quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: SOL - I


Ao pôr do Sol

RAUL DA CUNHA MACHADO
“Távola do bom humor, Sonetos maranhenses” (1923)

Quando o sol do horizonte se encaminha
E o crepúsculo a terra vai deixando,
O ocaso em brasa vai iluminando
O vasto mar do qual já se avizinha.

Quando a brumosa noite rompe o espaço
E a solidão do oceano se levanta,
Tristeza infinda a terra desencanta
E a estreita em grande e fraternal abraço.

Quando fito esse quadro de beleza
Fala-me a dor, a dor indefinida
Porque me pesa idêntica tristeza.

Nele se antolha toda a minha vida:
Como o sol — a esperança me despreza,
E' como a treva — esta ilusão perdida!

 ★★★ 

Pôs-se o Sol

JOÃO XAVIER DE MATOS

Pôs-se o sol... Como já, na sombra feia
Do dia, pouco a pouco, a luz desmaia!
E a parda mão da Noite, antes que caia,
De grossas nuvens todo o ar semeia!

Apenas já diviso a minha Aldeia;
Já do cipreste não distingo a faia:
Tudo em silêncio está. Só, lá na praia,
Se ouvem quebrar as ondas pela areia.

Com a mão na face, a vista ao Céu levanto,
E cheio de mortal melancolia,
Nos tristes olhos mal sustenho o pranto;

E se inda algum alívio ter podia
Era ver esta Noite durar tanto,
Que nunca mais amanhecesse o dia!

 ★★★

Nascer do Sol

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Acorda, como emir voluptuoso,
Na cálida ebriez de essências puras,
E traz a enorme cicatriz do gozo
O sol, trajando as largas vestiduras.

À noite, que de esplêndidas loucuras,
Beijando uris em raivas de amoroso!
E o divã, — entre nítidas brancuras, —
Guarda mal o segredo duvidoso.

Veem-se amarelos sândalos na cama,
Lençóis esparsos, véus da cor da chama,
Laca vermelha, cintas e corais,

Sandálias de esmeralda, ramalhetes,
Argolas de ouro, fulvos braceletes,
E o acre rubor de carnes ideais!

 ★★★

Um novo pôr do Sol

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Vai acabar o dia. — Helena, agora
Que a luz se mescla à treva, e que perfuma
Tudo a brisa, que sopra, e como a aurora
Dúbias nos mostra as coisas uma e uma,

Olha a praia, onde ali o mar espuma,
E mais acima a zona, onde uma flora
Nova, só do Brasil, variada e odora,
Em que a piteira em haste a flor apruma,

E o ingá, e o coco, e o cacto, e o mato reles,
Que na água azul o mar estende e espelha,
E encanta mais que um quadro bom de Apeles...

Sobre isto o pôr do sol de hoje semelha
Uma paisagem do Victor Meirelles,
Com sua eterna luz, bela e vermelha.

★★★

O Vulcão e o Sol
(A Raimundo Correia)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

I
Treme a montanha e se abre em ímpetos indômitos:
ruge-lhe o ventre, e um filtro ardente de atro enxofre
as veias lhe percorre... até que, em rubros vômitos,
a descarga de fogo arrebenta de chofre.

A bílis borrascosa estruge-lhe na entranha,
como um feto maldito. Os calcinados ossos
do velho paquiderme estremecem na estranha
e sinistra mudez dos quaternários fossos.

E parecendo ouvir a voz lenta, vibrada,
da lendária trombeta, o ictiossauro na gruta
subterrânea escancara a inválida queixada
e, nas patas firmado, atentamente escuta...

Do túrbido cairel betuminoso e horrendo,
que a larga face abrindo, arfa estentoreamente,
o colosso de fogo aos céus alto se erguendo,
descreve na amplidão mil roscas de serpente.

E dobrando, solene, o dorso audacioso,
cinge os flancos do espaço em tantálico ardor.
Entretanto, no céu sereno e grandioso,
rola o sol triunfante a luz do eterno amor.

II
Assim tu, coração, enquanto em paroxismos
despedaças a flor de nossos sentimentos,
e a atiras desfolhada aos pérfidos abismos,
aos ímpetos dos ventos;

Não importa! refulge, esplêndido e espontâneo,
enchendo-nos de luz, caudal veia por veia,
no pino da razão, no ardente céu do crânio,
o eterno sol da Ideia!

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