domingo, 6 de maio de 2018

José Maria de Andrade - Os Versos de Bulhão Pato (Crítica)


Os Versos de Bulhão Pato

Um dos maiores méritos de Bulhão Pato é a concisão admirável do seu estilo, concisão que ele leva aos verdadeiros resultados dos grandes mestres, principalmente quando bosqueja os painéis da natureza. Os aspectos diante dos quais a sua musa parece embevecer-se, são sempre simples e tristes, como a índole do poeta. O pôr-do-sol, o cair das folhas do outono, o adro de uma aldeia, o casal que alveja ao longe por entre as cristas da serrania, são, em geral, as cenas que a fantasia se compraz de lhe aproximar, de contornar, e que lhe torna como os horizontes permanentes da sua existência poética. Mas há sempre um vivo sentimento de poesia nestas pinturas; e é observando-as, e é estudando-lhe os efeitos que a sua impressão nos produz, que se percebe bem que secretos dons de influência moral exercem na alma estas combinações, em que o poeta parece chegar a ser pintor, porque o pintor, para o ser verdadeiramente, não pode deixar de ser poeta. Alguns exemplos, colhidos aqui e acolá, explicam isto melhor que todas as análises. Vejam se com linhas mais singelas se pode esboçar quadro mais amplo e solene:

Nas nossas almas existia um mundo
De indefinito amor;
Do pélago profundo,
Onde ruge o furor
Insano, concentrado, atroz, maldito,
Desta cruenta guerra
Das ambições da terra,
Nem uma maldição, um som, um grito
Nos vinha perturbar!
Era a amplidão do céu, a solidão da serra,
Ao longe... a voz do mar!

Que majestade e simplicidade de linhas! Outro quadro não menos verdadeiro:
Daquele pobre casal,
O fumo que vai subindo,
Em ondulante espiral,
Não diz que em volta do lar
Se reúne a pobre gente,
Que já de perto presente,
O frio inverno chegar?

Quita não saberia traçar melhor este painel campesino. Agora este outro que parece sair da palheta suave e melancólica de Gessner. Há nele o sentimento dos mágicos afetos da natureza, que tão bem compreende e exprime a musa alemã.

Era singelo, mas sublime o quadro!
Em roda o mato agreste;
No meio a pobre ermida ; ao lado delia
Um secular cipreste;
E sobre a cruz do adro
Pendente uma capela
De algumas tristes, desbotadas flores,
Talvez emblema de profundas dores!

Bulhão Pato também algumas vezes tem ensaiado o gênero satírico, e com felicidade, como se vê pela poesia o brinde, que é um desfechar constante de epigramas contra algumas das grutescas personificações da nossa comédia política. Mas eu prefiro, declaro-o francamente, não ver tão belo estro abater seus voos serenos a estes charcos. As suas tendências são outras, e mui diversas. O talento que vive do coração, a mente que se inflama só com o fogo dos sentimentos nobres e serenos, não pode prestar-se a aceitar em o número de suas predileções, assuntos repugnantes, e cujo hálito cresta sempre as asas cândidas do poeta. Que Bulhão Pato é o primeiro a repelir, com o seu desdém, estas lastimáveis individualidades, dignas sô de atrair as iras do libelista; e nas raras horas que a sua musa lhe tem emprestado algumas expressões de zombaria contra tais criaturas, tem sido sempre com a hombridade e desabrimento de quem aplica uma correção por força de necessidade: é mais uma pirraça do gênio insofrido do mancebo, que ainda mesmo um desafogo do poeta. Este não se rebaixaria a tanto.

JOSÉ MARIA DE ANDRADE FERREIRA
Lisboa—Valle do Pereira, 20 de agosto de 1862.

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