quinta-feira, 28 de junho de 2018

Temas Poéticos: FAMOSOS VI


Cleópatra
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
"Cleopatra diffidava... Fu persuasa che il vincitore la destinava al trionfo... Ottaviano, corse in gran fretta a salvare la sua preda, la trovó, sul letto, adorna della sua piú bella veste di regina,
addormentata per sempre...
"
(G. Ferrero - Grandezza E Decadenza di Roma)

Não! que importava a queda, e o epílogo do drama:
O trono, o cetro, o povo, o exército, o tesouro,
As províncias, a glória, e as naus, no sorvedouro
De Actium, e Alexandria entregue ao saque e à chama?
Não! que importava o horror da entrada em Roma: a fama
De Otávio, e o seu triunfo, entre a púrpura e o louro,
E a plebe em grita, e o céu cheio das águias de ouro,
E o Egito, e o seu império, e os seus troféus, na lama?
Não! Que importava o amor perdido? Que importava
O naufrágio do orgulho, a vergonha, a tortura
Do ódio do vencedor ou da piedade alheia?
Mas entrar desgrenhada, envelhecida, escrava,
Rota, sem o arraiar da sua formosura,
Sol sem fulgor...
Matou-a o medo de ser feia.

★★★

A velhice de Aspásia
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
Velha, Aspásia, como um clarão, na Academia
E na ágora, surgia e ofuscava as mais belas;
E, sob as cãs, e sob as roupagens singelas,
Aureolada do amor de Péricles, sorria...
Do Helesponto, do Egeu, do Jônio, em romaria,
Vinham vê-la e admirá-la efebos e donzelas.
E eles: "Que sol nos teus cabelos brancos!" E elas:
"Brilha mais do que a aurora o final do teu dia!"
Ela e a Acrópole, frente a frente, alvas, serenas,
Unidas no esplendor, gêmeas na majestade,
Eram a forma e a ideia, iluminando Atenas.
Aspásia, deusa clara e simples, na moldura
Do céu, nume feliz, perfumava a cidade...
Era uma religião a sua formosura!

★★★

Anchieta
OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)
Cavaleiro da mística aventura,
Herói cristão! nas provações atrozes
Sonhas, casando a tua voz às vozes
Dos ventos e dos rios na espessura:
Entrando as brenhas, teu amor procura
Os índios, ora filhos, ora algozes,
Aves pela inocência, e onças ferozes
Pela bruteza, na floresta escura.
Semeador de esperanças e quimeras,
Bandeirante de "entradas" mais suaves,
Nos espinhos a carne dilaceras:
E, porque as almas e os sertões desbraves,
Cantas: Orfeu humanizando as feras,
São Francisco de Assis pregando às aves...

★★★

A Maria Leopoldina

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

“Ergue este ramo solto em teu caminho,
Sei que em teu seio asilo encontrará;
Só tu conheces o secreto espinho
Que dentro d'alma me pungindo está!”
F. Varela

“.... sauvez de l'oubli quelques uns de mes vers.”
Millevoye

Sobre as asas da esperança
meus versos tímidos vão
buscando um berço, criança,
em teu virgem coração.

Úmidos vão de pranto,
ou dourados pela luz...
a luz é tua, portanto,
a lágrima é desta cruz.

E eu sei que não mos repeles...
pois nasceram todos eles
à sombra do teu amor:

são penas para um só ninho,
vozes de um mesmo carinho,
abelhas da mesma flor!

★★★

Antônio de Castro Alves
(Recitada na sessão fúnebre que, em memória do poeta, no dia 8 de agosto de 1871)

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

É tarde! é muito tarde! o templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! é muito tarde!
Castro Alves — Espumas flutuantes.

É tarde! é muito tarde! nos caminhos
ele cedo encontrou a noite escura:
e unidas, como irmãs no mesmo berço,
estavam a lira e a cruz na sepultura...

É tarde! é muito tarde! o seu futuro
como luz se atufou no mar profundo.
E Deus na terra estende uma mortalha
para um talento mais do novo mundo.

Quanto sonho gelado numa noite!
quanta estrela tombada num momento!
quando ela, — a noiva negra, recebia
o poeta — da cruz do sofrimento!

O futuro era vasto. Como o pássaro
soerguido no píncaro dos Andes
imbebe o olhar na dupla imensidade
do grande espaço e das savanas grandes...

ele sentira desdobrar-se imenso
por sobre o mundo o céu da liberdade;
e pressentira as vozes do futuro
na aclamação febril da mocidade.

E a mão repleta a transbordar de louros,
a fronte ungida a derramar ideias,
na dupla cruz do povo e dos escravos
ele traçou sublimes epopeias.

Erguera os redivivos. Do passado
lançou as glórias — do porvir às telas,
e sobre as cinzas desfolhou cantando
do seu talento as mágicas estrelas...

No entanto uma ave negra enverga as azas,
as fibras do sonhar gemendo estalão,
e, flores derramadas na corrente,
vinte anos no túmulo resvalam...

É tarde! é muito tarde! que mais resta
da esplendorosa luz que o sol derrama?
como negra mortalha o céu é negro,
vaga nas selvas funerária chama...

Da grande nau as vergas estaladas
boião na face escura do oceano;
e ao látego do vento a onda aberta
sente o baque de um corpo soberano.

É tarde! mas na flor do firmamento
Deus abre agora estrelas fulgurantes...
e sobre a vaga adormecida, ao longe
passam boiando — Espumas flutuantes!

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