quinta-feira, 21 de junho de 2018

Temas Poéticos: MITOLOGIA I


Édipo

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

I
A PÍTIA
"Repetiu-me Apolo o vaticínio: que eu seria o assassino de meu pai; e rei; e marido de minha mãe, sem a conhecer; e tronco de uma prole infame!..."
SÓFOCLES — ÉDIPO REI

Em Delfos. Com pavor, de pé, no ádito escuro,
Édipo escuta... O deus, rugindo de ira e ameaça,
Pela boca da Pítia em êxtase, devassa
O tempo, e o arcano véu destrama do futuro:
"Rolarás do fastígio à ignomínia e à desgraça!
Rompendo de um mistério o impenetrável muro,
Num sólio ensanguentado e num tálamo impuro
Gerarás, parricida, a mais odiosa raça!"
É a Esfinge, a glória, o reino, o assassínio de Laio,
E o amor sinistro... Assim troveja a voz de Apolo
E enche o sacrário... O céu carrega-se de bruma;
Fuzila; estruge o chão; reboa no antro o raio...
E, enquanto Édipo tomba inânime no solo,
Sobre a trípode a Pítia, em baba, ulula e escuma.

II
A ESFINGE
"Bem-vindo sejas à cidade de Cadmo, nosso libertador e nosso rei, que, com a tua penetração de espírito e o auxílio divino, levantaste o tributo de sangue que pagávamos à cruel Esfinge!"
SÓFOCES — ÉDIPO REI

Perto de Tebas, junto a um monte, sobre o Ismeno,
Águia e mulher, serpente e abutre, deusa e harpia,
Tapando a estrada, à espera, — aterrava e sorria
O monstro sedutor, horrível e sereno:
"Devoro-te, ou decifra!" Era fascínio o aceno;
A voz, morna e sensual, tinha afeto e ironia,
Graça e repulsa; e a luz dos olhos escorria
Fluido filtro, estilando um pérfido veneno.
Mas Édipo desvenda o enigma... Ruge em fúria
O Grifo, e escarva o chão, bate contra o rochedo,
Rola em vascas, em sangue ardente a areia tinge,
E fita o campeador no uivar da extrema injúria.
E o Herói recua, vendo, entre esperança e medo,
Rancor e compaixão no verde olhar da Esfinge.

III
JOCASTA
"Trevas espessas! eterna, horrível noite! sou dilacerado pelo espinho da dor e pela memória dos meus crimes!"
SÓFOCLES — ÉDIPO REI

Édipo vê cumprir-se o oráculo funesto:
Tebas entregue, em luto, à peste que a devasta,
E, sobre o trono em sânie e o leito desonesto,
Morta, infâmia da terra e asco de céu, Jocasta.
Louco, vociferando, erguendo a grita e o gesto
Contra os deuses, mordendo a poeira em que se arrasta,
O mísero, medindo o parricídio e o incesto,
Quer da vista apagar a lembrança nefasta:
Os dois olhos, às mãos, das órbitas arranca
Em sangue borbotando, em lágrimas fervendo,
Para o pavor matar na esmagada retina...
Mas, cego embora, — vê Jocasta hedionda, branca,
Enforcada, a oscilar, como um pêndulo horrendo,
Compassando, fatal, a maldição divina.

IV
ANTÍGONA
"Disse-me também o oráculo que morrerei aqui, quando tremer a terra, quando o trovão rolar, quando o espaço brilhar..."
SÓFOCLES — ÉDIPO EM COLONA

A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colona, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.
Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
— Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.
É o ninho (a terra treme...) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha...)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.
É o fim (rola o trovão...) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.

★★★

Hércules vencido

LUÍS DELFINO
“Imortalidades” (1941)

Neste aposento o luxo almiscarado
Envenenara um deus, se um deus dormira
No véu do teu cabelo desatado,
E dele a fronte em resplendor cingira.

Aos teus pés, como um Hércules domado,
Esquecido de tudo eu preferira
Tocar eternamente a eterna lira
Em mole curva, langue e reclinado.

Não me inebria o campo de batalha,
A luta, o sangue, a morte que trabalha
Para tudo esconder em seus lençóis...

Antes viver suspenso aos teus vestidos,
Do que sair do grito dos vencidos
Para o rumor triunfal feito aos heróis.

★★★

A morte de Orfeu

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

"Em vão as bacantes da Trácia procuram consolá-lo. Mas Orfeu, fiel ao amor de Eurídice, encarcerada no Averno, repeliu o amor de todas as outras mulheres. E estas, despeitadas, esquartejaram-no."

Houve gemidos no Ebro e no arvoredo,
Horror nas feras, pranto no rochedo;
E fugiras as Mênadas, de medo,
Espantadas da própria maldição.

Luz da Grécia, pontífice de Apolo,
Orfeu, despedaçada a lira ao colo,
A carne rota ensanguentando o solo,
Tombou... E abriu-se em músicas o chão...

A boca ansiosa em nome disse, um grito,
Rolando em beijos pelo nome dito;
"Eurídice", e expirou... Assim Orfeu,

No último canto, no supremo brado,
Pelo ódio das mulheres trucidado,
Chorando o amor de uma mulher, morreu...

★★★

Sísifo

AUGUSTO DE LIMA
“Símbolos” (1892)

Por um alto desígnio e lei estranha,
há muito cumpro a original sentença
de guindar uma rocha a uma montanha,
até que fique imóvel e suspensa.

Vou a subir; porém, mole tamanha,
na luta ascensional, quem há que vença?
Eis que solta, rolando, o abismo ganha,
quando, firme no píncaro, se pensa.

Até quando esta luta? O tempo voa,
na hecatombe das horas se esboroa
a esperança que, ao alto, me envereda.

Vamos! Coragem! Um supremo esforço:
que a penha galgue da montanha o dorso,
ou que, ao menos, me esmague em sua queda!

★★★

Os funerais de Aquiles

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Foi numa urna de ouro, cinzelada
Pelo buril divino de Vulcano,
Que a mãe de Aquiles veio do Oceano
Guardar a cinza heroica e imaculada

Do filho de Peleu: a desgraçada
Viu misturar-se o lúgubre alarido
Dos Imortais à lágrima chorada
No ilustre pó do semideus vencido.

Jaz o Helesponto. — Ainda ouve-se a grita
Das deusas; chora-o o jovem Baco; aflita
Por ele, inda hoje as queixas vãs desata

Tétis, — princesa que dragões atrela
À concha ebúrnea do seu plaustro, — aquela
Que o mar esmaga aos seus dois pés de prata.

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