domingo, 15 de abril de 2018

A poesia de Auta de Souza (Artigo), de Umberto Peregrino



A poesia de Auta de Souza

Artigo publicado no ano de 1951, na revista "Careta". Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


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Seu nome é conhecido de poucos, mas Auta de Souza é uma das vozes mais íntimas do povo da sua terra. Um sem número de versos seus foram musicados e andam na boca de toda gente, muitas vezes como lindas canções anônimas. Não haverá, talvez, em Natal, criança que não tenha adormecido mil vezes ao embalo destes versos tão doces:

Astros celestes, docemente louros,
Giram no espaço, em luminoso bando;
Ouve-se ao longe um violão plangente
E, mais além, num soluçar dolente,
Canções serenas, ao luar voando.

Os motivos mais constantes em Auta de Souza são as crianças, os pássaros e a morte. São quase os seus únicos motivos. E não se esgota. É sempre com maior intensidade e mais envolvente ternura que os canta.

Uma existência que não chegou a amadurecer, minada desde muito cedo pela doença cruel que levaria onze anos para aniquilá-la, isolando Auta, obrigando-a a longas temporadas no campo, em estreito contato com a natureza triste do sertão, tudo isso talvez explique a sua estranha sensibilidade. Quantas madrugadas não teria ela visto se acenderem, nas suas tormentosas insônias, pressentindo o despertar alegre de cada pássaro! Quantas vezes, estirada na espreguiçadeira, não teria acompanhado, horas e horas, pela moldura retangular da janela, o trabalho assustado do gaturamo tecendo o ninho:

Era muito à tardinha; as aves mansas
Voavam todas, em formosos pares,
Como se fossem garrulas crianças
Que andassem, rindo, a percorrer os ares!

E eu murmurei ao ver assim voando
Aquelas aves para os brandos ninhos:
"Ah! Quem me dera só andar cantando,
Sempre crianças, como os passarinhos!"

A todas as coisas belas acha jeito de associar os pássaros:

E enquanto cismo, respondem
Os astros, brancos arminhos:
Nós somos berços que escondem
As almas dos passarinhos.

Outras vezes é com eles de uma ternura assim:

É noite já. Como em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos...
Vamos mais devagar... de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

E as crianças? Auta foi diante da vida que nem uma menina pobre. A moléstia isolava-a e as crianças lhe ficavam à distância, bonecas de rico, impossíveis para ela... Nem sempre porém, Auta consegue esconder os seus anseios e vai falando:

Tu sorris por este campo em flor
O Amor e a lua vão pelo céu boiando
Só eu vagueio a suspirar chorando
Sem luz e sem Amor.

Chega às vezes a se desesperar:

Não me deixem morrer assim na primavera:
Esconde-me no seio, ó minha mãe querida!
A morte como é triste! e o noivo que me espera
Há de chamar por mim... Quem restitui-me a vida?

Mas em regra o que aparece é a prodigiosa sublimação de tudo numa doçura de fada. E as suas reservas maternais transparecem talvez na quadra que se segue:

Dorme e não chores, criança!
A lua do céu sorri
Na vida sem esperança
Eu hei de chorar por ti.

A uma amiga que lhe dissera no saber “o que é tristeza” responde duvidando:

Será possível que o teu seio, rosa,
Nunca embalasse a lágrima formosa?
Ah! não és rosa, pois não tens espinho!

Depois mostra a sua imensa capacidade de ternura dizendo para o outra:

E os olhos teus, dois templos de esperança,
Nunca viram sofrer uma criança,
Nunca viram morrer um passarinho.

Em face da morte, que foi uma sombra e sempre mais fechada sobre os seus dias, Auta de Souza teve as atitudes mais diversas, como diversos hão de ter sido os seus estados de espírito vivendo o seu drama.

UMBERTO PEREGRINO
Revista "Careta", 28 de julho de 1951.

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