segunda-feira, 25 de junho de 2018

Temas Poéticos: MULHERES II


Elisa
(Fragmento -  L. Veuilot)

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Agora, devagar. É tua vez, Elisa.
Vem só. É malicioso e meigo esse teu ar.
Uma ave ia fugir, mas para escutar-te volta...
ai! pobre menestrel, não vás te apaixonar!

Esfrolada de manso, a relva se levanta
para melhor sentir o voo de teus pés...
E em tua alma, poeta, a musa agita um sonho
que não se esquece, não, mas tem-se uma só vez!

Assim dançam no mar os fogos encantados,
assim a nuvem branca embala-se no céu;
assim a primavera em sopro lento e brando
nos arbustos em flor derrama o seu troféu.

E a nuvem se desfaz no azul do firmamento,
os perfumes, a luz se perdem a voar...
e tu, moça inocente, ai! possas como eles
após tua manhã na terra não tocar!

oh minha amada, nem pensas
nas alegrias imensas
que inundam meu coração,

se tu murmuras baixinho,
na ternura de um carinho,
meu nome em tua oração!

Tu és no céu da tarde a nuvem cor de rosa
que leva as orações que a virgem desprendeu
e vai depor além a oferenda misteriosa...
o crepúsculo sou eu.

Tu és o beija-flor de penas iriadas
cruzando da campina o perfumoso véu;
seguem-no a luz, o aroma, as auras encantadas...
a ave triste sou eu.

Tu és de uma visão a imagem atraente
que em afagos envolve o ser que a mereceu,
e nos vai colocar, do paraíso rente...
pesadelo sou eu.

Tu és a flora azul do amor e da esperança,
que o frio não tocou, que o vento não bateu.
Eterna é a primavera ao pé de ti, criança...
a lágrima sou eu.

Pois bem; há um proscrito e pede-te um abrigo:
tem frio, quer o sol; no abismo, implora o céu...
Abre-lhe da esperança o lar, divino, amigo...
O prescrito sou eu!

★★★

Ofélia
(A J...)

MACHADO DE ASSIS
“Poesias Dispersas”

Meu destino é um rio do deserto
A murmurar-me aos pés;
Veia nascida em urna noite amarga,
As bordas são de areia, a onda é larga
E loucas as marés.

Tem as águas azuis, — mas são profundas
Naquele murmurar,
Correm aqui como a falar segredos
Sobre leito de lodo e de rochedos
A um ignoto mar!

Pálidas flores que uma vaga incerta
Ali suspensas traz
Vicejam aos borrifos, do meu pranto.
Oh! essas flores que te prendem tanto
Deixa-as, Ofélia, em paz!

Não te curves à borda dessas águas
De superfície anil,
Ébria de amores, — do teu sonho casto
Não acharás ali o mundo vasto
Nem o rosado abril.

Deixa essas flores; uma onda as leva
Onde? Nem mesmo eu sei!
Deixa-as correr, — festões de meu destino;
Passa cantando, meu amor, teu hino,
A que eu te abençoarei.

Atado à pedra que me leva, um dia
A queda suspendi.
Vi-te à margem das águas debruçada
A paixão dos meus sonhos, — tão sonhada
Vi-a, encontrei-a em ti.

Maga estrela pendente do horizonte
E curva sobre o mar
Vieste à noite conversar comigo;
Mas a aurora chegou — ao leito antigo
Vai, é mister voltar.

Deixa-me, não te curves sobre as flores
Deste leito de azul;
Molhastes os teus vestidos, foge embora!
Não te despenhes, — vem o mar agora
Encapelado ao sul.

Enxuga agora ao sol as tuas roupas
E deixa-me seguir;
Não sei qual a torrente que me espera;
Vai, não prendas a tua primavera,
Onde é fundo o porvir!

★★★

Noemi

AUTA DE SOUZA
“Poesias” (1899/1900)

Eu quisera saber em que ela pensa,
Esta mimosa e santa criatura
Quando indeciso o seu olhar procura
Alguma estrela pelo azul suspensa;

E que tristeza, indefinida, imensa,
Do seu olhar na flama, ardente e pura,
Intérmina e suave se condensa
Como as brumas no céu em noite escura.

Pobre criança! Que infinita mágoa
Punge-te o seio e te anuvia os olhos
— Benditos olhos sempre rasos d’água!

Choras... E o mundo te oferece flores...
Deixa os espinhos, lágrimas e abrolhos,
Só para mim, que só conheço dores!

★★★

Maria

MACHADO DE ASSIS
“Ocidentais” (1875)

Maria, há no seu gesto airoso e nobre,
Nos olhos meigos e no andar tão brando,
Um não sei quê suave que descobre,
Que lembra um grande pássaro marchando.

Quero, às vezes, pedir-lhe que desdobre
As asas, mas não peço, reparando
Que, desdobradas, podem ir voando
Levá-la ao teto azul que a terra cobre.

E penso então, e digo então comigo:
"Ao céu, que vê passar todas as gentes
Bastem outros primores de valia.

Pássaro ou moça, fique o olhar amigo,
O nobre gesto e as graças excelentes
Da nossa cara e lépida Maria."

★★★

Lídia

AUTA DE SOUZA
“Poesias” (1899/1900)

Feliz de quem se vai na tua idade,
Murmura aquele que não crê na vida,
E não pensa sequer na mãe querida
Que te contempla cheia de saudade.

Pobre inocente! Se alegrar quem há de
Com tua sorte, rosa empalidecida!
Branca açucena inda em botão, caída,
O que irás tu fazer na eternidade?

Foges da terra em busca de venturas?
Mas, meu amor, se conseguires tê-las,
Decerto, não será nas sepulturas.

Fica entre nós, irmã das andorinhas:
Deus fez do céu a pátria das estrelas,
Do olhar das mães o céu das criancinhas.

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