segunda-feira, 25 de junho de 2018

Temas Poéticos: FAMOSOS II


A Isabel a Redentora
(Treze de Maio)

CÁRMEN FREIRE
"Visões e Sombras" (1897)

Tudo ao redor são festas e cantares!
Nunca tão alto som de alegres hinos
Surgiu de toda parte, à voz dos sinos,
Nos seus gritos de bronze pelos ares!

Fugiram da cidade os seus pesares;
É geral o prazer! Iguais destinos
Irmanaram com os velhos os meninos,
Com as humildes choupanas os solares!

E cabe a vós, Senhora, tanta glória,
Pois livrastes da dor do cativeiro
Milhares de infelizes, cuja história

De longas dores é um poema inteiro;
Aceitai, pois, oh anjo da vitória,
Da pátria livre o livre amor primeiro.

★★★

Ao Heroico Generalíssimo
Manoel Deodoro da Fonseca

CÁRMEN FREIRE
"Visões e Sombras" (1897)

Para nós, almas livres, não existe
Direito algum além da liberdade;
Vimos da terra ardente, onde hoje triste
Chora entre cinzas a fiel saudade.

Artistas, nossa eterna mocidade
Através dos sarcófagos persiste,
E, abrindo as asas à imortalidade,
Cremos num Deus que às tentações resiste.

Cremos no alto poder do pensamento,
Da vitória gloriosa do talento,
Das criações dos gênios imortais.

Tu, que nos deste um horizonte novo,
Tu, que entregaste a liberdade a um povo,
Creio em ti, General dos generais.

★★★

Teófilo Dias

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

I
Jaz uma lira a balançar suspensa
dos braços de uma cruz, símbolos santos;
onde, porém, os hinos eram tantos,
onde, o cantor cheio de vida e crença?

Aves, chorai conosco a mágoa intensa!
Astros, que ele cantou, fazei-vos prantos!
Vinde gemer nos ecos de seus cantos,
florestas virgens, natureza imensa!

Na frágil urna, que encerrava a essência
divina dos eleitos, a existência
já não podia agora ser contida.

Que a palma de imortal, que ela procura,
quando a encontra, desfaz-se a criatura
na combustão do gênio destruída.

II
Maldita a chama, que, no crânio acesa,
cresta o organismo e o coração devora!
Maldito o sol, que mata, em plena aurora,
a obra prima da fértil natureza!

Já nasce o poeta com a lira presa
da nevrose que a fere de hora em hora,
e, quando vibra a nota mais sonora,
vem a morte buscá-lo sem surpresa.

Alma que foste um sol, alma de chama,
voaste, bem sei; mas há de a tua fama
ecoar em vastíssimo proscênio.

Verá, quem ler teu poético tesouro,
teu coração em cada estrofe de ouro,
em cada verso triunfal – teu gênio.

★★★

A Raimundo Correia

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Sorriu-te a Musa, infante inda no berço,
e dos “Primeiros sonhos” despertou-te;
e, desde então, cantando dia e noite,
leva-te o gênio musical do Verso.

As vastas “Sinfonias” do universo,
na lira de ouro sóbria, Orfeu legou-te
e, sem que ao gongorismo vão se afoute,
o estilo é rico, cinzelado e terso.

Ali, num microcosmo, condensaste
aromas, sons e luz, e, por contraste,
os gritos do clarim e a flauta langue.

Nos “Versos e Versões”, porém, conquistas
o ideal supremo dos geniais artistas,
molhando a pena no teu próprio sangue.

★★★

José Bonifácio

MACHADO DE ASSIS
“Americanas” (1875)

De tantos olhos que o brilhante lume
Viram do sol amortecer no ocaso,
Quantos verão nas orlas do horizonte
Resplandecer a aurora?

Inúmeras, no mar da eternidade,
As gerações humanas vão caindo;
Sobre elas vai lançando o esquecimento
A pesada mortalha.

Da agitação estéril em que as forças
Consumiram da vida, raro apenas
Um eco chega aos séculos remotos,
E o mesmo tempo o apaga.

Vivos transmite a popular memória
O gênio criador e a sã virtude,
Os que o pátrio torrão honrar souberam,
E honrar a espécie humana.

Vivo irás tu, egrégio e nobre Andrada!
Tu, cujo nome, entre os que à pátria deram
O batismo da amada independência,
Perpetuamente fulge.

O engenho, as forças, o saber, a vida
Tu votaste à liberdade nossa,
Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos
Inconcussa deixaram.

Nunca interesse vil manchou teu nome,
Nem abjetas paixões; teu peito ilustre
Na viva chama ardeu que os homens leva
Ao sacrifício honrado.

Se teus restos há muito que repousam
No pó comum das gerações extintas,
A pátria livre que legaste aos netos
E te venera e ama,

Nem a face mortal consente à morte
Que te roube, e no bronze redivivo
O austero vulto restitui aos olhos
Das vindouras idades.

“Vede (lhes diz) o cidadão que teve
Larga parte no largo monumento
Da liberdade, a cujo seio os povos
Do Brasil te acolheram.

Pode o tempo varrer, um dia, ao longe,
A fábrica robusta; mas os nomes
Dos que o fundaram viverão eternos,
E viverás, Andrada!”

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