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2/28/2020

A Batalha de Toro (História)



A BATALHA DE TORO

Por muitas vezes hei escrito, e mais uma ainda aqui o faço, embora com isso se possam morder uns tantos mal sofridos, a quem a cega Fortuna tem dispensado inúmeros favores mais devidos a seus inexplicáveis caprichos, dela, do que ao mérito próprio, deles, e invejosos, apesar dos benefícios com que injustificadamente colmados, do valor real de outros a quem a mesma Fortuna tem sido sempre adversa; mais uma vez sobre tantas outras direi que é Antônio Francisco Barata, da Biblioteca de Évora, um dos mais talentosos, dos mais sabedores, dos mais conspícuos e benemerentes homens de letras do nosso país, e daqueles a quem devidos são mais respeitos e considerações; muito mais que tudo, e o muitíssimo que é e vale, bem documentado em todos os ramos, bem o posso dizer, da literatura, a si só e ao seu incansado e fadigoso labutar o deve, desajudado de todo o auxílio e proteção; e muito mais que a seu luminoso espírito, vasta erudição, e superior manusear da opulenta língua pátria, predicado hoje tão raro até entre os nossos escritores de primeira plana, reúne uma acendrada probidade literária, um indiscutível amor das coisas Portuguesas, e de suas glórias, um caráter levantado e austero, e uma hombridade respeitável e digna, não bandeados às conveniências ordinárias da vida.
Irresistivelmente me acodem estas palavras aos bicos da pena, ao lançar, em reduzida e modesta edição, ao nosso mundo literário, o breve trabalho por Antônio Francisco Barata escrito ao correr da pena e de momento, a propósito do que nas Reparaciones Históricas escreveu sobre a Batalha de Toro, o sábio acadêmico espanhol o Sr. Don A. Sanchez Moguel. Esta é que é uma verdadeira “reparação histórica”, muito para agradecer e louvar a quem a traçou.
(Vão aqui estas palavras, irresistíveis como o digo, e tanto como a força da verdade, à revelia do Sr. Antônio Francisco Barata, e bem receio que elas molestem sua conhecida modéstia. Se assim for, releve-mas ele com sua usual benevolência).
Rodrigo Veloso (1896)
*** 
1º DE MARÇO DE 1476
Desde que, há um ano, li o notável livro do Acadêmico Madrileno, o Sr. A. Sanches Moguel: Reparaciones históricas, impresso em Madrid em 1894, me ficaram desejos de revistar os conhecimentos que eu tinha, havia muito, acerca da Batalha de Toro, ou de Zamora, pois que o livro a isso me convidava nesta afirmativa: "Toro es, en efecto, el desquite de Aljubarrota", que se lê à página 292.
Permeando-se a meus desejos a feitura de um livro de história pátria: Monja de Císter, terminado e em via de publicidade, só agora vou mostrar ao ilustre amigo, sábio e catedrático o resultado da revista e confirmação do que eu tinha aprendido, em leituras antigas.
Primeiramente: para que Toro seja desquite (desforra) de Aljubarrota, importa estudar as circunstâncias, os pormenores dos dois combates. Em poucas palavras direi o que se colhe dos livros, tanto portugueses como castelhanos.
Ambas as batalhas se feriram em campina plana, ou levemente ondulada.
Combateram em Aljubarrota trinta mil castelhanos contra dez mil portugueses, números redondos.
O rei de Portugal batalhou a pé, como qualquer cavaleiro; os castelhanos traziam cavalaria, que os portugueses não tinham; traziam a rudimentar artilharia, os trons; logo: tinham por si o número, três vezes maior, artilharia e cavalaria.
Ninguém contesta a derrota total, formalíssima dos castelhanos em menos de meia hora!
Em Toro, ou Zamora, empenharam-se forças que não se estudaram ainda bem; uns dão maior número aos castelhanos (o que é natural) outros lhe concedem forças iguais ou quase iguais.
O rei de Castela não combateu na batalha de Toro; colocou-se a uma légua de distância (certamente lembrando Aljubarrota) e desatou a fugir mal viu volver costas a seis alas do seu exército, ante as forças esforçadas do filho de D. Afonso V; os portugueses levavam artilharia; o combate prolongou-se por três horas, com muita valentia de parte a parte; Afonso V não venceu; mas venceu o filho; logo:
A Batalha de Toro não foi a desforra da de Aljubarrota, porque para o ser, forçoso seria haver igualdade nos elementos constitutivos dos dois exércitos. Para uma coisa ser antítese de outra preciso é que o seja em todas as suas particularidades.
A Batalha de Toro foi ganha pelas forças de Castela contra as de Afonso V, por uma dessas eventualidades da guerra, que nem seus cabos explicam, muitas vezes, e a que as crenças religiosas chamam: a influência do Deus das vitórias. Não nego que o mesmo se possa dizer da de Aljubarrota; possível seria que São Jorge vencesse nela a Sant'Iago.
Mas a batalha de Toro foi ganha pelas forças do Príncipe D. João de Portugal e do Bispo de Évora, D. Garcia de Menezes, contra as seis alas do exército de Castela, que fugiram acossadas e desfeitas.
Em Aljubarrota não ficara um castelhano no campo, que não fosse ou morto, ou prisioneiro.
Em Zamora ficou senhor do campo em que se colocara depois da luta com os seus vencedores, o Príncipe de Portugal, D. João.
Será, pois, isto um desquite de Aljubarrota?
Entendo que não.
Se escreverem que o fora por ter posto fim à guerra desgraçada do ambicioso africano, entendo que sim.
Mas, não basta esta síntese de leitura feita, que tem ares dogmáticos: preciso é o mostrar como tanto portugueses, como castelhanos, como franceses, como alemães criticaram o combate de Toro. Começarei pelos de casa, como é natural:
 — "E porém o Principe despois do desbarato que fez, ali onde acabou de recolher sua jente, esteve no campo em hum corpo çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira..." (Ruy de Pina: Crônica de D. Afonso V, cap. 191.)
 — "El Principe al tiempo del fracaso padecido de su Padre iva seguindo el alcance de las seis alas ia rotas, pero quando entendió lo que pasava (a derrota do pae) aun que non pudo revocar a todos de la corriente que levavam apiñose con los que pudo i otros que de otra parte de su Padre vencida se le acercaron, en una elevacion..."
 — "Fué vencida esta parte; (a de Afonso) confesamoslo; sin que lo doremos. Pero el huir una del campo i quedar otra vitoriosa en el varrido de los contrarios, digan los doctos en los estudios militares que nombre há de tener, mientras io que no los professo no sé como le hé de lamar, pues halo quien no quiere que le lamemos vitoria..." (Faria e Sousa: Europa Port. 2º pág. 407.)
— "...a nosso Senhor aprouve que nos deixassem o campo, adonde com gloriosa vitória permanecemos vencedores..." (Carta de D. João II fazendo mercê a Lourenço de Faria, seu alferes. Torre do Tombo, L. 2º da Extremadura, pág. 274.)
— Porém depois, tocado de ambição
 E glória de mandar, amara e bela,
 Vai cometer Fernando de Aragão,
 Sobre o potente reino de Castela.
 Ajunta-se a inimiga multidão
 Das soberbas e várias gentes dela,
 Desde Cadix ao alto Pireneu,
 Que tudo ao rei Fernando obedeceu.
Não quis ficar nos reinos ocioso
 O mancebo Joanne; e logo ordena
 De ir ajudar ao pai ambicioso,
 Que então lhe foi ajuda não pequena.
 Saiu-se enfim do trance perigoso
 Com fronte não turvada, mas serena,
 Desbaratado o pai sanguinolento;
 Mas ficou duvidoso o vencimento;
Porque o filho sublime e soberano,
 Gentil, forte, animoso cavaleiro,
 Nos contrários fazendo imenso dano
 Todo um dia ficou no campo inteiro
(Camões: Lusíadas C. IV est. 77-78 e 79).

—"… em que cada um dos exércitos ficou meio vencedor, meio vencido…"
"O Principe D. João depois de seguir & de perseguir por largo espaço aos que vencera, & lhe fugião, voltando a soccorer seu pay, e achando-o vencido, se manteve no campo, senhor d'elle, como vencedor…" (F. de S. Maria: Ano Histórico, tom. 1º pág. 278).
“Derrotado D. Affonso fugiu de noite para Castro Nuño. D. Fernando fugiu tambem para Zamora. O Principe vencedor ficou no campo, onde esteve tres dias” (Damião de Gões: Crônica do Príncipe D. João, cap. 78-79).
—"Le fils à Alphonse V, ayant culbuté partout les ennemis, resta maitre du champ de bataille et put se croire vainqueur" (A. A. Teixeira de Vasconcelos: Portugal et la maison de Bragance, pág. 537).
—"O Principe ficou no campo cõ sua victoria e não curou seguir o alcance…" (Acenheiro, Inéditos da Hist. Port. T. 5º pág. 273).
Não cito mais portugueses, por inútil, para mostrar o que escreveram os Castelhanos, que devem ser insuspeitos:
—"D. Enrique conde de Alla de Liste llegó em seguimento de los que huian hasta la puente de Toro: a la vuelta fué preso por cierta banda de sol enemigos que con Don Juan Principe de Portugal sin ser desbaratados se estuvieron en un altozano en ordenanza hasta muy tarde" (Mariana: Hist. L.º XXIV, cap. X pág. 165).
—"Il fut long et sanglant; et quoique les Castillans fussent les plus forts, la victoire pencha plusieurs fois du côté des Portuguais…" (Romay: "Histoire" etc. cap. XVII).
—"Ferdinand défit l'aile droite des ennemis, commandée par Alphonse; mais le Prince de Portugal eut la même avantage sur le Castillan…" (Dictionnaire des Batailles, Paris, 1771 t. 3º).
—"Pudiera esta victoria costar muy caro, si el Principe de Portugal, que tuvo siempre su esquadron en ordenança, y estava muy cerca de las riberas del rio, acometiera a los nuestros, que andavan van desordenados, y esparzidos…" (Çurita: Anales de Aragon, t. 4º L.º XIX Ediç. de 1610).
— "El Principe Don Juan se albergó con una parte del exercito baxo las murallas de Toro…" (D. Adão Soares Compendio historico de los Reyes de el Aragon, Madrid, 1797, t. 2º, pág. 312).
—"Les succés de cette bataille fut assez douteux…" (Abregé chronologique de l'histoire de Espagne et de Portugal (Paris, 1765, t. 1º pág. 694).
—"L'aile gauche de l'armée Portugaise s'etant ébranlée en bel ordre, l'aile droite des Castillans se mit en état de la recevoir par le même mouvement; mais les arquebusades ayant joué avec beaucoup de furie, & le choc étant violent de la part des Portugais, les Castillans pliérent & prirent la fuite…" (Colmenar: Anales d'Espagne et de Portugal, tom. 1º pág. 299).
—"E luego aquelles seis capitanes castellanos, que abemos dicho que iban à la mano derecha de la batalla del Rey contra los quales vino à encontrar el Principe de Portugal y el Obispo de Ebora, volvieron las espaldas, é se pusieron en fuida…" (Hernando de Pulgar: Cron. de los reis catolicos. Valência, 1780, pág. 87).
—"El Principe de Portugal, visto que la gente del Rey su padre era vencida é desbaratada, pensando reparar algunes de los que iban fuyendo, sobióse sobre un cabezo, à donde tañendo las trompetas, é faciendo fuegos, é recogiendo su gente, estuvo quedo con su batalla, é no consentió salir della à ninguno…" (O mesmo Pulgar, pág. 89).
—"El Principe eredero de Portugal conosciendo-se vencido el Rey su padre, acogiose a un lugar alto com su esquadro donde recogio a los que podia…" (Garibay: Chron. d'Espana, T. 2º L.º VIII, pág. 1276 in fine).
—"La batalla de Toro, aunque no tan funesta para los portuguezes como habia sido la de Aljubarrota para los Castellanos…" (C. Ximenez de Sandoval: Batalla do Aljubarrota, pág. X).
—"Ferdinand défit l'aile droite des ennemis commandée par Alfonse, mais le Prince de Portugal eut le même avantage sur le Castillan…" (Desormeaux: Abregé chronologique de l'histoire d'Espagne, Paris. 1758, t. 3º, pág. 25).
—"A la fin, le prince resta seul sur le champ de bataille en vainqueur aprés la défaite du corps principal. Jusqu'au moment de cette défaite, João avait poursuivi les six divisions battues par lui…" (Schaeffer: Histoire de Portug. pág. 555).
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Basta; mais citações de boas autoridades poderia lembrar, se me não tornara fastidioso.
Vê-se de portugueses, castelhanos, de franceses e de outros que a afirmativa do Sr. Moguel foi patriótica em demasia.
Bem disse Fernão Álvares do Oriente:
"As coisas todas a aparência têm
 Conforme os olhos são com que se vêm".
O Sr. Moguel viu a batalha de Toro com olhos de castelhano (não de espanhol, como a todos nos considera os habitantes da Península) eu vejo-a com os de português; porque força é dizê-lo as duas nações existem autônomas, apesar da natureza ter formado para ambas dos Pirineus ao extremo ocidente da Europa este trato de terra fertílimo da Península, que a política e a história retalharam, não direi para sempre; mas para enquanto Portugal for cobiçado, e se poder equilibrar na balança dos interesses europeus.
Para muito escrever é o assunto, se aqui fora lugar para isso.
Em vista do que aí fica escrito e transcrito, para mim, nascido em Portugal, sem animadversão nenhuma, a Batalha do Toro não foi a desforra da de Aljubarrota. Não a tem mesmo na história.
Foi um combate indeciso.
Rocio d'apar, S. Braz d'Évora,
24 de dezembro de 1895.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

3/15/2018

Importação de africanos (Ensaio), de Rocha Pombo


Importação de africanos

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Desde épocas imemoriais havia na África a escravidão histórica; isto é, a que é própria de todas as sociedades humanas numa certa fase da sua evolução social e política.

Da escravidão histórica nasceu a escravidão mercantil; isto é, a exploração do cativeiro como um negócio. Esta é exclusiva e característica das raças africanas degradadas, desde que se puseram em relações com outras raças em mais alto grau de cultura.

Sem remontar a tempos mais remotos, parece que se podem ter os árabes como os criadores da moderna escravidão do negro.

As vitórias do Islã deram como resultado o estabelecimento do tráfico pelo extremo nordeste do continente. Com o dervixe penetraram até o coração da África as legiões do profeta. Como a conquista — a forma de proselitismo preferida pelos apóstolos de Alá — era fácil, e sem glória nem proveito entre selvagens, salvava-se ao menos o que era possível no interesse dos conquistadores: o monopólio do comércio, e o tráfico de escravos destinados a suprir o Sul da Ásia e grande parte do Mediterrâneo oriental.

Esse tráfico ampliou-se com a expansão do Crescente por todo o Norte da África. Teve então o tráfico externo dois largos emunctórios: o de leste, pelo mar Vermelho; e o do norte, pelo deserto, até o Magreb. Nos princípios do século XV, puseram-se os primeiros navegantes cristãos em relações com os indígenas da costa africana de leste. Alguns aventureiros chegaram a internar-se no continente subindo os grandes rios.

Encontraram-se esses com traficantes e mercadores árabes, e viram então o estado em que se achavam os negros.

Segundo se diz, o primeiro português que levou para o reino alguns africanos do Senegal fora Gil Eanes. Mesmo admitindo que antes de 1432 não se conhecessem na Europa (ao menos na Península Ibérica) escravos negros, pode-se fixar que só depois de meados do século XV é que se começou a introdução em Portugal. Ainda assim, o que se fez até fins do dito século não passou de meros ensaios, sem o caráter franco de especulação mercantil.

Basta ver que, em 1483 ou 84, ainda Diogo Cão levara da Guiné para Lisboa, como curiosidade, quatro rapazes negros que lhe confiara um régulo da costa. Não os levou, porém, como escravos, senão como visitantes, para que depois, ao voltar para a África, como efetivamente voltaram, contassem entre os seus o que tinham visto na terra do branco.

O tráfico efetivo, data, portanto, dessa época (fins do século XV). Primeiro, fazem-se experiências em Madeira e em Porto Santo; em seguida, levam-se negros para os Açores; logo depois para Cabo Verde; e por último (por meados do século XVI) trazem-se para o Brasil.


2 - Regulou-se logo o negócio (a compra na África, o transporte, e a venda nos mercados) com aquiescência, e mesmo com o apoio de todos os governos. A competição mais forte dava-se entre especuladores da França, da Inglaterra, de Portugal e da Holanda.

Foi principalmente nas novas terras descobertas que se sentiu mais necessidade de braços vigorosos, sem os quais os latifúndios, que facilmente se adquiriam, não teriam nenhum valor.

É para a América, pois, que se fez o tráfico mais vasto.

Não foi, no entanto, o Brasil o núcleo mais denso de população negra na América; nem nos toca a nós a prioridade do tráfico. Antes de nós, importaram os espanhóis as primeiras levas para as Antilhas. Cuba e Haiti tornaram-se definitivamente, sobretudo esta última ilha, os maiores centros de elemento africano em toda a América; e a tal ponto que ainda hoje, numa porção considerável da antiga Hispaniola, é a negra a raça preponderante.

Ao Brasil, só com alguns donatários, é que começaram a chegar os primeiros negros. A princípio eram empregados exclusivamente em serviços domésticos; depois, no trabalho dos engenhos.

Os africanos eram trazidos por empresas, que disso se ocupavam como negócio lícito e rendoso.

Do porto de desembarque seguiam as turmas para estações de refresco, de onde se recolhiam depois aos armazéns das feiras.

Os dois grandes entrepostos da introdução, no Brasil, foram a Bahia e o Rio de Janeiro. Daí é que saíam escravos para todo o país.

Tem-se calculado em milhões o total de africanos que durante três séculos entrou aqui na fusão geral. É isto bastante para sugerir a enorme importância deste coeficiente na formação do nosso complexo étnico.



3 - Nos primeiros tempos da colônia, até meados do século XVII, os núcleos mais densos de escravatura estavam no Norte, em Pernambuco principalmente, e na Bahia. Logo depois, tornou-se também o Rio de Janeiro um centro notável.

Durante todo o século XVIII (primeiro devido ao trabalho dos engenhos, em seguida ao serviço agrícola) o Rio se fez um como porto africano, com aspecto de uma Loanda mais vasta e mais agitada.

Nem todos os escravos, aliás, iam para o interior. Muitos deles ficavam por aqui mesmo, ou nos lares como fâmulos, ou nos armazéns de comércio, nos serviços de estiva e de transporte local, e até em pequenas oficinas de artes mecânicas.

Desenvolveu-se mesmo entre a gente mediana da terra o costume de comprar negros para os por de aluguel em fábricas, ou de soldada na praça, ou em obras públicas. Este género de negócio tornou-se logo muito comum. Uma família que conseguia adquirir um casal de escravos tinha feito às vezes um seguro patrimônio. Era um bem que aumentava, tanto pela procriação, como pelo acréscimo do valor venal que o escravo ia tendo. A fecundidade da raça continuou aqui a ser espantosa como na África. Muitos senhores, em vinte ou trinta anos, viam triplicada ou quintuplicada aquela propriedade, sacrílega aos nossos olhos de hoje, mas naqueles tempos só preciosa.

Quanto à valorização do escravo, basta ver que ainda pelos meados do século XVIII custava uma peça da índia, ou um fôlego vivo (como se dizia em documentos oficiais) na média 100$000 (os molecotes, de 40 a 80$000) e já em princípios do século XIX, o valor de cada indivíduo foi crescendo de 500$ até 2:000$000 e mais. O escravo ladino (já ensinado) valia muito mais que o boçal (chegado recentemente da África). O crioulo nascia já valendo mais. Um moleque inteligente, sabendo algum ofício, arte ou mister, valia dinheiro. Uma jovem mulata, vistosa e prendada, era uma fortuna.

O declínio da mineração fez volver pouco a pouco a atividade geral para as indústrias agrícolas. O escravo foi passando da lavra para o eito. De princípios do último século em diante, a lavoura do café começou a deslocar para São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, a população negra.

Criou-se então o tráfico interno: os novos negreiros compravam escravos nas cidades para os vender nas fazendas.

Nas cidades, com os antigos senhores, ficavam só os escravos de estimação, as amas de peito e as amas secas, os criados domésticos {as mucamas), artífices e operários. Foram esses elementos que entraram na fusão; e hoje se acham mais ou menos diluídos no aspecto geral da população brasileira.



4 - Procurando apanhar os vestígios que a escravidão deixou no caráter nacional, vejamos o que é possível num relancear de olhos.

Foi o escravo que desnobilitou o trabalho. Ninguém se convence, mesmo hoje, de que num ofício se possa ser homem de sociedade. As próprias artes liberais voltaram a ser aqui o que tinham sido na Idade Média. Saber música, tocar um instrumento, conhecer desenho ou pintura, ser escultor ou arquiteto — eram habilidades que não convinham a pessoas de família ou de posição social. Ensinar meninos era profissão quase degradante.

É por isso mesmo que, em regra, os artistas do período colonial vinham da escravidão, ou das classes mais humildes.

A coexistência (e na maioria dos casos, o convívio) do senhor e o escravo (formando quase verdadeiras castas) deixou em toda a nossa psicologia de povo profundos vincos, que só a obra da cultura fará desaparecer de todo. É fácil assinalar, por exemplo: — um sentimento exagerado
da fortuna e do poder, e até de funções (às vezes mesmo as mais precárias) — em contraste com a mais absoluta subserviência diante de uma fortuna ou de um poder maior, ou de funções mais altas; ao lado de uma negação absurda da autoridade — um ridículo autoritarismo no cargo mais insignificante alternando com a mais leviana desestima pela justiça e pela ordem, até as mais incríveis audácias — uma refinada hipocrisia, desplante para invocar, em momento oportuno, o império da lei ; a violência arrogante, e o mais baixo renunciamento pessoal; a filáucia destemperada, e a indolência vencida, a desídia moral do bárbaro; a idolatria das grandezas e o desprezo da humildade; e tantas outras virtudes, de que às vezes nem nos apercebemos.

O regime servil equivaleu perfeitamente, nos seus efeitos, aos antigos despotismos. Dele, como destes, não podiam deixar de sair: um homem que sempre mandou, e outro que sempre obedeceu; cuja sorte era morrer no trabalho, e outro que tinha direito a gozar voluptuosamente a vida. à custa do seu semelhante. Um e outro vieram da escravidão, e ficaram como taras no sangue nacional.



5 - E não se pense que as altas classes ficavam imunes dessa herança.

Foram exatamente as famílias ricas que recolheram logo, para todos os serviços domésticos, o homem de cor. Era muito raro encontrar casas onde houvesse fâmulos que não fossem negros; pois, os brancos, a isso se recusavam como a uma degradação. Não havia serviço, mister, e até festa de lar, onde a criadagem negra não entrasse. Mesmo fora de casa, indo à igreja, ou viajando, a família não prescindia da sua escolta de serviçais.

A ação do escravo não se limitava, aliás, a exercer-se nesse trato íntimo e contínuo com a família do senhor.

Um veículo mais franco do sangue africano foi a intimidade em que a mulher negra ficou, desde logo, com a parte da família branca exatamente mais suscetível de ser influenciada: os filhos do senhor, desde o nascimento até a puerícia, eram entregues à ama e à governante. Em seguida à ama de leite; faziam o resto a ama seca e o pajem.

Quem quiser hoje, no entanto, saber onde é que subsiste melhor a índole do negro sobrevivente da escravidão, não há de ficar nos grandes centros urbanos; mas há de visitar as paragens mais escusas das cidades, os pequenos povoados nas vizinhanças das praças, os sítios onde, depois da abolição, se foi refugiar uma grande parte da população negra.

Se no próprio caráter nacional é incontestável a influência do escravo, em tudo o mais — nas indústrias, nas artes, nos ofícios, nas festas, na língua — se encontram vestígios bem vivos da ação do africano.



6 - Estudando-se o negro sob o ponto de vista do concurso que prestou à raça branca na formação da nacionalidade, tem-se de reconhecer que ele representa em toda a nossa história um contingente de primeira ordem.

Aguentou ele aqui, durante mais de três séculos, todo o peso do trabalho de que viveu a colônia. E isso não impediu que em toda parte facilitasse o estabelecimento dos portugueses, guardando-lhes as povoações e as fazendas contra os índios.

Passou em seguida a defender a terra contra estrangeiros. Em todos os movimentos de repulsa a corsários e aventureiros e a cobiça de outros governos, figurou o negro com uma coragem e galhardia que o igualaram aos grandes heróis das duas outras raças. É mais do que provável que, sem o negro e o índio, não teria o português mantido aqui o seu domínio.

Mas é como agente da nossa riqueza que teve o africano, na América, o seu papel mais considerável. Sob este ponto de vista sobreleva ele indiscutivelmente o elemento indígena. "Os escravos, dizia Antonil, há mais de dois séculos — são as mãos e os pés do senhor de engenho; porque sem eles, no Brasil, não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente". Sem eles coisa alguma se fazia que dependesse de esforço físico e causasse grandes fadigas.

Não lhes coube, pois, apenas o trabalho dos campos e dos engenhos: além das grandes culturas que só eles fizeram, em todo género de trabalhos figuram como quase únicos braços de que dependia a nossa produção geral.

Eis aí como se destaca, em pleno relevo, a dupla grande função da raça negra nesta parte da América: ela criou a economia da colônia, sem a qual não se teria fixado aqui o elemento dirigente; e guardou o território, sem o qual não seria o Brasil o que é hoje.

É evidente que sem a unidade moral em que ficaram as três raças; sem aquele profundo sentimento da pátria em que elas se identificaram nas horas do perigo; e sobretudo, sem uma forte capacidade defensiva é evidente que não teríamos conseguido trazer íntegro e indivisível, até à sua plena eclosão política, este imenso país.



7 - Há ainda uma prova que não se há de esquecer quando se quiser julgar com justiça a natureza moral do africano: é o modo como ele protestou contra a escravidão.

Sob este ponto de vista, a sorte do negro é muito mais dolorosa que a do próprio índio. Este ainda estava na sua terra, e tinha por si, não só a soberania do sertão, como o patrocínio do missionário, a voz da humanidade, e até a palavra de ordem dos governos.

O negro não teve por si misericórdia de nenhum coração. No seu exílio, nunca teve uma alma a cuja piedade pudesse recorrer nas suas amarguras. Todo aquele mundo, surdo e fechado, tinha para ele a mesma repulsa que se tem pelo simples animal.

Pois assim mesmo, vencido e degradado, teve ainda o negro alma bastante para dar testemunho da sua indignação contra a força. Desde o primeiro instante do castigo não soube dissimular o horror da sua imensa miséria. As fieiras de negros que saíam do interior da África chegavam aos entrepostos da costa sempre desfalcadas pelo suicídio. Durante a espera dos brigues, muitos morriam de tristeza ou de cólera. Em viagem, no porão do navio, uns enlouquecem, outros deixam-se morrer de fome e de sede.

À terra desconhecida chegam todos como idiotas.

E então começa o longo noviciado de dor que a raça teve de fazer aqui para chegar à história.

Primeiro resignam-se espantosamente com a sina.

Depois, vai-se erguendo, hirto e sinistro, a rebater o crime pelo crime. Não haverá talvez um recanto do país onde não subsista memória de alguma tragédia.

Travara-se a luta. Como o senhor era sempre o mais forte, o negro, ou capitulava agravando o suplício, ou fugia para as florestas. Era a fase dos quilombos.

Abre-se depois, já nos nossos dias, a última fase. O negro concilia-se com o destino para vencê-lo.

E é então que ele vai ver como afinal o branco estava, de alma aberta, a seu lado. A causa do negro tornou-se causa de toda a nação.

A história, em suma, é feita assim mesmo de tais contrastes. O que andamos fazendo é isso mesmo: andamos reduzindo cada vez mais o erro e a injustiça.


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Imagens:
http://digital.bbm.usp.br
http://memoria.bn.br

História do Brasil: De novo um só Governo-Geral (Ensaio), de Rocha Pombo


De novo um só Governo-Geral

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Unificada de novo a administração, a grande causa que se institui para a colônia é a da conquista do Norte.

O Sul já estava livre de intrusos, e ocupada definitivamente pelos portugueses toda a região da costa desde Pernambuco até os confins, ainda imprecisos, com a jurisdição de Espanha.

Os perigos, removidos desta porção do litoral, passavam-se para a zona até agora em abandono, por onde, de conluio com os índios, andavam os franceses fazendo o seu tráfico em maiores proporções do que tinham feito no Sul.

Não podia, pois, este fato senão preocupar seriamente tanto o espírito da corte, como o dos próprios colonos que estavam por lá mais sujeitos a encontros com os traficantes.

Como vimos atrás, Luís de Brito nada fez, como a corte esperava, em relação a este urgente serviço: antes agravou os males que era preciso eliminar, visto como insuflou ainda, contra os portugueses, maiores queixas do gentio.

Lourenço da Veiga, que se lhe sucede como governador-geral (1 de janeiro de 1578), não teve tempo de ao menos adiantar por si mesmo alguma coisa no caminho da Paraíba.

É, no entanto, em seu tempo, e parece que por ele patrocinado, que se propõe um rico proprietário de Pernambuco, Frutuoso Barbosa, tomar o cometimento como empresa sua.

Era Frutuoso homem de fortuna e de prestígio, e muito prático das costas da Paraíba, por onde traficara muito com os índios.

Foi primeiro à corte, no intuito de assegurar prémios e vantagens pelo serviço que ia prestar.

Viu-se logo em Lisboa que realmente seria este o processo mais fácil e mais cômodo de levar semelhante tarefa, em vez de realizá-la de conta direta da Coroa.

Contratou, pois. Frutuoso com o governo a conquista e colonização da Paraíba à própria custa, mediante as vantagens e proveitos da capitania da terra desbravada por dez anos, com todos os privilégios inerentes a essa investidura.

Organizou lá mesmo a sua expedição, regularmente provida de tudo (quatro navios, tropa de desembarque, missionários, e grande número de colonos) e partiu para cá. Temporais o forçaram a ir dar outra vez a Lisboa, onde recompôs a sua flotilha, e veio ter a Pernambuco por 1582.

2 - Em Pernambuco reforça ainda a expedição, e segue por mar para o Norte, enquanto Simão Cardoso vai por terra com uma legião de voluntários.

Na foz do Paraíba tomou Frutuoso cinco de umas sete ou oito naus francesas que ali carregavam pau-brasil.

Parecia, pois, encetar-se com fortuna o empreendimento.

Mas enquanto se esperava ali pelas forças de terra, uma cilada do gentio vem escarmentar de tal modo aquela gente que Frutuoso não quis saber de mais nada, e por mais que o exortasse a prosseguir Simão Cardoso, de tudo desistiu abalando para Pernambuco.

E assim, ficou tudo pior ainda do que estava, índios e franceses "mais soberbos do que dantes".

Havia já Lourenço da Veiga falecido (1581); e, ao cabo de uma interinidade que pusera a Bahia em desordem, empossara-se do governo geral (maio de 1582) Manuel Teles Barreto, que fora o primeiro governador nomeado por Filipe II.

Era urgente atender à situação do Norte. Por fortuna dos colonos, entrara por aqueles tempos na Bahia uma parte da poderosa expedição de Diogo Flores Valdez à busca de provisões; e disso se aproveitou o Governador para formar uma forte expedição destinada à Paraíba.

Em Pernambuco juntou-se ainda a estas forças D. Filipe de Moura que governava a capitania como locotenente de Jorge de Albuquerque).

Seguiu por mar Diogo Valdez, com as forças navais, e foi encontrar, mesmo na foz do Paraíba, os franceses de novo muito seguros. Escarmentados, incendeiam os navios, e fogem rio acima em batéis.

Construiu-se então no porto, defronte ao Cabedelo (onde logo depois se levantou também uma fortaleza), o forte de São Filipe, onde se pôs uma guarnição de uns cem homens, com três navios, tudo sob o comando de um Castejon, ou Castrejon.

Com a retirada do grosso das tropas, foi o forte de São Filipe tornando-se alvo de insistentes agressões dos selvagens, açulados pelos franceses. O ouvidor-geral Martim Leitão, que foi incansável naquele intento de defender a terra, conseguiu mandar algum socorro àquela guarnição em apertos.

3 - Quando se soube, porém, que o grande chefe Piragibe, no seu profundo ressentimento contra os portugueses (pelo que sofrera no tempo de Luís de Brito) resolvera aliar-se aos potiguares,   houve alarma geral em Pernambuco, e pregou-se em aflições a jornada da Paraíba, a cuja frente se pôs o próprio Martim Leitão,

Em princípio de março (1585) marchou para o Norte aquele "exército — diz Fr. Vicente — que foi a mais formosa coisa que nunca Pernambuco viu, nem sei se verá"...

Só a presença destas forças bastou para afugentar o gentio e os traficantes.

Tendo varrido de inimigos toda a várzea do Paraíba e redondeza, voltou Martim Leitão para Pernambuco, deixando no forte de São Filipe, fortemente provido de tudo, o mesmo Castrejon e Pedro Lobo.

Em Pernambuco e Itamaracá o sucesso da jornada reanimou as populações, e muitos colonos pensaram logo em ir aventurar pelas terras novamente conquistadas.

Mal se persuadiam, no entanto, de haver ampliado horizontes para o norte, quando se recebe notícia de que o comandante espanhol estava em discórdia com a gente do forte e da povoação. E não demorou que chegassem a Itamaracá muitos debandados de São Filipe, e logo atrás destes o próprio Castrejon, declarando que havia destruído o forte, e desamparado aquele posto, porque se via sem recursos e sem inimigos...

Em tal conjuntura é ainda o infatigável Ouvidor-Geral quem levanta os ânimos, e organiza às pressas uma nova jornada.

Dá-se neste momento uma circunstância imprevista que vem concorrer muito para facilitar a obra dos colonos no rumo em que vão agora. Estava para partir a nova expedição, quando chegam a Pernambuco dois índios, procurando o Ouvidor-Geral da parte do chefe Piragibe.

Havia sido este tratado afrontosamente pelos potiguares; e em grande despeito contra estes, propunha paz, e pedia contra aquelas hordas tremendas o socorro dos pernambucanos.

Apressou-se Martim Leitão em mandar o capitão João Tavares ao encontro do chefe tabajara. Numa caravela com vinte homens de guerra saiu Tavares; e no dia seguinte (3 de agosto de 1585) encontrava-se com Piragibe exatamente no ponto em que se ia situar a povoação que é hoje a capital do Estado da Paraíba.

4 - Como este acordo era da maior importância para a colônia, a instâncias da população, partiu solícito para o Norte o Ouvidor-Geral, a fazer efetiva e solene aquela paz.

Lançou Martim Leitão os fundamentos da cidade, fazendo construir ali um novo forte, em cujo comando investiu a João Tavares. Foi em seguida até à baía da Traição, expelindo daquelas paragens o gentio hostil e seus aliados.

É assim que este homem completava as suas funções de juiz com as de "general da conquista", como o intitula Fr. Vicente.

Mas estava longe ainda de normalizar-se a ocupação da Paraíba.

Em 1586 viera da metrópole, para comandar o forte recentemente fundado, um Francisco de Morales. Repetiu este, ali, os desastramentos de Castrejon, expulsando do forte a João Tavares, e pondo-se em conflito com os pernambucanos e os índios aliados.

Os potiguares e os franceses, que só espreitavam aqueles momentos de discórdia para recuperar o terreno perdido, começaram logo a reaparecer pela costa, afoitando-se até às vizinhanças do forte.

Sentindo os perigos, abandona Morales inesperadamente o posto; e ainda uma vez teve Martim Leitão de acudir à Paraíba. Ali bateu de escarmentos o bárbaro e seus sócios, levando-os de vencida até para além da baía da Traição.

De volta, para mais segurança dos colonos, fez Martim Leitão levantar um outro forte (São Sebastião) duas léguas rio acima; e para serventia comum dos moradores, construiu nas imediações um engenho de açúcar.

Agora, se não estava ainda feita integralmente a conquista da Paraíba, ao menos já se pode dizer que os portugueses tinham a sua guarda avançada naquele posto; até ali estavam únicos senhores do litoral e de boa parte do sertão.

Como se tem visto, é o esforço do próprio colono (e ainda aguentando com os entraves devidos à perda da soberania portuguesa) que alcança tais sucessos. E nesta investida sobre os potiguares e seus cúmplices, o grande vulto que se destaca, representando o espírito da terra, é o heroico Martim Leitão.

5 - É assim, pois, que se vai, aos poucos, penosamente, conquistando-a trecho a trecho, entrando naquela porção do país.

As jornadas iam levando por diante o selvagem infenso e o traficante.

Mal se assentavam tendas numa paragem desbravada, e já era preciso, sem descanso, investir o acampamento desmontado, que se instalara para além.

Entre os colonos, os mais intrépidos, andam como que instintivamente, naquele afano de legião, e marcham sempre na vanguarda, vivendo uma vida de guerra contínua, como em praça militar que se desloca dia e dia para a fronteira que recua, e abrindo, para a nova ordem que se organiza, a terra cada vez mais ampla.

Avança-se pelo mar e pelo sertão. Enquanto se leva o selvagem de montanha a montanha, tem-se de ir expelindo das enseadas concorrentes mais temerosos, e de ir fortificando e guarnecendo a costa, por onde vêm sempre os maiores perigos.

Só ali, na Paraíba, duraram as lutas mais de dez anos.

Agora, daquele posto estão os olhos voltados para as estâncias do Norte; pois da baía da Traição haviam os franceses passado à do Potengi e vizinhanças.

Mas o grande mal das discórdias, que sobrevinha a cada vitória, vai retardar a avançada naquela direção.

Além disso, o governo do país ressentira-se, durante uns quatro anos, dos inconvenientes de uma nova interinidade, em consequência do falecimento de Manuel Teles Barreto, em 1587.

A administração deste homem fora profícua, principalmente porque corrigira os desmandos de Cosme Rangel, pusera em ordem a terra, e cuidara da sua defesa.

Mas, para alongar a interinidade que se abrira, aconteceu que o governador nomeado para suceder a Teles Barreto, Francisco Giraldes, em viagem para cá, estando já à vista da costa, fora impelido para o norte por tormentas, e teve de voltar para o reino, lá falecendo.

Só por meados de 1591 chegou à Bahia o novo Governador-Geral, D. Francisco de Sousa, a cujos esforços vai dever o Brasil os melhores serviços, principalmente no aumento da conquista e na exploração do interior.

6. Na capitania da Paraíba já se haviam estabelecido muitos colonos, entre os quais alguns que tinham feito fortuna no Brasil, e que não cessavam de clamar contra as contingências em que os punham os franceses do Rio Grande.

Nesse sentido trouxera ordens positivas o novo Governador, e recomendações insistentes o capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem.

Incumbiu-se logo este de organizar e dirigir uma grande expedição, composta de forças de mar e de terra. Marchou Mascarenhas com quatro companhias, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque, e foi na Paraíba encontrar-se com as forças de mar.

Na Paraíba reuniu-se à gente de Jerônimo um poderoso reforço de Feliciano Coelho (portugueses, mamelucos e índios de Piragibe) e dali seguiu para o Norte o exército de terra, enquanto Mascarenhas foi com a esquadrilha encontrar-se com Jerônimo já na barra do Rio Grande.

Ali desembarcou toda a força, e deu-se logo princípio à construção de um forte.

Não tardou, porém, que se apresentassem os potiguares, dirigidos por franceses, a hostilizar, com desusada veemência, os ocupantes. Chegaram os apertos a tal extremo que os do forte em construção só não se arriscaram a uma retirada desastrosa porque foram socorridos a tempo.

Mesmo agora, reforçados, tinham de combater todos os dias e a todas as horas, revezando-se as turmas na defensiva e nas obras de fortificação. Até que se foram amainando aquelas refregas.

Concluído o forte, ali ficou Jerônimo de Albuquerque com a sua gente, enquanto Coelho e Mascarenhas voltavam para as respectivas capitanias.

7 - Já experimentado nas guerras passadas, e nos processos mais eficazes contra o gentio, valeu-se então, Jerônimo de Albuquerque, do concurso dos missionários.

Com muita felicidade, conseguiu chamar a si vários chefes potiguares daquelas regiões, entre os quais o velho Poti, patriarca de uma família de heróis, que vieram a celebrizar-se nas lutas dos colonos contra estrangeiros.

Quis D. Francisco de Sousa que fossem aquelas pazes comemoradas como um grande acontecimento; e assim se fez, indo especialmente ao Rio Grande, para assistir ao ato oficial da aliança, o capitão-mor de Pernambuco, Mascarenhas Homem, e Alexandre de Moura, o ouvidor-geral Brás de Almeida, Feliciano Coelho e muitos outros capitães.

Lançou então, Jerônimo de Albuquerque, as bases de uma povoação a que deu o nome de Natal, em honra do dia em que se inaugurava ali a igreja que se havia edificado (1599).

Não se limitou o governador D. Francisco de Sousa a adiantar a conquista até o Rio Grande do Norte; renovou ainda algumas, e construiu outras fortificações na costa; e com solicitude especial, deu impulso a descobertas de minas no interior.

Para isto, enquanto se avançava da Paraíba para o Rio Grande (em 1598), visitava o Governador as capitanias do Sul até São Vicente, onde providenciou sobre explorações em várias partes do sertão. Em 1608 foi ainda D. Francisco de Sousa nomeado Governador da Repartição do Sul. Mas agora, em vez de administrar, parece que só se preocupa com o problema das minas.

Em 1602 sucedeu a D. Francisco de Sousa no governo geral, Diogo Botelho.

Este, no intuito de apressar a conquista do Norte, vem direito a Pernambuco. Vem com ele nesta ocasião, como sargento-mor do Estado, Diogo de Campos Moreno, o qual se tomou em seguida uma das grandes figuras da nossa história, particularmente na conquista do Maranhão.

No tempo deste governador, propõe-se Pero Coelho de Sousa realizar o que Frutuoso Barbosa não havia conseguido; isto é, a conquista do Ceará por empresa sua.

Foi este mais feliz que o outro; mas a própria gente lhe criou entraves, e teve por fim de desistir de tudo.

Deixamos aqui, portanto, a solução que se procura: a ânsia do colono, mais que a ação oficial, espera no Rio Grande a oportunidade de avançar para além.