domingo, 11 de março de 2018

Origem e descendência intelectual de Castro Alves: os "cástridas" (Ensaio), de Afrânio Peixoto



Origem e descendência intelectual de Castro Alves: os "cástridas"

Voz de ferro! desperta as almas grandes
Do Sul ao Norte... do Oceano aos Andes!
Castro Alves

Do Sul, do Norte, do Oriente irrompem...
Castro Alves

Apesar daquela frase de Leonardo da Vinci — triste do discípulo que não passa o mestre — tamanha é a honra de ter sido mestre de Castro Alves, que Sílvio Romero levou quase meio século de vida literária a dar-lhe, a impor-lhe, a ascendência, mais que contestável, de Tobias Barreto. Não desconfiava talvez que, implicitamente, tal insistência era o reconhecimento de uma grande honra: foi a secreta ironia de uma quizila de cinquenta anos!

Como que receava não ficasse ao seu ídolo outro mérito literário que o dessa precedência que é, entretanto, tudo quanto pretende estabelecer. E não prova entretanto nada.

Os argumentos são, com efeito, indignos da grande inteligência do crítico, a turvar ainda pela obcecação de um capricho, a turvar ainda o mais lúcido entendimento. Tobias é seis anos mais velho que Castro Alves, logo... é seu mestre... Castro Alves antes de 1862, isto é antes dos quinze anos, não era o Castro Alves dos poemas vibrantes que o caracterizaram (e dos quais nem sequer se aproximaram os do outro), só o foi depois dessa idade... quando, e porque, conheceu Tobias... É tudo o que há de mais indiscutível: igual título podem reivindicar todos os contemporâneos do poeta, mais velhos do que ele... Apenas não devemos fazer carga, ainda ao precoce Castro Alves... por não ter a sua completa individualidade mental e moral antes dos quinze anos; conformemo-nos à natureza que não deixa a ninguém ser púbere antes da puberdade, tenha ou não conhecido Tobias Barreto...

O necessário, o essencial à demonstração, de dependência ou derivação de um talento a outro, essa não foi feita, nem tentada. Com efeito entre 63 e 65 no Recife, Castro Alves achara a sua vocação de poeta liberal, ensaiando os primeiros e mais numerosos dos seus cantos abolicionistas: Tobias apesar de mestiço e, por dever, podendo ser defensor da raça perseguida, nenhuma preocupação tem com a escravidão, que só ao tempo movera parceiros seus como Luís Gama, e moveria outros depois como Rebouças e Patrocínio, em auxílio dos brancos libertadores. Tobias andava pelo tempo a poetar à guerra do Paraguai.

Pernambuco abaixa a coma
Agacha-te um pouco e toma
O peso do Paraguai...

Foi Castro Alves indiferente a esta veemência do nosso provocador imperialismo no Prata: a não ser à partida de um amigo para a guerra, Maciel Pinheiro, o "peregrino audaz", — em uma festa de caridade pelos órfãos, — cujos pais caíram "do vasto pampa no funéreo chão", — só há uma de suas poesias O Pesadelo de Humaitá que trate deste assunto, e estava de hóspede no Rio, na redação de um diário carioca, assistindo à passagem de uma manifestação patriótica — e provocado ou solicitado, produziu aqueles versos, que, embora aplaudidos, lhe mereceram a condenação de artista — "não se publica": foi a nota que lhes pôs à margem.

Se os dois poetas não tiveram sentimentos e ideias comuns, poderiam ter entretanto o estilo, a ênfase altaneira de sua eloquência: nada mais diferente do que o tom e a execução artística desses dois poetas, um medíocre, do qual não há uma só poesia que inteiramente se possa citar com agrado, e o outro a quem sobejaram os triunfos não só do povo que as ouviu, como da posteridade que as lê, ainda agora comovido.

Pretende Sílvio Romero que a poesia heroica, de origem hugoana, foi novidade aqui introduzida por Tobias Barreto, e se Castro Alves foi hugoano, será depois de Tobias e, portanto, seu discípulo.

Nem a conclusão, nem a premissa estão certas. O crítico esquece que Pedro Luís e José Bonifácio existiram, ou de indústria os suprime, para o seu efeito... E Veríssimo lembrou que o primeiro foi "o precursor da inspiração política e social e do que depois se chamou condoreirismo, na nossa poesia". "Deixou meia dúzia de poemas, os melhores no tom épico "Os Voluntários da Morte", "Terribilis Déa" que todo o Brasil conheceu, recitou, admirou": e isto de 60 a 65. Castro Alves sofreu tanto essa influência que até a sua Deusa Incruenta é uma antítese à Terribilis Déa, à Imprensa, benfazeja, contra a guerra de extermínio: ficar-lhe-ia o tom, a Tobias ficara o tom e a canção guerreira, a imitar, como imitou, entretanto sem a inspiração épica de Pedro Luís. Se "condoreiro" deriva de condor, o nome que pôs Capistrano de Abreu à poesia heroica que adotara esse "totem", não convinha à de Tobias Barreto; com efeito, não existem "condores", "Andes", "amplidão", em sua poesia, ao menos as que se imprimiram nos Dias e Noites: duas vezes, contadas, usou a primeira palavra, uma vez a outra, nenhuma a terceira; Castro Alves é que delas abusou e, como louvor ou censura, bem pode chamar-se "condoreiro": mas foi um incidente ou uma fase da sua poesia.

Não esqueceu a Veríssimo o condoreirismo de José Bonifácio, também esse precursor. Acredito mesmo que a influência dele terá sido talvez a maior que, de brasileiro, sofreu Castro Alves. José Bonifácio, com efeito, não foi só poeta épico do Redivivo, como o lírico, gracioso e terno de Um pé ou do Meu testamento, íntimo e comovente de Teu nome e Os nossos sonhos, como poeta nacionalista, do pinturesco regional do O Tropeiro, com que precede, em quase todas as suas notas, a Castro Alves.

Apenas aqui seria o caso de lembrar da Vinci. Aliás Castro Alves foi, de fato, discípulo de José Bonifácio. Achara a lembrança dele no Recife, onde exerceu e lecionou pouco tempo, e em São Paulo começara uma fama que ninguém teve maior como professor de Direito e arauto liberal da mocidade. Com Marcolino de Moura premeditara logo o nosso poeta transferir-se para a Faculdade de São Paulo e mais tarde aí chegado escrevia a Luís Cornélio: "Estou na Academia ouvindo o grande José Bonifácio. Logo depois, quando, dissolvida a Câmara, o tribuno parlamentar torna à sua cátedra, e a terra natal o recebe jubilosa, diz O Ypiranga, de 2 de agosto de 68, Castro Alves "soube num rapto sublime manifestar a comoção de quantos acompanham o representante dos foros populares. A simpatia e a admiração seria recíproca porque José Bonifácio foi dos primeiros a lhe prantear a morte, n'À margem da corrente, e num soneto comovido. Ele ouvia "o sabiá cantar",

Ouvi... ouvi... terníssima
A extrema nota, repetida ainda...
— Eco saudoso das canções de outrora
...........................................
Mas do teu coração, inda a saudade
Ficou — murmúrio e flor, brisa e perfume.

Outro que a amizade e a admiração deviam conceder alguma influência seria Fagundes Varela, de quem diz Regueira Costa, que com ele frequentava o jovem Castro, quando, em Santo Amaro, no Recife, numa vivenda bucólica, se ocupava em amar a "encantadora Idalina" e a escrever o poema d'Os Escravos. À reminiscência desses amores, mais tarde, em 1870, nas Aves de Arribação, juntou a lembrança do amigo, numa epígrafe de lindos versos seus:

Pensava em ti nas horas de tristeza
Quando estes versos pálidos compus
Cercavam-me planícies sem beleza
Pesava-me na fronte um céu sem luz...

Contou-me o Dr. Rodrigues Peixoto ouvira Castro Alves responder a alguém, que lhe indagava da preferência, entre os poetas brasileiros: — "Dos contemporâneos, Fagundes Varela; dos passados, Casimiro de Abreu". Isso foi em 69, encerrado o seu ciclo de poesia social e épica, subsistente o lirismo efusivo e comovido, bem espontâneo e bem brasileiro, de que esses dois poetas, com ele, seriam os nossos mais altos representantes naquele tempo.

Mas, a influência, mais decisiva na obra, ou em parte da obra de Castro Alves, é necessariamente a de Hugo. Não há negar, se é honrosa a ascendência, senão para restringir, dizendo que a preferência seria pela similitude do gênio. Uma das preocupações de nosso tempo está em procurar as fontes de uma inspiração ou uma ideia, como se houvesse alguma destas "criações" humanas que não seja uma "reprodução" humana: La Bruyère deu idade de sete mil anos à menor de nossas cogitações e parou aí, porque não há documentos de maior antiguidade. Pôde Emerson dizer que "o maior gênio é o homem mais endividado"; sua grandeza, Shakespeare ou Molière, faz-se com a contribuição de muitos: não são pessoas, são multidões — um gênio é uma raça, às vezes uma era... Entretanto, talvez por malicioso divertimento, nos comprazemos em dizer que Noventa e Três é a História dos Girondinos de Hugo, como a Joana d'Arc é a Vida de Jesus de Anatole France: fazemos duvidosa homenagem a Lamartine e a Renan, de uma similitude de propósito, sem indagar quais foram as deles.

Capistrano de Abreu, prolongando Taine, completou-lhe uma lei de evolução intelectual, dizendo:

"começamos por imitar alguém, depois não imitamos a ninguém, finalmente nos imitamos a nós mesmos". Sem personalidade característica a princípio, depois individualizado em aspecto inconfundível, por fim, dada a consagração, a mesmice sem mudança e sem renovação, na rota batida do sucesso. Há nos extremos, porém, duas ordens de exceção: os medíocres, que ficam sempre imitadores, e os extravagantes que nem a si mesmo imitam e continuam sempre diversos e renovados: por isso a ambição de d'Annunzio, manifestada naquele lema: "Renovar-se, ou morrer".

Castro Alves imitaria Hugo, talvez, como imitaria, por vezes, a Lamartine, Musset, Byron, Espronceda... os poetas de suas leituras prediletas, se é que tais preferências já não dizem na similitude de gênio que o levaria, com os variados gostos deles, para as mesmas tendências poéticas. Mas no seu tempo e com o seu gênio, pergunto, poderia ser ele diverso do que foi... e em que de sua característica de poeta republicano e abolicionista, de lírico tropical e nacionalista, estão os vestígios daqueles grandes homens de seu tempo?

Uma escola literária definiu com espírito e justiça um contemporâneo, Francis de Croisset, — é alguém que tem talento, e é chefe, e muita gente, que não o tem, e são os sequazes. Um clama, os outros reclamam. A Castro Alves ele sobrava o talento para não ser discípulo dócil, fosse ainda do maior poeta do século. Rui Barbosa afirmou, pois com razão: "Bem pouco valeria Castro Alves, se a estabilidade de seu nome se achasse ligada às feições específicas e aos transitórios destinos dessa fase literária a que entre nós se imprimiu o selo da influência e do nome de Hugo. Na sua personalidade esses não passam, a meu ver, de traços acidentais. O que faz a sua grandeza são essas qualidades superiores a todas as escolas que em todos os estados da civilização constituíram e hão de constituir o poeta, aquele que como o pai da tragédia grega, possa dedicar as suas obras "ao Tempo": sentiu a natureza; teve a inspiração universal e humana; encarnou artisticamente nos seus cantos o grande pensamento de sua época". Não se dirá melhor.

Com a versatilidade dos sentimentos e das ideias, deu Hugo a sua facúndia trasbordante à Revolução, ao Império, a Luís XVIII, a Carlos X, à República... Essa generosidade descomedida era o Romantismo, movimento nem hugoano, nem francês, nem literário, senão político, social, europeu, que começara no século XVIII com os sensualistas ingleses, Locke, à frente, no século anterior, propagados ao continente por Voltaire e Montesquieu e ganhara na Rússia a Catarina II, na Prússia ao grande Frederico, na Áustria a José II, na Toscana a Leopoldo, aos príncipes de Weimar, Bade, Mogúncia, e até em Portugal, com Pombal, a D. José... Literariamente, Schlegel, Goethe, Schiller... Young, Walter Scott, Byron... Manzoni, Foscolo, Monti... como Rousseau, Madame de Stael, Chateaubriand... são os grandes nomes do Romantismo e todos eles anteriores a Hugo, que seguiu com algumas infidelidades também a corrente política, social, literária de seu tempo.

Castro Alves não podia escapar também a esse seu tempo, mas fê-lo com um caráter e uma originalidade que são a sua honra. Caráter porque não transigiu com a sua nativa generosidade por nenhum interesse: num regime monárquico, foi republicano; num tempo em que a escravidão era no Brasil res sacra, res integra, foi abolicionista; num tempo em que havia uma guerra contra o Paraguai, desdenhou o sucesso fácil das odes guerreiras e militares, foi humanitário e pacifista; quando o êxito militar e político do império alemão acobardava o mundo e aqui mesmo lograva o proselitismo que os fortes sempre impõem aos fracos, ele protestava e num apelo patético confiava o destino futuro da Civilização aos filhos do Novo Mundo! Originalidade porque lograva ser poeta da natureza brasileira, das causas sociais brasileiras, com estilo próprio, seu, inconfundível entre todos os poetas de seu tempo e de seu país...

Euclides da Cunha nos dará ainda razões: "o aparecimento de Castro Alves, certo oportuno, como o de grande homem é em grande parte inexplicável. Ele não teve precursores, na sua maneira predominante. Os grandes pensamentos, sociais e políticos, que agitou não lhe advieram, como em geral sucede, de longas ou bem acentuadas correntes, nos agrupamentos que o rodeavam. Pertenciam, plenamente generalizados, à sua época. Nasciam do patrimônio comum das conquistas morais da humanidade. A sua grandeza está nisto: ele os viu antes e melhor do que seus contemporâneos. Compreende-se que o estranhassem. Sem dúvida devera ser anômalo e, ao parecer, desorado, o vidente que surgia, de improviso, num estonteamento de miragens, e a proclamar uma nascença ainda remota, ou a descrever a era nova, que poucos adivinhavam, numa linguagem onde — naturalmente — os mais belos lances do seu lirismo incomparável teriam de golpear do abstruso e do impressionismo transcendental das profecias...". "É que, não era Castro Alves apenas o batedor avantajado dos pensamentos de seu tempo". Há no seu gênio muita coisa do gênio obscuro da nossa raça". E prova-o Euclides da Cunha, para concluir repetindo a premissa: "Castro Alves foi altamente representativo de sua terra e de seu povo". Portanto, como Hugo, foi Castro Alves do seu tempo e só hugoano se a esse tempo houvermos de dar, com parcialidade, o desígnio de "hugoano": seria uma homenagem ao maior poeta do século XIX, mas não seria justa, nem explicaria coisa alguma, porque não diria como e porquê, do seu tempo, na cultura universal, não deixou de ser entretanto representativo de sua terra e do seu povo, na expressão estética daquela cultura.

Dada esta restrição, quanto a Castro Alves, também ela se fará para os menores poetas brasileiros que tiveram tais acentos, descobre-se mais que um endereço geral, como uma conformidade de tom e às vezes lembranças de outros versos do nosso poeta, que estão a sugerir a sua ascendência, no seu meio e no seu tempo. Como homéridas, houve "cástridas", pelo Brasil. O insuspeito Sílvio Romero não fugiu a dizer: "quase toda a gente no Rio e províncias do Sul fazia versos, imitando a maneira do poeta das Espumas Flutuantes". Um curioso ensaio literário, se valesse a pena, seria esse: basta à glória de Castro Alves documentar a afirmação de Sílvio Romero com alguns exemplos, desses seus imitadores e discípulos, a quem o seu gênio se impôs mais decisivamente.

Imitam-se mais facilmente os defeitos, que as qualidades; os caracteres indiscretos e imponentes, que as virtudes secretas e íntimas: os discípulos e imitadores saem assim caricaturas, que vem a depor, injustamente, de um mestre inocente. Entre os encantos e as "bombas" da poesia de Castro Alves foram as bombas que mais eco despertaram, em ribombos clamorosos. Diz ainda Sílvio Romero: "a sua maneira espalhou-se então por todo o país. Escusado é dizer que a mediocridade dos maus discípulos foi-se tornando cada vez mais acentuada, até cair nos mais extravagantes despropósitos". Antes destes, porém, houve muitos discípulos que lhe fizeram honra, e se podem citar.

Carlos Ferreira foi um — e este seu amigo, companheiro de casa, seu admirador e portanto, naturalmente, seu discípulo. Nas suas Rosas loucas, impressas em 71, em São Paulo, logo a primeira estrofe termina

Ave saudosa que rolou dos Andes

As Vozes da Mocidade, dirigidas também a um amigo, lembram Castro Alves:

"É belo o estremecer do vago anseio
Da natureza inteira, e ver os mundos
Boiando em mar de anil!
Oh! é belo gravar em traços grandes
— Glória! — Dos céus nos âmagos profundos
Quando a ideia é buril!

É em Sab tegmine fagi que diz o outro, com o mesmo acento e forma:

Vem! Do mundo leremos o problema
Nas folhas da floresta, ou do poema
Nas trevas ou na luz...
Não vês?... Do céu a cúpula azulada,
Como uma taça sobre nós voltada
Lança a poesia a flux!

Nos Homens de Roma há reminiscências de tom com Os Jesuítas e O Século. A Dalila deu ecos a Um canto do Século. Diz o Castro:

Hoje flores... A música soando
As perlas da Champanhe gotejando
Em taças de cristal
A volúpia a escaldar na louca insônia
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.

Responde o outro:

Ali folga a Marcô dos beijos mornos
Da lascívia cruel... Treme a inocência
E goza o potentado!
Ouve-se o tinir da dobla ferrugenta...
Rola na banca um mundo de desgraça
E Satã ri-se ao lado!
...........................................
Há um templo de luz — o altar é negro!
Fumega em vez da mirra — o vinho ardente
Aos pés da meretriz!

Castro Alves dissera noutra poesia, É tarde!

É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! não venhas tropeçar nas piras
É tarde! é muito tarde!

A Duas irmãs faz Carlos Ferreira uns versos:

São duas gotas de orvalho
Pingando do mesmo galho
Caindo na mesma flor;
São duas pombas de arminho
Cantando no mesmo ninho,
A mesma canção de amor...

Não são A duas flores de Castro Alves?

São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol
Vivendo no mesmo galho
Da mesma gota de orvalho
Do mesmo raio do sol...

E outras, e outras, em que a forma e o tom, a intenção e a maneira, vêm como uma reminiscência ou um eco de Castro Alves. Onde porém Carlos Ferreira excedeu o seu modelo foi no Baile das múmias que deixou a perder de vista as mais ousadas ou absurdas "bombas" de Castro Alves. Basta citar, sem comentário, algumas estrofes:

Meia-noite! hora de sangue,
Hora de febres fatais,
Hora em que gemem saudades
Dos tempos que não vem mais;
Quando os pálidos precitos
Requeimam lábios malditos
Em taças negras de fel!
Quando as bocas dos finados
Soltam gritos compassados
Pedindo sangue ao bordel!
.......................................
Rompe a orquestra, o baile rompe
A tempestade assobia;
Giram nas valsas os vultos,
Arde a febre, vive a orgia!
Bem como um bando de gralhas
Passam nas brancas mortalhas
Os convivas do festim;
E as grutas fundas rasgadas
Respondem com gargalhadas
Ao som da orgia sem fim!
.......................................
Redobra o baile das múmias
Gritam as ondas além...
Passam e repassam as sombras
Em furibundo vaivém!
Soam lúgubres trombetas...
Debatem-se as nuvens pretas
— Feras do espaço a rugir! —
Das fauces negras do abismo
Rompe, salta o cataclismo
Que ameaça o baile extinguir!
........................................
"Bravo!" "bravo!" diz o vento,
Grita o trovão — "muito bem!"
Os ciprestes batem palmas
Como aplaudindo também...
Soa o rufo... A festa aumenta...
Deus sobre um raio se assenta
E vem nas tumbas pousar!
Batem nas lousas os crânios,
Somem-se os vultos titânios,
Arde em fogo o lupanar!

Outro "cástrida" é Francisco Lobo da Costa, cujas Lucubrações, de São Paulo, 1874, começam:

"Um dia, debruçado à amurada de velejeira barca... meus olhos como que embebidos de ternura e saudade... Eram os Tapes aquelas saudosíssimas cordilheiras... O passado..."

E também por isso escreve o seu poema, como Castro Alves o dissera, no prefácio às Espumas Flutuantes:

"Só e triste, encostado à borda do navio, eu seguia com os olhos aquele esvaecimento indefinito e minha alma apegava-se à forma vacilante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiais da mocidade..." "Eram os cimos fantásticos da Serra dos Órgãos... embebiam na distância, sumiam-se, abismavam-se numa espécie de naufrágio celeste".

E lembra o passado, os amigos e para eles, como a recordá-lo, escreve o seu livro... tal depois Lobo da Costa. Por todos os seus versos, aqui e ali, há a influência de Castro Alves: ela é explícita numa composição das Auras do Sul (outro seu livro) — O Gênio e a arte que é como eco de O Fantasma e a Canção:

— Quem bate à porta do pobre?
— Abre não tenhas receio,
Eu venho de fome cheio
Quero pedir-vos um pão...
Andei faminto e descalço
Pelas ruas da cidade!
Ai! senhor! a caridade
Já não vive entre nós não!

Castro Alves, aliás inspirado pela Balada do desesperado, de Henrique Murger, que traduzira, havia escrito:

— Quem bate? — A noite é sombria!
— Quem bate? — É o rijo tufão!
Não ouvis? A ventania
Ladra à lua, como um cão.
— Quem bate? "O nome que importa
Chamo-me dor... abre a porta!
Chamo-me frio... abre o lar!
Dá-me pão... chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!"
— Mendigo, podes passar!

Por fim, o mendigo de gênio, banido do próprio lar, encontra uma pousada; diz Lobo da Costa:

— Entra; meu albergue é pobre
Mas há fogo na lareira...

dissera Castro Alves:

— Entra! O verso — é uma pousada
Aos reis que perdidos vão
A estrofe — é a púrpura extrema,
Último trono — é o poema!
Último asilo — a Canção!

Lobo da Costa é o autor daquele soneto Última Confissão de Eugênia Câmara em que puniu a infeliz atriz com maus versos, fazendo-lhe dizer, entre penitente e vaidosa:

E Castro Alves morreu por meu respeito!

Francisco de Castro, pelo nome e pela origem, da Bahia, estava certamente votado a admirar do vate das Espumas Flutuantes, nome que lhe inspiraria o de seu livro Harmonias errantes, impresso no Rio, em 1878. Desde os primeiros versos que a influência se confirma:

A hora em que a terra dorme
Em fatal sonambulismo
Sentindo a atração enorme
Do mudo olhar de um abismo;
Quem atira aos quatro ventos
Os ousados pensamentos
Dos eternos Prometeus?
E assombrando a humanidade
A lira da tempestade
Sacode das mãos de Deus?

É Hugo em Jersey eco d'As Duas Ilhas (Jersey e Santa Helena), que tem a mesma forma, e idêntica emoção:

Quando à noite — às horas mortas
O silêncio e a solidão
Sob o dossel do infinito
Dormem do mar n'amplidão
Vê-se por cima dos mares
Rasgando o teto dos ares
Dois gigantescos perfis...
...............................
São — dois marcos miliários
Que Deus nas ondas plantou
Dois rochedos, onde o mundo
Dois Prometeus amarrou!...
...............................
São eles — os dois gigantes
No século de pigmeus.
São eles — que a majestade
Arrancam da mão de Deus...

Ubirajara tem não só o aspecto, como termina

E dizer n'alma pungidos
Pela mesma dor feridos
Nós havemo-lo imitar!

Também nas Duas Ilhas de Castro Alves:

Clamam: Da turba vulgar
Nós — infinitos de pedra —
Nós havemo-los vingar!

Na Leitura no deserto as reminiscências são de Sub tegmine fagi:

Azuis fosforescências peregrinas
Os pirilampos brilham nas campinas
No manto virginal
Sobre o mar que braceja nas areias
Languidamente embalam-se as sereias
Nos berços de coral.
.......................................
Aqui do ideal a seiva pura
A poesia esplêndida satura
De mágico verdor
Deus concede às paixões um desafogo
Queimam-me os lábios as sílabas de fogo
Desta palavra — amor.

Castro Alves dissera desse "deserto" do campo, sob árvores:

Amigo — O campo é o ninho do Poeta
Deus fala quando a turba está quieta
Às campinas em flor.
.......................................
A andorinha, que é alma — pede o campo
A poesia quer sombra — é o pirilampo
P'ra voar... p'ra brilhar.
.......................................
Aqui o éter puro se adelgaça
Não sobe esta blasfêmia de fumaça
Das cidades p'ra o céu.
E a terra é como inseto friorento
Dentro da flor azul do firmamento
Cujo cális pendeu!...

Outro, também Castro, e também poeta baiano, foi João Baptista de Castro Rebelo, que não dissimulou a influência de Castro Alves: nos Louros e Mirtos, versos de 71-91, impressos na Bahia em 1902, os ecos do grande poeta são constantes. No Escravo, além das ideias há versos, como estes:

Eu, que levanto o olhar para este sol esplêndido
E sonho a liberdade em face deste azul...

que recordam, em outro metro, aqueles

Eu que sou pobre mas só peço luzes
Que sou pequeno mas só fito os Andes...

Em Amanhã! diz:

Saudai-os, povo! são eles
As esperanças viris
Desta luminosa pátria
Deste homérico país
São eles — a mocidade
Que arvora da liberdade
A bandeira que jurou
Modelando os pensamentos
Nos eternos monumentos
Das profecias de Hugo.

Também, de Hugo e Napoleão, clamara Castro Alves:

São eles — os dois gigantes
No século dos pigmeus
São eles — que a majestade
Arrancam das mãos de Deus
— Este concentra na fronte
Mais astros — que o horizonte,
Mais luz do que o sol lançou!
Aquele — na destra alçada
Traz segura sua espada
— Cometa que ao céu roubou!

Nunca... lembra Fatalidade:

Ungem-te os sonhos as vernais fragrâncias
De uma existência que pulula em rosas
E eu vou gemendo pela vida em ânsias
Longe da festa que em tua alma gozas...

Longe, bem longe do teu lar mimoso
Onde a ventura fez também seu ninho
Vou minhas crenças apagar saudoso,
Buscando a morte por qualquer caminho...

Apenas, os acentos de Castro Alves são mais desesperados e comovidos:

Vai! pois, ó rosa que em meu seio outrora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minh'alma como um chão deserto
Vai! flor virente! mais além florir...
Vai! flor virente! no rumor das festas
Entre esplendores, como o sol viver
Enquanto eu subo — tropeçando incerto —
Pelo patíb'lo — que se diz sofrer!...

Na poesia descritiva encontram-se também não raro. Diz um em Vai dormir... do Livro de um anjo, Bahia, 1879:

A alcova é em cima, no sótão:
As paredes são de neve;
E a aragem travessa e leve
Que esvoaça no jardim
Sobre a janela entreaberta,
E, risonha, perfumada,
Beija a pérola sagrada
Desse estojo de marfim.

Argênteos fios da lhama
Que pelo espaço flutua
Quebram-se os raios da lua
Do leito por sobre o véu...
Por sobre os flocos da nuvem
Que toda a pureza encerra
De um anjo, que está na terra
Mas, passa a vida no céu.

Numa página de Escola Realista desenhara Castro Alves:

A alcova é fria e pequena,
Abrindo sobre um jardim
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há nas jarras deslumbrantes,
Camélias, frias, brilhantes
Lembrando a neve polar.
Livros esparsos por terra
Uma harpa caída além;
E essa tristeza que encerra
O asilo onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores,
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
O vulto de uma mulher...

Uma composição dos Ardentias, Porto, 1907, Ilações de um poema está entre o Rola de Musset e essa Página de Escola Realista, de Castro Alves, como, nesse mesmo livro, Protesto trai a imitação de Castro Alves e Guerra Junqueiro. Aliás a admiração de Castro Rebelo pelo grande poeta baiano é explícita na poesia "alvesiana" que lhe dedica, a semelhança de outros cástridas, Carlos Ferreira, Lobo da Costa, Francisco de Castro.

Nenhum destes, porém, é um eco fiel e repetido de Castro Alves como Segundo Wanderley, cujas Recoltas poéticas, Natal, 1896, nas ideias, ritmos, rimas, imagens idênticas são paráfrases alvesianas: seria preciso citar todo o livro... Alguns exemplos. N'As duas águias (o povo e o exército) diz:

São dois leões aquecidos
À luz do mesmo arrebol
São duas chamas nascidas
Do mesmo enorme farol;
São dois vulcões que crepitam
Dois corações que palpitam
Unidos num corpo só;
Dois gênios, dois pensamentos
Lançando à mercê dos ventos
Das monarquias o pó...

É o lirismo de A duas flores transposto em épico alvesiano. Em Surge et ambula:

Eu amo ouvir um farfalhar de ideias
Apraz-me ver a progressão da luz

pelo tom, a repetição do último verso das estrofes, lembra Quem dá aos pobres empresta a Deus:

Do vasto pampa no funéreo chão...

No Naufrágio do Solimões diz:

Mentira! tudo baldado ou
Silêncio! enxuga o pranto

como o outro dissera no Gonzaga

Desgraça! eis tudo o que resta...

ou no Navio Negreiro:

Silêncio! musa! chora e chora tanto...

Na Luta extrema:

Lutei, fui quase vencido

como na Hebreia:

Lutei, meu anjo, mas caí vencido

Nas Harmonias:

Deus fez a nuvem para os céus azuis
Deus fez a virgem p'ra viver de sonhos
Deus fez o homem p'ra viver de luz

como na Volta da Primavera:

Deus fez a neve — para o negro monte!
Deus fez a virgem — para o bardo triste!

Na Escravidão:

Quebre-se pedra funérea...

como n'O Século:

Quebre-se, o cetro do Papa...

Na Voz da Justiça:

Filhos da ideia sagrada
Filhos do grande país...

Como no O Livro e a América:

Filhos do século das luzes
Filhos da Grande Nação...

Em Deus:

A brisa mansa que o vergel afaga

como em Se eu te dissesse...

Ao salso vento que as marés afaga...

Até na forma das estrofes O calor é como O laço de fita; até nos títulos e intenções Immortalis Deus é a Deusa incruenta. De Castro Alves ele diz

Morreu? Não, não morre o astro...
.......................................
Vive nos tempos honrosos
De mil peitos generosos
Como um laurel do Brasil

viveu e viverá na mente e na inspiração de muitos outros poetas, como Segundo Wanderley, que de tanto o amarem repetiram, como próprios, imagens e versos dele.

Melo de Morais foi contemporâneo e amigo de Castro Alves e sofreria sua influência, bem que, vivendo, muito mais tarde se quisesse eximir desse compromisso. Diz Sílvio Romero que ele "é de ordinário colocado no grupo dos condoreiros, como sectário de Castro Alves; discorda para dizer adiante que, admitida tal influência, "ainda lhe ficam elementos próprios". Não há dúvida; mesmo assim é inegável seja este poeta um "cástrida". Basta percorrer-lhe a obra; basta o título Cantos do Equador, de uma delas, homônimo de Hinos do Equador, que sabia Melo Morais ser o que destinava Castro Alves ao seu segundo volume de poesias, que não logrou ver publicadas, para compreender a sedução que esse vate teve pelo outro, que lhe dedicara Sub tegmine fagi em troca de Pelo Rio (publicado em 28 de abril de 69 pelo Diário do Rio de Janeiro).

Os ecos de Castro Alves são frequentes em Melo Morais. Diz No Pouso (Cantos do Equador, Rio, 1881):

Porém, patrícios meu peito
Era uma veiga sem flor
Um lírio sem ter orvalho
Aurora sem ter fulgor

Leva os cantos do tropeiro
Leva o perfume das flores
Todos tem sorrisos n'alma
Todos tem os seus amores

Todos tem os seus amores
Todos tem sua afeição
Como a tarde que descora
'Stá triste o meu coração...
......................................
'Stá triste o meu coração
Como a flor da sapucaia...

Lembra, pela forma, a "Tirana" da Cachoeira de Paulo Afonso; lembra, principalmente pelas imagens e intenções, a Canção do Violeiro:

Passa, ó vento das campinas
Leva a canção do tropeiro
Meu coração está deserto
Está deserto o mundo inteiro
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
...................................
A cauã canta bem triste
Mais triste é meu coração.
...................................
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia
Veio o tempo, trouxe as flores
Foi o tempo a flor desmaia
Colhereira, que além voas
Onde está meu coração?

No Banho, recorda O Nadador, da Cachoeira...

As águas correm rápidas
Em jorros transparentes
Quais bandos de serpentes
Em largo vendaval
Mas, vem a noite próxima
O céu faz-se sombrio
Meus membros sentem frio
Qual flor dormida ao sol

lírico e suave, quando o outro foi impetuoso e heroico:

Ei-lo que ao rio arroja-se;
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contraíram-se
Por sobre o nadador...
Depois se entreabre lúgubre
Um círculo simbólico...
É o riso diabólico
Do pego zombador!

Nos Poemas da Escravidão, a Partida de escravos evoca a Tragédia no lar:

Chegou o fazendeiro: olhou os negros
E no ajuste entrou
P'ra sempre acorrentada a liberdade
Inda uma vez chorou

Castro Alves descreve:

Assim dizia o fazendeiro rindo
E agitava o chicote...
A mãe que ouvia
Imóvel, pasma, doida, sem razão...
À Virgem Santa pedia
Com pranto por oração...

Diz Melo Morais:

Um colóquio se deu; e lacrimosa
À porta uma mulher
Implora de joelhos — Meu senhor
Venda a mim se quiser...

Refere Castro Alves o patético colóquio:

— Dá-me teu filho! repetiu fremente
O senhor, de sobr'olho carregado
— Impossível!... — Que dizes miserável?!
— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...
Inda há pouco o embalei, pobre inocente,
Que nem sequer pressente
Que ides... — Sim que o vou vender!
— Vender?! Vender meu filho?!
Senhor, por piedade, não...
Vós sois bom... antes do peito
Me arranqueis o coração!

Diz um:

Vede a escrava é boa...

O outro dissera:

— Cala-te miserável! Meus senhores
O escravo podeis ver
........................................
É forte, de uma raça bem provada...

Vendido o filho, a mãe-escrava fica louca, para Melo Morais, como ficara para Castro Alves...

Nos limbos pretende a Vozes d'África:

O Cristo, meu Senhor! nos limbos, dois mil anos
Eu tenho te evocado, ó luz, ó claridade
O Cristo, meu Jesus, assombro dos tiranos!

não é um eco, amortecido, de Castro Alves?

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes!
Em que mundo, em que estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito
Que embalde desde então corre o infinito
Onde estás, Senhor Deus?...

Um dos mais citados poemas de Melo Morais Filho, que anda nas antologias, é a Tarde Tropical: pois bem, apenas é uma variante da Tarde, de Castro Alves, da Cachoeira de Paulo Afonso.

Diz Melo Morais Filho:

É a hora do dia em que das matas
Desce a sombra da basta gameleira
E saltando das lapas as cascatas
Espadanam das águas a poeira...
Em que a onça lambendo as ruivas patas
Rente o peito com o chão da cordilheira
Encurva o dorso, e cerra, ao abandono
Os olhos d'ouro, de fadiga e sono.

Dissera Castro Alves, com a mesma forma e a mesma intenção:

Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E da araponga o canto que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça
Passa o bando selvagem das gaivotas...
E a onça sobre as lapas salta urrando
Da cordilheira os visos abalando.

É de Melo Morais Filho:

Hora de amor, de preces, hora de encanto
Tu murmuras nos rios transparentes...

Fora de Castro Alves:

Hora meiga da tarde! Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente...

Um se enternece:

Hora de amor, de adoração, de crença

O outro se comovera:

E te amei tanto — cheia de harmonias,
A murmurar os cantos da serrana
A lustrar o broquel das serranias
A dourar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — à flor das águas frias —
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares

Melo Morais Filho, como tantos, rendeu a Castro Alves o seu preito; disse-lhe numa "Saudação":

O povo te proclama um novo eleito,
Eu — um poeta-rei!

E era; tinha súditos; teve seguidores e sequazes, discípulos e alunos, admiradores que o imitaram, e um destes, dos que mais o honram, foi Melo Morais Filho.

Seriam esses, seriam outros, Ramos da Costa, Múcio Teixeira, Lima Barata, Silva Sena, Garcia Rosa, João de Brito... em algumas, em muitas de suas produções deles. Haverá que tornar ao assunto, para uma menos imperfeita exegese. Se então, como faz Humberto de Campos, com tanta perspicácia e erudição, procurarmos "os donos de nossos versos", verificaremos que, de muitos, de quem se não suspeitava, que foi seu colaborador — Castro Alves. Teófilo Dias, por exemplo um grande poeta, tem esse formoso soneto Saudade, no qual descreve a terrível tortura que nos move a ausência da amada criatura, íntima, secreta, inalterável, indelével, de todo o coração, de cada partícula dele:

Como acre aroma absorto na textura
De um cofre oriental, fino e poroso...

Esse perfume tenaz resiste ao tempo e, ainda desfeito o cárcere que o retém cativo, despedaçado, em mil fragmentos, o cofre que o contém

Cada parcela reproduz perfeito
O mesmo aroma inalterável, vivo.

Sentira Castro Alves também assim a saudade da amada criatura, e tem a mesma imagem, de que, a de seu admirador, é apenas uma paráfrase magnífica.

É que tudo me lembra que fugiste
Tudo que me rodeia de ti fala
Como o cristal da essência do Oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala...

Outros e outros deveram, aqui e além, a Castro Alves: um, imprevisto, e que o honra, e com o qual desejo pôr fecho a estas notas, foi Olavo Bilac. Este, porém, teve o seu pecado, de blasfêmia. Um dia de maio de 98, escrevendo sobre Luís Guimarães Júnior, a quem entendeu louvar — e no Brasil é vezo, para engrandecer um, deprimir outro, como se nos escasseasse a matéria-prima para os nossos monumentos, por isso efêmeros... — Bilac cometeu uma impiedade no seu "Registro", a seção diária que mantinha n'A Notícia, o vespertino do Rio de Janeiro. (A obra de imprensa, apressada, quotidiana, sem assunto, e sem ponderação, leva a improvisos, inconsequências e a... arrependimentos: o poeta rejeitou de sua obra a quase totalidade desses artiguetes, leves e passageiros...)

Mas, disse Bilac, passado que foi Gonçalves Dias — para o qual reserva todas as suas blandícias, como herdeiro que supunha ser do outro, apontado às vezes, não se sabe porquê, primeiro poeta nacional... — "o poeta, — ou continuava a esmoer aquelas lamuriantes quadras não rimadas de Casimiro de Abreu (!) de uma vulgaridade desesperante — ou continuava a urrar as apóstrofes descabeladas, cheias de ventanias proféticas, de trapos de bandeiras na amplidão, de punhos de titãs esmurrando montanhas, de deuses sopesando infinitos nas palmas das mãos — tudo isto numa língua eriçada de solecismos, de uma pobreza franciscana de vocabulário..."

Esta última "descompostura", se é a Castro Alves, é injusta. Os seus deslizes serão de métrica ou de rima, alguma vez, nas licenças poéticas, permitidas antes do parnasianismo: contadas serão as infrações gramaticais de seus poemas. Das que fez, poderia desculpar-se: viveu pouco, não pôde rever os seus bons versos, nem impedir que lhe publicassem os defeituosos, como Bilac, que viveria o dobro, poliu e repoliu os seus sem cessar, rejeitou-os inúmeros do livro definitivo, e até num posto de inspetor escolar, era obrigado a uma certa solicitude profissional com a gramática.

Contudo, se Homero dormitou algumas vezes como afirma Horácio, se a Camões corrige na língua e na versificação, Cândido de Figueiredo, se no mesmo Flaubert apontou Faguet defeitos, não desejarei a Olavo Bilac, grande, grandíssimo escritor como Castro Alves, que mereça o asserto de Paul Stapfer: "a correção sem mácula é apanágio de alguns escritores de segunda ordem". (Recreations gramaticales, Paris, 1900, pág. 205). Não sei, e admiro tanto Bilac, que não ousaria tal indagação, se a despeito de sua profissão de fé — cuja ideia e forma serão menos originais que as de Castro, pois não eram imitadas de Teófilo Gautier — não cometeria tais erros: desejo-lhe a companhia de Homero, Camões, Lamartine, ou Castro Alves, grandes poetas, até por terem pequenos defeitos... Aos censores, desses pecados veniais, de grandes escritores, deixo como reflexo isto, de d'Alembert: "Não é para produzir belezas, mas para evitar faltas que os mestres destinaram as regras". É natural que a impiedade literária se delicie em aplicar essas regras, ela que não pode criar aquelas belezas... E é, só por isso, estranhável a um Bilac... O maior erro dele foi porém o de ter desconhecido Castro Alves, quando o agredia. Referia-se às famosas "bombas", improvisos de rua e teatros, composições feitas para o povo, no alcance dele, que não podiam ter outro tom: o outro Castro Alves, sublime lírico do amor e da natureza, do desejo e da saudade, domina o primeiro, numa vasta proporção de sua obra. Imprimindo a de Castro Alves demonstrei isto: — o cabedal lírico, incomparável, é três vezes mais abundante que o outro, também incomparável, de poemas épicos, revolucionários e proféticos com que fez a propaganda da Abolição e da República.

No tempo, a essa blasfêmia a que me venho referindo, foi um clamor por todo o país: Lúcio de Mendonça à frente, críticas, artigos, polêmica e às vezes até o insulto, exigiram a Bilac a retratação da leviandade: — o grande poeta não demorou, reclamando o monumento para o outro, que ofendera sem propósito, e por uma facilidade de imprensa...

Castro Alves, porém, sem guardar rancor, tiraria de Bilac a vingança digna de ambos: inspirando ao outro, como poetas de divinos versos líricos, como profetas de épicos "urros" sociais. Os Tercetos da Alma Inquieta, que estão nas Poesias, são uma reminiscência sentimental da Boa Noite de Castro Alves. O amante não consegue desvencilhar-se dos braços da amante, que talvez, apenas cautelosa, o despede, para se deixar facilmente convencer:

Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
É noite ainda em teu cabelo preto...

disse Castro Alves; Bilac repetiu:

Espera! até que o dia resplandeça
..........................................
E ela abria-me os braços. E eu ficava.

mas ao dia sucede a tarde, a noite virá... e diz um poeta

Marion!! Marion!... É noite ainda
Que importa os raios de uma nova aurora?

Como num negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando
— Boa noite! — formosa Consuelo!

o outro responde, como um eco:

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava
Espera um pouco! deixa que anoiteça.

— E ela abria-me os braços. E eu ficava.

Mas a melhor vingança foi esta. Castro Alves, no começo da vida, desde os 16 anos, que achara a sua vocação de poeta social, e embora fazendo formosos poemas líricos, pretendeu e conseguiu ser o que queria em prol da Abolição e da República: "um bom soldado pela causa de redenção da humanidade". Olavo Bilac, ao fim da sua vida de poeta laureado, querido e aplaudido autor dos mais sinceros e sensuais poemas líricos que a nossa quente natureza de latinos e tropicais pode inspirar, não se contentou com isso, e imitou a Castro Alves, tomando pelo rumo de uma grande causa social, a Defesa Nacional, com o que, do norte ao sul do país, "urrou" apóstrofes sublimes, estimulou entusiasmos grandiosos e moveu à gratidão e à admiração do Brasil inteiro, que o estremece hoje como grande poeta, que foi grande patriota. Foi reconciliação tácita com Castro Alves seguir-lhe o exemplo, esse que os irmanou no mesmo apostolado, esse que aos artistas, sibaritas da cultura e do gosto transfigura em profetas e heróis das eternas causas humanas, e com as quais o poeta conquista o direito de viver no coração da sua terra e sua gente... Deve agora Bilac ficar tranquilo, ao lado do outro, a quem pode sem injustiça afirmar:

No chão da História o passo teu verás...



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Referências bibliográficas a icnográficas:
Afrânio Peixoto: "Castro Alves - O Poeta e o Poema". Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016.
Castro Alves: o olhar do outro. Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 1997.
Site: http://objdigital.bn.br (Biblioteca Nacional Digital)
Site: http://memoria.bn.br/ (Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Brasil)

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