quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Metzengerstein (Conto), de Edgar Allan Poe


Metzengerstein

Pestia, eram vivus, moriens tua mors.

Lutero


O horror e a fatalidade se expandiram através de todos os séculos. Para que atribuir uma data à história que vou narrar? Basta-me que na época a que me refiro, existia no centro da Hungria uma crença secreta, mas sólida, nas doutrinas da metempsicose. Nada direi sobre essas doutrinas em si mesmas, sobre sua falsidade ou sua probabilidade. Afirmo, todavia, que boa parte de nossa incredulidade provém, — como diz La Bruyère, que atribui toda nossa infelicidade a essa causa única — de não podermos estar sozinhos.

Havia, porém, alguns pontos na superstição húngara que tendiam acentuadamente para o absurdo. Os húngaros divergiam muito essencialmente de seus chefes do Oriente. Por exemplo, acreditavam que a alma, — transcrevo as expressões de um arguto e inteligente parisiense, — só habita uma única vez um corpo sensível. Assim, um cavalo, um cão, mesmo um homem, não passam da aparência ilusória desses seres.

As famílias Berlifitzing e Metzengerstein se haviam querelado durante séculos. Jamais se viram duas casas tão ilustres reciprocamente exasperadas por tão imortal inimizade. Esse ódio podia encontrar sua origem nas palavras de uma antiga profecia: — um grande nome cairá com uma queda terrível, quando, à imagem do cavaleiro sobre seu cavalo, a mortalidade de Metzengerstein triunfar da imortalidade de Berlifitzing.

Não há dúvida que os termos tinham pouco ou nenhum sentido. Houve causas, porém, mas vulgares, que provocaram, — e isso sem remontar muito longe, — consequências igualmente plenas de acontecimentos. Ademais, as duas casas, que eram vizinhas, tinham por muito tempo exercido uma influência rival nos negócios de um governo tumultuoso. Além disso, é raro que vizinhos tão próximos sejam amigos; e do alto de seus maciços terraplenos os habitantes do castelo Berlifitzing podiam mergulhar seus olhares nas próprias janelas do palácio Metzengerstein. Finalmente, a ostentação de um fausto mais que feudal era pouco próprio para acalmar os sentimentos irritadiços dos Berlifitzing menos antigos e menos ricos. Será, portanto, de surpreender que os termos daquela predição, embora inteiramente extravagantes, tenham tão bem criado e mantido a discórdia entre duas famílias já predispostas às querelas por todas as instigações de uma inveja hereditária? A profecia parecia implicar, — se é que implicava em alguma coisa, — num triunfo final da casa já então mais poderosa, e naturalmente vivia na memória da mais fraca e menos influente, impregnando-se de amarga animosidade.

Welhelm, conde de Berlifitzing, embora, proviesse de elevada origem, não passava na época desta história, de um velho caduco e enfermo e nada possuía de notável, a não ser uma antipatia inveterada e louca contra a família de seu rival, e uma paixão tão forte pelos cavalos e a caça que coisa alguma, nem seus incômodos físicos, nem sua avançada idade, nem o enfraquecimento de seu espírito, podia impedi-lo de participar diariamente dos perigos desses exercícios.

Do outro lado Frederick, barão Metzengerstein, ainda não era maior. Se pai, o ministro G..., morrera moço. Sua mãe, Sra. Maria, logo o acompanhou. Nessa época, Frederick contava dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não representam um longo lapso de tempo; mas uma solidão, numa tão magnifica solidão quanto aquele antigo domínio, a pêndula vibra com solenidade mais profunda e mais significativa.

Em consequência de determinadas circunstâncias ligadas à administração de seu pai, o jovem barão, logo após a mote daquele, entrou na posse de suas vastas propriedades. Raramente se havia visto um nobre da Hungria possuir semelhante patrimônio. Seus castelos eram incontáveis. O maior e mais esplêndido era o palácio Metzengerstein. A linha fronteiriça de seus senhorios jamais fora claramente traçada, mas seu parque principal abrangia uma circunferência de cinquenta milhas.

O advento de um proprietário tão jovem e de caráter tão bem conhecido a uma fortuna assim incomparável, deixava pouco lugar para conjecturas relativamente a sua provável linha de conduta. De fato, no espaço de três dias, a conduta do herdeiro fez empalidecer a fama de Herodes e ultrapassou esplendidamente as esperanças de seus mais entusiastas admiradores. Vergonhosas orgias, perfídias flagrantes, atrocidades incríveis, depressa fizeram seus trêmulos vassalos  compreenderem que coisa alguma, — nem submissão mesquinha de sua parte, nem escrúpulos de consciência da parte dele, — doravante os garantiria contra as garras sem remorsos do pequeno Calígula. Pela noite do quarto dia, reparou-se que havia incêndio nas estrebarias do castelo Berlifitzing, e a opinião unânime da vizinhança anexou o crime de incêndio à lista já horrorosa dos delitos e crueldade do barão.

Quanto ao jovem gentil-homem, durante o tumulto provocado pelo acidente, conservava-se aparentemente imerso em meditação no alto do palácio da família dos Metzengerstein, num imenso aposento deserto. O jogo de tapeçarias, opulento, embora desbotado, que pendia melancolicamente das paredes, representava as figuras fantásticas e majestosas de mil antepassados ilustres. Aqui, sacerdotes ricamente vestidos de arminho, dignitários pontifícios, sentavam-se familiarmente com o autócrata e o soberano, opunham seu veto aos caprichos de um rei temporal ou detinham com o fiat da onipotência papal o cetro rebelde do Grande-Inimigo, príncipe das trevas. Acolá, as sombrias e enormes figuras dos príncipes Metzengerstein, — com seus musculosos corcéis tripudiando sobre os cadáveres dos inimigos caídos; — abalavam os nervos mais firmes com sua vigorosa expressão; e aqui, por sua vez, voluptuosas e brancas qual cisnes, as imagens das damas de tempo antigo flutuavam ao longe nos volteios de uma dança fantástica, aos acordes de uma melodia imaginária.

Mas, enquanto o barão escutava ou fingia escutar a algazarra, que continuava a crescer das estrebarias de Berlifitzing, — e talvez meditando em algum novo rasgo, algum decidido rasgo de audácia, — seus olhos se voltaram maquinalmente para a imagem de um cavalo enorme, de uma cor que não era natural, que figurava na tapeçaria como pertencente a um ancestral sarraceno da família de seu rival. O cavalo ocupava o primeiro plano da cena, — imóvel tal uma estátua, — enquanto um pouco além, atrás dele, seu cavaleiro, vencido, parecia sob o punhal de um Metzengerstein.

Nos lábios de Frederick surgiu uma expressão diabólica, como se ele reparasse na direção que seu olhar tomara involuntariamente. Contudo, não desviou os olhos. Muito longe disso, ele estava inteiramente incapaz de dominar a ansiedade opressiva que parecia descer sobre seus sentidos à semelhança de uma mortalha. Dificilmente conciliava suas sensações incoerentes como as dos sonhos com a certeza de estar acordado. Quanto mais ele contemplava, tanto mais absorvente se tornava o sortilégio, — tanto mais impossível lhe parecia despregar os olhos da fascinação daquela tapeçaria. Como o tumulto do exterior aumentasse repentinamente, ele fez por fim, um esforço que pareceu difícil, e voltou sua atenção para um surto de claridade vermelha projetado em cheio sobre as janelas do aposento pelas cavalariças em chamas.

A ação, todavia, foi apenas momentânea. Seu olhar retornou maquinalmente para a parede. Com grande assombro seu, a cabeça do gigantesco corcel — coisa horrível! enquanto isso, mudara de posição. O pescoço do animal, primeiro como que inclinado pela compaixão para o corpo prostrado de seu senhor, estendia-se agora, rígido e em todo seu tamanho, em direção ao barão. Os olhos, havia pouco invisíveis, tinham agora uma expressão enérgica e humana, e brilhavam com um vermelho ardente e extraordinário; os lábios esticados desse cavalo de fisionomia deixavam inteiramente à mostra seus dentes sepulcrais e repugnantes.

Estupefato de terror, o jovem senhor alcançou a porta cambaleando. Ao abri-la, um clarão vermelho projetou-se ao longe na sala, recortando nitidamente seu reflexo contra a tapeçaria que ondulava; e, enquanto o barão hesitava um instante no limiar, estremeceu ao ver que esse reflexo tomava a posição exata e enchia precisamente o contorno do implacável e triunfante assassino de Berlifitzing sarraceno...

Para desoprimir seu Animo abatido, o barão Frederick buscou precipitadamente o ar livre. Na porta principal do palácio, encontrou três picadores. Estes, com muita dificuldade e sério risco de suas vidas, dominavam os saltos convulsivos de um gigantesco cavalo cor de fogo.

— De quem é esse cavalo? Onde o encontraram?  — perguntou o jovem com voz bulhenta e rouca, reconhecendo imediatamente que o misterioso corcel da tapeçaria era perfeita réplica do encolerizado animal que estava em sua frente.

— É de sua propriedade, senhor —  retrucou um dos picadores. — Pelo menos nenhum outro proprietário o reclamou. Nós o agarramos quando ele fugia, todo fumegante e espumando de raiva, das cavalariças incendiadas do castelo de Berlifitzing. Supondo que pertencesse ao haras de cavalos estrangeiros do velho conde, nós o trouxemos como salvado.  Mas os lacaios negam-se a reconhecer qualquer direito sobre o animal, o que é estranho, visto exibir ele sinais evidentes do fogo que provam que escapou por pouco.

As letras W. v. B. também estão marcadas a ferro, muito distintamente em sua testa — interrompeu um segundo picador; supus que fossem as iniciais de Wilhelm von Berlifitzing, mas toda a gente do castelo afirma positivamente que jamais viu o animal.

— Extremamente singular disse o jovem barão, com ar abstrato e parecendo inconsciente da significação de suas palavras. — É como dizem, um cavalo notável, um cavalo prodigioso! Embora seja, como repararam com exatidão, de caráter arisco e intratável; vamos! Que ele me pertença de bom grado, acrescentou após uma pausa; talvez um cavaleiro igual a Frederick de Metzengerstein seja capaz de domar o próprio diabo das cavalariças de Berlifitzing.

— O senhor está enganado, senhor; o cavalo, como creio que dissemos, não pertence às cavalariças do conde: se assim fora, conhecemos perfeitamente nosso dever para trazê-lo à presença de uma nobre pessoa de sua família.

— É verdade! — observou o barão secamente.

Nesse instante um jovem criado de quarto chegou do palácio, todo corado e pressuroso. Sussurrou ao ouvido de seu senhor o caso da súbita desaparição de um pedaço da tapeçaria, num aposento que ele designou, entrando então em pormenores de caráter minucioso e circunstanciado; mas como tudo isso fosse transmitido em voz muito baixa, nenhuma palavra transpirou capaz de satisfazer a curiosidade excitada dos picadores.

O jovem Frederick durante a conversação parecia dominado de emoções variadas. Contudo, depressa recuperou sua calma e uma expressão de resoluta maldade já estava estampada em sua fisionomia, quando expediu ordens peremptórias a fim de que o aposento em questão fosse imediatamente condenado e a chave entregue em suas próprias mãos.

— O senhor soube da morte lamentável de Berlifitzing, o velho caçador? disse ao barão um de seus vassalos, após a partida do pajem, enquanto o enorme corcel que o gentil-homem acabava de adotar como seu, saltava e se atirava com fúria redobrada através da longa avenida que se estendia do palácio às cavalariças de Metzengerstein.

— Não disse o barão, voltando-se subitamente para quem lhe falava; — morte! estás dizendo?

— É a pura verdade, senhor; e suponho que para alguém do seu nome, isso não seja uma informação muito desagradável.

Um rápido sorriso perpassou pelo rosto do barão.

— Como morreu ele?

— Em seus imprudentes esforços para salvar a parte predileta de seu haras de caça; pereceu miseravelmente nas chamas.

— Ver... da... de! — exclamou o barão, como que lenta e gradualmente impressionado por alguma evidência misteriosa.

— Verdade — repetiu o vassalo.

— Horrível! — disse o rapaz com muita calma, e voltou tranquilamente para o palácio.

A partir dessa época verificou-se uma transformação marcada na conduta exterior do dissoluto jovem, barão Frederick von Metzengerstein. Na realidade, sua conduta desapontava todas as esperanças e inutilizava as manobras de mais de uma progenitora. Seus hábitos e maneiras tornavam-se cada vez mais ríspidos e deixaram, mais do que nunca, de apresentar o menor ponto de contato com os da aristocracia da região. Nunca era visto fora dos limites de seu domínio e no vasto mundo social onde vivia absolutamente sem companheiro, — a menos que o grande cavalo impetuoso, fora da natureza, cor de fogo, que ele passou a montar continuamente a partir dessa época, possuísse algum misterioso direito ao título de amigo.

Entretanto, recebia periodicamente numerosos convites por parte da vizinhança. — “O barão honrará nossa festa com sua presença?” — "o barão a nós se reunirá para uma caça de javali?” — "Metzengerstein não caça";  — “Metzengerstein não irá”,  eram essas as suas arrogantes e lacônicas respostas.

Esses reiterados insultos não podiam ser suportados por uma nobreza imperiosa. Tais convites se tornaram menos cordiais, menos frequentes e com o tempo cessaram inteiramente. Ouviu-se a viúva do conde Berlifitzing manifestar o desejo "de que o barão estivesse em casa quando não o desejasse estar, visto ele desprezar a companhia de seus iguais; e que estivesse a cavalo quando não o desejasse, visto preferir a companhia de um cavalo". Isto certamente não passava da explosão tola de uma desavença hereditária e provava que nossas palavras se tornam singularmente absurdas quando lhes desejamos emprestar uma forma singularmente enérgica.

As pessoas caritativas, contudo, atribuíam a transformação de maneiras do jovem gentil-homem à natural tristeza de um filho prematuramente privado de seus pais, — olvidando, todavia, sua despreocupada e atroz conduta durante os dias que se seguiram imediatamente a essa perda. Houve alguns que simplesmente o acusaram de fazer uma ideia exagerada de sua importância e de sua dignidade. Outros, por sua vez (e entre estes se pode citar o médico da família), falaram sem hesitação de uma melancolia mórbida e de um mal hereditário; entre a multidão, entretanto, circulavam insinuações mais tenebrosas, de caráter mais equívoco.

Na realidade, o perverso apego do barão à sua montaria recentemente adquirida, apego que parecia haurir nova força em cada novo exemplo dado pelo animal de seus ferozes e demoníacos pendores, acabou tornando-se, aos olhos de todas as criaturas sensatas, uma ternura horrível e contra a natureza. Na cintilação do meio-dia, — nas horas mortas da noite, — doente ou bem disposto, na bonança ou na tempestade, o jovem Metzengerstein parecia pregado à sela do colossal cavalo, cujas intratáveis audácias tanto correspondiam a seu próprio caráter.

Além disso, havia circunstâncias que, relacionadas com acontecimentos recentes emprestavam caráter sobrenatural monstruoso à mania do cavaleiro e às faculdades do animal. O espaço que ele ultrapassava de um salto, fora cuidadosamente medido e verificou-se que excedia por uma diferença assombrosa às conjeturas mais condescendentes e mais exageradas. O barão, além disso, não se utilizava para o animal de nenhum nome particular, embora todos os cavalos de seu haras tivessem designações próprias. O cavalo em questão tinha sua estrebaria a certa distância das outras; e, quanto ao tratamento e a todo o serviço necessário, ninguém, exceto o proprietário em pessoa, se arriscava a fazê-lo, nem mesmo a penetrar no cercado onde se erguia sua cavalariça particular. Reparou-se, também, que, embora os três palafreneiros que se haviam apoderado do corcel, quando ele fugia do incêndio de Berlifitzing, tivessem conseguido detê-lo graças a uma corrente de nó corrediço, nenhum dos três, contudo, podia afirmar com segurança que durante a perigosa luta, ou em algum momento posterior, tivesse jamais colocado a mão no corpo do animal. Provas de particular inteligência reveladas na conduta do nobre e fogoso cavalo, certamente não bastariam para provocar uma atenção absurda. Mas havia, neste caso, determinadas circunstâncias que teriam forçado os espíritos mais céticos e mais fleumáticos: assim, dizia-se que por vezes animal fizera a multidão curiosa recuar de pavor perante a profunda e impressionante significação de sua marca, —  que às vezes o jovem Metzengerstein empalidecia e fugia ante a súbita expressão de seu olhar grave e quase humano.

Entres toda a criadagem do barão, não houve ninguém que duvidasse da extraordinária e fervorosa afeição que as esplêndidas qualidades de seu cavalo provocavam no jovem gentil-homem; ninguém, com exceção pelo menos de um insignificante e importuno pajenzinho cuja ofuscante fealdade era encontrada por toda a parte e cujas opiniões tinham o mínimo de importância possível. Tinha ele a ousadia de afirmar  — se todavia suas ideias merecem ser mencionadas, que seu senhor jamais o montara sem um inexplicável e quase imperceptível arrepio e que, ao regressar de cada uma de suas longas e habituais cavalgatas, uma expressão de triunfante perversidade contorcia todos os músculos de seu rosto.

Durante uma noite de tempestade, Metzengerstein, saindo de um sono pesado, desceu tal um maníaco de seu quarto e, montando celeremente o cavalo, precipitou-se aos saltos através do labirinto da floresta.

Um acontecimento tão comum não podia despertar particularmente a atenção: seu regresso, porém, foi aguardado com intensa ansiedade por todos os seus lacaios, quando, após algumas horas de ausência, os prodigiosos e magníficos edifícios do palácio Metzengerstein, começaram a estalar e a tremer até os alicerces sob a ação de braseiro imenso e indomável, — uma massa espessa e lívida.

Como as chamas quando foram avistadas pela primeira vez já tivessem feito tamanho progresso que todos os esforços para salvar uma parte qualquer das construções teriam sido evidentemente inúteis, toda a população da vizinhança se conservava indolentemente em volta num assombro silencioso senão apático. Mas um objeto terrível e novo bem depressa fixou a atenção da turba, e demonstrou a que ponto é mais intenso o interesse provocado nos sentimentos da turba pela contemplação de uma agonia humana como aquele originado dos mais pavorosos espetáculos da matéria inanimada.

Na longa avenida de velhos carvalhos que principiava na floresta e morria na entrada principal do palácio Metzengerstein, um corcel, conduzindo um cavaleiro de cabeça nua e em desordem, era visto a saltar com uma impetuosidade que desafiava o próprio Demônio da Tempestade.

O cavaleiro, evidentemente, não era o senhor nessa carreira desenfreada. A angústia de sua fisionomia, os esforços convulsivos de todo seu ser, testemunhavam uma luta sobre-humana, mas som algum, exceto um grito único, se escapava de seus lábios dilacerados que ele mordia de lado a lado no paroxismo de seu terror. Num instante, o choque dos cascos ressoou com ruído agudo e penetrante, mais alto que o rugir das chamas e o ganir do vento, — mas um instante e, atravessando de um só salto a grande porta e o fosso, o corcel se precipitou sobre as escadarias oscilantes do palácio e desapareceu com seu cavaleiro no turbilhão daquele fogo caótico.

A fúria da tempestade abrandou de súbito e uma calma absoluta substituiu-a majestosamente. Uma chama branca continuava a envolver o edifício como um sudário e, projetando-se ao longe na atmosfera tranquila, dardejava uma claridade de esplendor sobrenatural, do mesmo tempo que uma nuvem de fumaça desabava pesadamente sobre as construções, revestindo a forma nítida de um gigantesco cavalo.
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(Tradutor desconhecido)

Revista "Vamos Ler!", edição de 25 de novembro de 1943.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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