terça-feira, 3 de julho de 2018

Temas Poéticos: FAMOSOS VII



A Castro Alves

JOSÉ BONIFÁCIO
“Poesias” (18...)

Talvez é sono a vida, e vida a morte,
Dorme-se aqui pra despertar além!
O vivo é um morto, e a luz que do alto vem
Do céu à terra é a ponte de transporte!

— Passageira ilusão, ou crença forte...
Quem sabe?!—O mundo é o nada... e a lousa tem
O segredo da esfinge... o mal e o bem
Das mortas gerações... destino ou sorte!...

Não sei; responde : — a tua mocidade,
Planeta em céu ignoto, é anjo ou nume,
E o sol de lá é a luz da eternidade?!

Talvez!... quem sabe!... o pó tudo resume!...
Mas o teu coração, ainda saudade,
Ficou — murmúrio e flor, brisa e perfume.

★★★

Lendo Camões

JOSÉ BONIFÁCIO
“Poesias” (18...)

Um que de brando e um não sei que de altivo
No rubro lábio crespo de carmim;
Um que de fina mofa... e assim... assim...
Nos olhos seus um não sei que de vivo;

Um que e um não sei que em traço esquivo
Na móbil graça que diz não e sim;
Um que dentre o coral, rindo o marfim,
De um não sei que de voz ou som festivo;

Um que de leve aragem no sorriso,
De leve borboleta um não sei que
No aéreo passo que sutil diviso

Traquinando, menina, escuta e crê:
De todos estes — quês — do paraíso,
Se não há para que dize porque.

★★★

Ao Marquês  de Pombal

BASÍLIO DA GAMA
(Século XVIII)

Não temas, não, marquês, que o povo injusto
De teus grandes serviços esquecido,
Pelos gritos da inveja enfurecido
Solicite abolir teu nobre busto.

Para ser imortal teu nome augusto
Não depende do bronze derretido;
Em mais firmes padrões fica insculpido
Teu nome excelso, teu valor robusto.

Lisboa restaurada, o Reino ornado
De ciência, de indústria e de cultura,
De política e comércio apropriado:

A tropa regulada, a fé segura,
O tesouro provido, o mar guardado:
Eis aqui do teu gênio a cópia pura.

★★★

A Luís Delfino

ARTUR AZEVEDO

Há no teu livro longas cavalgadas
De versos, cavaleiros arrogantes,
Nervosos, prontos a levar os guantes
Às valorosas, ínclitas espadas;

Imagens as mais belas, reclinadas
No dorso de pesados elefantes,
Tendo nos lábios beijos sussurrantes
E nos olhos a luz das madrugadas;

Tropos, também montados em ginetes,
Fazendo mil fantásticos corcovos,
Brandindo no ar os nítidos floretes;

E finalmente multidões e povos
De Adjetivos, os rúbidos valetes,
Ledos, alegres, elegantes, novos.

★★★

À memória de Fernando Pessoa

ANTÔNIO BOTTO

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão
- Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boemia
Coberta de farrapos e de estrelas
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma:
Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
- Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar
- Num cântico de sonho! e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

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