quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: MORTE - IX


Grande Morte
(A José Faustino Porto)

VICTORIANO PALHARES
"Peregrinas" (1870)

Ai, que hora! O mundo anegra-se;
A animalidade ruge;
No espaço chumbado estruge
Um pavoroso fragor.
Flameja o cume do Gólgota,
Como tocha deslumbrante,
Do ornar agonizante
Do supremo Redentor.

Vae consumar-se a tragédia
Do martírio mais augusto;
Tolhido o homem de susto
Mergulha o rosto no chão;
Estátua tombada—pávido,
Não pensa, não vê, não fala,
Mas sente que a terra estala,
E lhe morde o coração.

★★★

A Morte
(Ao Dr. Carlos Oneto e Viana)

DARIO GALVÃO
"Ecos e Sombras" (1911)

Divindade gentil da grande sombra!
Viúva da luz, trágica deidade,
Que segas incansável esta alfombra
Daninha, que se chama humanidade!

Eu te saúdo! E em nome desta terra,
Que a nossa humana e estúpida maldade
Rasga e maltrata mais que a tempestade,
Te imploro que redobres tua guerra!

Fere tudo o que mata, o urso e o condor,
A pomba que persegue a borboleta
E a borboleta que persegue a flor!

O homem destrói, e suicida-te após,
Que terás atingido a tua meta:
A Terra não invejará aos Soes!

★★★

Morrer

AFONSO CELSO
"Poesias Escolhidas" (1902)

“O que vê a minh'alma confrangida
É que se morre muita vez na vida!”
BARTRINA.

Sim! morrer não é somente
Transformar-se a carne em pó
Muitas vezes morre a gente,
Ninguém morre uma vez só.

É morte muita partida,
É morte muito pesar,
É morte a crença perdida,
E' morte não mais amar.

A vida é um morrer constante;
Começou mal se nasceu,
Representa cada instante,
— Um tanto que se morreu.

Li isto nem sei já onde...
Quão exato!... E aquele a quem
A memória não responde
Não morre um pouco também?!

De muitos consiste a lida
Em tantas mortes sofrer
Que, na extrema despedida,
Eles não deixam a vida
Mas deixam só de morrer.

★★★

Lembranças de morrer

ÁLVARES DE AZEVEDO

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
 Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei, que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

★★★

Se eu morresse amanhã

ÁLVARES DE AZEVEDO

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

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