segunda-feira, 2 de julho de 2018

Temas Poéticos: FAMOSOS VI


Victor Hugo

TOBIAS BARRETO
“Dias e Noites” (1893)

Mostras na fonte os estragos
Dos raios que a sorte tem;
Na falange dos teus Magos
Tu és um mago também.
Joelhas, quebro da ideia,
Ante a luz que bruxuleia
Dos futuros através!
Por grande, os teus te renegam;
Cem anátemas fumegam
Sufocados a seus pés...

O estilo d'ouro que empunhas,
Foi o Senhor quem to deu.
Leva a águia a presa nas unhas,
Ninguém lhe diz: isto é meu!
Estrelas, mundos, ideias,
Bíblias, monstros, epopeias,
Tudo que empolga é teu...
Cabeça que pesa um astro
Na mente de Zoroastro,
Na mão de Ptolomeu!

★★★

À morte de Junqueira Freire

LAURINDO RABELO
"Poesias" (1946)

Do retiro claustral cisne sagrado
O voo desprendeu!
Enchendo os ares pátrios de harmonias
Cantou, depois morreu!

Mistério! — Ave criada entre os altares,
Acaso a turba impura
Do mundo com seu bafo envenenado
Abriu-te a sepultura?!

Punindo-te o desprezo de seus lares
O Anjo de Sião
Por ordem do Senhor tão presto deu-te
A morte, em punição?!

Preso o espírito, acaso, nas cadeias
Do voto eterno e forte
Teve, na luta acerba espedaçando-as,
Por liberdade a morte?!

Mistério! — Respeitemos nesta campa
Decretos divinais!
Sobre as cinzas do morto ao vivo toca
O pranto e nada mais!

Rei que fora! — Era um servo que devia
A vida ao Senhor seu!
Seu Senhor o chamou, a voz ouviu-lhe
E pronto obedeceu!

Duvidais do que digo? — Erguei a campa...
Esse corpo o que é?!
E negareis ainda que era um servo?!
Aí tendes a libré!

Viveu como poeta, de poeta
Deixou o canto e a fama.
Inda no crânio morto tem — bem vedes —
Do louro verde a rama!

Leste-lhe a poesia? Eram arquejos
D’um coração aflito!
De uma alma que ensaiava na matéria
Os voos do infinito!

Voou!... Cisne de luz, adeja livre
Mau grado a humanidade!
Os hinos dos arcanjos são seus hinos
Seu mundo — a eternidade!

★★★

A José do Patrocínio

GUIMARÃES PASSOS

Se altivo - ouvirás contra ti mil rumores;
Humilde - qualquer um julgar-te-á seu vassalo;
Rico - servos terás como Sardanapalo;
Pobre - ai! de ti! ver-te-ás cercado de credores.

Se franco - eis a teu lado os vis caluniadores;
Ladino - ao teu encalço eis a lei, a cavalo;
Ama - serás tu só que sofrerás abalo;
Se amado - outro és e não terás amores.

Se só - tu maldirás a tua soledade;
Unido - chorarás a antiga liberdade...
Para seres, enfim, sem sofrer, que te ocorre?

Se alguém, sejas nada, inteligente ou rudo;
Se dos que nada têm; se dos que gozam tudo,
Para teres razão, só tens um meio: morre!

★★★

A Dona Maria de Vilhena quando se meteu freira

DIOGO BERNARDES
"Várias rimas ao bom Jesus
]e à Virgem gloriosa sua mãe e a santos particulares" (1770)

Alma merecedora de mil palmas,
de mil louvores digna, de mil cantos,
um doce amor das bem nascidas almas;

alma que só pudeste romper quantos
laços cá nos detém em prisão dura,
alegria do céu, prazer dos santos;

alma bela, alma branda, casta e pura,
toda cheia de amor, toda amorosa,
vestida doutra nova fermosura;

ah, que direi de ti, alma ditosa,
no mundo exemplo raro de beleza,
agora fora dele mais fermosa?

Ornada de um saber, de ūa grandeza
que soube desprezar em tenra idade
o que no mundo mais se busca e preza,

moveu-te por ventura essa vontade
a vontade do pai, ou te moveu
a força da cruel necessidade?

Quem não verá ser isso amor do céu,
amor daquele Deus crucificado
que para esposa sua te escolheu?

Ah soberano amor bem empregado
em quem o seu amor por amor puro
antes de o mundo ser te tinha dado!

Deixaste, alma fermosa, o vale escuro,
de lágrimas e dores sempre cheio,
tomaste em bravo mar porto seguro,

um direito caminho, um certo meio
para subir à pátria soberana,
onde sem dor se vive e sem receio.
Das aparências vãs da glória humana
a cega vaidade descobriste
que nos leva após si, que nos engana.

C’os olhos da razão dela fugiste,
e doutras coisas mais com que parece
que pode haver prazer na vida triste.

Para ti outro céu já resplandece,
outro sol, outra lua, outras estrelas,
outras flores a terra te oferece.

Doutras com nova mão novas capelas
de mais suave cheiro dás agora
a teu suave amor, criador delas.

Nessa quietação onde Deus mora,
a ele só te dá, pois te chamou,
a ele canta só, por ele chora.

Com outra do teu nome, que lavou
com lágrimas os pés de seu Senhor
e com suas tranças de ouro os alimpou;

com outra a quem da vida o Redentor,
porquanto muito amou, perdoou muito,
que nada nega Deus a muito amor;

com outra que colheu divino fruito,
tão de verdade triste e arrependida
que nunca teve mais o rosto enxuto;

com outra que, na lapa recolhida,
na solidão da serra cavernosa
em amores do céu gastou a vida;

com outra que lá nele gloriosa,
da visão de seu Mestre não se parte,
de quem na terra foi tão saudosa;

com esta tal Maria a melhor parte
por Cristo com raro exemplo escolheste,
que seu amor não saberá negar-te,
pois tu, alma ditosa, o teu lhe deste.

★★★

Morreu Bocage, sepultou-se em Goa

CURVO SEMEDO
(Século XVIII)

Morreu Bocage, sepultou-se em Goa!
Chorai, moças venais, chorai, pedantes,
O insulso estragador dos consoantes.
Que tantos tempos aturdiu Lisboa!

Por aventuras mil obteve a c′roa
Que a fronte cinge dos heróis andantes;
Inda veio de climas tão distantes
Á toa vegetar, versar á toa:

Este que vês, com olhos macerados,
Não é Bocage, não, rei dos brejeiros.
São apenas seus olhos descarnados:

Fugiu do cemitério aos companheiros;
Anda agora purgando seus pecados
Glosando aos cagaçais pelos outeiros.

★★★

A atriz Eugênia Câmara
No dia seguinte ao de uma vaia sofrida no Teatro Santa Isabel, no Recife.

CASTRO ALVES

Hoje estamos unidos a adorar-te
Tu és a nossa glória, a nossa fé,
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!...

Ontem a infâmia te cobria de lama
Mas pra insultar-te se cobriu de pó!...
Miseráveis que ferem a fraqueza
De uma pobre mulher inerme, só!

Tu és tão grande como é grande o gênio
És tão brilhante como a própria luz,
Dentre os infames do calvário d'arte,
Tu foste o Cristo, foi o palco a cruz!...

Mas estamos unidos a adorar-te!
Tu és a nossa glória, a nossa fé!
Gravitar para ti é levantar-se,
Cair-te às plantas é ficar de pé!

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