segunda-feira, 7 de maio de 2018

Camões, o maior épico dos tempos modernos (Crítica Literária)


Camões, o maior épico dos tempos modernos
Texto publicado originalmente na revista "Carioca", em edição de 1937. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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"Nunca desde Homero, um poeta foi tão amado pela sua nação como Camões; de modo que tudo quanto esta nação, decaída da sua glória logo depois da morte dele, conservou de sentimento patriótico está ligado a este único poeta, que pode com justiça substituir a maioria dos outros e ser considerado como uma literatura inteira” —  escreveu o eminente crítico alemão Frederico Schlegel. E cada vez nós sentimos mais, com as afirmações da vitalidade nacional portuguesa, o profundo sentido de continuidade que existe entre ela e o imortal cantor dos Lusíadas. O grande poema não é apenas a narração épica dos feitos de Vasco da Gama na sua viagem a Índia, e, de modo geral, da formação do reino de Portugal, mas nele se encontra, em verdade, o que de mais precioso e característico possui a alma portuguesa, de que o poeta foi o retrato, e símbolo.


A vida de Camões teve tanto de trágico e intensamente patético quanto de grandioso, como se nota no seu famoso poema. E não é possível deixar de acentuar a perfeita e inteira correspondência entre certas composições suas e o verdadeiro estado de seu espírito, que mil cuidados, privações e inquietações atribularam sem cessar.
Dilacerado entre os ímpetos de um temperamento fogoso e os êxtases de um coração suavíssimo; reclamado pelo gosto da aventura e pelos prazeres da corte; dividido entre a necessidade de ganhar a vida com o valor do seu braço e uma inclinação pelas musas, marcada desde os verdes anos; forçado a viver longe da terra natal, que nunca lhe saía da mente; sem teto, sem pouso, sem amor Camões provou o que de pior pode oferecer o mundo a um homem de gênio que veio a morrer na  mais negra miséria quando a sua obra começava a atrair o  aplauso e a estima gerais.
Por isso, escreveu Olavo Bilac aqueles belíssimos versos, em que, condensando, numa síntese áurea, o que houve de doloroso na história do maior poeta do idioma, a este se refere como à língua.
...em que Camões chorou, no exílio amargo
o gênio sem ventura e o amor sem brilho...
Nasceu Camões em 1524, o ano em que morreu Vasco da Gama, cuja expedição havia de ser o fio condutor dos Lusíadas. Se foi Lisboa ou Coimbra o seu berço, é dúvida que divide os seus biógrafos, mas o certo é que nesta última cidade passou os primeiros anos de sua vida, fazendo os seus estudos nas Escolas de Santa Cruz e na Universidade, que por essa época ali se instalou, vinda de Lisboa. Formou assim, sob a direção do tio, cônego Dom Bento de Camões, aquela forte cultura de pessoas da sua condição. Aí se tornaram conhecidas as suas belas qualidades de coragem e resistência, perdendo o olho direito numa das refregas com os mouros e os cabilas.
Regressando a Portugal, viu-se envolvido num desagradável incidente, que teve por consequência o seu encarceramento e por pouco lhe teria custado a cabeça. O caso foi que, no dia da procissão do Corpo de Deus, de que participava D. João III, interveio numa luta entre dois amigos e um fidalgo da casa real, desembainhando a espada e ferindo este último, o que constituía um crime de lesa-majestade, uma vez que o rei estava na rua.
Gozava, então, da fama de valente, sendo "Trinca-fortes" a sua alcunha, de que não é impossível tirasse glória, como sucedia com a de "Cara sem olho", que também lhe davam, por alusão ao defeito físico de que, em verdade se diga, nunca se queixava, mas, pelo contrário, fazia motivo de alusões e pilhérias a seu próprio respeito. Muito pouco se havia de parecer, decerto, por essa época, com o lírico de delicada inspiração que admiramos nos magníficos Sonetos: era ousado, valentão, bulhento, avesso às coisas do espírito.
Saindo da prisão um ano depois, graças ao perdão do fidalgo que havia ferido, e abafado o processo de lesa-majestade, teve, porém, quinze dias de prazo a fim de seguir para a Índia, pela nau “São Bento”. Depois de uma viagem trabalhosa, pois a embarcação foi acossada pela tempestade, que destroçou as demais que a acompanhavam, a “São Bento” chegou a Goa, na Índia, em setembro de 1553.
Começou aí uma vida cheia de trabalhos e perigos, em constantes expedições, no mar e na terra, para firmar o poderio português, recalcando as resistências que se faziam sentir aqui e ali. Distinguiu-se, em tais circunstâncias de modo tanto mais notável quanto é certo que cada vez se sentia menos inclinado pela carreira das armas, como se vê das frequentes passagens de suas composições em que se lastima da sua condição.
Por essa ocasião já dera ele larga expansão às suas tendências poéticas, que nele cedo se haviam manifestado, desde os tempos da juventude, em Portugal. Entrou a compor então os Lusíadas, cujo original salvaria, depois, em condições dramáticas, no correr de uma das expedições de que foi obrigado a participar, e em que sua atuação era sempre muito apreciada dos superiores. Naufragando na foz do rio Mekong, perdeu todos os bens que conseguira juntar, só conseguindo salvar o manuscrito dos seus Cantos — mais tarde os
Lusíadas.
Apesar da sua reconhecida audácia e da excelência dos seus méritos de soldado, não pôde evitar novos incidentes, acusações e perseguições, e ainda no exílio foi posto na prisão, até que o novo vice-rei, D. Francisco Coutinho, mandou libertá-lo sem julgamento.
Em Goa, soube da morte de D. Catarina de Ataíde, ocorrida em 1556, conseguindo pouco depois deixar a Índia, na tentativa de voltar à pátria, onde contava imprimir os Lusíadas.. De passagem por Moçambique, na África, tão grande era sua miséria que, conforme narra o seu contemporâneo Diogo do Couto, “comia de amigos”, isto é, vivia às expensas dos amigos. Finalmente, e ainda à custa destes, logrou embarcar na nau “Santa Clara”, que chegou a Lisboa em abril de 1570.
Pobre, no meio da cidade devastada pela peste —  a chamada “Peste grande” — passou dias amargos até que, obtida, não sem dificuldades, a permissão da Censura, publicou os Lusíadas em junho de 1572. Antes, precisamente logo em seguida ao desembarque, sofrera o duro golpe de verificar que lhe haviam furtado o seu Parnaso, coletânea manuscrita de poesias líricas que compusera no exílio.
O aparecimento do grande poema foi, indiscutivelmente, bem acolhido, e a atenção pública voltou-se para o autor de versos que sem demora mereceram a admiração do próprio estrangeiro, como a de Cervantes, o célebre autor espanhol, que lhe chamava o “Tesouro do Luso”. Uma pensão de quinze mil réis chegou a ser-lhe concedida pelo rei, que já era D. Sebastião: na época, era algum dinheiro...
Mas cedo voltaram os dias tristes ao poeta, que a glória começava a. bafejar. Recusado o seu oferecimento para ser o poeta da expedição à África, morreu pouco depois, em 10 de junho de 1580, num barracão que servia de hospital, nas cercanias de Lisboa, durante um novo surto de peste —  um dos mais virulentos de que nos dá notícia a história de Portugal. Atirado então o corpo do poeta, apenas envolto na mortalha, à vala do Adro da Peste, aí haveria de buscar-lhe os restos mortais a piedade dos seus compatriotas para dar-lhes, afinal, repouso perpétuo no suntuoso convento dos Jerônimos.
É curioso notar que Camões morreu no mesmo ano em que passou a sua pátria ao domínio da Espanha, que sobre ela haveria de pesar durante sessenta anos. A previsão desse acontecimento encheu de tristeza os últimos dias do poeta, que escreveu a respeito, em carta dirigida a um amigo:
“Acabarei a vida, e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria, que não só me contento de morrer nela, mas com ela”.
Os últimos momentos do imortal cantor das glórias portuguesas, assim os figurou Almeida Garrett no seu belo poema Camões:
No peito a voz lhe fica;
e, de tamanho golpe amortecido,
inclina a fronte... Como se passara,
fecha languidamente os olhos tristes.
Ansiado, o nobre conde se aproxima
do leito... Ai! tarde vens, auxílio do homem.

Os olhos turvos para o céu levanta,
e já no arranco extremo: — "Pátria, ao menos
juntos morremos...

Revista "Carioca", edição de 1937.

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