis.

A maior palmeira dos campos é o jarivá. As famílias das gramíneas e das mirtáceas e outras são muito abundantes.

De São Paulo para o norte a configuração botânica desta segunda divisão é mais complicada, pois por aí, devido à acidentação do solo, parecem associar-se ou distribuir-se em desordem as floras das duas divisões: nas terras altas predomina a flora dos campos, e nas terras baixas, a outra.

3. A primeira coisa que se nota, ao estudar a nossa fauna, é a ausência de grandes mamíferos. O maior que temos é a anta.

E no entanto, já sabemos que a nossa fauna fóssil é riquíssima em espécies do período terciário.

Estamos, pois, aqui, em presença de um fato muito curioso: como é que se há de explicar o desaparecimento dessas espécies, quando é certo que em outros pontos da terra, ou subsistem, pelo menos muitas delas, ou desapareceram deixando representantes em espécies ou variedades subsistentes?

É sabido que na Europa, muitos dos animais hoje extintos alcançaram épocas históricas. Mas a extinção lá se explica: o homem vai excluindo a fera das paragens que vai conquistando. Só tolera as espécies úteis. Os animais ferozes, e também os monstruosos e os indomesticáveis são os primeiros que cedem à concorrência do homem.

Na Ásia, o elefante é animal sagrado, e além disso útil, e por essas razões não desapareceu. Na África subsiste porque a concorrência do homem não foi ainda capaz de eliminá-lo. O camelo também se conserva na África e na Ásia porque é útil.

Mas a América oriental, antes de Colombo, poderia considerar-se como conquistada pelo gênio do homem? Ou melhor: o domínio do homem que encontramos aqui era capaz de excluir assim, tão completamente, os grandes exemplares do reino animal?

Sabe-se que na época do descobrimento a população indígena era muito menor que a população civilizada de hoje. Significa isso que em todo o continente havia ainda imensas extensões de território deserto. Na América do Sul, o maior número de tribos ocupava apenas o litoral e os vales dos grandes rios. Florestas sem fim e solidões desoladas ficavam, portanto, abertas a toda a animalidade excluída pela espécie vitoriosa.

Como explicar, pois, a extinção de gêneros que existiram aqui, e que não teriam chegado a sentir falta ou escassez de espaço, nem de elementos e condições para continuar a viver?

Se o homem não lhes oferecia ainda uma competição de morte, como é, então, que desapareceram esses grandes tipos da fauna terciária, e sem deixar um só representante?

4. Sob um ponto de vista geral, distinguiremos a nossa fauna em fauna dos campos e fauna das florestas.

Segundo autoridades de peso, as analogias que se notam em toda a fauna das florestas (do extremo norte ao extremo sul) são muito mais importantes como elementos de classificação do que as diferenças que se acusem.

Basta um relance de olhos sobre as espécies mais características para reconhecer-se que é assim mesmo.

Na própria ordem dos mamíferos são tais as semelhanças, que as divergências se perdem na unidade do aspecto geral.

E para mais facilmente assinalar as relações em que se encontram as diversas zonas (sem mesmo distinguir campos e florestas) é de vigor elucidativo, ainda mais irrecusável que a dos mamíferos, a ordem das aves.

Quem lê, por exemplo, a descrição da avifauna de Marajó tem a impressão de que se trata de qualquer bosque ou mata do sul ou do interior. Só tem de mudar alguns nomes. As aves, os pássaros da grande ilha do norte são todos familiares aos que conhecem, ao menos alguma coisa das florestas do sul, principalmente do litoral.

Em relação a outras ordens do reino animal ainda se reconhece o mesmo fenômeno: as diferenças secundárias (cor, tamanho, etc.); desaparecem, enquanto, pelos caracteres fundamentais, se assinala uma analogia visível em toda a fauna do país; e até, na maioria dos casos, perfeita identidade.

Não seria possível dar aqui, sobre este reino da natureza, mais que noções gerais, renunciando a todo intento de estender-nos acerca de todas as classes. Daremos, portanto, o que nos parece suficiente para sugerir uma ideia de quanto temos de particular.

5. Entre os mamíferos: a anta (tapir dos índios); variedade de porcos do mato, sendo o maior de todos o queixada (tajaçu) e também o mais feroz; veados (o maior e mais ramalhudo sendo o guaçu-pacu dos tupis); roedores, classe das mais numerosas (preás, pacas, cutias, ratos, esquilos e o maior de todos, a capivara); desdentados (também numerosas) preguiças, tatus, tamanduás; rápaces (onças, jaguares, raposas, lontras, quatis, guaxinins); cetáceos (peixe-boi, golfinho, baleia); quirópteros (morcegos); símios, que formam a ordem mais extensa de toda a nossa fauna mamalógica.

Já se conhecem umas cinquenta espécies, o maior número das quais pertencem à região da bacia amazônica.

Entrando no domínio das aves, começaremos pelos gralatores: o avestruz (menor que o africano), a seriema, o jacamim, as garças e socós, o jaburu, a saracura, os guarás (pretos e vermelhos), a curucaca, o quero-quero. O nosso avestruz não atinge a muito mais que um metro de comprimento. Há-os brancos, cinzentos e malhados. É habitante dos campos, e é comum no interior, desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Vêm os palmípedes (patos selvagens, biguás, alcatrazes, marrecos, etc.); os galináceos (perdizes, inambus, mutuns, urus, macucos, jacus); as pombas; os abutres (urubus); os falcões (o gavião, o martinho); os trepadores (desde a arara, que é o maior até a saíra, que é o menor dos periquitos).

O mais pequeno dos pássaros que se conhecem no Brasil é o colibri (o mesmo beija-flor comum). Há espécies cujos indivíduos não se sabe dizer, ao vê-los de longe, se são pássaros ou insetos. São, no entanto, pelas cores brilhantes das penas, pela forma delgada e sutil, e sobretudo pela prodigiosa celeridade do voo, de uma beleza admirável. Vivem sempre em volta das flores, a haurir-lhes, dir-se-ia, só o perfume, pois que não pousam nunca, e parece que não têm tempo de sorver-lhes o suco.

São verdadeiras joias aladas dos jardins e pradarias.

6. A ordem dos pássaros cantores é a que mais tem maravilhado a quantos visitam os nossos campos e florestas, e não só pela variedade das cores, como principalmente pelas vozes.

A araponga, por exemplo, belo pássaro de plumagem branca, muito comum em todas as matas do litoral e do interior, produz um canto metálico, vibrante e agudo, que se parece com o bater, ao longe, de um martelo sobre bigorna.

Daí o nome de ferreiro, que lhe dá o vulgo.

Houve já um grande poeta de natureza que chegou a escrever uma curiosa monografia sobre a voz das nossas aves. A saracura, diz Hércules Florence, parece monologar na solidão. O socó-boi, de manhã e à noite, faz lembrar o mugido das vacas. O mutum anuncia a aurora com uns pios rouquenhos e afabados, como se viessem do terror da noite. O canto da anhumapoca, grande e bela ave do sertão, imita um sino de aldeia. O aracuã grita como uma galinha assustada, enquanto a inseparável companheira repete alternadamente as mesmas notas. A arara fende os ares, tirando de sua áspera garganta umas sílabas pesadas, das quais lhe veio o nome vulgar que tem. Bandos inúmeros de papagaios, sobretudo ao cair da tarde, soltando gritos monótonos e agudos, atordoam o viajante.

Sem dúvida — reflexiona a alma entusiasta da terra americana — a voz dos animais se harmoniza com as localidades, com o aspecto das paragens, e até com a hora em que se faz ouvir. No Spitzberg, por exemplo, só hão de repercutir sons e acentos lúgubres próprios daquele desolamento. Na Arábia imagina-se o que será o canto das aves. E mais ainda no mundo grandioso das cordilheiras. Nos rochedos que surgem no meio do oceano, pousam aves de longo voo e alteroso viso, cujos gritos só se casam com o soluçar dos ventos, dos temporais e das ondas.

De um pássaro cantor, no entanto, não falou Florence: o tangará, que não sabemos se também existe nos bosques e matas do norte. O tangará, pequeno mais ou menos como um pardal, anda sempre em bando. Cada bando tem um maestro que dirige o coro. Pausa o maestro num ramo, e os demais em torno. À medida que o diretor do rancho canta, vão os outros acompanhando-lhe a voz e os movimentos. Por fim, a um sinal do regente, levanta o voo todo o bando, e vai cantar a outra paragem.

As espécies propriamente cantoras mais conhecidas são: os sabiás, as carriças (as corruíras, pequeninos pássaros quase domésticos, sagrados para o vulgo), as andorinhas, os gaturamos, os cardeais, a patativa, o canário, o pintassilgo, a graúna, etc.

7. Das classes que ainda não indicamos destacaremos a dos insetos.

Quanto às outras bastará citar:

Entre os répteis: o jacaré; a tartaruga; a sucuriu, a baiúna, a jararaca, a cobra-coral, a cascavel.

Entre os peixes: o pirarucu, o pintado, o mero, a garoupa, o xaréu (peixe de mar); o pirarucu, a piratininga, o pacu, o surubi, a piranha (o mais temeroso pela voracidade), o jaú, o barbado (peixes de rio).

Entre os moluscos: as amêijoas, as ostras, os bacucus; os ouriços, as esponjas; os caranguejos, o camarão, a lagosta, etc.

Mas a nossa fauna entomológica é de uma exuberância incomparável, e por isso lhe reservamos aqui um pouco mais de espaço.

A ordem dos insetos cascudos (coleópteros) é uma das mais ricas e interessantes. Uma das famílias mais curiosas desta ordem é a dos elaterídeos, entre os quais os pirilampos ou vaga-lumes. A família das cicádeas é representada pelas cigarras.

A ordem dos himenópteros (formigas) é talvez a mais profusa. A esta ordem pertencem as abelhas, as vespas, as mamangavas, os maribondos, etc.

A ordem dos dípteros é também numerosa, e nela se encontram: as pulgas, os mosquitos, as mutucas.

A ordem mais opulenta pela variedade, e mais admirável pela beleza, é das borboletas (lepidópteros). A zona mais rica será talvez a do norte. Já se estudaram no Amazonas perto de seiscentas espécies.

O fenômeno da migração das borboletas (principalmente da espécie conhecida pelo nome de paná-paná) é dos mais curiosos e fantásticos que observam no interior.

Nota um naturalista de grande autoridade que a nossa fauna, relativamente aos insetos, apresenta algumas particularidades; como, por exemplo, a escassez de insetos carnívoros em comparação com o grupo correspondente da Europa; enquanto o número de insetos herbívoros é muito maior aqui do que lá. Observa ainda que os nossos insetos herbívoros são, em regra, maiores que os europeus; ao passo que os nossos carnívoros são menores que os de lá.


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Imagens:
Biblioteca Nacional Digital:
http://bndigital.bn.gov.br

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