sábado, 14 de abril de 2018

Influências sofridas por Machado de Assis (artigo), por Amadeu Amaral Júnior


Artigo publicado na década de 1940, na revista "Aspectos". Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


Influências sofridas por Machado de Assis
Há muito que acarinho o desejo de escrever sobre este assunto; as influências sofridas por Machado de Assis. Não o fiz pela simples desconfiança de que alguém já se me houvesse antecipado.
Foi tão abundante a literatura pró e contra Machado surgida desde 1939 que me parecia impossível já não ter sido abordado este tema. Provavelmente foi, com efeito, mas, que diabo! se formos nos nortear por esse critério não se fará mais nada neste mundo.
E depois, assunto não tem dono. É mesmo uma oportunidade boa esta para dar o meu palpite contra a velha mania nacional de designar proprietários para este ou aquele motivo cultural.
Quem trata de seja lá o que for, entre nós, sente-se assim como um donatário na sua capitania, ou melhor, como um pequeno que pegou um balão e olha para toda a meninada circundante com olhos irados e agressivos: “Ninguém tasca!”
Como é assim, deve existir um ou vários donos para os assuntos machadianos. Que me perdoem a invasão da sua ubérrima seara, mas esta é tão grande, tão rica, que há de haver para todos. E vamos ao que importa:
As influências sofridas por Machado são principalmente de Sterne, Swift e Le Sage e se notam, acima de tudo, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas. Sterne transparece nessa obra sobretudo pelo espírito geral que a norteia, os capítulos curtos e os títulos satíricos. Mais que uma influência direta é uma influência difusa e vaga, porém, indiscutível.

Já Swift influi de maneira muito diferente, contribuindo para acentuar o complexo de superioridade do grande romancista brasileiro, — o Gulliver, é, na verdade, o mais belo exemplo de uma tendência dessa natureza, tão comum nos homens em geral e ainda mais nos artistas.
O dedo de Swift se evidencia em dado momento, através de Machado: é no capítulo sobre a barretina, sátira política em que o nosso romancista não brilhou e que é uma reminiscência inegável da página swiftiana relativa aos partidos dos tacões altos e baixos.
Quanto a Le Sage influenciou o pai da nossa Academia de várias maneiras. Primeiro no nome do personagem principal Brás Cubas, reminiscência de Gil Brás de Santilhana. Também é forçoso reconhecer que pelo tom em que estão vazadas nos primeiros capítulos as Memórias Póstumas pertencem ao mesmo gênero de Gil Braz, a picaresca.
Bem sei que logo para diante a coisa muda inteiramente de figura, a obra se transforma e o admirável personagem toma o “freio nos dentes” ou para se dizer como se falou dos tipos de Balzac: “passa a viver por si”. Entretanto, nos capítulos iniciais se reconhecia, de certa maneira, a sombra de Le Sage, tanto que, como conta Agripino Grieco na Evolução da prosa brasileira, por ocasião do aparecimento do grande livro do maior romancista pátrio circularam uns versinhos malignos atribuídos a Cruz e Souza em que se dizia:
Machado de Assis assaz
Machado de assaz Assis
Que de Le Sage por trás
Banalidades nos diz...

Malignos e injustos esses versinhos faziam de uma simples influência um plágio declarado. Tão absurda era aquela suspeita que ninguém a levou a sério. Influências Machado sofreu como todo escritor, como todo mundo, mas plágio nunca se lhe apurou.

AMADEU AMARAL JÚNIOR
Revista "Aspectos", década de 1940.

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