7/06/2018

Temas Poéticos: NOITE - IV


Quando a noite se estrela
(Para Nadir)

LEONOR POSADA
"Plumas e Espinhos" (1926)

Quando a noite se estrela, doce e calma,
estendendo da lua os voos de prata,
a minh'alma
das roxas flores da melancolia,
sob a influência dessa noite fria,
as delicadas pétalas desata.

E um perfume inebria-me os sentidos;
capitoso
adormenta-me a carne e me elastece
os nervos doloridos;
tenho a impressão
que a mão
de um Sonho místico e envolvente,
suave, delicioso,
do pobre coração
a chaga que enlouquece,
anestesia pacientemente
e as dores adormece...

E o ópio bebendo do luar fluídico,
fantásticas visões a mente me povoam:
bizarras e sadias,
afastando da mágoa o tom fatídico,
voam,
chegam, revoam
as minhas Alegrias...

Conheço-as uma a uma:
o sorriso daquela me enternece;
desta
o olhar meigo e macio como a pluma
enche a minh’alma de um rumor de festa.
Brinco, sorrio, canto,
e, em cada canto,
nova sombra querida me aparece:
minha glória, meu sonho, meu desejo,
juras, promessas... o dulçor de um beijo.
meu Amor...
e atrás dele
(passa-me sobre a pele
um arrepio...)
atrás dele
— desvario! —
vem a dor...

Quero fugir-lhe: o ópio me entorpece
do luar;
quero gritar:
a voz paralisada
jaz na garganta anestesiada...
Com o olhar aflito, busco as alegrias:
risonhas, fugidias,
lá se vão a cantar...

E a Dor,
enquanto a noite fria me amortalha
na lívida toalha
de nebulosas e de estrelas frouxas,
em nome do meu Amor,
a dor
espalha
sobre a minha mortalha
pétalas tristes de saudades roxas,...

★★★

Fantasia de uma noite branca
 (A Dadá)

LEONOR POSADA
"Plumas e Espinhos" (1926)

Enquanto a terra dorme, a Noite
por se entreter, põe-se a fiar
flocos de nevoa, sob o açoite
do vento frio e do luar.
Rendas mais caras e alvadias
a pobre tece sem parar,
bordando as loucas fantasias
que sempre tem olhando o mar...
Trabalha sempre... fia... fia
rendas de nevoa e de luar.

Sanefas põe na árvore esguia,
de seda cobre a úmida flor;
não se detém: só teme o dia
— o seu rival e seu senhor...
De prata loira e alvinitente
um manto faz — lindo penhor!
ao mar que canta docemente,
rolando em ondas, seu amor.
Trabalha sempre... fia... fia
mantos de nevoa e de dulçor.

Põe cuidadosa no trabalho
todo o seu sonho de mulher:
nas folhas prende argênteo orvalho,
despetalando um malmequer.
Pérolas raras, nos caminhos,
espalha e dá — louca e esmoler —
de luz enchendo os passarinhos!
— a tessitura é seu mister...
Trabalha sempre... fia... fia
despetalando um malmequer.

Da lua entrança os frios raios
e faz do espaço o seu tear;
queima no alvor dos lírios maios
o ópio do sono e do luar.
E, enquanto tece, ardente e ansiosa,
doce perfume erra pelo ar,
mais capitoso do que a rosa,
e mais selvagem do que o mar..
Trabalha sempre... fia... fia
o ópio do sono e do luar.

E lodo o ardil da fantasia,
todo o mistério de um amor,
a Noite branca tece e fia
num grande sonho protetor...
Salpica o eco cheio de estrelas
qual com mais brilho e mais fulgor
ai, como é bom sonhar e vê-las,
vendo e sonhando o nosso amor
que a Noite branca fia... fia...
num grande sonho protetor!

★★★

Noite

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

No remanso da noite, quem não sente
Uma velha aflição, magoada, imensa?
Quem não abaixa os olhos, de repente,
Cheio de inquietação, e de descrença!

Essa tranquilidade funda, algente,
Feita de desengano e indiferença,
Onde os seres se apagam, lentamente,
Quem ha que dentro da alma insone a vença?

Nas árvores, nas brumas vaporosas,
Nas pedras rudes, nas planícies erra
A tristeza das coisas silenciosas.

E quanto mais de horror a alma recua,
Mais sombra cai dos ares sobre a terra,
Mais refulge no céu sereno a lua.

★★★

Alegoria da Noite

RONALD DE CARVALHO
"Poemas e Sonetos" (1919)

A noite é suave como um beijo sobre a face.
Nas frondes quietas ronda o luar, e o luar acende
Figuras de marfim, suspensas entre a bruma.
Pelo céu de cristal, luminosa e fugace,
Brilha uma estrela, e foge; e todo o espaço esplende,
Num trêmulo clarão de alabastro e de espuma.

A paisagem parece um aquário gelado.
As gramas são corais sombrios, e as raízes
Lembram aranhas de ouro, a fugir na penumbra.
O casario, sobre as curvas de um montado,
Deita espectros no chão, e há lágrimas felizes
Nos ramos, de onde o orvalho escorre, e me deslumbra.

Na doçura do ambiente a solidão é um poema
Que a alma diz, devagar, num leve choro de harpas;
E o silêncio é uma voz que emudeceu na sombra...
A lua abre, no azul, como a flor de um diadema,
E no céu de cristal, aprumando as escarpas,
Num tropel de alcantis o horizonte se escombra.

Noite, irmã da ilusão, quanto sonho glorioso
Semeiam tuas mãos, onde ardem, num chuveiro,
Astros, constelações, nebulosas distantes,
E toda a flora ideal de um país maravilhoso!
Quanto desejo vão, inquieto e passageiro,
Tomba de tuas mãos, como a hora dos quadrantes...

Nas sombras do jardim sobe um rumor de chuva
Da água dos vasos, que um Tritão indiferente
Na fonte senhorial deixa rolar, num salto.
E os faunos, em redor da vinha aberta em uva,
Descerram, num clarão, os olhos de repente,
E movem quase, a rir, os cornos de basalto.

Pelo céu de cristal, luminosa e fugace,
Brilha uma estrela, e foge. O espaço claro esplende.
Nas frondes quietas ronda o luar que a terra acende.
A noite é suave como um beijo sobre a face...

★★★

Noites do Polo Norte

LUÍS DELFINO
“Íntimas e Aspásias” (1935)

Não conheceis a noite do poeta...
A minha noite, a noite em que volteio,
E o turbilhão de trevas do meu seio,
E a angústia negra já sem fim nem meta?...

Pois continua a noite escura e inquieta:
Mas encheu-se de pássaros, e creio
Que um raio que a feriu, como uma seta,
Foi dos raios dos olhos seus que veio.

Frios céus todo a arder no polo Norte,
Os meus agora têm a vossa sorte:
Redondas taças leite a transbordar,

Chamejam cheias de uma luz divina:
E o sol, que assim as doira e as ilumina,
Ninguém vê de que ponto anda a brilhar...


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