terça-feira, 27 de março de 2018

História do Brasil: Jean-François Duclerc (Ensaio), de Rocha Pombo


Guerra de Sucessão na Espanha: Jean-François Duclerc

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Como sempre acontecia durante o período colonial, a Guerra da Sucessão de Espanha (pela extinção da Casa da Áustria com o falecimento de Carlos II em 1700) veio repercutir na América, por se haver a corte de Lisboa envolvido na contenda.

Não era isso, aliás, muito mais que pretexto para as agressões que vamos sofrer. Tinham sido os franceses, entre os povos que ameaçaram o domínio, dos mais insistentes em disputar, desde os primeiros tempos da colônia, a posse de algum trecho de costa onde pudessem estabelecer um entreposto permanente e seguro para o comércio que faziam entre o Brasil e a Europa. O próprio governo francês nunca dissimulou o grande interesse que ligava a semelhantes intentos quando protegia, mais ou menos ostensivamente, expedições destinadas a tais conquistas. E quando, desiludido de várias tentativas, viu como a Inglaterra, com sua mediação nas negociações da paz com a Holanda, alcançara grandes favores no Brasil e em todas as outras colônias portuguesas, cuidou a França com muito empenho de obter da corte de Lisboa, ao menos, para o seu comércio, vantagens equivalentes às de que se aproveitava a sua rival do outro lado da Mancha.

Não encontrou, porém, da parte de Portugal, mais que a simples deferência de umas concessões que não constituíam propriamente favor efetivo ao comércio francês.

É assim que, à medida que encontrava resistência ao seu intento de amparar, dentro das boas relações e dos processos legítimos, os seus armadores, vai de novo o governo de Versailles convencendo-se de que só pela força conseguiria alguma coisa.

Foi por isso mesmo que, depois que Portugal celebrara a paz com a Holanda (definitivamente em 1669), começaram as costas do Brasil a ser outra vez com mais frequência visitadas por navios franceses. Até que, pelos princípios do século XVIII, a questão dinástica da Espanha vem dar ensejo a mais desabridas agressões.

Não era afinal só o propósito de hostilizar o velho reino, investindo-Ihe as possessões ultramarinas, o que levava o governo da França a conceder cartas de corso contra navios e praças das colônias portuguesas; esse propósito vinha ao encontro do instinto de pirataria, ainda não de todo vencido naqueles tempos, principalmente entre os povos marítimos da Europa que não tinham entrado na partilha dos novos descobrimentos, pelo menos com a mesma fortuna dos dois povos da Península.

2 - Já se havia iniciado no Brasil do Sul, a fase da grande riqueza. Gozava o Rio de Janeiro em toda a Europa a fama de cidade opulenta; e sobre ela tinham olhos de gana quantos viviam ainda no oficio predatório pelos mares. O próprio Duguay-Trouin fazia o corso contra os ingleses, em 1710, quando volvera a sua cobiça heroica contra "a colônia do Rio de Janeiro, uma das mais ricas e poderosas do Brasil", como ele próprio diz nas suas Memórias.

Não há dúvida, no entanto, que a política de Luís XIV se associa agora, muito oportunamente, ao heroísmo daquele espírito aventureiro que não queria morrer.

Assim que Portugal, em 1703, pelo tratado de Methuen, com a Inglaterra e a Holanda, entrara na liga em favor da Casa da Áustria contra o Duque de Anjou, autorizou Luís XIV que se fizessem hostilidades, em terra e no mar, contra súditos da Coroa portuguesa.

Como se esperassem por aquela ordem, puseram-se logo em ação multidões de corsários. Durante os primeiros anos limitaram-se a apresar navios inimigos em viagem. Até que, pelos meados de 1710, prepararam, armadores de Brest, com todas as possíveis reservas, uma expedição contra o Rio de Janeiro.

Compunha-se essa expedição de seis navios (cinco de combate e um transporte) com mais de 1.000 homens de desembarque, sob o comando de Jean-François Duclerc.

No dia 6 de agosto (1710) chegava essa esquadrilha à vista de Cabo Frio.

Era pensamento dos franceses surpreender a cidade durante a época em que a frota do Brasil estivesse nos mares, de viagem para o reino e a maior parte dos colonos recolhidos nas minas.

Mas o governo português não se descuidara de medidas de defesa, e tinha recomendado às autoridades a maior vigilância.

Teve logo o Governador, Francisco de Castro Morais, aviso de terem sido avistados da costa navios suspeitos; e preparou-se para qualquer emergência.

No dia 17, já pela sobretarde, avisaram as fortalezas da barra que estavam à vista aqueles navios, trazendo hasteada a bandeira inglesa.

Ao toque de rebate, houve alarma geral na cidade; e enquanto muitas famílias se retiram para os subúrbios, as forças da guarnição tomam no litoral os pontos mais expostos à investida.

3 - No outro dia, pela manhã, os navios afastaram-se. Mais tarde, volveram até perto da barra; e como não atendessem ao sinal que se lhes fizera, disparou-se contra eles, da fortaleza de Santa Cruz, um tiro de canhão, que acertou na capitânia. Só então fundearam, mas pondo-se fora do alcance das balas de terra.

No dia 18 à noite levantaram ferro, tomando rumo sul; e foram, a 27, dar fundo junto da Ilha Grande, onde, apesar da resistência que encontraram, puderam refazer-se de víveres, saqueando algumas fazendas e engenhos. Ali estiveram uns dez dias, aproveitando esse tempo em tomar, dos prisioneiros que faziam, todas as informações que lhes convinham sobre o melhor meio de invadir a cidade por terra.

No dia 7 de setembro destacaram-se da flotilha três navios, que vieram explorando o litoral para o norte, até às imediações da barra do Rio.

O plano de Duclerc agora é distrair para os lados do mar a atenção das forças que guarnecem a praça; e dar de surpresa o ataque por terra.

Vieram os três navios até às vizinhanças da barra. Tentaram por gente em terra na praia do Arpoador e depois na da Tijuca; mas encontraram todas essas paragens bem guardadas.

Enquanto isso, desembarcava Duclerc, numa praia perto de Guaratiba, uns 1.000 homens, tomando afoitamente caminho da cidade, pela estrada do Camorim e dos Três Rios. Ao cabo de penosa jornada, estava, no dia 18, no Engenho Velho.

Ao ter notícia dessa temeridade dos franceses, entendeu Castro Morais que devia concentrar todo o seu esforço em defender agora a cidade; quando o que é certo é que, com os recursos de que dispõe, poderia ter ido destroçar em caminho aqueles aventureiros. Expediu apenas contra eles algumas partidas que lhes embaraçassem os caminhos.

Dera-se o alarma na cidade, e grande parte da população pusera-se em armas, principalmente estudantes, caixeiros, funcionários e até frades.

Ao aproximarem-se da praça, deixaram os franceses as estradas, e tomaram as alturas dos subúrbios. De uma certa eminência, viram o grande movimento da praça ameaçada, e compreenderam que os cálculos lhes falhavam.

Sentiram-se em situação da maior gravidade. A retirada era impossível sem o sacrifício de toda a gente.

4 - Na angústia em que se encontram, o único expediente é o do desespero: resolve Duclerc penetrar na cidade, onde não perde a esperança de contar com o concurso da esquadrilha como se combinara. Divide as suas forças em grandes turmas, a maior das quais, com ele próprio, tentou descer junto à lagoa da Sentinela (vizinhanças da atual rua do Riachuelo). Faz-lhe frente, porém, ali, uma companhia de estudantes, comandados pelo capitão Bento do Amaral Coutinho.

Voltou então Duclerc para o morro, e foi descer nas imediações do hoje largo da Lapa. Ali os encontra o trinitário fr. Francisco de Menezes com uns trezentos patriotas. Lutou-se por algum tempo de parte a parte desesperadamente; até que os nossos tiveram de debandar.

Mas, tendo conseguido algum reforço, tratou fr. Francisco de Menezes de reunir a sua gente, e apertou os invasores contra o morro do Castelo. Tentaram eles galgar o morro; mas a artilharia os rechaçou. Hostilizados pela "gente postada nas esquinas das ruas e dirigida pelo frade, que em toda parte aparecia", foram os franceses, pelas ruas da Ajuda e de São José, até a praça fronteira ao convento do Carmo (depois largo do Paço, e hoje praça 15 de Novembro).

Fizeram grande esforço por apoderar-se da igreja, talvez na esperança de se salvarem ali; e como encontrassem forte repulsa da parte das tropas que guardavam o convento, investiram, do outro lado da praça, o palácio dos governadores e a alfândega.

Mas ali já estava o batalhão de estudantes que tinham acudido da Sentinela. Com isto, assustaram-se os franceses; e quando viram chegar, ainda, no acampamento do Governador (no Rosário) o coronel Gregório de Castro Morais com grandes reforços, correram a entrincheirar-se no trapiche vizinho, que tiveram de tomar com muito custo.

Produziu-se então, extraordinário alvoroço entre os defensores da cidade; pois ali encontraram os assaltantes seis peças de artilharia e muita munição.

E trava-se agora o duelo tremendo.

Ali sucumbe na peleja o valente coronel Gregório de Castro Morais.

Os patriotas, no entanto, não arrefecem na luta. De toda parte acorrem novos combatentes em fúria. Era a própria cidade que se defendia.

Vendo que a resistência ali é impossível, retiram os franceses para um armazém de pedra junto ao cais, e ali se entrincheiram. Esperava Duclerc que a todo momento surgisse na baía a sua esquadra.



5. Chegado aquele extremo para a audácia dos invasores, só então saiu do seu acampamento o governador Castro Morais, e veio aproveitar heroicamente a situação que lhe havia preparado a coragem dos fluminenses.

Querendo logo dar prova do seu, infelizmente, serôdio valor, intentou lançar fogo ao armazém onde estavam os franceses. Desistiu disso, porém, quando lhe fizeram sentir que o incêndio facilmente se propagaria pelos prédios vizinhos, onde estavam refugiadas muitas famílias.

Planeou-se, então, um ataque decisivo ao inimigo. Assestaram-se canhões nas bocas das ruas que davam para a praça; e deu-se ordem para que da ilha das Cobras, e de outros postos fortificados da vizinhança, rompesse o fogo no momento em que do lado de terra começasse o combate.

Compreendeu Duclerc que estava sob a iminência de inevitável desastre. Ainda assim, fingiu segurança, para propor a Castro Morais umas condições de paz muito curiosas: estava "disposto" a cessar toda hostilidade e afastar-se do Brasil, se o Governador o deixasse reembarcar com a sua gente em perfeita ordem e com todas as garantias.

Semelhante proposta, "da parte de homens (e homens agressores!) que estavam à mercê dos seus contrários (agredidos) foi ouvida com indignação",

Rebateu-se-lhes declarando "que se não se entregassem imediatamente sem condições, seria arrasado o edifício em que estavam recolhidos".

Tiveram de render-se à discrição.

O que se segue à rendição, decerto que não havia de ser muito agradável aos corsários. Podem, no entanto, os vencedores, com toda razão, gabar-se da sua continência em relação a salteadores que tanto sossego, tantas vidas e tanta fazenda lhes custaram.

Nem por isso, aliás, tem faltado, e ainda hoje, quem acuse os fluminenses de haverem sido desumanos com os franceses, matando impiedosamente até os que procuravam esconder-se, fugindo ao furor da gente da terra, cuja indignação agora, depois da vitória, era muito natural e muito difícil de conter.

6 - No momento em que, durante a luta, se dera uma explosão na alfândega, uma turma de invasores, que tinha ficado no alto de Santa Teresa, para acudir oportunamente, persuadiu-se de que aquilo era o sinal convencionado de que os franceses estavam de posse da cidade; e ainda mais se iludiram na sua esperança aqueles homens, quando o repique dos sinos em todas as igrejas lhes anunciou, como uma boa nova, o saque desejado.

À vista de tudo isso, desceu, pois, resoluto, e entrou na cidade aquele destacamento. É neste troço que se deu a maior mortandade.

Viram logo, os míseros desalmados, a dura realidade do que havia sucedido, e sob a fúria da multidão desafrontada e violenta, debandaram pelas ruas em horrível aflição de destroço, pedindo misericórdia, procurando asilo nos templos, mas a maior parte perecendo às mãos daqueles mesmos que se calculava tivessem de ser vítimas de insânia agressiva.

No desvario do massacre, tomam uma casa, e ali se recolhem uns setenta franceses (com alguns prisioneiros que haviam feito nos subúrbios).

Dali mandaram um frade a pedir quartel. Nem o frade se respeitou. O povo, em completo desvario, massacrou quase todos aqueles infelizes.

7 - Calcula-se em cerca de 400 o total de mortos, e de 150 o de feridos da parte dos franceses; e em 50 mortos e uns 70 feridos a perda dos nossos.

Os prisioneiros, em número de 440, foram recolhidos em várias fortalezas.

No dia seguinte (21 de setembro) apareceram à barra os navios que deviam cooperar com as forças de terra. Deram sinais, e ainda dispararam alguns tiros perdidos.

Com licença do Governador, partiu a encontro deles um escaler levando aviso de quanto sucedera. Mandaram logo chamar os navios restantes da Ilha Grande; e havendo todos recebido ainda provisões para a viagem, fizeram-se de vela para a Martinica.

Esteve Duclerc, com os seus oficiais, alojado, primeiro no Colégio dos Jesuítas, e depois no forte de São Sebastião, no alto do Castelo.

Em seguida, concedeu-se-lhe a cidade por menagem, e passou ele a morar numa casa que alugara, à rua de São Pedro.

Estava ali havia uns seis meses, e tendo até a casa guardada por dois soldados, quando apareceu, na manhã de 19 de março, morto ainda na cama, asseguram alguns que por dois indivíduos embuçados, que alta noite lhe penetraram nos aposentos, sem oposição, parece, dos guardas. "Não foi isto, diz Southey, por certo, ato de fúria popular: só podia ser obra de vingança privada, sendo causa provavelmente o ciúme". Acrescenta o historiador inglês que não se tirou devassa: mas Castro Morais afirma que se fizeram todas as diligências para descobrir o assassino.


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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital do Brasil
http://memoria.bn.br

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