quinta-feira, 5 de julho de 2018

Temas Poéticos: CREPÚSCULO - II


Crepúsculo

MARIO PEDERNEIRAS
“Outono” (1914)

Eu sempre fui amigo dos estios,
Dos longos dias claros e sadios,
Da Cigarra, do Sol que a vida encerra,
Que alegra a luz e que fecunda a Terra.

Mas estou hoje num estado d'Alma,
Tão de indolência e calma
E tão avesso ás emoções bizarras,

Que não quero saber de sol nem de cigarras.

Nada de força, de vigor, de músculos,
De desejos agudos,
Nem dos desatinos
A que, às vezes, me atiro,
De alguma estranha fantasia nova;
Hoje alegrias e vigores domo
E prefiro
A meia tinta morna dos Crepúsculos,
Num macio carinho de veludos,
A plangência católica dos sinos,
Num fim de tarde, quando a luz repousa,
Ou então, qualquer coisa
Como
N'alma de um violoncelo a surdina da trova.

Olho este fim de tarde e esta sombra que desce
E em tudo alonga e tece
A trama tênue de seu véu de luto...
A alma sentindo evocativa e boa,
Emocionado, escuto
O saudoso rumor do dia que se extingue
E o dia azul que foi, apenas se distingue,
Por um resto de luz que nas alturas sobra,
Por um sino que dobra
Ou uma aza que voa.

Hora triste de aspectos,
Em que vive a emoção de umas longas distâncias,
Feita para sentir as venturas e as ânsias
Da saudade infeliz de uns extintos afetos.
E esta réstea de luz, clara, forte, e sadia,
Numa longa impressão de vigor e de assomo
Suavemente
Esquecida.

Neste trecho de Céu em silêncio e ensombrado,
Evocando
A ventura do dia,
É como
No agitado rumor de uma vida presente,
A saudade de um som evocando o passado,
A cadência de um verso a lembrar uma vida.

★★★

Crepuscular

CAMILO PESSANHA

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, dais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
— Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas de anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
— É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

★★★

Crepúsculo na mata

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

Na tarde tropical, arfa e pesa a atmosfera.
A vida, na floresta abafada e sonora,
Úmida exalação de aromas evapora,
E no sangue, na seiva e no húmus acelera.
Tudo, entre sombras, — o ar e o chão, a fauna e a flora,
A erva e o pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e aera,
A água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera,
— Tudo vozeia e estala em estos de pletora.

O amor apresta o gozo e o sacrifício na ara:
Guinchos, berros, zinir, silvar, ululos de ira,
Ruflos, chilros, frufrus, balidos de ternura...
Súbito, a excitação declina, a febre para:
E misteriosamente, em gemido que expira,
Um surdo beijo morno alquebra a mata escura...

★★★

Sonata ao Crepúsculo

OLAVO BILAC
“Tarde” (1919)

Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, — e emudecei... Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.

Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
— Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmio...
Cala-se o vento... Expira a surdina das aves.

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.

★★★

Crepuscular

RAUL DE LEONI

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

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