terça-feira, 3 de julho de 2018

Temas Poéticos: MULHERES - VII


Rosa

AFONSO CELSO
“Poesias” (1876)

Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim,
E nas faces também tinha
Rosas da cor do carmim.

Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou essas que unindo estás?

Ela fitou-me sorrindo,
Inda mais enrubesceu,
Depois ligeira fugindo
De longe me respondeu:

“Não dou-te as rosas das faces
Nem estas que tenho à mão.
Daria — se me estimasses
As rosas do coração! "

★★★

Zélia
(A Dulce)

AFONSO CELSO
“Poesias” (1876)

Zélia, a menina travessa,
Demônio em corpo de arcanjo,
Cuja pequena cabeça,
— Onde for que ela apareça,
Quer pôr tudo em desarranjo,

Ontem chorava sentida
Sem a constante alegria:
Soluçava comovida,
Tendo a face humedecida
Pelo chorar de agonia,

Ao vê-la assim suspirosa
Fui perguntar-lhe sorrindo,
Que nuvem calamitosa
Turbara o céu cor de rosa
Do seu viver puro e lindo.

Olhou-me cheia de espanto
Mas me vendo atento ouvinte
Entre soluços e pranto
Mas sempre rica de encanto
Contou-me a história seguinte:

No meu pequeno aposento
Formosa jovem vivia;
De boniteza um portento,
Nas horas de isolamento
Me fazendo companhia.

Comigo há muito morava
De Babel na miniatura!...
Humilde qual uma escrava
As magoas compartilhava
De minha existência escura!

Que carinha feiticeira
Que feição correta e rara.
Mesmo a botina faceira
Da famosa Borralheira
No seu pé grande ficara.

Dos pigmeus as meninas
Não eram, não, mais mimosas!
Suas faces peregrinas
Tinham as cores divinas
Das açucenas e rosas.

Nas covinhas de seu rosto
Acetinado e marmóreo,
Fosse alvorada ou sol posto,
Luzia a expressão de gosto
Dos santos lá do oratório.

Vivia sempre calada,
Pouco sujava os vestidos;
Mas quando a punha assentada
Da boquinha descerrada
Saíam débeis gemidos.

Sempre tranquila e serena
Não tinha fome nem sede,
Passava a existência amena
Deitada em cama pequena
Pendurada na parede.

Sem sentir calor nem frio
Sorria sempre contente!
Que colo branco e macio
Jamais um disco sombrio
Naquela fronte inocente!

Vivia como rainha
Tendo cultos de Madona:
Pois da bela coitadinha
Era amiga, mãe, madrinha,
Companheira, mestra e dona!

Punha-a às vezes na janela,
Na hora em que o sol desponta;
De minha alcova singela
Quando eu sabia era ela
Quem ficava a tomar conta.

Nascera lá no estrangeiro
Donde pequena viera!
Comprei-a com meu dinheiro.
Oh! que afeto verdadeiro
Que simpatia sincera!

Mas ontem... que negro fado!
Tirando um livro da estante,
Num movimento estouvado,
Seu bercinho pendurado
Foi ao chão no mesmo instante!

Quase que fiz em pedaços
A culpada biblioteca.
Quis afagá-la em meus braços
Mas só achei estilhaços
Da espedaçada BONECA!!

★★★

Susana

AFONSO CELSO
“Poesias” (1876)

Ao corpo de Susana a linfa da corrente
Envolve num abraço e beija docemente.

As ondas do regato às ondas do cabelo
Osculam a gemer... talvez de fundo zelo.

A vaga quer cobri-la: — em volta se avoluma...
Qual tom maior alvura, o corpo ou a branca espuma?

No colo alabastrino as águas murmurantes
Desatam um colar de gotas cintilantes.

Na fronte divinal esplendem diademas
De pingos cujo brilho imita finas gemas.

No álveo do regato areia fina e clara
Ao pé da linda hebreia encobre rica e avara.

Se acaso a sedutora o corpo seu mergulha
O rio arfa e se alteia... após triste marulha.

Da bela israelita aos lânguidos sorrisos
Respondem do regato os palpitantes frisos.

Mas nisso de repente —além, dentre os palmares
Cintilam sobre ela una lúbricos olhares.

Medrosa ela estremece e cheia de receio
Oculta com a mão o peregrino seio.

Nas faces o rubor, levada pelo espanto,
Mergulha e logo a vaga envolve-a qual um manto.

Depois do banho sai, confusa e amedrontada,
Levando gotas mil na pele acetinada.

Traduz-se em seu semblante um medo que contrista:
As vestes vai buscar da plaga entre os abrolhos:

Julgando que não ver também é não ser vista
Encruza as mãos no seio e fecha os lindos olhos .

★★★

Inês

CRUZ E SOUZA
“Faróis” (1900)

Tem teu nome a estranha graça
De uma galga verde, estranha.
Certo langor te adelgaça,
Certo encanto te acompanha.

És velada, quebradiça
Como teu nome é velado.
Certa flor curiosa viça
No teu corpo edenizado.

Chamam-te a Inês dos quebrantos,
A galga verde, a felina,
Amaranto de amarantos,
Das franzinas a franzina.

Teus olhos, langues aquários
Adormentados de cisma,
Vivem mudos, solitários
Como uma treva que abisma.

Tua boca, vivo cravo
Sanguíneo, púrpuro, ardente,
De certa forma tem travo
Embora veladamente.

És lírio de velho outono,
Meiga Inês, e de tal sorte
Que já vives no abandono,
Meio enevoada da morte.

Teu beijo, do rosmaninho
Tem o sainete amargoso...
Lembra a saudade de um vinho
Secreto, mas venenoso.

Por um mistério indizível
Não te é dado amar na terra.
Vem de longe o Indefinível
Que os teus silêncios encerra!

Deus fechou-te a sete chaves
O coração lá no fundo...
Mas deu-te as asas das aves
Para irradiares no mundo.

★★★

Sofia

CRUZ E SOUZA
“Missal” (1893)

Foi na sala branca, de leves listrões d’ouro, que eu a vi interpretar um dia ao piano Mendelsohn, Schumann, as fugas de Bach, as sinfonias de Beethoven.
Tinha um nome bíblico, lembrando palmeiras e cisternas: chamava-se Sofia.
Era alta, de uma brancura de hóstia, como certas aves esguias que os aviários conservam e que aí vivem num grande ar dolente de nostalgia de selvas, de matas cerradas, de sombrios bosques.
Nervosa, de um desdém fidalgo de fria flor dos gelos polares, e triste, traía a Arte aquele altivo aspecto, a orgulhosa cabeça ereta em frente às partituras, que os seus olhos garços liam e que os seus dedos rosados e aristocráticos executavam com perfeição, com claro entendimento nas teclas.
E de todo esse nobre ser delicado, de todo esse perfil de imagem de jaspe, irradiava uma harmonia vaga, melancólica, uma auréola de pungitiva amargura, mais desoladas que as sinfonias de Beethoven, como se todas aquelas músicas excelsas tivessem sido inspiradas nela.
— Ó aromas, sutilíssimas essências dos finos frascos facetados do luxuoso boudoir dessa musical Magnólia; aromas vaporosos, maravilhosos perfumes que incensais, à noite, de volúpia, a sua alcova, como as purpurinas bocas das rosas, falai a linguagem alada que as vozes humanas não podem falar e dizei os murmúrios estranhos dos sentimentos imperceptíveis, imaculados, que alvoroçam a alma ansiosa dessa sonhadora Sofia.
Só os aromas, só as essências terão os eflúvios castos, os fluidos luares de expressão, o ritmo inefável para contar que latentes palpitações traz ela no sangue, que chama d’astro lhe inflama o peito, quando volta triste dos concertos egrégios e vai enclausurar-se na alcova, – muda, muda, talvez sob a névoa de lágrimas, na comovente concentração dos que morrem amando…

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