domingo, 7 de outubro de 2018

Alexandre Herculano! (Elogio)


Alexandre Herculano!

Essa figura grandiosa na galeria da intelectualidade portuguesa, não tem as linhas suaves e delicadas de Garrett, nem a simplicidade bucólica de Castilho. É duro, sombrio, tonitruante. Soa como em Catedral mediévica o bronze secular. Mas ainda ninguém levantou tão alto, ergueu tanto ao seu lugar a sublime alma da Pátria. Ficou-lhe, talvez, do convívio profundamente íntimo com os gigantes do passado o colorido do seu estilo grave e austero, em que as ideias e as palavras parecem vir até nós envoltas no mistério do “au delá”.

Herculano foi, sobretudo, o adorador intransigente da Verdade e da Justiça. Por elas traçou as grandes batalhas, batalhas ingentes, tremendas, impiedosas, em que ele esmagou a mentira, mas em que sofreu muito mais do que quando empunhava nas fileiras liberais a sua escopeta de soldado.

Os seus livros, mesmo aqueles que eram filhos da imaginação e não se enquadravam nos domínios da História, são, cada um deles, glórias duma língua e dum povo. Perpassa por eles uma vertigem de gênio, dum gênio que recorda mais Heine do que Camões. A alma de Herculano recebeu com o batismo de fogo o batismo romântico.

Aceitou a modernidade corrente literária, porque, espírito de reformador, não lhe saberia resistir. Mas no fundo ele foi, irresistivelmente, um homem do passado, sóbrio de costumes, agarrado ao solo abençoado em que nascera, vagamente apenas recebendo o influxo de além-fronteiras.

Passam a vida a atribuir-lhe influências saxônias. Alguma verdade haverá nisso, mas certo é que tais influências são mais de escola literária do que de modalidade psíquica. Foi o criador da crítica histórica em Portugal e, sob esse aspecto científico, foi, no seu tempo, maior da península ibérica e um dos maiores do mundo culto.

Fica neste lugar com plena justiça, como um homem de quem nós todos, portugueses, temos uma natural e justificada  vaidade. Um povo que tem no seu seio criaturas do valor intelectual e moral de Alexandre Herculano merece o respeito de todo o mundo.


Revista “Lusitânia”, 1 de abril de 1929.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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