terça-feira, 8 de maio de 2018

O injustiçado Cruz e Souza (Crítica Literária)


O injustiçado Cruz e Souza

Texto publicado originalmente na revista "Vamos Ler!", em edição de 1943. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)
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Vale lamentar a injustiça que se tem feito a esse grande poeta, figura ímpar no século, e inegavelmente a mais moderna inspiração na poesia brasileira. Nunca lido, raramente citado, contudo Cruz e Sousa vive entranhadamente no movimento que se lhe seguiu. Reagindo ao tardio parnasianismo brasileiro, não obteve ressonância para sua obra, que era na verdade menos populista que os sonetos de fecho-de-ouro para álbuns de mocinhas, cujos autores detinham os cetros consagradores. Mas a sua inspiração pertencia ao futuro, e hoje que os outros já estão bem mortos, Cruz e Sousa reanima-se e identifica-se como precursor de nossa poesia moderna.

Bom poeta e prosador medíocre, Cruz e Sousa foi um mestre da língua, e na sua pena os vocábulos se renovam e ganham rebrilhos inéditos. Esteta, compenetrado orgulhosamente da excepcionalidade da arte, foi no íntimo um ferido, um trágico. Se a vida não ia poupá-lo, deu-lhe antes nervos finos capazes de senti-la dobradamente. Daí o sentido de sua existência, a conclusão de seu orgulho, o plano altivo de sua arte, preferindo a torre de marfim à lamúria, à fraqueza.
Não há o menor receio em situar o poeta Cruz e Sousa como um dos mais completos exemplares de artista aparecido em nosso país.

Revista "Vamos Ler!", 2 de setembro de 1943.

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