quinta-feira, 21 de junho de 2018

Temas Poéticos: HISTÓRIA I


LUIZ DELFINO
“A angústia do infinito” (1936)

★★★

Quinze de Novembro de Oitenta e Nove

À AMÉRICA
O BRASIL NOVO

Livre enfim dos seus últimos ferros,
Das cadeias mais vis desatado,
Calmo, forte, invencível, ao lado
Dos irmãos desta América o vês:
Livre, em pé, ante o mar menos livre,
Não lhe enturva a vergonha o semblante
De ter ele — tão grande e possante —
Um senhor, que o avassala, em seus reis.

Levantado em seus monte e serras,
Do áureo plinto de folha e granito,
A águia branca, que roça o infinito,
Vê subir, e ele inveja não tem:
Rubra aurora, que o cinge, e o encontrava
Hirta a fronte, empanada de pejo,
Sente que hoje, imprimindo-lhe um beijo,
Beijo a fronte de um livre também.

Já não mancha esta América vasta
O Brasil, vasto, enorme colosso,
Aço rude de escravo ao pescoço,
No olhar largo de um deus a pesar:
O farrapo de treva deixado
Pelo tempo já ido, em seu dorso,
Num momento, num último esforço,
Sacudiu em mil voltas no ar.

Renascemos pra América livre:
Viva a América livre e sem peias:
Fundam todos as velhas cadeias,
Peso ignóbil na nossa cerviz:
Tudo à forja; renove-se tudo,
Da cidade ao recesso da mata,
Desde as cristas dos Andes ao Prata:
Arda em luz toda nova o País.

Liberdade, ó gentil foragida,
Deusa austera entre as deusas austeras,
Tu chegaste e contigo outras eras,
Outros sóis, outros céus mais azuis:
Há no ambiente uns aromas mais novos,
Bater de asas à borda dos ninhos...
Listrões de ouro bordando os caminhos:
Luz, mais luz... muita luz... muita luz...

Há rosais pelas bocas sangrentas
De suas rosas cantando perfumes...
Dança louca de estrelas e numes,
Dança louca de ondinas e sóis...
Canta, envolto nas algas e espumas,
O ombro nu, verde, um pouco de fora,
Mesmo o oceano, que ri e que chora,
Chora e ri, junto à praia, entre nós.

Astros de ouro, estrelados abismos,
Reis e deuses, é livre quem pensa,
E não tem outra fé, outra crença,
Outro amor e esperança não tem,
Que não seja esta luta perene,
Contra vós fatalmente levada:
Deus, és tu, Liberdade, e mais nada:
Céu, és tu, ó conquista do Bem.

Viva a América livre entre os povos,
Livre e só entre os mais continentes:
Honra e glória ao imortal Tiradentes;
O patíbulo hoje é o seu pedestal:
Honra e glória aos soldados da pátria;
Honra e glória a este povo sublime,
Que dos reis, que dos vis se redime,
Calmo ainda na ebriez triunfal.

Ó Romano, a virtude é só nome?
Tu negando-a, afirmaste a virtude:
Dás na ação e na doce atitude,
Brasil livre, e senhor dos teus reis,
Um exemplo inda novo, e não visto:
Esta terra, esta gente, esta raça
Arroubada a este sopro, que passa,
Ser o espanto do tempo vereis.

Esta grande conquista foi nossa...
Nossa enfim: nenhum rei no-la tira:
Nem o poeta a renega na lira,
Nem a história há de, infame, a negar:
Fomos nós, que esta pátria avivamos:
Fomos nós, que a fizemos de novo:
Glória! Glória à conquista do povo,
Que rompeu a prisão secular.

Maldição sobre as frontes vergadas,
Sobre as mãos estendidas, buscando
Vida, sangue em cadáveres, quando
Tudo é grande — olha em torno e verás:
Tudo é grande, e cascalham risadas,
Que andam rindo já dentro da história,
Recolhendo este dia de glória,
Obra nossa, e de avós, e de pais...

Rei? Não mais: não queremos; não vinga
Entre nós essa raça maldita,
Que só crê, pensa, e sonha, e medita
Ter no povo, que a sofre, uma grei;
Planta exótica e má de outras zonas,
De outro céus; de outro sóis, de outra esfera...
Quem de um rei senão ferros espera?
Bastou já: não queremos mais rei.

Que é um rei? — É um ídolo apenas
Que a ambição e a ignorância levanta,
A que o bravo não dobra uma planta,
Baixo culto dos tímidos só:
Vulto erguido no meio dos povos,
Como a sirte nos mares deitada,
Onde a vaga, que a toca, esmagada,
Não é mais vaga, é uma nuvem de pó.

Sabeis vós, pobres povos incautos?
Antes que um grande povo apareça,
E o homem possa erguer alto a cabeça,
Possa ver do alto auroras e sóis,
Quanto ferro batido no ferro,
Quanto sangue inocente esgotou-se;
Como flores caídas à fouce,
Quantas frontes caíram de heróis!

Não queremos mais rei; o mais sábio,
O mais justo, o mais forte, o mais casto:
Salomão com juízo tão vasto,
Com leis novas um novo Moisés:
Mesmo Deus, que outra vez se lembrasse
De ser rei, e entre estrelas surgisse,
Belo, grande, amor todo e meiguice,
Não golpeadas as mãos, nem os pés.

Não — Ninguém tente a empresa arriscada
De irritar o leão generoso;
Ninguém tome o seu calmo repouso,
Como falta de audácia: olhai bem:
Pôr-lhe um rei hoje ao alcance das garras!...
Dize ao raio, buscando-te: — espera:
Passa ileso através da cratera:
Mas não tente esse crime ninguém!

Norte e sul num amplexo eviterno,
Num delírio de crença e igualdade,
Jurem todos por ti, Liberdade,
Jurem todos viver ou morrer:
E se um dia, no campo da luta
Alguém ouse atacá-lo, cobarde!
Saiba o culto que na alma nos arde,
Sinta como é cumprido um dever.

Brasileiros, guardemos unidos
O torrão desta pátria querida:
Demos tudo que é seu, alma e vida;
Tudo à pátria é preciso entregar:
Tudo é dela: a ela tudo devemos:
Esta pátria hoje é nossa de todo;
Arrancou-se este escrínio de lodo,
Arrancou-se esta pérola ao mar.

Velhos reis medievais, velhas raças,
Entre anseio, entre susto, entre pasmo,
O Brasil, com seu calmo entusiasmo,
Grande assim, não podíeis supor:
Vistes, forte, explosir de improviso,
Quem vós críeis tão baixo e tão nulo!...
Assim rompe de negro casulo
Flor aérea de esplêndida cor.

Assim rompe uma estrela a Colombo,
Outros sóis se constelam no espaço,
E dentre algas, corais, e sargaço,
Outro mundo aparece a Cabral;
Assim surge essa nova bandeira
De repente por terras e mares...
Dize aos povos, por onde passares,
Que és de um povo já livre o fanal.

Levas tu uma nesga vermelha,
Que recorde o ser livre o que custa?
Muito sangue, que a raça robusta
Deu à terra, e que à terra há de dar:
Preito ao sangue de heróis deslembrados,
Nos calvários das forcas trepando:
É assim, pavilhão venerando,
Que ir tu deves por terra e por mar.

És a paz, ó bandeira da pátria?
És a paz: — mas a paz aconselha
Que o clarão dessa aurora vermelha
Deve em todos os céus resplender:
Mostras nele a lembrança do sangue,
Que, se agora não foi derramado,
Rios dele há no tempo custado,
E inda há sangue, inda há sangue a perder!...

Que cadeias nos cercam, que fios
Invisíveis, como hera selvagem,
Que entre fendas buscando passagem
Muros prende, que em torno abrangeu:
Que heras doidas envolvem nossa alma!
Somos livres, mas fomos escravos;
E inda temos as pontas dos cravos
Que pregaram em cruz Prometeu.

E inda resta essa velha atitude
Da alma humana esmagada e vencida:
Triste, sim! Liberdade querida,
Largo tempo esse gesto hás de ver:
Bate a malho Canova o carrara,
Becerril bate a prata a martelo;
Cada golpe é o vagido do belo;
Na alma humana é preciso bater.

E a alma humana desperta, e festeja
Seu primeiro triunfo: ela sente
Ser levada por nova torrente,
Haustos sorve de vida auroral:
Tem a terra ante si dilatada,
Tem o céu brasileiro o mais puro...
Como é grande o seu grande futuro,
Liberdade, ao teu grande ideal!...

Furacões de jasmins e açucenas,
Céus, que arranco dos céus nos pedaços,
Sóis inquietos, que prendo em meus braços,
Ígneas rosas, cecéns da manhã,
Veigas de ouro em retalhos trazendo
Rios de ouro em dois dedos de mata...
O meu hino isto tudo desata
A teus pés, pátria minha louçã.

Sim! é livre o Brasil!... E ainda ontem,
Libertado do escravo, se ouvia
Louco brado de louca alegria
Soar no mundo: — essa nódoa era vil,
Larga, extensa, profunda, horrorosa!...
A dos reis, mais hedionda, restava!
Bravo à terra não deles escrava!...
Bravo! Bravo!... Está livre o Brasil.

★★★

Tiradentes: O grande mártir

Tiradentes, figura auroral, grande, eterna
Iluminando toda a Ilíada moderna,
Pousada ao limiar do século ficou:
Bem como águia, que cimo e cimo sobe o monte,
E das asas, que espalha, enche todo o horizonte,
Do patíbulo toda a história iluminou.

Cada degrau foi um cimo, que ele transpondo,
O atirou pelo céu amplíssimo e redondo:
Levantaram-no tanto, a pô-lo junto aos sóis,
O cadafalso foi-lhe a pirâmide imensa,
Que quanto mais se observa, e quanto mais se pensa,
Só lhe podiam dar os velhos faraós...

Os reis só podem ter a ideia onipotente
De Balbecs erguer pelo deserto ardente,
De impérios circular de muros perenais,
De palácios meter dentro de uma montanha,
Ou de arrancar-lhe a rocha à palpitante entranha,
E esburacar o céu à cruz das catedrais:

Porque eles sabem como um povo se encadeia,
E podem realizar qualquer monstruosa ideia,
Debaixo dos seus pés um mundo inteiro pôr,
Servindo, sem desdéns, o seu faustoso orgulho,
Os astros fazem pelo espaço mais barulho
Do que faz todo um povo escravo e sem pudor.

Arrastar todo um povo ao mesmo iníquo trilho,
Prender ao mesmo jugo o pai ao pé do filho,
E a alma espremer de um reino em cima dos Kremlins,
Um rei podia ter desses projetos grandes:
Transformar numa estátua enormíssima os Andes,
Soltar Babéis no ar, rir dos sóis nos festins.

Na louca embriaguez do seu poder insano
As ondas castigar, vergastear o oceano,
Dar leis ao furacão, castrar o temporal;
Atear incêndio em Roma, e dele ao reverbero
Cantar à lira ebúrnea uma estrofe de Homero,
Vendo o povo fundir, como ao fogo o metal...

Foi, pois, um rei também que ergueu o monumento,
Que pôs de pé e dele em cima um só momento
O Encélado revolto, em castigo exemplar:
Levantou essa enorme obra de ódio e vingança,
Que pelo tempo adiante estendeu, e que avança
Como uma cordilheira armada num altar.

Nisso o triângulo vil tornou-se, ó patriota,
Ó raça de Titão, que esconde oculta grota,
E aparece de chofre indômito e de pé,
E tudo muda em torno inopinadamente,
E que entre si o vendo, o povo de repente
Pergunta, quer saber: — donde veio? quem é?

Tu vieste da dor indômita da vida:
Foi tua mãe primeira a lágrima dorida,
Que te queimou a tez ao triste som de um ai:
Um dia os laços vis da escravidão rompendo,
Sublime, como um deus, colérico, tremendo!...
Teu pulso livre foi o teu primeiro pai...

Tu vieste da dor humana revoltada...
Vens da sombra da história, ó alma sublimada:
Vens do fundo do tempo e do primeiro horror:
Vens de tudo que faz sofrer, esmaga e oprime:
Vomitou-te a justiça irada contra o crime.
Contra todo poder, contra todo senhor...

Contra Deus, contra o céu, contra o que te rodeia!
É tua alma a revolta; a tua alma está cheia
De reserva e furor; e um ódio te ficou
Desta longa miséria à vida humana atada:
Mesmo atrás de uma flor esconde-se a emboscada:
Natureza, quem és? Ai! eu mesmo quem sou?

Tu vieste de um triste acorrentado ao mundo,
Que caiu sob o céu inclemente e profundo,
Que sentiu a opressão primeira, e que gemeu:
Foi contra o céu portanto a primeira investida:
Foi contra a própria dor, foi contra a própria vida,
Titão grande e infeliz, raça de Prometeu.

Alas: abre-te, história; alas: dai-lhe passagem:
Fê-lo herói, fê-lo grande a indômita coragem:
Fez-lhe mais alto a forca a fronte levantar;
E a fronte levantou para encontrar um cimo:
— Sou um Cristo, pensou, — morro, porém redimo:
Meu sangue há de também um povo resgatar. —

Também a inundação da nova ideia veio
Pôr um fogo divino e grande em vosso seio,
Cabe o que é grande em nosso inda maior país:
Seu coração agita um nobre entusiasmo:
Em pouco tempo o mundo há de ouvir dele pasmo
Que livre soube ser, e sabe ser feliz.

Subindo a forca, não amaldiçoava a gente,
Que boa pode ser, sem poder ser clemente;
Ninguém ataca em vão as velhas tradições:
Há códigos que só pode rasgar um povo;
Tudo é crime e castigo onde houver fato novo:
E é a glória afrontá-lo à voz das maldições.

Lei igual e fé livre eis o progresso todo:
Mas era um criminoso, era um perverso, um doido;
Meter numa revolta assim toda a nação:
A Liberdade só continha em si tudo isto;
Tiradentes na forca, era à cruz Jesus Cristo:
Era o novo porvir, era a revolução.

Eterniza os heróis e os modela a virtude.
Ele guardou na vida e na morte a atitude
Do arcanjo, que inda aos pés pisa o dragão do mal:
Têmpera firme, como o bronze estatuário,
Igual no tempo bom, igual no tempo vário,
Deu aos homens um tipo ingênuo e colossal:

O Brasil, essa terra em que nasceu, a terra
Que tudo quanto é rico, e bom, e grande encerra,
A terra que não tem noutras terras rival...
Deixá-la em breve? como a entranha o lanceava!...
Sim! morria por ver livre a formosa escrava...
E como é bom morrer por um grande ideal!

O não morrer seria amaldiçoar a sorte
Que faz sair um Deus vivo da própria morte;
É ventura encontrá-la em seu caminho e ter
Ocasião de dar por uma ideia a vida:
A morte afirma a ideia, afirma e a consolida...
Por um grande ideal oh! como é bom morrer!...

Aprendamos com ele o ódio à tirania:
No sangue, que correu, quando o algoz o feria,
Pôs a história o buril vibrante de emoção,
E cinzelou, chorando, o lirial poema:
Juremos em punhais fundir a sua algema
Contra quem outra vez nos force à escravidão.

Em tela, em ouro, em ferro, em mármore, em granito
Mostrá-lo é, pois, dever, o olhar nos astros fito,
A cabeleira ao vento, adivinhada a voz:
Solta em aro de sóis, fulgindo-lhe ao pescoço,
A corda infame, e aos pés a forca, onde o colosso
Subiu herói e deus transformou-se entre nós.

Serás, ó Liberdade, a revolta perene:
Armada sempre em guerra, ereta, enfim solene,
Não podes descansar, nem poderás dormir:
O dormir é deixar em paz o pensamento,
Ficar o oceano sem a agitação do vento,
Sem nova ideia e sem alma nova o provir!...

★★★

O Grande Mártir

Não foi só a intuição clara da liberdade
O que foi grande nele; o que à posteridade
Em turbilhão de luz o arrebatou; — não foi:
O que aureola sua existência, o que imprime
Esse nimbo divino em seu busto sublime,
Aos vulgares heróis dar a história não sói.

Oh! não! não é de um deus qualquer sua estatura,
Tem um outro estalão, pois que tem outra altura:
Os Hesíodos dão-lhe, em céu novo, um lugar;
Só acendeu seu sangue uma ideia alta e vasta,
Mas o pouco que coube em seu destino basta
Para a glória de um povo e as glórias de um altar.

Bastara para dar uma eterna memória
A cem heróis e encher muitas nações de glórias;
Há Panteão que ainda heróis não recebeu;
Para a Ilíada dera um canto único a Homero,
Moisés a um Buonarroti em mármore severo,
Pois da forca — um Horeb — ele a lei nova deu.

Guardar pura a grandeza intemerata de alma,
Seu triunfo foi esse, essa foi sua palma.
Aspiração, trabalho, obra, fim, ideal:
A virtude, que faz dos homens deuses, talha
O soco, que os eleva, e estreleja a mortalha,
Que o tempo lança sobre uma ação imortal.

Quando, um dia, vencido o olhar passou em torno,
Não viu mais chefes: tudo era um silêncio morno,
E, na infame mudez, ninguém estava de pé:
Faltou-lhes fé, que a dor trai, prende, ilude, engana:
E ele a teve: ele criou na liberdade humana,
Guardou, como a Vestal no altar pagão, a fé.

Ele apenas soldado, apenas companheiro,
Ele, o último, a fé o fez grande e primeiro:
Nele o caráter foi força, heroísmo, ação:
E pensava, subindo a forca: — um povo exalto:
E essa augusta bandeira há de ondular mais alto
Do que a forca: — Ei-la! ondula... O herói teve razão.

***

Caiu o pavilhão no lodo da devassa:
Venceram-no: assim vence o sol nuvem que passa.
A nuvem passa, e fica a grande flor de luz:
Não há nuvem por mais sanguinolenta e grossa,
Que ofuscar o clarão da liberdade possa:
Com Judas ela está; ela está com Jesus.

Ela é toda a existência e a humanidade toda:
Nero a amou; Otão deu-lhe uma alma ebriosa e doida:
Como o deles, ó deusa, é nosso amor igual:
A diferença é que Nero e Otão na mente insana,
Pensavam nela ter uma mulher romana,
Ela!... da consciência a alma universal!...

Como um bom pensamento é alegre e aligeira:
Um óleo santo e puro em seus cabelos cheira;
Abrem-lhe asas no céu, como um cisne no mar:
Quando alguém pensa ter-te, ó alma, ó mãe, voaste:
O que ele agora aperta é uma inútil haste:
A bandeira, que és tu, canta e assobia ao ar.

***

Monstruosa loucura, oh! cegueira! oh! demência!
Cada ser, pobre algoz, não tem uma existência,
Como a tua, de amor e cóleras capaz?
Anda o olhar da revolta em cada coisa, em tudo!
Roubas a alma de um povo, e o povo há de ser mudo!...
Lanças o vento ao oceano, e o oceano há de ter paz?!...

Não ouves tu, não vês, que assim que o mar acorde,
Ira-se, e ulula, e ronca, e espuma, e salta, e morde,
E ao seio amplo de fera aspa o teu corpo nu?
E que o povo também, pegão que redemoinha,
Quando quer fazer seu o que por seu já tinha,
Ruge feroz e então mais feroz do que tu?

***

Este povo inocente, esta criança obscura,
Que ódio a tudo que sobe a um acre horror mistura,
Um eterno Caim ante um eterno Abel,
Tem a noite em sua alma, a dor em sua entranha,
Sabe que toda sombra é de toda montanha,
E diz que busca o templo e só acha o bordel.

Tem a revolta, como o mar o movimento,
Basta a uma a centelha, ao outro basta o vento;
Havendo em ambos ódio, há em ambos furor:
Basta, para embalar o mar, a tênue brisa;
Mas o povo é da luz da instrução que precisa:
Tem na ciência a paz, tem na abundância o amor.

Pobre, a tua miséria é do rico a miséria:
Para todos a vida é questão triste e séria;
Tudo acaba e desfaz-se, o raio, como a flor;
O palácio de Creso, a mesa de Luculo;
Glória, ambição, poder, domínio... é tudo nulo
Ante a sede, ante a fome, ante a cloaca, ante a dor.

Sim! dor, fraqueza, engano, ilusão, erro, luto...
É por isso que sofro? É por isso que luto?
Pobre verme, que inchou a crença alvar que é deus!
Pesando o céu e leis à eternidade impondo,
Querem atar ao dedo este universo hediondo,
Sobem, vermes, ao céu, ao chão vêm, Prometeus!...

A indigência, a cegueira... o eterno Édipo cego,
O naufrágio na terra, o naufrágio no pego,
E um desdém, com que a entranha enche de ar a ambição...
Mas... é isso que faz a raça humana grande;
Tem asas a loucura, asas vastas, que expande
À busca de ideais, que talvez busca em vão!...

***

Diz consigo o tirano: — Eu abro o calabouço:
Eu a voz da verdade e a voz do amor não ouço;
Prendo à fronte a calúnia, onde um nimbo há de abrir:
Eu arvoro a mentira em bandeira de guerra,
Faço o sangue correr, embebo dele a terra;
Mesmo em leivas de sangue há rosais a florir.

Que espero da hecatombe, e da viuvez que espero?
Há de tudo esbarrar em meu silêncio austero:
Amo aquilo por que vós tendes tanto horror:
Chamo inércia ao que vós chamais assassinato:
À força de ser forte, o meu poder resgato:
Obra de arte, eis-me aqui: o povo é meu autor.

É o povo que inventa a idolatria, e chama
Ao fetiche seu Deus; e o vitória, e o aclama,
E o serve, escravo e vil, sem nenhuma altivez:
Falais de mim? Falai só do gênero humano,
Que se escraviza a um sonho e arranca-lhe um tirano,
Quando inda a cobardia um tirano não fez? —

***

O tigre de Ceilão, negro, ousado levanta
A cabeça orgulhosa em torno: o vento canta:
Do mar lhe vem tinindo um cheiro quente, o olor
De homens, que, trauteando uma usual barcarola,
Fazem dançar a fusta à flor da água, que a rola,
Num balanço de almeia, à praia aberta em flor:

O tigre espera a malta adrede armada, insciente,
E eriçado: — ele tem a força, a garra, o dente,
Prudência, agilidade, audácia, e assim não sai
Da atitude, em que o tem o instinto, e a argúcia rara:
Contra o ataque, que chega, ele o salto prepara...
Mas o fogo rompeu... ele rui, ele cai.

Não rugiu, não lutou: ele esperava a luta;
Venceu, quando deixou por vez primeira a gruta:
Onças, águias, leões, panteras combateu:
A luta corpo a corpo, a luta dente a dente,
A luta leal do forte, essa esperou somente!...
Não lutou, e caiu: — não lutou, e morreu!...

Devia assim tombar o nosso herói!... Um dia
Sem luta e sem combate era vencido: e via
Um clarão levantar-se ao longe no porvir,
E vir-lhe até a fronte, e, auréola divina,
Rodeá-la, cingi-la, enquanto ele se inclina
No patíbulo augusto, e é próxima a cair...

***

Foi contra a tirania, ó Mártir, teu martírio:
Do teu sangue emergiu a brancura de um lírio;
É em ti que na hora angustiosa, nós
Vimos pedir conselho, ensino, ânimo, exemplo;
A ti, que tens nossa alma em festa, como um templo,
Nós, que ouvimos da Pátria a queixa em tua voz.

Jamais soube enfeixar vesga mediocridade
A um grande pensamento uma grande vontade,
À força de um princípio a força da razão:
Falta-lhe tudo, agulha, e mar, e vento, e porto:
Povo, que um timoneiro assim conduz, está morto,
E anda de um vagalhão em outro vagalhão.

Tirano, paz. — Por que não ouvir a harmonia
Da harpa interna, que canta em nós? Paz vos daria:
O canto de Davi dava paz a Saul:
É da justiça, e paz, e luz que nasceu a auréola:
Por que não procurais dar-nos paz — essa pérola —
Por que não meteis na alma a bondade — esse azul?...

***

Não se iluda ninguém que encarcera uma ideia:
Não tem a consciência ou clausura ou cadeia:
Não para o raio à voz de qualquer aguazil:
Sangue, batalha, forca, exílio... o que quiseres...
Basta, para vencer-te, o grito das mulheres;
Basta, para esmagar-te a lágrima infantil.

Cansa ver, ruma e ruma, os corpos mortos: cansa
A voz rouca do ancião, e o choro da criança:
Para espalhar o mal, sem temê-lo, quem sois?
A asinha desta mosca, o ferrão deste inseto
Não vos deixa um instante, e andais irado, e inquieto...
E irritais todo um povo e adormeceis depois?

Dormir!... dormir!... Que nome a tirania entrega
Ao mundo, à história, ao tempo! A humanidade o nega,
Confessa o crime, e o acusa; a inocência o maldiz!
Ah! se existe na terra o infeliz, que presumo,
Destino, enche-o de luz, razão, muda-lhe o rumo...
Que não há infeliz maior que este infeliz.

Não: de todo não perde o sentimento nobre
De ser grande: não há povo nenhum, que dobre,
Cobarde — infamemente a um seide a cerviz:
Jamais o pensamento humano prisioneiro
Procurando sair, disse ao seu carcereiro:
Olha: a porta aqui está na lâmina de um cris.

E sai de qualquer modo inopinadamente,
Como o raio ao cair, como ao encher a torrente,
Terrível, ameaçador, implacável, fatal...
Sai. — Vem da lei que rege o espírito e a matéria:
É a boca da fome a cuspir a miséria,
É a ferida enfim, que vomita o punhal.

***

Austera Liberdade, amor, paixão, respeito,
Ó companheira ilustre, eu dei-te à mesa, ao leito,
Nos turbilhões, a sós, sempre amante teu fui;
Jamais eu lamentei por ti uma loucura:
És a virgem madona, és a madona pura,
Que afla o meu coração, e em meu ser todo influi.

A este amor corresponde o ódio à tirania,
Ódio que cria heróis, ódio que deuses cria,
Ódio que na medalha é o anverso do amor:
E este ódio é deixa antiga à força bruta e cega:
Este ódio o tempo aumenta, engrossa, e ao tempo entrega:
É o ódio do oprimido ao ódio do opressor.

***

Ó minha Pátria, ó terra, ó resplendente Hebe,
De joelhos meus ais e lágrimas recebe:
Não és a morta, que cobre um branco lençol:
O teu último dia, ó mãe, ó mãe, não veio;
Há um rasto de sangue a jorrar do teu seio:
Mancha o teu horizonte ensanguentado sol...

Mas o tempo virá, e a hora vitoriosa...
O mar, verde esmeralda, o sol, vermelha rosa,
Calçando esse os teus pés, o outro à fronte a luzir,
Hás de ser a matrona americana e bela,
Dando sob o teu céu, — estrelejada umbela —
Arras à Liberdade, amplo asilo ao porvir.

***

Mártir de um grande ideal, tens no mundo o teu plinto.
Ante o conspecto teu eu não sei o que sinto
De augusto, e santo, e nobre, e de altivez, em mim!
Não!... Se tu foste, e eu sei que tu foste, acabou-se
O reinado do crime: um reinado mais doce
Nunca mais entre nós há de agora ter fim.

Seu puro e meigo olhar, quando à forca subia,
Era o perdão, que olhava, a bênção, que saía;
Misturava a carícia ao queixume esse olhar:
Oh! esse olhar piedoso e negro de tristeza
Do céu tinha a amplidão, do mar a profundeza,
E inda os lumes do céu, e inda os saibos do mar.

Nas horas de miséria, em que esgoto a vergonha
Do que vai nelas, dá que em ti meus olhos ponha,
Para ver o caminho, e nele o sol e a luz:
Vai adiante de mim, sombra heroica e sublime,
Se amar a Liberdade hoje ainda for crime,
E se o crime de amá-la ainda à infâmia conduz.

★★★


Hino
(Ao Protomártir Tiradentes)

Ele o Brasil entrevendo
Escravo, inerte, ao abandono,
Arroja um brado tremendo:
— Não tem senhor, não tem dono.

Tiradentes se levanta,
Livre o Brasil há de ser,
Liberdade! a causa é santa:
Viver por ela, ou morrer,

Esta pérola tão linda,
Esta pérola sem par
Brilhava na c’roa ainda
Dos senhores de além mar.

Tiradentes se levanta,

A sua entranha era de ouro,
Seu corpo verde e robusto:
Era o mais rico tesouro
Ganho ao oceano sem custo.

Tiradentes se levanta,

A flor das terras escrava!
E a Liberdade sorria
Em cada sol, que raiava,
Nas visões de cada dia.

Tiradentes se levanta,

Como uma águia prisioneira
Ele estava a estranhos pés:
Da cadeia a voz primeira
Tentou tirá-la aos anéis.

Tiradentes se levanta,

Foi Ele o único embora,
Que o crime seu confessara,
Crime, em que entra uma aurora,
Que um lírio branco acabara.

Tiradentes se levanta,

Tinha em si da pátria a imagem,
Tinha em si da pátria o amor
Onde bebeu a coragem,
Donde lhe veio o valor.

Tiradentes se levanta,

Não recuou dos tormentos,
Não negou, não foi cobarde;
Foi sua bandeira aos ventos,
— Liberdade, inda que tarde.

Tiradentes se levanta,

Tiranias... quis vencê-las;
Ficou em luta Ele só:
Deitaram-no sobre estrelas,
Crendo arremessá-lo ao pó.

Tiradentes se levanta,

Para amortalhar a aurora
Não há na terra lençol:
Deu luz, e nos dá agora,
O que prometia — o sol.

Tiradentes se levanta,

Hoje o grande visionário
Corda ao colo, às mãos a palma,
Tem na história um santuário,
Tem um sacrário em nossa alma.

Tiradentes se levanta,
Livre o Brasil há de ser,
Liberdade: a causa é santa:
Viver por ela, ou morrer.

★★★

O Crime

Cobarde, não se prende um povo livre,
Como se prendem multidões de escravos;
Nem se transforma exército de bravos
Em carcereiro vil de uma nação:
Cada soldado que te serve, infame,
Sabe que é cidadão e brasileiro,
E que seu sangue verterá primeiro
Contra quem deu ao povo a escravidão.

Nenhum deles é teu: é desta pátria,
Que ontem mesmo arrancamos das cadeias:
Nenhum deles é teu: traidor, não creias
Que o Brasil caia imbele à tua voz:
Em cada coração pula a revolta,
Gira um combate em cada pensamento:
E o vento, que entra em teu palácio, o vento
Leva um punhal de cada um de nós.

Confiamos-te um dia a Liberdade:
Nosso ideal, nossa fé, nosso direito
Entregou-se à tua honra: há maior preito?
Pensamos ter honesto guarda em ti.
Tu juraste à República, em seu berço,
Que a cobrias com tua nobre espada:
Alma de lodo, que traição danada:
Hoje bradaste ao mundo enfim: — Menti!

Eras o infame déspota escondido
Dentro da roupa astral da Liberdade:
Ousaste nela pôr as mãos: não há de
Ceder vencida a ti, como um senhor:
Da América a alma ainda está com ela:
Tem ela em cada brasileiro um filho;
E antes dela perder a força, e o brilho,
Hás de tu aos seus pés cair, traidor!

Pensar no crime e não recuar... Na vida
Quem esse dia te escarrou aziago?
O teu olhar feroz, inquieto e vago
Nos diz que era melhor voltar atrás:
Mas é tarde: a impoluta espada agora
Até aos copos te rolou no lodo:
E sobre ela passasse o oceano todo,
Pura, inda assim, não a tornara mais.

César — anão, a pátria te renega:
Ninguém mais reconhece em ti seu guarda;
Quebra esse gládio, despe-te da farda
Que há de vestir qualquer soldado leal:
Tu mereces a roupa e a marca em fogo
Dos ladrões que se apanham pela estrada;
Tu não mereces mais cingir a espada,
Que foi o nosso orgulho e o teu fanal.

Nesse dia de opróbrio e de vergonha,
Repetiram-se as páginas da história:
Subiu mais uma vez à tona a escória
Dos que só reconhecem quem venceu.
Algema-se a nação? Isso que importa?
Trai-te a pátria? é só para engrandecê-la:
E sob o influxo de maligna estrela,
Da baixeza e traição fez-se o himeneu.

Seguiu-se a isso uma mudez sem trégua:
E esse silêncio que a cidade exala
Sobe ao teu lar, caminha, enche-te a sala,
Vai-te a alcova sem dó dizer: — traidor! —
Desse agitado sono, que não dormes,
Esse silêncio aumenta-lhe a amargura:
Esse silêncio é a única armadura
De que arma a Liberdade o nosso amor.

É a página em branco esse silêncio:
É o cenário ainda sem atores,
Onde o idílio traçado ontem com flores,
Vai trocar-se por drama de ódio e fel:
Esse drama vai ter teu nome infame:
E atrás de ti e a um lado, e de outro, e em frente,
Olha, a vingança aí vem atroz, fremente,
Montada em rapidíssimo corcel.

Que loucura arrastou-te a tal fraqueza?
Não se trai sem castigo um povo inerme:
Ele é o colosso e tu agora o verme:
Desceste tanto, quanto ele subiu.
Sitiou-te o Direito e a Liberdade,
Mesmo no meio aí dos teus soldados:
Nós não somos, canalha, os sitiados:
Nunca o crime durou, jamais venceu.

Quando o dia maior da nossa história
Viu-te montado em frente à nossa ideia,
Não era dele de que estava cheia
A tua alma ignorante, erma e banal:
Foste apenas um chefe inconsciente,
Seguindo uma bandeira desfraldada,
Que para ti não respondia a nada,
Desconhecido o esplêndido ideal.

Aventureiro entre os heróis lançado,
Mediram-te eles pela sua altura:
Deles o brilho eleva-te a estatura,
Deles a alma emprestou-te a luz: depois
Deram-te o nome, a honra, a glória, os louros,
Os louros seus triunfais: mas quem sabia,
Que eras só um truão? Naquele dia,
Que eras tu um herói, quem não supôs?

Vendeste a pátria? A pátria não se; vende:
Trair a Liberdade? Enfim que prova?
Ela sai sempre das prisões mais nova:
Trai-te, quem a trair: foi teu condão
Não poder esconder ao tempo, aos homens,
À virtude, ao heroísmo, à história, ao mundo
Tua alma: e despertaste o horror profundo
Que acorda sempre em todos a traição.

Mas, desgraçado, sabes que há na história
Jaulas eternas, onde ruge o crime?
Que é feroz Talião, e esmaga e oprime
Quem oprimiu? Ignoras tu talvez
Que há torturas, que para sempre infligem
Os Tácitos no seu austero estilo?
Compreendes tu aquele inferno, aquilo
Que Dante abriu, criou e eterno fez?

Não percorreste os círculos, aonde
Brama a traição desordenadamente?
Alma imbecil, tua alma enfim não sente
Num carro negro o anátema que vem?
Como acode à minha alma um dó profundo,
Quando te vejo na cloaca urrando...
Ó infeliz, ó triste, ó miserando,
Quem te pode salvar? Que horror!... Ninguém.

Amanhã luzirá sobre o horizonte
O sol sem nuvem de uma paz florida,
E a Liberdade, em fundo azul, vestida
Como uma noiva esplêndida e feliz.
Amanhã as canções do espaço infindo
Hão de encher de alegria e luz os prados:
E os janizaros vis, os teus soldados
Hão de ser amanhã o teu juiz.

Hão de encher de baldões o teu jazigo,
E do teu nome guardará memória,
Num canto escuro, lamentando a história,
Como de um vil, que o orgulho cega: e após
Te lançaremos podre ao esterquilínio,
Ideal sinistro do traidor cobarde:
Esta nação te conheceu bem tarde:
Mas inda é tempo: — arreda-te de nós.

Separar, dividir um grande povo,
Como um faisão, que à mesa se retalha:
Fazer um largo campo de batalha
Do campo, onde sorria a messe e a paz...
Na água tranquila e azul dos nossos mares
Sangue mesclar numa caudal corrente;
Lançar no lar a guerra de repente...
Que crime... E foi teu crime esse ato audaz.

Cobriu de pejo o rosto a Liberdade:
A traição enfiou-se de vergonha,
Porque ela mesmo, ela, a traição medonha,
Sentiu-se menos forte e infame e vil.
Deste a beber, em taça de ouro à Pátria,
Em vez de néctar, um letal veneno;
E a espada, que se creu às mãos de Breno,
Caiu nas mãos de um malabar senil.

Houve quem o aplaudisse então: não houve
Quem aplaudisse outrora Heliogabalo,
E a orgia infrene? Houve quem foi coroá-lo...
Em todo o tempo houve a ambição vulgar:
Esses estão aqui, ali, fervilham;
Vós, se inda tendes ou pudor ou medo,
Forrai a cara; é tempo, inda há lajedo
Com que podeis cobri-la à luz — e andar.

Oh! que vergonha de ser homem, quando
O torvelim das almas de repente
Melancolicamente, estranhamente
Verga ao vento que passa, e verga e cai;
Quando um soldado, doido da vertigem
De um poder que jamais sonhara, pensa
Ter nas mãos enfeixada a rédea imensa,
Que embrida um povo e o embrida sem um ai...

Oh! que dor de ser homem! Ver um homem,
Que rouba, ilude, mente, trai, falseia
A nossa imagem mesmo, e a nossa ideia;
Que passa austero e finge, como um clown,
Que arranca a gargalhada, o triunfo, o aplauso
À turba a rir, que, em torno à arena, assiste!...
Lúgubre é isto, como o espasmo triste
Que abre a boca das covas pelo chão...

Das entranhas dos séculos arranca
Todas as queixas, todos os gemidos:
A voz eterna, o grito dos vencidos,
Da raça humana escrava a dor fatal!
Tudo quanto há custado a Liberdade!
E enquanto a casa e o campo em lutas arde
Que achemos para ti perdão, cobarde?
Deixar no ninho a cobra, é natural?

Oh! não podemos perdoar-lhe... Ele era
Quem tinha às mãos a Liberdade nossa:
Ele a prendeu, traidor: há pois quem possa
Lavá-lo desse crime enorme? — Não.
Os brancos lírios virginais do vale,
As estrelas, que ao céu a noite lança,
A alma sem ódio e pura da criança,
A luz, as flores negam-lhe perdão.

Rios, que passam refletindo montes,
Os penhascos nos mares debruçados,
Ouvindo os hartos, soluçosos brados
Das ondas sobre fulva areia em mó,
Sentem por ti o escárnio dos que sabem
Que têm por si a eternidade e o espaço:
E que em breve hão de ver-te em longo abraço
Na enxurrada, que às praias lança o pó.

Pagou-te o povo o que lhe parecia
Ter-te devido no momento augusto,
Quando inda cheias de palor do susto,
Ouvindo farfalhar o vendaval
Da revolução, as mães buscam seus filhos,
Tu, com teu gládio esplêndido o continhas;
E cavavas com ele as grandes linhas
Entre a idade moderna e a medieval.

Enalteceu-te. — E tu mentiste ao povo,
Que te pôs à nação de sentinela:
Tu não quiseste crer nas forças dela,
Julgaste-a sem virtude e sem pudor.
Parou surpresa. — Espera, ela há de erguer-se,
Para vingar-se e dar-te horas amargas:
Para esmagar-te, abrindo as asas largas,
Vai-te do alto cair, como um condor.

Quando amanhã, retido como fera,
Dentro dos seus reparos derradeiros,
Fores tu, por teus próprios companheiros,
Posto em sítio, como hoje eles estão;
Muito acima da própria vida a pátria,
Guardado intato o seu caráter rijo,
Arrancarem-te fora do esconderijo...
Que pensarás dessa áspera lição?

Que te estará dizendo inda o remorso
De bico adunco e garra lacerante,
Inda há pouco colérico e gigante,
Agora... agora já humilde e réu?
É que uma pátria não se ataca embalde,
E de repente à noite o céu olhando,
Nem saberás se os astros estão chorando,
Se neles ri-te o escárnio em todo o céu.

Não ouves já o cliquete das armas,
E o rumor surdo, ultriz, que se avizinha?
Como a poeira de vozes, que remoinha
E lança o povo em iras de pegão?
É ele! vem: sim, há de vir! não tarda:
Um povo não se vinga de outra sorte,
Ou star por ele condenado à morte,
Ou ele morre; vivo e escravo, não.

Quando, do azul voltando, o fogo trouxe,
Que devera animar-lhe a argila fria;
Quando o divino Prometeu um dia
Disse à estátua: — caminha: e ela o entendeu:
Foi, como escrínio que se entorna; e enchia
O ar do ouro da voz e o ouro da trança:
Viu-a um deus da floresta, e ao vê-la, a alcança,
E ei-lo a imitar no roubo a Prometeu.

Toma-lhe a chama que a animava: e logo
Pôs-se a correr, gritando, o bosque todo:
Queimou-o um beijo; um beijo pô-lo doido,
E o eterno ardor consigo eterno traz:
O povo, que osculou a Liberdade,
Sentindo dela o ardor, jamais a deixa:
E o eterno fogo em que anda e a eterna queixa
É de quem, arda embora, inda quer mais.

Se tu tiveras, como o povo sente,
Sentido a chama dessa luz divina,
Perante a qual o próprio céu se inclina
E o homem põe freio ao mar, doma os tufões,
Não a terias nunca atraiçoado:
Oh! não pensares tu, oh! não supores,
Que inda para os maiores salteadores
São já grandes demais hoje as nações...

Mas tu só foste escuro e ignaro chefe,
Que outros chefes guiavam no caminho:
Essa Ilíada imensa tu sozinho
Não souberes pensar e construir:
Faltou-te o gênio, que vê longe e cria:
Só compreendeste a maquinal vitória:
Num corcel negro chegarás à história,
E há de, como um jogral, ter-te o porvir.

Traidor! há de chamar-te a Liberdade:
Há de todo o país traidor chamar-te:
Morre, traidor, envilecido parte,
Deixando a história trêmula de horror:
Como a vaga de praia em praia, rola
De idade em idade, réprobo e maldito;
Morre, infame; e ao morrer o último grito
Ouve, convulso, hirto, a tremer: Traidor!...

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