sexta-feira, 6 de julho de 2018

Temas Poéticos: MÚSICA - II


Violoncelo
(A Carlos Amaro)

CAMILO PESSANHA

Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas.
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos.
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro.
Que ruínas, ouçam...
Se se debruçam,
Que sorvedouro!

Lívidos astros,
Soidões lacustres...
Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas.
Blocos de gelo!
Chorai, arcadas
Do violoncelo,
Despedaçadas...

★★★

Dança do ventre

CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Torva, febril, torcicolosamente,
Numa espiral de elétricos volteios,
Na cabeça, nos olhos e nos seios
Fluíam-lhe os venenos da serpente.

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
Que convulsões, que lúbricos anseios,
Quanta volúpia e quantos bamboleios,
Que brusco e horrível sensualismo quente.

O ventre, em pinchos, empinava todo
Como réptil abjeto sobre o lodo,
Espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme
De um verme estranho, colossal, enorme,
Do demônio sangrento da luxúria!

★★★

Música misteriosa...

CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Tenda de estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da lua nos clarões dormentes...

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...

E vai, de estrela a estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...

★★★

Sinfonias do ocaso

CRUZ E SOUZA
“Broquéis” (1893)

Musselinosas como brumas diurnas
Descem do acaso as sombras harmoniosas,
Sombras veladas e musselinosas
Para as profundas solidões noturnas.

Sacrários virgens, sacrossantas urnas,
Os céus resplendem de sidéreas rosas,
Da lua e das estrelas majestosas
Iluminando a escuridão das furnas.

Ah! por estes sinfônicos ocasos
A terra exala aromas de áureos vasos,
Incensos de turíbulos divinos.

Os plenilúnios mórbidos vaporam...
E como que no azul plangem e choram
Cítaras, harpas, bandolins, violinos...

★★★

A música do seu corpo

LUÍS DELFINO
“Íntimas e Aspásias” (1935)

Deus fez a luz: a luz inda não era:
Imagina essa noite imensa, extrema,
Que em treva densa role cada esfera,
E em cada mundo solitário gema.

Ao pé do cisne tropeçando a fera:
Por toda parte lúgubre celeuma;
E esculturada em corpo a primavera
Sem a c'roa de luz, seu rico emblema.

De repente rasgou-se o manto escuro:
De cada ponto aberto e cada furo
Sai luz líquida em grande jorro unido.

E essa sonora música triunfante
É que ouço em ti, cantando a todo instante,
Se o corpo moves dentro do vestido.

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