10/29/2018

"Pollice verso" (Conto), de Monteiro Lobato



“Pollice verso”

Dos dezesseis filhos do coronel Inácio da Gama cedo revelou o caçula singulares aptidões para médico. Pelo menos assim julgara o pai, como quer que o encontrasse na horta interessadíssimo em destripar um passarinho agonizante.

— Descobri a vocação de Nico — disse o arguto sujeito à mulher. — Dá um ótimo esculápio. Inda agorinha o vi lá fora dissecando um sanhaço vivo.

Hão de duvidar os naturalistas estremes que o homem dissesse “dissecando”. Um coronel indígena falar assim com este rigor de glótica é coisa inadmissível aos que avaliam o gênero inteiro pela meia dúzia de pafúncios agaloados do seu conhecimento. Pois disse. Este coronel Gama abria exceção à regra; tinha suas luzes, lia seu jornal, devorara em moço o Rocambole, as Memórias de um médico e acompanhava debates da Câmara com grande admiração por Rui Barbosa, Barbosa Lima, Nilo e outros. Vinha-lhe daí um certo apuro na linguagem, destoante do achavascado ambiente glóssico da fazenda, onde morava.

Quem nada percebeu foi dona Joaquininha, a avaliar pelo ar emparvecido que deu à cara.

— Dissecando — explicou superiormente o marido — quer dizer destripando.

— E deixou você que ele cometesse semelhante malvadeza? — exclamou a excelente senhora, compadecida.

— Lá vens com a pieguice!... Deixa-lo brincar, que é da idade, eu em pequeno fazia piores e nem por isso virei nenhum ogre.

(Outra vez! “Ogre”! O homem nascera precioso. Este ogre devia ser reminiscência do Ogre da Córsega, Napoleão chamado. Perdoem-lho à guisa de compensação à parcimônia da esposa, cujo vocabulário era dos mais restritos.)

Dona Joaquina fechou a cara, e quando o pequeno facínora entrou do quintal pediu-lhe contas da perversidade, asperamente. O coronel, que nesse momento lia na rede as folhas recém-chegadas, houve por bem interromper a ingestão de um flamante discurso sobre a questão do Amapá para acudir em apoio ao fedelho.

— Uma vez que será médico, não vejo mal em ir-se familiarizando com a anatomia...

— A anatomia está ali! — rematou a encolerizada senhora apontando a vara de marmelo oculta atrás da porta. — Eu que saiba que o senhor me anda com judiarias aos pobres animaizinhos, que te disseco o lombo com aquela anatomia, ouviu, seu carniceiro?

O menino raspou-se; o coronel retomou resignado o fio do discurso; e o caso do sanhaço ficou por ali.

Mas não ficou por ali a malvadez de Nico. Acautelava-se agora. Era às escondidas que “depenava” moscas, brinquedo muito curioso, consistente em arrancar-lhes todas as pernas e asas para gozar o sofrimento dos corpinhos inertes. Aos grilos cortava as saltadeiras, e ria-se de ver os mutilados caminharem como qualquer bichinho de somenos.

Gatos e cães farejavam-no de longe, aterrorizados. Fora ele quem cortara o rabo ao mísero Joli da agregada Emiliana, e era quem descadeirava todos os gatos da fazenda. Isso, longe. Em casa, um anjinho. E assim, anjo internamente e demônio extramuros, cresceu até à mudança de voz. Entrou nesse período para um colégio, e deste pulou para o Rio, matriculado em medicina.

O emprego que lá deu aos seis anos do curso soube-o ele, os amigos e as amigas. Os pais sempre viveram empulhados, crentes de que o filho era uma águia a plumar-se, futuro Torres Homem de Itaoca, onde, vendida a fazenda, então moravam. Nesta cidade tinham em mente encarreirar o menino, para desbanque dos quatro esculápios locais, uns onagros, dizia o coronel, cuja veterinária rebaixava os itaoquenses à categoria de cavalos.

Pelas férias o doutorando aparecia por lá, cada vez “mais outro”, desempenado, com tiques de carioca, “ss” sibilantes, roupas caras e uns palavreados técnicos de embasbacar.

Quando se formou e veio de vez, estava já definitivo, nos 24 anos. Não se lhe descreve aqui a cara, porque retratos por meio de palavras têm a propriedade de fazer imaginar feições às vezes opostas às descritas. Dir-se-á unicamente que era um rapaz espigado, entre louro e castanho, bonito mas antipático — com o olhar de Stuart Holmes, diziam as meninas doutoras em cinemas. No queixo trazia barba de médico francês, coisa que muito avulta a ciência do proprietário. Doentes há que entre um doutor barbudo e um glabro, ambos desconhecidos, pegam sem tir-te no peludo, convictos de que pegam no melhor.

O doutor Inacinho, entretanto, aborrecia aquele meio acanhado “onde não havia campo”.

“Isto aqui” — contava em carta aos colegas do Rio — “é um puro degredo. Clínica escassa e mal pagante, sem margem para grandes lances, e inda assim repartida por quatro curandeiros que se dizem médicos, perfeitas vacas de Hipócrates, estragadores de pepineira com suas consultinhas de cinco mil-réis. O cirurgião da terra é um Doy en de sessenta anos, emérito extrator de bichos-de-pé e cortador de verrugas com fio de linha. Dá iodureto a todo mundo e tem a imbecilidade de arrotar ceticismo, dizendo que o que cura é a natureza. Estes rábulas é que estragam o negócio” — etc.

Negócio, pepineira, grandes lances — está aqui a psicologia do novo médico. Queria pano verde para as boladas gordas.

“Além disso” — continuava —, “é-me insuportável a ausência da Yvonne e de vocês. Não há cá mulheres, nem gente com quem uma pessoa palestre. Uma pocilga! As boas pândegas do nosso tempo, hein?”

Ora aqui está: Yvonne, os amigos, as pândegas foram o melhor do curso. Com mão diurna e noturna manuseou-os a estes tratadistas de anatomia, da fisiologia, da calaçaria, e agora torturavam-no saudades.

Yvonne volta à pátria, deixando cá a meia dúzia de amantes que depenara a morrerem de saudades dos seus encantos. Antes de ir-se deu a cada parvo uma estrelinha do céu, para que, a tantas, se encontrassem nela os amorosos olhares. Os seis idiotas todas as noites ferravam os olhos, um no “Taureau” (ela distribuíra as constelações em francês), outro na “Écrevisse”, outro na “Chevelure de Bérenice”, o quarto, no “Bélier”, o quinto em “Antarés”, e o derradeiro na “Épi de la Vièrge”.

A garota morria de rir no colo dum apache montmartre, contando-lhe a história cômica dos seis parvos brasileiros e das seis constelações respectivas. Liam juntos as seis cartas recebidas a cada vapor, nas quais os protestos amorosos em temperatura de ebulição faziam perdoar a ingramaticalidade do francês antártico. E respondiam de colaboração, em carta circular, onde só variava o nome da estrela e o endereço.

Esta circular era o que havia de terno. Queixava-se a rapariga de saudades, “essa palavra tão poética que fora aprender no Brasil, o belo país das palmeiras, do céu azul, e dos michês”. Acoimava-os de ingratos, já em novos amores, ao passo que a pobrezinha, solitária e triste “comme la juriti”, consagrava os dias a rememorar o doce passado.

Eis explicada a razão pela qual, nas noites límpidas, ficava Inacinho à janela, pensativo, de olhos postos na “Chevelure de Bérenice”.

O sonho do moço era enriquecer às rápidas para reatar a gostosura do idílio interrompido.

— Paris!... — balbuciava à meia-voz nos momentos de devaneio, semicerrando os olhos no antegozo do paraíso. Sonhava-se lá, riquinho, com Yvonne pelo braço, flanando no “Bois”, tal qual nos romances; e a realização deste sonho era o alvo de todos os seus anelos. Jurara à amiga ir ter com ela logo que a prosperidade lhe abastasse meios. O tempo, entretanto, corria sem que nenhuma piabanha de vulto lhe caísse na rede. Tardava a bolada...

Entre os médicos antigos de Itaoca o doutor Inacinho gozava péssimo renome — se renome péssimo pode ser coisa de gozo.

— Uma bestinha! — dizia um. — Eu fico pasmado mas é de saírem da Faculdade cavalgaduras daquele porte! É médico no diploma, na barbicha e no anel do dedo. Fora daí, que cavalo!

— E que topete! — acrescentava outro. — Presumido e pomadista como não há segundo. Não diz “humores” ou “sífilis”; é mal luético. Eu o que queria era pilhá-lo numa conferência, para escachar...

O pai, já viúvo então, esse babava-se de orgulho. Filho médico, e ainda por cima destabocado e bem falante como aquele... Era de moer de inveja aos mais. Enlevava-o, sobretudo, aquele modo alcandorado de exprimir-se. Revia-se no filho, o coronel...

— A terminologia inteira da ciência alopata, coisas em grego e latim, circunvolve naquela cabecinha — disse ele uma vez ao vigário, que o olhou de revés, por cima dos óculos, ao som daquele mirífico circunvolve.

E assim corria o tempo, entre as diatribes das duas ciências, a moça e a velha, com entremeio dos belos vocábulos que o coronel nunca perdia de meter na falação.

Entrementes adoeceu o major Mendanha, capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca. Deu-lhe uma súbita aflição, uma canseira, e a mulher alvoroçou-se.

— Não é nada, isto passa — acalmou ele.

— Passará ou não!... O melhor é chamar um médico.

— Qual, médico! Isto é nada.

Não era tão nada assim, como pretendia. À noite agravou-se-lhe o mal-estar, e o velho, apreensivo, cedeu às instâncias da esposa. Chamar a qual deles, porém?

— Pois o Moura — disse a mulher, para quem o da sua confiança era este Moura.

— Deus me livre! — retrucou o doente. — Aquilo é homem mal azarado. Pois não foi quem tratou Zeca, Peixoto, Jerônimo? E não esticaram a canela todos três?

— O doutor Fortunato, então...

— Fortunato! Já esqueceu você do que me ele fez por ocasião do júri, o tranca? Cobrar cinquenta mil-réis por um atestado falso? Não me pilha mais um vintém, o pirata...

No doutor Elesbão não se falou: era adversário político.

— Chama-se Galeno...

— É tão mosca-morta Galeno... — gemeu o doente com cara de desconsolo. — Andou anos a tratar Faria do Hotel como diabético, e já o dava por morto quando um curandeiro da roça o pôs saníssimo com um coco-da-baía comido em jejum. Eram solitárias os diabetes do homem... Só se vier o filho de Inácio?!

Aqui foi a mulher quem protestou.

— Eu, a falar a verdade, prefiro a ruindade de Galeno, a má sorte de Moura, e até Elesbão...

— Esse, nunca!... — interrompeu o velho, num assomo de rancor político.

—... do que a antipatia do tal doutorzinho. Os outros ao menos têm a experiência da vida, ao passo que este...

— Este, quê?

— Este, Mendanha, é moço bonito, que o que quer é dinheiro e pândega, você não vê?

— Qual!... — emberrinchou o teimoso. — Sempre há de saber um pouco mais que os velhos; aprendeu coisas novas. No caso de Nhazinha Leandro, não a pôs boa num ápice?

— Também que doença! Prisão de ventre...

— Seja prisão ou soltura, o caso foi que a curou. Mande chamar o menino.

— Olhe, olhe! Depois não se arrependa!...

— Mande, mande chamá-lo e já, que não me estou sentindo bem.

Inacinho veio. Interrogou detidamente o major, tomou-lhe o pulso, auscultou-o com o semblante carregado e disse, depois de longa pausa:

— Não diagnostico por enquanto, porque não sou leviano como “certos” por aí. Sem auscultação estetoscópica nada posso dizer. Voltarei mais tarde.

— Vê? — disse Mendanha à esposa logo que o moço partiu. — Fosse Moura, ou qualquer dos tais, e já dali da porta vinha berrando que era isto mais aquilo. Este é consciencioso. Quer fazer uma auscultação, quê?

— Estereoscópica, parece.

— Seja o que for. Quer fazer a coisa pelo direito, é o que é.

Voltou o moço logo depois e com grande cerimonial aplicou o instrumento no peito magro do doente. Vincou de novo a fisionomia das rugas da concentração e concluiu com imponente solenidade:

— É uma pericardite aguda agravada por uma flegmasia hepático-renal.

O doente arregalou o olho. Nunca imaginara que dentro de si morassem doenças tão bonitas, embora incompreensíveis.

— E é grave, doutor? — perguntou a mulher, assustada.

— É e não é! — respondeu o sacerdote. — Seria grave se, modéstia de lado, em vez de me chamarem a mim chamassem a um desses mata-sanos que por aí rabulejam. Comigo é diferente. Tive no Rio, na clínica hospitalar, numerosos casos mais graves e a nenhum perdi. Fique descansada que porei o seu marido completamente são dentro de um mês.

— Deus o ouça! — rematou a mulher acompanhando-o até a porta e já meio reconciliada com a “antipatia”.

— Então? — perguntou-lhe o doente. — Fiz ou não fiz bem em chamar este moço?

— Parece... Deus queira tenhamos acertado, porque isto de médicos é sorte.

— Não é tanto assim — reguingou o velho. — Os que sabem, conhecem-se por meia dúzia de palavras, e este moço ou muito me engano ou sabe o que diz. Fosse Fortunato...

E riu-se lá consigo ao imaginar as doencinhas caseiras que Fortunato descobriria nele...

A doença do major Mendanha ninguém soube qual fosse. O lindo diagnóstico de Inacinho não passava de mera sonoridade pelintra. Bacorejara ao moço que o velho tinha o coração fraco e qualquer maromba no fígado. Isto porque lhe doía, a ele, aqui no “vazio”; aquilo por ser natural. Confessá-lo com esta sem-cerimônia, porém, seria fazer clínica à moda de Fortunato, e desmoralizar-se. Além do mais, quem sabe lá se não estaria ali o sonhado lance? Prolongar a doença... Engordar a maquia...

Inácio não enxergava em Mendanha o doente, mas uma bolada maior ou menor, conforme a habilidade do seu jogo. A saúde do velho importava-lhe tanto como as estrelas do céu — exceção feita à “Cabeleira de Berenice”. Como desadorasse a medicina, não vendo nela mais que um meio rápido de enriquecer, nem sequer lhe interessava o “caso clínico” em si, como a muitos. Queria dinheiro, porque o dinheiro lhe daria Paris, com Yvonne de lambuja. Ora, o major tinha trezentas apólices... Dependia pois da sua artimanha malabarizar aquele fígado, aquele coração, aquelas palavras gregas e, num prestidigitar manhoso, reduzir tudo a uns tantos contos de réis bem sonantes.

Mandou carta à francesinha: “Os negócios melhoraram. Estou metido em uma empresa que se me afigura rendosa. Saindo tudo a contento, tenho esperanças de inda este ano beijar-te sob a luz da terna confluente dos nossos olhares...”.

O velho piorou com a medicação. Injeções hipodérmicas, cápsulas, pílulas, poções, não houve terapêutica que se não experimentasse desastrosamente.

— É mais grave o caso do que eu supunha — disse o doutor à mulher — e os escrúpulos do meu sacerdócio aconselham-me a pedir conferência médica.

Os colegas da terra são os que a senhora sabe; entretanto, submeto-me a ouvi-los.

— Não, doutor! Mendanha não quer ouvir falar nos seus colegas; só tem confiança no doutor Inácio Gama.

— Nesse caso...

Inacinho voltou para casa esfregando as mãos. Estava só em campo, com todos os ventos favoráveis. Paris corria-lhe ao encontro...

Malgrado seu, na semana seguinte, inesperadamente, o raio do major apresentou melhoras. Sarava, o patife! E a Inácio palpitou que com mais uma quinzena daquela arribação o homem se punha de pé.

Fez os cálculos: trinta visitas, trinta injeções e tal e tal: três contos. Uma miséria! Se morresse, já o caso mudava de figura, poderia exigir vinte ou trinta.

Era costume dos tempos fazerem-se os médicos herdeiros dos clientes. Serviços pagos em caso de cura aí com centenas de mil-réis, em caso de morte reputavam-se em contos. Se os interessados relutavam no pagamento, a questão subia aos tribunais, com base no arbitramento. Os árbitros, mestres do mesmo ofício, sustentavam o pedido por coleguismo, dizendo em latim: “Hodie mihi, cras tibi”, cuja tradução médica é: “Prepare-se você para me fazer o mesmo, que também pretendo dar a minha cartada”.

Inácio ponderou tudo isto. Mediu prós e contras. Consultou acórdãos. E tão absorvido no problema andou que à noite se deixava ficar à janela até tarde, mergulhado em cismas, sem erguer os olhos para a Berenice estelar.

O que a sua cabeça pensou ninguém o saberá jamais. Têm as ideias para escondê-las a caixa craniana, o couro cabeludo, a grenha; isso por cima; pela frente têm a mentira do olhar e a hipocrisia da boca. Assim entrincheiradas, elas, já de si imateriais, ficam inexpugnáveis à argúcia alheia. E vai nisso a pouca de felicidade existente neste mundo sublunar. Fosse possível ler nos cérebros claro como se lê no papel e a humanidade crispar-se-ia de horror ante si própria...

Positivo como era Inacinho, supomos que meteu em equação o problema das duas vidas.

Primeira hipótese:
Cura do major = 3 contos.
Três contos = Itaoca, pasmaceira etc.

Segunda hipótese:
Morte do major = 30 contos.
Trinta contos = Paris, Yvonne, “Bois”...

Depois desta sólida matemática, esta anavalhante filosofia: “A morte é um preconceito. Não há morte. Tudo é vida. Morrer é transitar de um estado para outro. Quem morre, transforma-se. Continua a viver inorganicamente, transmutado em gases e sais, ou organicamente, feito lucílias, necróforas e uma centena de outras vidinhas esvoaçantes. Que importa para a universal harmonia das coisas esta ou aquela forma? Tudo é vida. A vida nasce da morte. Eu preciso, eu ‘quero’ viver a minha vida. Há óbices no caminho? Afasto-os...”

Fiquemos por aqui. Não há tempo para filosofias, porque o major Mendanha piorou subitamente e lá agoniza. Morreu.

O atestado de óbito deu como causa mortis flegmatite complicada com necrose elipsodal. Podia batizá-la de embolia estourada, nó cego na tripa, tuberculose mesentérica, estupor granuloso peristáltico, ou qualquer outro dos cem mil modos de morrer à grega.

Morreu, e está dito tudo. Morreu, e o doutor Inacinho apresentou no inventário uma conta de chegar: 35 contos de réis.

Os herdeiros impugnaram o pagamento. Move-se a traquitana da Justiça. Mói-se o palavreado tabelionesco. Saem das estantes carunchosos trabucos romanos. Procede-se ao arbitramento.

Os árbitros são Fortunato e Moura, os quais disseram entre si:

— Que grande velhaco! Mata o homem e ainda por cima quer ficar-se herdeiro! O tratamento, alto e malo, não vale cem mil-réis. Que valha duzentos. Que valha um conto ou três. Mas trinta e cinco? É ser ladrão!...

No laudo, entretanto, acharam relativamente módico o pedido — sem dizer relativo ao quê.

A Justiça engoliu aquele papel, gestou-o com outros ingredientes da praxe e, a cabo de prazos, partejou um monstrozinho chamado sentença, o qual obrigava o espólio a aliviar-se de trinta e cinco contos de réis em proveito do médico, mais as custas da esvurmadela forense. Inacinho, radiante, embolsou os cobres e reconciliou-se com os dois colegas que, afinal de contas, não eram os cretinos que supusera.

— Colegas, o passado, passado; agora, para a vida e para a morte!

— Pois está visto! — disse Fortunato. — Tolo andou você em abrir luta com os que ajudam o negócio. O coleguismo: eis a nossa grande força!...

— Tem razão, tem razão. Criançada minha, ilusões, farofas que a idade cura...

Que mais? Que voou a Paris? É claro. Voou e lá está sob o pálio da grenha astral, a passear com a Yvonne no “Bois”.

Ao pai escreveu:

“Isto é que é vida! Que cidade! Que povo! Que civilização! Vou diariamente à Sorbonne ouvir as lições do grande Doy en e opero em três hospitais. Voltarei não sei quando. Fico por cá durante os 35 contos, ou mais, se o pai entender de auxiliar-me neste aperfeiçoamento de estudos.”

A Sorbonne é o apartamento em Montmartre onde compartilha com o apache de Yvonne o dia da rapariga. Os três hospitais são os três cabarés mais à mão.

Não obstante, o pai cismou naquilo cheio de orgulho, embora pesaroso: não estar viva Joaquininha para ver em que alturas pairava Nico — Nico do sanhaço estripado... Em Paris! Na Sorbonne!... Discípulo querido do Doy en, o grande, o imenso Doy en!...

Mostrou a carta aos médicos reconciliados.

— Isso de hospitais — gemeu o invejoso Fortunato — é uma mina. Dá nome. Para botar nos anúncios é de primeiríssima.

— E o Doy en? — murmurou, baboso, o embevecido pai. — Não há como a gente apropinquar-se das celebridades...

— É isso mesmo — concluiu Moura, relanceando um olhar a Fortunato num comentário mudo àquele mirífico apropinquamento. E os dois enxugaram, a uma, os copos da cerveja comemorativa mandada abrir pelo bem-aventurado coronel.


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Transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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