segunda-feira, 7 de maio de 2018

Jorge Ramos - O Poeta Cesário Verde (Crítica Literária)


O Poeta Cesário Verde

Texto publicado originalmente na revista "Careta", em edição de 1952. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)

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De Cesário Verde se pode dizer o que Dickens disse de Gray: "Nenhum poeta penetrou na imortalidade com tão pequeno volume debaixo do braço". A sua obra é curta. Nela passa um aborrecimento cinzento, um tédio de viver, um desdém altivo pela existência, uma indiferença fria como uma lesma e áspera como a casca da avicênia. A felicidade era para o poeta, aquele cisne negro de Horácio, uma miragem enganadora, um paraíso que jamais abrirá as portas de ouro. Daí a sua sensibilidade tisnar-se dum amolecimento acre, dum pessimismo pastoso, dum vácuo abafante. A vida para ele nunca poderia ser Aglaé coroada de prímulas, mas uma triste sombra escondendo decepções mais venenosas que a napelina... Esta melancolia provinha do íntimo contato da sua aguçada sensibilidade com a tragédia anônima das vidas humildes. O espetáculo confrangedor de certas existências remendadas, submersas na penumbra, respirando à luz frouxa dum candeeiro de petróleo a sua mísera condição de seres vegetativos, de rodilhas humanas enfarruscadas por aflições, sacrifícios, renúncias e pesadelos, e onde todos os minutos amargos puseram nódoas, esse cenário de mansarda, de côdeas duras e enxergas frias, impressionou-lhe tão vivamente o espírito que lhe deu uma percepção muito especial para apalpar a dor que comporta.

Ninguém como Cesário soube ver, ou melhor escutar, esse rolar de ondas mansas que esconde a fúria oceânica do sofrimento. E pôs-se a pintar a esmo, em traços vigorosos, com as melhores tintas da paleta da sua arte a costureira tísica que passa toda a noite acorrentada à fadiga dum trabalho exaustivo, a rapariga que leva as duas colheres de sopa do almoço ao pai dependurado num andaime, a velhota que sobe e desce as escadas dum bairro inteiro para vender três tostões de alfinetes.

Cesário Verde refugiou-se como que a fugir destas visões reais no naturalismo da sua inspiração de esteta e de panteísta, e ei-lo a descrever-nos, com um vigor de fanfarra, a música pintada dum pôr de sol, a imagem de rara originalidade que lhe é sugerida pelas coisas mais vulgares. Não há motivos ingratos para esse extraordinário visualista de larga concepção. O naturalismo de Cesário é pujante como o realismo de Zola, mas tem uma forma delicada e sutil que se reveste duma graciosidade transparente e alada. A sua imaginação transborda capitosa, mas não arrasta apenas sonoridades opulentas na orquestração do verso: agarra as coisas e as almas, retrata-as com um poder de expressão inimitável. Amava a Natureza, cujos segredos ele compreendia, perscrutando-lhe as recônditas vibrações de cor; pôs em clarões de gênio o que ela tem de irreal e de sublime. Também a sua ternura pelos pobres, pelos tristes, pelos desconfortados, é a voz mais sincera que se tem erguido na terra para protestar e para consolar. Sonhou a verdade redimida, a vitória do bem, a ascensão do homem ao direito de ser feliz num mundo melhor.

E o seu sonho continua ainda debaixo da terra, esse eterno laboratório onde tudo se transforma — cárcere estreito demais para conter uma alma de Poeta.

JORGE RAMOS
Revista “Careta”, 25 de outubro de 1952.

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