sábado, 31 de março de 2018

Os últimos românticos: Prosadores (Ensaio), de José Veríssimo

Os últimos românticos: Prosadores 

Extraído do Livro "História da Literatura Brasileira", publicado no ano de 1916. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

---
Anacrônico e amaneirado procrastinava-se o Romantismo, conservando os seus traços distintivos; a intenção nacionalista, realizada no poema ou no romance, já indianista, já do pitoresco patrício da paisagem ou da vida, e a sentimentalidade idealista. Afora os românticos da primeira hora, que se sobreviviam a si mesmos – e eram quase todos porque esta geração, ao invés da segunda, viveu velha, – havia os que, aparecendo quando já se acabava o alento literário que a criara, ainda lhe sofreram a influência ou cediam também ao prestígio daqueles fundadores. Os mesmos que se desviam de Alencar, a principal figura literária do tempo, o reconhecido chefe da literatura nacional, até os que o negam (aliás poucos) não contestam ou sequer duvidam a legitimidade do propósito nacionalista. É que este revia o íntimo sentimento a que, com a sua ordinária propriedade de expressão, Machado de Assis chamaria de "instinto de nacionalidade". Presume esta História haver cabalmente verificado o desabrochar desse instinto desde ainda mal iniciada a formação do nosso povo, bem como o seu constante desenvolvimento a par com o deste. A espontaneidade do fenômeno não prova, entretanto, que não assentasse em um errado conceito do nacionalismo na literatura. Desde 1873, no artigo de que acabo de citar uma feliz expressão, Machado de Assis oferecia a primeira contrariedade, que me conste, à opinião ao seu parecer errônea, que só nas obras consoantes aquele propósito reconhecia espírito nacional e conceituosamente escrevia "não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabelecemos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trata de assuntos remotos no tempo e no espaço". Este programa devia ele cumpri-lo com peregrina distinção, despreocupadamente.
Iniciava-se, porém, a reação contrária ao Romantismo, sob o seu aspecto de nacionalismo exclusivista. Após largos anos de paz, de tranquilidade interna, de remansosa vida pacata sob um regime liberal e bonachão, apenas abalada por mesquinhas brigas partidárias que não logravam perturbá-la, rebentou a guerra do Paraguai, que durante os últimos cinco anos do decênio de 60 devia alvoroçar o país. Pela primeira vez depois da Independência (pois a guerra do Prata de 1851 mal durou um ano e não chegou a interessar a nação) sentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros impõem estas coletividades chamadas nações. Ele, que até então vivia segregado nas suas províncias, ignorando-se mutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupações bairristas do campanário, num campo propício para estreitar a confraternidade de um povo, o campo de batalha. De província a província trocam-se ideias e sentimentos; prolongam-se após a guerra as relações de acampamento. Houve enfim uma vasta comunicação interprovincial do Norte para o Sul, um intercâmbio nacional de emoções, cujos efeitos se fariam forçosamente sentir na mentalidade nacional. A mocidade das escolas, cujos catedráticos se faziam soldados e marchavam para a guerra, alvoroçou-se com o entusiasmo próprio da idade. Os que não deixavam o livro pela espada, bombardeavam o inimigo longínquo com estrofes inflamadas e discursos tonitruantes, excitando o férvido entusiasmo das massas. O amor, a morte, o desgosto da vida, os queixumes melancólicos, remanescentes do Romantismo, cederam lugar a novos motivos de inspiração. Por outro lado, acontecimentos exteriores que tinham aqui grande repercussão, as lutas do liberalismo francês contra o Segundo Império napoleônico, lutas em que a poesia e a literatura tomavam tão grande parte, a implantação de uma monarquia europeia na América, a revolução republicana na Espanha e o fenômeno de um grande poeta, Victor Hugo, contrapondo-se em toda a grandeza do seu gênio e da sua cólera republicana ao Império e desafiando-o em face do mundo atônito, comoviam também a mente nacional. Impressões de todos esses sucessos há na poesia do tempo. Poetas e ainda prosadores eram por eles solicitados em outras direções que o estreme subjetivismo romântico. Debuxou-se então a reação anti-romântica. Iniciava-se, porém, sem alvoroço, nem decisão como que a medo. Ainda vencedora, não o suplantara de todo na radicada opinião de que o assunto brasileiro primasse em a nossa literatura e até em quaisquer lucubrações nossas. Salvo o que o cumprimento deste preceito pudesse ter de excessivo, não era ele inteiramente desarrazoado. A função faz o órgão. A aplicação constante dos nossos sentimentos nacionais na idealização literária ou noutro labor intelectual a assuntos brasileiros devia em rigor acabar por criar e desenvolver em nós aquele instinto. A história da nossa literatura prova, aliás, que assim sucedeu.
Já começada a reação, menos contra esse instinto legítimo e necessário que contra o conceito abusivo da sua aplicação, apareceu nas nossas letras um escritor que, sem embargo da sua procedência francesa e ser de raça um puro europeu, o possui como poucos brasileiros da nossa formação tradicional, o visconde de Taunay. Em 1872, Machado de Assis, que viria a suceder a Alencar no principado das nossas letras, estreava no romance com um livro a todos os respeitos novo aqui, Ressurreição. No mesmo ano publicou Taunay a Inocência, formoso exemplar do "romance brasileiro" segundo a fórmula aceita. Um ano antes estreara com a Mocidade de Trajano. Apesar da antipatia posteriormente manifestada pelo autor, na sua obra crítica, às novas correntes que começavam a arrastar para fora do Romantismo a ficção francesa, figurino sempre canhestramente copiado da nossa, sente-se-lhe todavia o influxo em ambos os romances.
Alfredo d'Escragnolle Taunay, visconde de Taunay, nasceu no Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1843 e nesta cidade faleceu em 1899. Engenheiro militar e oficial de exército, fez a campanha do Paraguai e exerceu várias comissões técnicas. Professou também letras e ciências naturais na Escola Militar e, como Alencar, foi homem político, deputado geral, presidente de província e senador do Império. Teve talentos e aptidões variadas, era pintor e músico, e possuía, com boa educação liberal, prendas de homem do mundo. Foi um dos escritores mais versáteis e fecundos do seu tempo, mesmo o foi talvez com desleixada facilidade, acaso com menosprezo da sua situação literária. Aludo a livros como o Encilhamento ou Como e porque me tornei kneipista e que tais escritos seus. Esta falha, porém, revia a sua esquisita bonomia e o ingênuo ardor de propagandista que nele houve sempre e se manifestou nas suas campanhas de imprensa e de tribuna por questões públicas tomadas calorosamente a peito. Não é ocioso recordá-lo, pois mostra a feição prática do gênio de Taunay, feição que não foi estranha à sua fórmula literária.
À sua obra, considerada pela cópia e ainda pela qualidade, faltou coesão e intensidade que lhe dessem mais solidez e distinção. E como quer que seja dispersiva, feita com facilidade que roça pelo banal e inconsequente. Além da propriamente literária, romance, crítica, teatro, compreende viagens e explorações de engenheiro, relatórios técnicos, relações de guerra, estudos etnográficos, escritos políticos e sociais, questões públicas, biografias, história e peças musicais. Dois livros destacam-se de toda ela, que lhe asseguraram em vida nomeada de bons quilates e lhe dão um lugar na nossa literatura: a narrativa, feita com grande talento literário, de um episódio da guerra do Paraguai, a Retirada da laguna e o romance de costumes sertanejos Inocência, já referido.
Taunay, a quem tive a ventura de conhecer de perto, não obstante a sua dupla origem estrangeira, era um genuíno brasileiro de índole e sentimento. Não lhe faltavam sequer sinais das nossas peculiaridades, o que lhe completava a caracterização nacional. A sua literatura de inspiração, sentimento e intenção brasileira é a expressão sincera desta sua feição. O seu europeísmo ainda muito próximo, apenas lhe transparece no ardor com que, apesar de conservador de partido, se empenhou por ideias liberais que a seu ver deviam atrair e facilitar a imigração europeia, da qual foi ardoroso propugnador. Sob o pseudônimo, logo descoberto, de Sílvio Dinarte, estreou na literatura com o já citado romance A mocidade de Trajano, em 1871. Quer neste, quer em Inocência, que se lhe seguiu de perto, atenua-se a sentimentalidade excessiva e o romanesco do romance em voga. Paisagens e costumes são descritos com mais senso da realidade e mais sobriedade e exatidão de traços. E não somente a sua representação interessa ao autor, senão também aspectos políticos, sociais e morais, que ressaiam da ação, das personagens ou dos usos. Não se libertara ainda da preocupação doutrinal dos seus antecessores, tinha-a, porém, com mais largueza espiritual e mais desenvoltura de expressão. Em A Mocidade de Trajano havia manifestações de livre-pensamento e sátira quer aos nossos costumes políticos, quer a práticas devotas, desusadas na nossa ficção.
Tinha feitio diferente de tudo o que no gênero aqui se publicara, a Inocência. Romance feito de impressões diretas de paisagens, cenas, tipos e fatos gerais, apenas idealizados por uma recordação que devia de ser saudosa, havia neste, com uma representação esteticamente verdadeira, ao mesmo tempo singela e forte, do sertão e da vida sertaneja no Brasil central, um sincero sentimento, uma simpatia real, sem excesso de sensibilidade, do seu objeto. Não obstante desfalecimentos de estilo, havia mais nele o mérito da novidade. Estavam em voga os romances de Alencar, Macedo e Bernardo Guimarães. O primeiro era nimiamente romanesco e idealista, feições que ao tempo as suas reais qualidades de escritor não bastavam para atenuar. Macedo, mestre de que aliás Taunay se confessava discípulo, sobre romanesco, de língua desleixada e estilo frouxo, pode dizer-se que não tinha propriamente feitio literário. Bernardo Guimarães, com qualidades artísticas inferiores, como Macedo, era como Alencar, mas sem o seu talento, um romântico idealista piorado pelo romanesco sentimental. Sem falar em Manoel de Almeida, cujo único romance não teve repercussão, é Taunay quem na Inocência, talvez sem propósito, levado apenas dos instintos práticos do seu gênio e nativo realismo do seu temperamento, e ainda pelo que chamarei o seu materialismo literário, escreve o primeiro romance realista, no exato sentido do vocábulo, da vida brasileira num dos seus aspectos mais curiosos, um romance ressumando a realidade, quase sem esforço de imaginação, nem literatura, mas que a emoção humana da tragédia rústica, de uma simplicidade clássica, idealiza nobremente. Precedera-o de três anos o Casamento no arrabalde, de Franklin Távora, de idêntica feição. Sobre não ter a intensidade e o compendioso de Inocência, nem, portanto, a sua emoção, publicado na província, passou despercebido menos por uma conspiração de silêncio, como erradamente suporia o autor, mas em virtude mesmo das necessárias condições da nossa vida literária. Ao contrário, o romance de Taunay saía acompanhado da calorosa recomendação considerável de Francisco Otaviano, que lhe augurava longa vida e acertou no vaticínio. Não havia em Inocência os arrebiques e enfeites com que ainda os melhores dos nossos romances presumiam embelezar-nos a vida e costumes e a si mesmos sublimarem-se. E com rara simplicidade de meios, língua chã e até comum, estilo natural de quase nenhum lavor literário, composição sóbria, desartificiosa, quase ingênua, e, relativamente a então vigente, original e nova, saía uma obra-prima.
Infelizmente se não repetiria jamais na obra do romancista. Os seus seguintes romances terão quase todos o mérito, ainda extraordinário, de melhor observação, de intenção de psicologia e estudo e desenho de caracteres, de língua mais cuidada. Esta, porém, por demasiado impessoal e dessangrada, nunca logrou ser um estilo. Depois de Inocência, a sua obra mais viva, e digno par desta, é a Retirada da Laguna, ou antes La Retraite de Lagune, pois foi escrita em francês. O ser escrita nesta língua porventura contribuiu para lhe dar a sóbria elegância e o intenso vigor descritivo que a distinguem na sua obra, mas de alguma sorte a desterra da nossa literatura. Taunay aumentou o nosso cabedal literário, enriquecendo do mesmo passo a nossa ficção, com outros romances, Lágrimas do coração (1873), republicado nos anos de 90 com o título menos romântico de Manuscrito de uma mulher, Ouro sobre azul (1874), Histórias brasileiras (1878), Narrativas militares (1878) e No declínio (1899). Dons de observação, qualidades de narração e também de composição, apesar da fraqueza e ineficiência da aplicação psicológica e maior simplicidade de estilo, geralmente os sobrelevam aos romances de Macedo ou Bernardo Guimarães e até, embora menos, aos de Alencar. Nos últimos era já evidente o influxo do naturalismo na sua fase extrema. Eram, porém, acaso mais realistas que naturalistas, porque o realismo estava no fundo do engenho literário de Taunay, como o idealismo no de Alencar.
Ensaiou igualmente Taunay o teatro (Amélia Smith) e a crítica (Estudos críticos, 1881-1883), mas em nenhum destes gêneros deixou obra considerável. O seu lugar na história da nossa literatura são os seus romances somente que merecidamente lho conferem.
A precedência de Franklin Távora aos dois romancistas atrás nomeados, Taunay e Machado de Assis, é apenas cronológica. Não obstante se haver estreado no romance desde 1862, com os Índios de Jaguaribe, só de fato começou o seu nome a sair da obscuridade provinciana pelos anos de 70, primeiro com a publicação escandalosa das Cartas a Cincinato, depois com os romances O cabeleira (1876), O matuto (1878), Lourenço (1881).
Joaquim Franklin da Silveira Távora era do Ceará, nascido em 13 de janeiro de 1843. Passou a maior parte da sua vida no Norte, onde se lhe formou o espírito e pelo qual tinha um apego bairrista. Os seus últimos anos viveu-os no Rio de Janeiro, e aqui faleceu em 18 de agosto de 1888. Acaso mais por espírito de insubordinação dos escritores novéis contra os consagrados, que por justificadas razões, foi dos que se insurgiram contra a hegemonia literária de Alencar. Tem sido sempre aqui a literatura uma coisa à parte na vida nacional. Feita principal se não exclusivamente por moços despreocupados da vida prática, que sacrificavam a ingênuas ambições de glória ou à vaidade de nomeada, nunca assegurou aos seus cultores posições ou proveitos, como não constituiu jamais profissão ou carreira. Nestas condições tal insurreição, como outras quejandas, e tanta coisa da nossa vida literária, era apenas uma macaqueação de idênticas rebeliões nos centros literários europeus. Com violência que tanto pode haver sinceridade de convicções como a congênita irritabilidade dos poetas, e sob pseudônimo de Semprônio, atacou Franklin Távora a José de Alencar, e aos seus livros, nomeadamente a Iracema e O Gaúcho, em uma série de cartas primeiro publicadas num periódico do Rio, depois reunidas em livro de nítida edição de Paris.
Sob o disfarce de Cincinato eram endereçadas ao escritor português José Feliciano de Castilho. Ainda banindo da literatura e da vida, como devem ser, quaisquer estreitas prevenções nacionais, de todo impertinentes na ordem intelectual, essa obra de Franklin Távora, aliás apreciável como crítica e como estilo, era uma má ação. Fossem quais fossem os defeitos da de Alencar, não eram tais que o desclassificassem do posto que ocupava nas nossas letras. Determinava-a demais uma verdadeira vocação literária, como a inspiravam uma sincera e nobre ambição de promover a literatura nacional. E em verdade o fazia com honrado labor e engenho no momento incomparável. Ao mesmo empenho, aliás, se consagrara Franklin Távora, encetando a sua atividade literária com livros da chamada "literatura brasileira", Os índios de Jaguaribe, Um casamento no arrabalde. E o mesmo propósito teve o resto da sua vida. Nem ao cabo a sua literatura diferia notavelmente da de Alencar, senão por lhe ser inferior. Os índios de jaguaribe, O cabeleira, O matuto, Lourenço, que são as suas obras típicas como indianismo ou regionalismo pitoresco, não se diferenciam essencialmente dos romances de Alencar da mesma inspiração, e menos ainda os excedem em merecimento. São-lhes antes somenos como imaginação e estilo. E era a um escritor estrangeiro que se fizera aqui o negador sistemático ou o instigador da negação sistemática, do nosso engenho e capacidade literária, que Franklin Távora tomava por parceiro nesse jogo de descrédito do escritor que com tanta bizarria, e não sem sucesso, se empenhava no fomento da literatura nacional. Mas na vida literária não há maior satisfação nem melhor prêmio, de que vermos seguir-nos os passos os mesmos que nos contestam e nos atacam. Se Alencar fosse um homem de espírito, a investida de Franklin Távora, acompanhada de seus "romances brasileiros", devia intimamente rejubilá-lo. Sem embargo de endereçadas ao irmão de Antônio de Castilho, o serôdio árcade contra quem se tinha revoltado não havia muito a mocidade literária portuguesa, as Cartas a Cincinato eram acaso repercussão do famoso e ridículo motim literário do Bom senso e bom gosto. Não tiveram, porém, o eco da célebre carta deste título de Antero de Quental àquele, nem motivaram senão as respostas malignas e ainda ferinas do seu equívoco destinatário.
Com excelentes qualidades literárias, tinha Franklin Távora, mais do que é lícito a um homem de espírito, preconceitos provincianos, quizila à "Corte", cujos literatos, aliás na maioria provincianos, imaginava apostados em desconhecer e hostilizar os escritores da província. Algum tempo, justamente naquele em que fazia as suas primeiras armas literárias Franklin Távora, prevaleceu este estado de espírito, que o revia mesquinho, em certo grupo de homens de letras nortistas, indiscretamente revoltados contra a legítima e natural preponderância mental do Rio de Janeiro. Como se, dada a nossa formação histórica e cultural, e organização política, não fosse absurdo o regionalismo espiritual que lhes apetecia. Desta ridicularia ainda haverá algum representante anacrônico, e nunca se emancipou Franklin Távora. Manifestou-o ainda no prefácio da 2ª edição, aqui publicada, de Um casamento no arrabalde. Esta prevenção lhe teria gerado a desinteligente ojeriza a Alencar, como um dos "sacerdotes sumos", segundo o seu dizer, da literatura dos que no Rio de Janeiro menosprezavam a da província. Do mesmo preconceito lhe viria a infeliz ideia da repartição da literatura brasileira em "literatura do Norte" e "literatura do Sul", conforme a região brasileira que lhe fornecia a inspiração e o tema. Quão melhor alumiado não andou Alencar escolhendo os seus sem preferência de regiões, para compor segundo o belíssimo dizer de Machado de Assis "com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional de sua obra".
Mas a obra construtiva de Franklin Távora, os seus quatro ou seis romances publicados de 1869 a 1881, excluídos os Índios de Jaguaribe, tentativa malograda de indianismo da sua juventude inesperta, sobreleva de muito este seu mal-avisado trabalho de demolição. Ele não tem nem a imaginação nem o alinde do estilo literário de Alencar, escreve todavia com mais apuro e observa com mais fidelidade. A sua representação da natureza e da vida é mais exata, se não mais expressiva. A sua língua mais simples, menos enfeitada, atingindo mesmo às vezes, como no Casamento no arrabalde, uma singeleza encantadora, livra-o da retórica sentimental que Alencar nem sempre evitou. Este último romance é no seu gênero um dos melhores da nossa literatura, um daqueles em que a vida burguesa provinciana, e não só nas suas exterioridades, mas nos seus caracteres intrínsecos e essenciais, se acha mais fiel e artisticamente reproduzida. Um casamento no arrabalde, como a Inocência, de Taunay, é um romance de um realista espontâneo, para quem o realismo não exclui por completo a idealização artística, que é como o sopro divino que lhe anima a feitura. Algo deste caráter realista se nos depara em todos os romances de Távora, o que faz dele, como do seu contemporâneo Taunay, um dos reatores contra a romântica aqui ainda então prevalecente, um dos precursores, portanto, do naturalismo.
O teatro e a literatura dramática no Brasil não tiveram nunca a importância, nem o mérito, do romance ou da poesia. Ficaram-lhes sempre somenos em quantidade e em qualidade. A época de maior florescimento, sob estas duas espécies, do nosso teatro e da nossa literatura dramática, são as duas décadas de 1860 a 1880. Pertence-lhes quase todo ou o melhor do teatro de Macedo, de Alencar, de Quintino Bocaiuva, de Agrário de Meneses, de Pinheiro Guimarães e de outros numerosos autores de teatro, cujos nomes, entretanto, cabem mais na história deste que na da literatura em geral. Não só no Rio de Janeiro, mas nas capitais das províncias principais, existiam e mantinham-se casas de espetáculos de peças nacionais, portuguesas ou traduzidas, representadas por companhias compostas quase por igual de atores brasileiros e portugueses fixados no Brasil, e até aqui feitos, dos quais alguns nomes ainda vivem na tradição, como Joaquim Augusto, Furtado Coelho, Florindo, Vicente de Oliveira, Eugênia Câmara, Ismênia dos Santos, Manuela Luci, Xisto Baía, Corrêa Vasques, e ainda outros. Mas, ou por deficiência dos nossos autores dramáticos, ou por defeito do próprio meio de que se inspiravam, faltou sempre ao nosso teatro capacidade de representação teatral da nossa sociedade, que invariavelmente falsificava. E como também não tiveram o talento de expressão mais alta da nossa vida que, embora a desnaturando, atingisse a uma realidade humana geral, a nossa literatura dramática consta antes de ótimas intenções que de boas obras.
Nela trabalhou também Franklin Távora, de quem se conhecem pelo menos três dramas: Um mistério de família (1861), Três lágrimas (1870) e Antônio, representado aqui no Rio, mas que parece se não chegou a imprimir. Os impressos corroboram o conceito acima, não se distinguem nem como representação da nossa vida, neles adulterada ao influxo da dramaturgia francesa, sempre aqui dominante, mas aqui sempre estéril, nem como expressão geral de sentimentos e atos humanos.
Deixou Franklin Távora também algumas excelentes páginas de crítica, gênero que tratou com evidente disposição e talento, mas que não cultivou bastante para destacar a figura nele.


---
Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...