6/20/2018

Temas Poéticos: MORTE - I


Alegre depois de morta

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Um dia ouvi-lhe a voz chorar... Não tome
O caso alguém por uma vã quimera:
Em cada som a lágrima sincera,
E em cada frase um pranto... Isso espantou-me.

Ela até ali não fora assim... não era...
E há dor que esta mulher altiva dome?
Mostrá-la a dedo aos séculos quisera,
Mas por piedade guardarei seu nome.

Que houve então?... Menos triste agora a vejo,
Vestes de virgem, quase a rir-se ainda:
Tem parco, mas tristíssimo cortejo.

Na face, que assim mesmo em morta é linda,
Leva fundo os sinais de um beijo... o beijo
Largo da boca azul da noite infinda...

★ ★★

O Enterro

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

O caixão era lindo e pequenino,
Forrado de cetim branco por fora:
Sobre cetim azul dormia a aurora
Dentro na forma esbelta de um menino.

Como festivo altar, que se decora,
Tinha o berço galões de ouro o mais fino:
Que sono fundo o pobre ser franzino
Ia nele a dormir, dormindo agora.

Quatro meninas lívidas de susto,
Segurando as argolas amarelas,
Vão-no levando a passo lento, e a custo.

Sob o véu branco e as rosas das capelas,
Acham que é tudo aquilo iníquo e injusto,
Podendo ir, depois dele, alguma delas.

★ ★★
 
A filha morta

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Lembro-me dela, quando então vivia:
Era suave e meigamente bela;
Santa em um nimbo, ao vê-la na janela,
De pé, dentro de um nicho, à luz do dia.

Pouco depois, meu Deus, quem o diria?
Inda estava formosa, inda era ela,
Mas fria já, já pálida a donzela,
Lírio morto, que em lágrimas floria...

Virgem de Sanzio, imaculada filha
De um sonho de ouro e da visão mais pura,
Quem, ante a imagem dela, não se humilha?

Foi uma estátua de esplendente alvura,
Feita só para um túmulo, em que brilha,
Imóvel, doce, em plácida postura...

★ ★★

Tal está morta...

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Abriu a boca, e a rúbida golfada,
Que do seu peito exausto então rompia,
Desmanchava-se em rosas da alvorada
De um sol cor do lençol, que a cobriria.

Ofélia aflita sob a vaga fria,
Quebrando a nota da canção cantada;
Desdêmona no leito, amante e amada,
Idas? por quê? tão de repente um dia...

Dante e Beatriz, Romeu e Julieta,
Laura e Petrarca, Sanzio e Fornarina,
A coorte no céu, do amor eleita,

Guardam-na às portas da mansão divina,
Enquanto um anjo as asas brancas deita
De manso ao rosto, que ela ao colo inclina.

 ★ ★★

Versos à Morte
(À memória do Dr. Romualdo C. M. de Miranda Ribeiro)

FRANCISCO LINS
“O Farol” (1890)

Oh morte! por que sempre andas por estas plagas,
Levando aos corações o luto, a dor, o espanto?
Por que cobres nosso peito de chagas?
Por que inundas assim nossos olhos em pronto?

Devoras, como um corvo esfaimado devora,
Inteiras gerações, sanguinolentamente!
Andas de terra em terra e cravas de hora em hora.
Em nossa carne o agudo e terrosos dente!

Por ti, em cada canto uma cruz encontramos!
Encontramos, por ti, túmulos pelos caminhos!
Despovoas o lar, despovoas ramos,
Inclemente, roubando a vida aos passarinhos!

Em cada uma cidade ergues um cemitério!
Em cada um cemitério abre centos de covas!
Transformas toda a terra em um lugar funéreo,
Fazendo-nos passar palas mais duras provas!

Não respeitas as mães, e os filhos não respeitas!
De súbito, sem dó, tu, que acabrunhas,
Alças, voraz, a destra e, voraz, nos espreitas
Empreitas, preparando as aguçadas unhas!

E em teus braços de gelo, entregues à tua fúria,
Vencidos, em seguida, hei-nos sem força, inermes...
E, oh da Treva e do Crime hedionda espúria
Tomas o nosso corpo, o inundando de vermes!

Por que não tem um fim essa fome tremenda?
Não te fartas por quê? E por que não encerra
A série tão fatal, extraordinária, horrenda,
Das vítimas que tu fazes aqui na terra?

Não te bastaram, não, de nossos pobres filhos
As vidas que roubaste, enchendo-nos de mágoa?
Não conheces a dor que nos olhos rouba os brilhos
E faz que fiquem sempre e sempre cheios de agua?

Não te bastaram, não, dos pais e dos amigos
Os corpos que impeliste à fria sepultura,
De famílias fazendo um bando de mendigos,
Dos corações fazendo o asilo da amargura?

Olha, tudo o que pode aqui neste recanto
Dos males nos fizer obedientes presas,
— As trevas, a saudade, o luto, a dor, o pranto,
O sepulcro sombrio, as mágoas, as tristezas,

Tudo é duvido a ti, a teu braço devido.
A teu braço, que mata nossas esperanças,
Que faz de nossa boca evolar-se o gemido,
Não poupando sequer os velhos e as crianças!

Para, fantasma odiento! Atende, escuta, espera!
Espera um só momento e atende a minha prece!
Deixa de ser carrasco, oh deixa de ser fera!
Esconde a tua foice e este bom mundo esquece!

Às crianças a paz e paz aos passarinhos
Que as canções da alegria, os hinos redundantes,
Desde o pequeno berço aos pequenitos ninhos,
Ouvidos sejam sempre, a todos os instantes!

Porque, malvada assim, andar de terra em terra,
Dia e noite a cavar profunda sepultura,
Sem compaixão, atroz, movendo infinda guerra,
Guerra enorme e sem trégua, a pobres criaturas?

Volta no negro lugar de onde, horrível, saíste!
Volta ao monstruoso seio, em que foste gerada!
E deixa-nos o amor, o amor, que sempre existe,
E deixa-nos a paz, que por ti foi roubada.

Volta, que é muito duro e nos traz mágoa e ânsia
Ver partir, com destino embora no paraíso,
Quem sempre nos amou, desde o tempo da infância,
Transformando nossa alma em ninho do sorriso!

Volta, que deve ser imenso, irresistível,
O frio que regela ao pobre viandante,
Que deste mundo vai buscando o incognoscível,
Distante da áurea luz, da alegria distante!

Imagina tu, filha implacável da Peste,
Irmã gêmea da Serpe sombra do Pecado,
— Imagina que tu também um pai tiveste,
Um velho humilde a bom, e justo, e brando, e honrado!

Imagina — ouve bem — que esse velhinho santo
Guiou aqui terra os teus primeiros passos,
Lutando em teu favor, a derramar o pranto,
De momento a momento estendendo-te os braços!

Imagina inda mais que esse mísero velho
Por ti todo o seu sangue e o coração daria,
Respeitando-te mais do que no próprio Evangelho,
Te amando muito mais que Jesus a Maria!

Pois bem, esse homem nobre o carinhoso, e amigo,
Que te livrou do frio e te livrou da fome,
Dando-te um morno e belo, e delicioso abrigo,
Evitando a tristeza e o mal que nos consome;

Esse homem de alma santa, imaculada, pura
Como lábio risonho e belo de criança,
Como um seio de imensa, extraordinária alvura
Doce, muito mais do que a doce Esperança;

Esse homem, em cuja face a franqueza brilhava,
Que foi em todo o tempo o mais puro dos velhos,
Quo, por ti, no labor da vida se matava,
Que te trazia a luz e dava-te conselhos;

Esse, que sempre, desde os teus primeiros anos,
Imergiu tua alma em cândidas carícias,
Afugentando a trava o os negros desenganos,
Trazendo-te somente encantos e delícias;

Esse homem — ouve bem — vai morrer, vai deixar-te,
Deixar-te aqui no mundo, a sós e abandonada...
Vai fugir para além, para longínqua parte,
Buscando a solidão, buscando outra morada!

E ouve! ele partirá para longe sozinho,
Num caixão encerrado, e frio, e sem conforto.
Como uma ave que foge abandonando o ninho
Em busca da outra plaga, em basca de outro o porto.

E irá, na cova, pouco a pouco apodrecendo
Dele o corpo vida, o corpo frio, frio...
E o irá consumindo o verme, o verme horrendo,
Até que depois fique o túmulo vazio!

E tu, Morte assassina! e tu, Morte sombria!
O que farias, vendo cm um sepulcro fundo
Cair quem nunca mais, nunca mais voltaria,
O amor, a caridade a exercer neste mundo?

Como aguda seria a tua mágoa, imensa
Como o infinito céu e o infinito oceano
Como horrível seria a tua dor intensa!
Como não ficaria o teu cérebro insano!

É que não há ninguém que o riso e o bem espere,
Ao ver partir pra sempre aquele a quanto adora!
O amor não tem limite e, quando alguém o fere,
Ele ruge, esbraveja e grita, e chora!

Volta, pois, ao teu fosso, ao abismo profundo,
Ao tremendo lugar de onde horrente vieste,
E deixa-nos o Amor, que vale mais que o mundo,
Oh Morte, oh negra filha implacável da Peste!


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