sexta-feira, 6 de julho de 2018

Temas Poéticos: CIDADE - I


Vila Rica

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro do sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

★★★

New York

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

Resplandeces e ris, ardes e tumultuas;
Na escalada do céu, galgando em fúria o espaço,
Sobem do teu tear de praças e de ruas
Atlas de ferro, Anteus de pedra e Brontes de aço.

Gloriosa! Prometeu revive em teu regaço,
Delira no teu gênio, enche as artérias tuas,
E combure-te a entranha arfante de cansaço,
Na incessante criação de assombros em que estuas.

Mas, com as tuas Babéis, debalde o céu recortas,
E pesas sobre o mar, quando o teu vulto assoma,
Como a recordação da Tebas de cem portas:

Falta-te o Tempo, — o vago, o religioso aroma
Que se respira no ar de Lutécia e de Roma,
Sempre moço perfume ancião de idades mortas...

★★★

Piracicaba

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Sacode os ombros nus, oh noiva da colina,
que a luz da madrugada encheu o largo céu;
e arranca-te das mãos o manto da neblina
que ondula sobre o rio, enorme e solto véu...

Ergue-te, oh noiva! a aurora acorda e orvalha os ninhos,
beija o vasto horizonte e a pequenina flor;
levantam-se no espaço em bando os passarinhos,
descem de além frescura, luz e paz e amor.

Aberta pelo vento, a úmida palmeira
agita o verde leque em fundo todo azul;
como o cocar do índio, em pé na cordilheira,
se abria em pleno ar, à viração do sul...

Envoltas pela noite, as pérolas celestes
se deixarão levar a outras amplidões:
mas eis que surge além, entre douradas vestes,
o sol, bordando a ti de mágicos listrões.

Desperta, oh índia, ao sol! O rio o corpo estende
e anilado a teus pés vai múrmur se quebrar...
ai! vendo que a alvorada em sonhos te surpreende
nesta hora em que parece à terra o céu baixar.

O rio é teu amante. Irrompe entre colinas,
como o jaguar que avista a companheira e vai...
mas vendo-te, ao chegar, quão bela te reclinas,
estaca de repente, e a fúria o arroja, e cai!

E a fúria o arroja, e cai... Do precipício ao fundo
atira o corpo e cava as pedras a bramar:
e espedaçado sobe, e espedaçado afunda
no abismo que se alarga e tenta-o sufocar!

E o dorso bate a pedra, enraiva-se a torrente
que em cascatas do trono erguido resvalou...
E salta a espuma branca em chuva alvinitente
onde o íris do céu em curva se formou...

Pela boca do abismo as águas repelidas
enchem a vastidão de ronco atroador:
— e rolam pelo rio a plagas não sabidas
os murmúrios da onda, a voz do tombador!

Depois abre-se a cava enorme onde o combate
só no conhece o rio e o abismo que o atrai:
embaixo ferve a luta: a onda a cova bate...
por cima a calma fria: a onda sobe e vai...

a onda sobe e vai serena, extenuada,
depois de pelejar perder-se além, além;
e sente à tona d'água a quilha já cansada
trazendo o pescador que rio acima vem.

E tu, formosa índia, em pé sobre a colina,
sentes da onda azul o lânguido bater;
Enquanto sob o véu da trêmula neblina
ruge a cascata além, sem vir interromper...

sem vir interromper a paz, em que te embalas,
o amor, a luz, a graça — adornos que são teus.
Cercou-te o Criador de peregrinas galas...
deu-te uma terra em flor, cheios de luz os céus.

Deu-te o horizonte azul que tem a minha terra,
minha terra natal, meu ninho encantador.
Só a coroa não tens dessa saudosa serra
que cerca em meu país, a várzea toda em flor.

A tua noite envolve as mesmas estrelinhas,
a mesma poesia, a mesma luz divina;
como lá, eu bem sei, o bando de andorinhas,
aqui recorta o céu, na hora vespertina!

Deixa-me, pois, que eu sonhe, ao ver-te reclinada
banhando os alvos pés, do rio na onda azul,
que eu sonhe a minha terra, a pérola dourada
suspensa longe... longe... entre as névoas do sul!

★★★

Uma noite em São Paulo

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

Minha terra é o país das serenatas
por noites de luar,
Enquanto a névoa em trêmulas cascatas
no rio vem boiar.

As frautas, do violão ao som doído
aqui sabem dizer
os segredos do amor, saudades vivas
dos anos de prazer.

Jamais em lábios rubros de espanhola
a cantiga gemeu
como uma só das belas serenatas
que escuta o nosso céu.

Jamais o gondoleiro do Rialto
que a onda acalentou
mais doce canto às auras do Adriático
à noite suspirou.

Em meu país o canto do tropeiro
sentado ao pé do lar,
ou do rancho nos ermos, onde a lua
encontrou-o a sonhar;

a cantiga do escravo suspiroso
no exílio do sertão,
quando ao dia que morre ele despede
sua pátria canção;

as tiranas doídas que a viola
chorando desprendeu
acordam mais o gênio da saudade
na sombra deste céu...

Nosso canto aprendeu as melodias,
seus hinos virginais,
da cascata no trêmulo murmúrio,
na voz dos sabiás...

Minha terra é o país das serenatas
por noites de luar...
Vinde, filhos de além, ver quanto é doce
sob a curva do céu aqui sonhar!

★★★

Jaraguá

BRASÍLIO MACHADO
“Madressilvas” (1876)

É este o meu pátrio monte
que junto ao rio cresceu,
e que envolve a idosa fronte
nos nevoeiros do céu.

Não temas, não, viajante,
ao vê-lo erguido no sul:
tem águias — são andorinhas,
e seu ombro é todo azul.

Primeiro beija-lhe a aurora
a larga fronte sem par,
indo após suas coroas
uma por uma espalhar;

como uma filha que beija
de seu pai a velha mão,
e depois vai as cortinas
correr do berço do irmão.

Circulando o vulto imenso,
ao sol que tombando vai,
uma auréola de incêndios
fulgurante dele sai.

Altivo, como na América,
do condor aos colibris,
tudo é soberbo, arrogante,
sentindo o sol do país;

bem como um velho cacique
de seus guerreiros ao pé,
ele guarda a cordilheira
que azulada além se vê...

Guarda nos lábios de pedra
de arruinadas gerações
os ecos de mil triunfos,
o canto das tradições.

Quantas tribos desgarradas
de seus pés em derredor
vieram erguer as tabas
sonhando um vale melhor!

E este foi seu pátrio monte,
estes vales foram seus...
O monte, os vales ficaram...
dos índios... só sabe Deus!

Oh viajante, não temas
ao vê-lo erguido no sul,
a fronte, cheia de névoas,
nos ombros um manto azul.

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