sexta-feira, 4 de maio de 2018

Lord Byron e a fatalidade (artigo), por A. C. Callado


Lord Byron e a fatalidade 

Texto publicado originalmente na revista "Carioca", em edição de 1942. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


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Há pessoas que encarnam, sozinhas, movimentos vitais da humanidade, que personificam as mais gloriosas viagens do espírito do homem. Se fecharmos os olhos relembrando o Romantismo, vemos, em toda a sua palidez e seu diabolismo, o rosto belo de George Gordon, sexto Lord Byron. Ele parece de fato o espelho humano feito para refletir sua época complexa, melancólica mas ardente, desesperada e idealista, triste e má.

A grandeza de Victor Hugo, a fraqueza de Alfred de Musset aniquilando, antes do corpo, o próprio espírito, num suicídio moral, os delirantes do Romantismo alemão, Lamartine, todos, todos eles não conseguiram refletir seu tempo com a trágica exatidão com que o fez Lord Byron.

Há uma verdadeira biblioteca e de vez em quando surge um novo livro sobre o grande poeta inglês que fez pasmar seus contemporâneos com seus versos, seu orgulho, seu "anseio de fatalidade” e suas amantes. Entre todos, talvez, o mais fascinante livro escrito sobre ele é este "Byron et le Besoin de Ia Fatalité", de Charles Du Boss, o amigo de André Gide.

Só o "amor", pelo menos o amor artístico a um tema, pode levar alguém a escrever o livro — aliás a série — que Du Bos escreveu sobre Byron. Há nele um verdadeiro luxo de psicologia, uma verdadeira mania de análise, uma verdadeira determinação de "encontrar" Lord Byron; de, partindo de tudo o que sua vida exteriorizou, ir buscar um Byron puro, inicial. Tratando-se de quem se trata, a tarefa é ingente. Byron foi cruel com as amantes; frio, quase com seres amados por todos como Shelley; incestuoso nas relações com Augusta; heroico indo morrer pela liberdade grega; banal e vulgar inúmeras vezes...

Mas Charles Du Bos, neste livro já relativamente antigo, consegue de fato mostrar-nos o mais puro Byron que já encontramos, o mais interpretado e o mais compreendido. Desde o título do livro como que temos uma "chave" para entender Byron. Esta chave foi mesmo "le besoin, de fatalité", o fatalismo temperamental que o fazia só enxergar estrelas do fundo dos abismos. Mais do que as circunstâncias de sua vida o levaram, Byron, ele próprio, foi no encontro das suas fatalidades...

Esse traço fundamental do grande retrato que de Lord Byron pintou Du Bos é mesmo a viga mestra da psicologia do poeta. Campo de batalha onde travaram luta renhida todas as paixões, esta marcha para a fatalidade foi o sistema orientador, o sentido da sua furiosa passagem por um mundo que não dominou muito mais ainda porque atraiçoaria assim sua incurável ânsia de fatalidade...

A. C. CALLADO
Revista "Carioca", 8 de agosto de 1942.

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