quarta-feira, 4 de julho de 2018

Temas Poéticos: LUA - III


A Lua
(A Valentim Magalhães)

FONTOURA XAVIER
"Opalas" (1884)

Tu tens um que da trípode inspirada,
Quando, erguida nas lúcidas esferas
Como uma copa sobre mim vasada,
Inundas-me de sonhos e quimeras.

Eu dera o beijo das paixões sinceras
Na tua fronte pálida, escalvada
Como a bossa dum sábio iluminada
Que faz vivenda num covil de feras...

Eu quebrara-te a taça em holocausto,
Foras a eleita do meu peito exausto,
Foras talvez meu único conforto...

Não te visse no pó das elegias,
Nem boiando nas fundas calmarias
Como um cetáceo morto!

★★★

Versos à Lua

ATAÍDE MARCONDES
"Amarantos: versos" (19..)

Tu desponta faceira e majestosa
Prateando-me com luz serena e bela
E, lânguida, daqui, desta janela,
Minh’alma te contempla dolorosa.

Tristemente me lembro então daquela
Noite em que brilhavas orgulhosa.
—Eu beijava uma tez linda e mimosa
—Tu sorrias no céu serena e bela!

Adorei, sorridente, a luz brilhante
Que sobre mim e Ela derramaste
Naquela noite encantadora e fria!

Hoje só quero, ó Lua, ó minha amante
Que brilhes, como então, alva, brilhaste,
Na regelada campa de Maria!

★★★

Pranto de luar

FRANCISCA JÚLIA
"Esfinges" (1903)

No longo espasmo do silêncio, alegre e franca,
A alma dos ventos, ao luar, murmura e fala;
A sombra corre, e tu, lua formosa e branca,
Derramas pelo chão claras manchas de opala.

Brás mortas de amor! Ah! quem te dera, tê-las!
Cessaria, de novo, o teu soluço aflito!
Eras em que, trêmula, a sós, sob as estrelas,
Tu passavas com ele através do infinito...

Mas uma noite, o espaço todo ornado em festa,
Teu esposo partiu, enfim... (Quanto desgosto!)
E dessa desventura extrema ainda te resta
A grande palidez que te ilumina o rosto.

Partiu... Talvez que volte aos lares... Mas, enquanto
Ele não volta, em vão o esperas nessa trilha;
Ficas pálida e triste, e choras; o teu pranto
Desce à terra e, ao descer, torna-se luz e brilha.

Chora, infeliz. O pranto as mágoas atenua.
Sempre fiel, nunca te canses de chorar.
Se não chorasses, não teríamos, ó lua,
A poesia sem fim das noites de luar.

★★★

Coisas ao luar

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Vias o rio, sim! com certo espanto:
Ninfeáceas largas já em flor olhando,
Como se fossem náiades em bando
Ao luar, num surdo riso ou surdo pranto:

Nenúfares: esparsos grupos; brando
Mover dos braços, sacudir de manto,
Quando a corrente rola, e vai dançando
Ao som da voz, à voz do próprio canto:

Pó de pérola azul ao longe, e em torno;
Amor à sombra, beijos em segredo
Da noite ao vesgo olhar, sabido e morno;

E à luz azul, que flui pelo arvoredo,
Pã, que anda em tudo, põe tudo em suborno...
E é tudo ais de surpresa... e um susto!... e, um medo!...

★★★

Luar na solidão

CÁRMEN FREIRE
"Visões e Sombras" (1897)

Eis-me contigo a sós, formosa lua,
Ao doce marulhar das ondas mansas,
Onde dos raios teus a luz descansas
Que branca e bela esparge a face tua.

Como a sultana que na espádua nua,
Segundo as velhas orientais usanças,
Envolve em fino véu as louras trancas,
Ficando-lhe mais clara a espádua sua

Tal te mostras, rainha dos espaços,
Entre as gazes do céu adormecida!...
Não sei que doces, que invencíveis laços

Ligam a ti minh'alma embevecida!
Ah! deixa-me seguir no céu teus passos,
Astro da noite, luz da minha vida!

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