quarta-feira, 4 de julho de 2018

Temas Poéticos: ÁRVORE - I


A voz das árvores

GUIMARÃES JÚNIOR

Enquanto os meus olhares flutuavam,
Seguindo os voos da erradia mente,
Sob a odorosa cúpula fremente
Dos bosques - onde os ventos sussurravam,

Ouvi falar. As árvores falavam:
A secular mangueira fielmente
Repetia-me a rir o idílio ardente
Que dois noivos, à tarde, lhe contavam;

A palmeira narrava-me a inocência
De um brando e mútuo amor, - sonho que veste
Dos louros anos a feliz demência;

Ouvi o cedro, - o coqueiral agreste,
Mas, excedia a todas a eloquência
Duma que não falava: - era o cipreste.

★★★

As árvores

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.

Árvores negras, que visão estranha
Vos aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa rumaria?

Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.

★★★

Velhas árvores

OLAVO BILAC
“Alma inquieta” (1888)

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

★★★

Entre as árvores
(A Fontoura Xavier)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

Aqui eu sinto a Vida em ímpetos sonoros
devassando-me a luz de seus grandes arcanos
e esta seiva febril me infiltra pelos poros
o sangue matinal de meus primeiros anos.

Fascina-me o verdor primaveril das plantas;
não sei que magnetismo oculto as ervas têm,
que eu julgo, ó Natureza, em tuas pomas santas
beber tragos de luz e néctares do Bem.

Vendo o sangue do sol coado entre as ramagens,
que insólita volúpia incandescente eu sinto!
e como fito atento as ruínas selvagens
de uma pedreira antiga, ou de um vulcão extinto!

Amo entranhar-me a sós nos flácidos maciços
das lianas e ter a alegria pagã
de no meio me achar dos sátiros roliços,
ouvindo tocar flauta o harmonioso Pã.

Num turbilhão sonoro, as aves de mil cores
enchem a imensidão de límpidas risadas,
enquanto Flora anseia em convulsões de flores
na nítida beleza azul das alvoradas.

Como um cactus ao sol, minha alma desabrocha,
e os perfumes do canto entorno, afrouxo, no ar...
Depois, escuto o vento, e fito a árida rocha
e as aves sobre mim que passam a cantar.

O azul do espaço desce em gotas cintilantes
o seio a fecundar das trêmulas boninas,
e, numa inundação de vagas de brilhantes,
a luz serena banha as longínquas campinas.

Os rudes Leviatãs dos mares de verdura
curvam potentemente a robusta cerviz.
Range o cedro: – é um hino; e as folhagens n’altura
torvelinham soando em vibrações sutis.

Nos côncavos sem fim das grutas solitárias,
à dúbia refração das úmidas piritis,
corre serenamente, álgida, em fendas várias,
a linfa que nasceu nas velhas estalactites.

A onça gemedora as pálpebras vermelhas
escancara e boceja; espreita... e segue após,
compassada no trilho: uma nuvem de abelhas
acompanha-a, soltando a zumbidora voz.

Contrastando a altivez do carrascal felpudo,
em cachões a cascata espumejante tomba
dos negros alcantis – enquanto sobre tudo
paira a alegria eterna, assim como uma pomba.

Na natureza, a alma harmônica das coisas,
complexa, se derrama em formas multicolores,
ora na robustez das árvores frondosas,
ora na muda voz colorida das flores.

O canto de uma ave exprime o anseio extremo
do coração de um Deus, no espaço a soluçar;
e espelha-se também a luz do amor supremo
no fosfóreo clarão dos olhos do jaguar...

Em teu seio, é floresta, onde o Belo descansa,
ao rebentar da Vida a torrente sonora,
ouço dentro de mim o canto da Esperança,
como um clarim vibrante ao despontar da aurora.

★★★

À Árvore

MANUEL DE ARRIAGA
“Cantos Sagrados” (1899)

Quando contemplo em paz teu nobre vulto
Erguido aos céus: envolto em verde manto,
Suponho contemplar um justo... um santo...
Um pai... um Deus... algum mistério oculto!...

Há não sei bem que força em mim tão forte,
Não sei que grande instinto inabalável
A levar para quanto é belo e estável
Esta alma, para quem só Deus é norte,

Que em ti, oh mãe, em ti achei guarida...
A tua sombra oferece a paz e a esperança
A quem no mundo é triste e em vão se cansa
Para aos céus dirigir a própria vida!...

Quantas vezes em horas d'agonia,
Que deixavam meus olhos rasos d'água,
Eu não deixei ficar-te aos pés a mágoa,
Buscando tua sombra noite e dia?!...

Quantas horas fitando os céus pasmado
Eu não passei, deixando o olhar suspenso
Naquele vasto seio azul e imenso,
Do verde de teus ramos marchetado?!...

De dia, quando o Sol aquece o mundo,
E os entes se propagam, nascem, crescem;
De noite quando os astros resplandecem
Naquelas solidões dum mar sem fundo:

Se à tua sombra estou, sinto nesta alma
Cair da doce cor que o Sol te veste,
Da paz que tens, o bálsamo celeste
Que em meu peito as paixões serena e acalma!...

Ou quando o vento chega, e eu não sei donde...
E passa sobre ti, murmura e canta,
E eu olho e nada vejo, e a fé mais santa
Me leva a crer no Deus que o mundo esconde;

Ou quando à noite, num propício agouro,
As estrelas dos céus que mais fulguram
Das pontas dos teus ramos se penduram
Como ideias de Deus em frutos d'ouro:

Amo-te muito e muito, e não me admira,
Quando tu à minha alma um Deus revelas
E lhe mandas um hino em que as estrelas
São as notas, e a tua coma a lira!...

Oh árvore! no amor que a Ti me prende,
Confesso ao mundo haver bem mais lucrado,
Que em muito livro d'ouro encadernado,
Que aí se espalha e muita gente aprende!...

Se eu vira, como os frutos dos teus ramos,
Dentro desta alma abrir-se a flor da ideia
À luz deste ideal que em nós se ateia
Para que nós do mal ao bem subamos;

Se às novas gerações, no meu saltério,
Cantar pudesse a nova luz que assoma,
Como os órgãos da tua verde coma
Lançando a voz de Deus no espaço etéreo;

Se eu fora como tu viver piedoso,
E a qualquer desgraçado e pobre amigo
Oferecer no meu seio o mesmo abrigo,
Que estende sobre o ninho o ramo umbroso;

Se eu conseguisse, enfim, levar meus dias,
Perante o mal que sempre me acompanha,
Como a árvore sonora da montanha,
Que descanta ao soprar das ventanias:

Só assim chegaria um dia a ser
O espírito sereno, sábio e justo,
A que deve aspirar, a todo o custo,
O Senhor da Razão, que pensa e quer!

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