segunda-feira, 25 de junho de 2018

Temas Poéticos: MAR I


A Voz do Mar
(Ao Dr. Gustavo de Suckow)

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

A voz do mar serena, indefinida e vaga,
que a ondulação da brisa intermitente afaga
por noites de verão,
na alma contemplativa
desperta-nos à mente a quadra primitiva
dos tempos que lá vão...

Fecha os olhos, agora, e no espírito, em cheio,
as ilusões acolhe. Assim como quem veio
de um remoto país,
nas brumas da distância,
verás que vem surgindo a aprazível estância
verdejante e feliz
onde fumega o lar da tua mocidade,
sob o prestígio amargo e doce da saudade.

E a voz do mar, vibrando em tua fiel mente,
numa reprodução sensível às imagens,
colora em luz nitente
as complexas paisagens.
Vêm surgindo as florestas
da curva azul das ondas,
entre modulações de místicas orquestras.
Eis as copas redondas
das árvores frondosas,
espanejando no ar mil flores perfumosas;
flores que não dão fruto,
mas cujo cálice doce angélico, impoluto,
na manhã da existência,
verte aos lábios da infância o néctar da inocência;
perfumes que somente instila a Fantasia,
alquimista dos sonhos.

Ei-los, mais perto agora, os píncaros risonhos
das montanhas natais. Cor, perfume, harmonia,
cantai, ardei, luzi! A plaga se aproxima
e mais e mais se anima.
Dentro em pouco, verás os entes mais queridos,
generosos e francos,
que te acenam da praia, em gestos conhecidos.
agitando em triunfo uns grandes lenços brancos,
És um ressuscitado; eles, sim, são os vivos;
no entanto, há muito já que a morte os tem cativos.
Foi longa tua viagem...
A outra não tornarás jamais em tua vida.
A volta, do passado à ridente paragem,
no olvido adormecida,
vale mais que a aventura
de uma época futura,
de um tempo sempre incerto,
quando mesmo o destino o faça um céu aberto.
........................................
E sobre essa ilusão da Fantasia canta,
num prolongado som que o peito te quebranta,
e fascina e hipnotiza,
ao langoroso arfar da sonhadora vaga
e à ondulação da brisa,
a voz do mar serena, indefinida e vaga...

★★★

Cólera do Mar
(A Assis Brasil)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Disse o rochedo ao mar, que plácido dormia:
“Quantos milênios há que, tu, negro elefante,
tragas covardemente esses, cuja ousadia
se arriscou em teu dorso enorme e flutuante?”

O mar não respondeu; mas um tufão horrendo
cavou-lhe a entranha e fez estremecer de medo
o coração do abismo. Então o mar se erguendo,
atirou um navio aos dentes do rochedo!

★★★

Floresta e Mar

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Uma floresta é um mar. Que de rumores
em seu seio, onde a seiva ardente mora!
É o destino comum ao mar e à flora
ter a mesma tragédia, as mesmas dores.

Ambos mostram riquezas e esplendores:
o mar, pelas marés, pérolas chora;
e, ao receber a selva a luz da aurora,
surgem-lhe à tona, como espuma, as flores.

Que majestade no oceano, quando
vem a noite do espaço desdobrando,
sobre ele, a negra clâmide de Atlante!

Porém, quanto a floresta mais me agrada,
ostentando-se à luz da madrugada
rumorosa, aromática, brilhante!

★★★

O Mar

AUGUSTO DOS ANJOS
“Eu” (1912)

O mar é triste como um cemitério;
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando num alvor etéreo.

Ah! dessas vagas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; lá, só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,

Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a Saudade envolta nesta espuma!

★★★

Oração ao Mar
CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)
Ó mar! Estranho Leviatã verde! Formidável pássaro selvagem, que levas nas tuas asas imensas, através do mundo, turbilhões de pérolas e turbilhões de músicas!
Órgão maravilhoso de todos os nostalgismos, de todas as plangências e dolências…
Mar! Mar azul! Mar de ouro! Mar glacial!
Mar das luas trágicas e das luas serenas, meigas como castas adolescentes! Mar dos sóis purpurais, sangrentos, dos nababescos ocasos rubros! No teu seio virgem, de onde se originam as correntes cristalinas da Originalidade, de onde procedem os rios largos e claros do supremo vigor, eu quero guardar, vivos, palpitantes, estes Pensamentos, como tu guardas os corais e as algas.
Nessa frescura iodada, nesse acre e ácido salitre vivificante, eles se perpetuarão, sem mácula, à saúde das tuas águas mucilaginosas onde se geram prodígios como de uma luz imortal fecundadora.
Nos mistérios verdes das tuas ondas, dentre os profundos e amargos Salmos luteranos que elas cantam eternamente, estes pensamentos acerbos viverão para sempre, à augusta solenidade dos astros resplandecentes e mudos.
Rogo-te, ó Mar suntuoso e supremo! para que conserves no íntimo da tu’alma heroica e ateniense toda esta dolorosa Via-Láctea de sensações e ideias, estas emoções e formas evangélicas, religiosas, estas rosas exóticas, de aromas tristes, colhidas com enternecido afeto nas infinitas ideias do Ideal, para perfumar e florir, num Abril e Maio perpétuos, as aras imaculadas da Arte.
Em nenhuma outra região, Mar triunfal! ficarão estes pensamentos melhor guardados do que no fundo das tuas vagas cheias de primorosas relíquias de corações gelados, de noivas pulcras, angélicas, mortas no derradeiro espasmo frio das paixões enervantes…
Lá, nessas ignotas e argentadas areias, estas páginas se eternizarão, sempre puras, sempre brancas, sempre inacessíveis a mãos brutais e poluídas, que as manchem, a olhos sem entendimento, indiferentes e desdenhosos, que as vejam, a espíritos sem harmonia e claridade, que as leiam…
Pelas tuas alegrias radiantes e garças; pelas alacridades salgadas, picantes, primaveris e elétricas que os matinais esplendores derramam, alastram sobre o teu dorso, em pompas; pelas confusas e mefistofélicas orquestrações das borrascas; pelo epiléptico chicotear, pelas vergastantes nevroses dos ventos colossais, que te revolvem; pelas nostálgicas sinfonias que violinam e choram nas harpas das cordoalhas dos Navios, ó Mar!
guarda nos recônditos Sacrários d’esmeralda as ideias que este Missal encerra, dá-o, pelas noites, a ler, a meditadoras estrelas, à emoção do Ângelus espiritualizados e, majestosamente, envolve-o, deixa que Ele repouse, calmo, sereno, por entre as raras púrpuras olímpicas dos teus ocasos…

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