terça-feira, 8 de maio de 2018

Gonçalves Crespo, poeta de além-mar (Crítica Literária), por Francisco da Rocha Filho



Gonçalves Crespo, poeta de além-mar

Texto publicado originalmente na revista "Vamos Ler!", em edição de 1945. Transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2018)

---

Antônio Cândido Gonçalves Crespo é um dos mais singulares e atraentes nomes de nossa poesia.

O notável poeta das Miniaturas, seu primeiro livro, assegurou um lugarzinho em nossa lembrança, legando à posteridade uma obra de merecido valor.

Se por um lado a suas poesias acusam uma influência um pouco marcante, exercida pelo impressionismo do poeta, fruto de uma leitura demasiada de certos poetas, por outro lado não se lhe pode negar os reconhecidos predicados de sua musa.

A doçura das imagens, a melodia cadenciada da frase, a delicadeza de sentimentos, estas qualidades são inerentes à poesia deste grande vulto de nossa história literária. Fértil na composição de quadros emoldurados por uma sutil delicadeza, grande pela leveza do colorido de suas descrições.

Assim é a sua página deliciosa, o Minueto. Quem não a conhece? Quem não a leu na infância em alguma antologia? Este Minueto tão expressivo, que serviu também de modelo para um belo conto de Maupassant.

Logo no seu início deparamos com a beleza suave das descrições, com a qual o poeta empresta uma graça imensa aos seus versos:

Espaçoso é o salão; jarras a cada canto;
Admira-se o lavor do teto de pau-santo.
Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias;
Um enorme sofá; largas tapeçarias;
O purpúreo tapete aos olhos nos revela,
Entre as garras de um tigre, ansiosa, uma gazela.
...............................................................

E reparem neste final, em que repontam a graça e a beleza suave, arrematando estes versos de grande delicadeza:

A fímbria alevantando azul do seu vestido,
O rosto acerejado, o gesto comovido,
A sorrir deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete.

São assim, repletos desta graça espontânea e sadia, as demais composições de Gonçalves Crespo.

“A harmonia íntima, intraduzível entre a perfeição da sua forma e a extrema delicadeza do seu sentir.” E assim afirmando, Maria Amália Vaz de Carvalho, a talentosa escritora que teve a ventura de unir o seu nome ao do grande vate nacional, exprimia, de fato, toda a  riqueza das poesias de Gonçalves Crespo. Admira-se em seus versos a pureza impecável e sente-se verdadeiramente o quanto de belo neles palpita.

Estas qualidades descritas formam um conjunto belo e harmonioso e representam o verdadeira apanágio de sua obra poética.

A graça emotiva das poesias que enfeixam as Miniaturas e os Noturnos, está traduzida em verbos do mais fino lavor, vazados por uma sutileza e simplicidade, inerentes ao vate brasileiro.

A perfeição dos seus versos obedecia a uma rigorosa forma parnasiana, esta escola literária em que pontificaram, em nosso país, os talentos vigorosos de tantos poetas notáveis, e que nos deu a célebre trindade parnasiana.

Em algumas de suas poesias, Gonçalves Crespo realiza um voo mais alto, quando passa aos assuntos épicos, históricos, de arrojada composição. Deste gênero são: A resposta do Inquisidor e a Morte de D. Quixote e outros poemetos em que se nota a preocupação do poeta de fugir dos assuntos mais delicados para os de difícil concepção.

É, porém, no gênero de poesias curtas e nos sonetos, principalmente, que o talento do poeta se nos revela em todo o seu fulgor. Na A morte de D. Quixote Gonçalves Crespo procura fixar aspectos e episódios históricos, deixando transparecer a finura do colorido de ricos matizes e as descrições sempre tão sugestivas, que dão um ar de majestosa beleza aos seus versos.
 
Na A resposta do Inquisidor, nestes tercetos; por exemplo:

A sala em que medita El-Rei é silenciosa,
Apainelada e fria, o largo reposteiro
Ondula brandamente à aragem preguiçosa.

Á cátedra real um Cristo sobranceiro
Mesto, lívido, nu, ferido e ensanguentado
Exala sobre o seio o alento derradeiro.
...............................................................

O emprego de certas expressões portuguesas é facilmente explicado, pois o poeta de Noturnos viveu a maior parte de sua vida, tão curta aliás, em Portugal, e foi em Coimbra que publicou as Miniaturas, em 1871 (data da sua 1ª edição).

Seu estilo é, ao mesmo tempo, sugestivo e pitoresco, extravasado em versos de bela correção parnasiana, gênero no qual só teve como precursor o grande Castro Alves.

Afrânio Peixoto afirma, com justa razão, que Gonçalves Crespo foi, à exceção do poeta de Navio Negreiro, o maior talento descritivo no evocar e pintar um cenário.

Existe, porém, um aspecto pouco fundido entre nós e que diz respeito à verdadeira nacionalidade de Gonçalves Crespo e ao ato da Academia de Letras negando-lhe a entrada no seu augusto recinto.
 
A arte, sendo como é a expressão mais sublime do pensamento universal, como tal não admite controvérsias no que diz respeito a questões raciais. Foi, pois, uma grande injustiça o ter a Academia vetado o nome de Gonçalves Crespo, sob a alegação de que o poeta vivera em Portugal, onde escrevera as suas obras, desprezado talvez devido a sua origem negra.

Observa, com razão, Gervásio Lobato que a Academia vetando o nome do poeta de Noturnos, esquecera-se de que Tomás Antônio Gonzaga era português embora vivesse e escrevesse no Brasil.
 
Este fato trouxe como consequência rias críticas que, enaltecendo o mérito inegável de Gonçalves Crespo, lamentavam o sucedido.

Aliás, a questão do seu verdadeiro espírito nacionalista e o grande amor ao torrão em que nascera, pode facilmente ser comprovado.
 
Era ele filho do negociante. Antônio José Gonçalves Crespo, português de muito radicado no Brasil e da mestiça Francisca Rosa.

Seu pai era proprietário de uma roça nas imediações do Rio de Janeiro e foi aí que viu a luz do dia aquele que, mais tarde, se tornaria um dos maiores talentos poéticos de sua geração.

Se isto não bastasse, há a assinalar também o grande amor que Gonçalves Crespo tinha ao Brasil.
 
Existem meigas recordações nos versos repletos de sentimento de: A Sesta, Alguém, Na roça, Canção e Ao meio-dia, temas sugestivos, repassados da suave nostalgia que o poeta demonstrava da pátria distante.

É de sua mãe que o poeta parece lembrar-se nestes versos espontâneos e sinceros de Alguém:

Para alguém sou lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas Ideais do Cristo;
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos.
E se na terra existe, é porque existo.

E, ao finalizar, ele confessa:

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! esse alguém
É de meus dias a esplendente aurora
És tu, doce velhinha, oh minha mãe!

Em Na roça, Ao meio-dia e Sesta as cenas descritas são as mesmas que presenciara em sua infância e que ficaram gravadas indeléveis em sua lembrança e em seu coração. São de Na roça estes versos:

Cercada de mestiços, no terreiro,
Cisma Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouca e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia:
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora a fila da boiada...

São estas cenas sugestivas e simples que se encontram no cérebro do poeta e que sabia traduzir com grande sentimento.

E, se quisermos ter uma prova segura de seu amor ao Brasil, basta o testemunho de Dona Maria Amália, sua dedicada  companheira de 9 anos, que tão carinhosamente dedicou as suas mais belas páginas à lembrança do seu esposo.

São palavras suas: “Nascido no Brasil, neste clima ardente e lânguido, no seio desta natureza exuberante que, multo mais forte do que o homem, se lhe impõe e o subjuga fatal e irresistivelmente, Gonçalves Crespo foi transplantado para uma região a que nunca se pode aclimatar bem.”

De fato, Gonçalves Crespo, tendo na alma e no sangue os indícios de uma nacionalidade ardente e viva, dotado de um temperamento sensível, tinha que sentir este natural deslocamento a que o forçaram as contingências da vida. E é assim que o poeta deixou extravasada esta “doçura nostálgica e a saudade pungente”, que se desprende de seus sonetos e poemas.

De que mais podia duvidar a Academia, na pessoa de Silva Ramos, da verdadeira essência nacionalista deste grande poeta?

É um dos aspectos mais interessantes da vida do grande Gonçalves Crespo. Felizmente para nós, as Obras Completas deste grande poeta foram já organizadas.
 
E, para ainda mais robustecer o valor de Gonçalves Crespo, basta apontar aqui a consternação geral que se seguiu no Brasil após a notícia do seu falecimento, em 1883.

E ouviu-se então, na voz dos nossos maiores poetas, entoados por toda a parte desta gleba ardente, os mais belos e sublimes versos, que exprimiam a dor sincera e comovente por todos sentida.

E, dentre os sonetos que se fizeram ouvir, enaltecendo o mérito do poeta, como última homenagem àquele que do além-mar tão alto elevara o nome do Brasil, cumpre citar o que Alberto de Oliveira, seu companheiro de Escola, dedicou à sua memória, enaltecendo o valor de sua obra.

É pois de um dos maiores vultos de nossa poesia, da geração de Bilac e Raimundo Correia, este belo soneto:

Onde não sei, mas li que uma princesa
Houve que
certa vez, porque a ferira
Pesar estranho, contra o chio partira
Um raro cofre de oriental beleza;

E quando ao golpe o escrínio se entreabrira
Como irizada lágrima represa,
Fulge o diamante, a pérola, a safira,
O ônix, o prásio, a pedraria acesa.

Como aquela princesa misteriosa
Tu, contra a pedra tumular e fria,
Foste quebrar teu cofre cor de rosa...

Ah! quem ao colo as pérolas mais puxas
Te recolhera, no final do dia...
Doce musa gentil das Miniaturas!

FRANCISCO DA ROCHA FILHO
Revista "Vamos Ler!", 12 de julho de 1945.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...