10/23/2018

“Quero ajudar o Brasil...” (Conto), de Monteiro Lobato



“Quero ajudar o Brasil...”
Já contei este caso. Vou contá-lo de novo. Hei de contá-lo toda a vida, porque é um grande conforto de alma. É a coisa mais bonita que ainda vi.
Foi no começo de nossa tremenda campanha pró-petróleo. Havíamos com Oliveira Filho e Pereira de Queiroz lançado a Companhia Petróleos do Brasil — em que ambiente, santo Deus! Tudo contra. Todos contra. O governo contra. Os homens de dinheiro contra. Os bancos contra. A “sensatez” contra.
Ceticismo absoluto em todas as camadas. Uma guerra surda por baixo, subterrânea, que naquele tempo não sabíamos donde emanava. Guerra de difamação ao ouvido — a pior de todas. As coisas ditas em voz alta não causam efeito; ao ouvido, sim.
“ — Fulano é um escroque."
Enunciadas assim ao natural não impressionam a ninguém, tanto andamos afeitos a ouvir acusações dessas. Mas a mesma frase dita muito em reserva, ao ouvido, com a mão em tapa-som, “para que ninguém mais ouça", cala fundo, faz-se imediatamente crida — e quem a recebe corre a propagá-la como dogma.
A guerra contra os promotores da nova companhia era assim: de ouvido em ouvido, as mãos sempre em tapa-som — para que ninguém mais ouvisse o que era preciso que todos soubessem. A calúnia é a rainha da técnica.
Nos seus manifestos os incorporadores haviam sido em extremo leais. Admitiam a possibilidade de fracasso, com perda total do capital empatado. Pela primeira vez na vida comercial deste país se propunha ao público um negócio com admissão das duas faces: vitória esplêndida, em caso de encontro do petróleo, ou perda total dos dinheiros invertidos, no caso reverso. Esta franqueza impressionou. Inúmeros subscritores vieram arrastados por ela.
— “Vou tomar tantas ações só por terem Os senhores mencionado a hipótese da perda total dos dinheiros. Isso me convenceu de que se trata de negócio sério. Os negócios não-sérios só acenam com lucros, jamais com possibilidades de perda.”
A lealdade dos incorporadores foi vencendo o público miúdo. Só aparecia no escritório gente simples, tentada pelas vantagens tremendas do negócio em caso de sucesso. O raciocínio de todos era o mesmo de na compra dum bilhete das grandes loterias do Natal.
Os incorporadores levaram o escrúpulo a ponto de lembrar a cada novo subscritor a hipótese da perda total do dinheiro.
— “Sabe que corre o risco de perder o seu cobre? Sabe que se não tocarmos em petróleo o fracasso da empresa será completo?
— “Sei. Li o manifesto.
— Mesmo assim subscreve?
— Mesmo assim.
— Então assine.
E desse modo iam sendo as ações absorvidas pelo público.
Certo dia entrou-nos pela sala um preto modestamente vestido, de ar humilde. Recado de alguém, certamente.
— Que deseja?
— Quero tomar umas ações.
— Para quem?
— Para mim mesmo.
Oh! O fato surpreendeu-nos. Aquele homem tão humilde a querer comprar ações. E logo no plural. Quereria duas, com certeza, uma para si, outra para a mulher. Isso importaria em duzentos mil-réis, quantia que já pesa num orçamento de pobre. Quantos sacrifícios não teria de fazer o casal para pôr de lado duzentos mil-réis ratinhados ao salário miserável? Para um ricaço tal quantia corresponde a um níquel; para um operário é uma fortuna, é um capital. Os salários no Brasil são a miséria que sabemos.
Repetimos ao extraordinário preto a cantiga de sempre.
— “Sabe que há mil dificuldades neste negócio e que corremos o risco de perder a partida, com destruição de todo o capital empatado?
— Sei.
— E mesmo assim quer tomar ações?
— Quero.
— Está bem. Mas se houver fracasso não se queixe de nós. Estamos a avisá-lo com toda a lealdade. Quantas ações quer? Duas?
— Quero trinta.
Arregalamos os olhos e, duvidando dos nossos ouvidos, repetimos a pergunta.
— “Trinta, sim” — confirmou o preto.
Entreolhamo-nos. O homem devia estar louco. Tomar trinta ações, empatar três contos de réis num negócio em que a gente mais endinheirada não se atrevia a ir além de algumas centenas de mil-réis, era evidentemente loucura. Só se aquele homem de pele preta estava escondendo o leite — se era rico, muito rico. Na América existem negros riquíssimos, até milionários; mas no Brasil não há negros ricos. Teria aquele, por acaso, ganho algum pacote na loteria?
— Você é rico, homem?
— Não. Tudo quanto tenho são estes três contos que juntei na Caixa Econômica. Sou empregado na Sorocabana há muitos anos. Fui juntando de pouquinho em pouquinho. Hoje tenho três contos.
— E quer pôr tudo num negócio que pode falhar?
— Quero.
Entreolhamo-nos de novo, incomodados. Aquele raio de negro nos atrapalhava seriamente. Forçava-nos a uma inversão de papéis. Em vez de acentuarmos as probabilidades felizes do negócio, passamos a acentuaras infelizes. Enfileiramos todos os contras. Quem nos ouvisse, jamais suporia estar diante de incorporadores duma empresa que pede dinheiro ao público — mas de difamadores dessa empresa. Chegamos a afirmar que pessoalmente não tínhamos muitas esperanças de vitória.
— “Não faz mal” — respondeu o preto na sua voz inalteravelmente serena.
— “Faz, sim!" — insistimos. — “Jamais nos perdoaríamos se fôssemos os causadores da perda total das reservas duma vida inteira. Se quer mesmo arriscar, tome duas ações só. Ou três. Trinta é demais. Não é negócio. Ninguém põe tudo quanto possui num cesto só, e muito menos num cesto incertíssimo como este. Tome três.”
— "Não. Quero trinta.”
— “Mas por quê, homem de Deus?” — indagamos, ansiosos por descobrir o segredo daquela decisão inabalável.
Seria a cobiça? Crença de que com trinta ações ficaria milionário em caso de jorrar o petróleo?
— “Venha cá. Abra o seu coração. Diga tudo. Qual o verdadeiro motivo de você, um homem humilde, que só tem três contos de réis, insistir desta maneira em jogar tudo neste negócio? Ambição? Pensa que pode ficar um Matarazzo?”
— “Não. Não sou ambicioso” — respondeu ele serenamente. — “Nunca sonhei em ficar rico.”
— “Então por que é, homem de Deus?”
— “É que eu quero ajudar o Brasil...”
Derrubei a caneta debaixo da mesa e levei uma porção de tempo a procurá-la. Maneco Lopes fez o mesmo, e foi embaixo da mesa que nos entreolhamos, com caras que diziam: “Que caso, hein?”. Em certas ocasiões só mesmo derrubando uma caneta e custando a achá-la, porque há umas tais glândulas que nos turvam os olhos com umas aguinhas impertinentes...
Nada mais tínhamos a dizer. O humilde negro subscreveu as trinta ações, pagou-as e lá se foi, na sublime serenidade de quem cumpriu um dever de consciência.
Ficamos a olhar uns para os outros, sem palavras. Que palavras comentariam aquilo? Essa coisa chamada Brasil, que é de vender, que até os ministros vendem, ele queria ajudar... De que brancura deslumbrante nos saíra aquele negro! E como são negros certos ministros brancos!
O incidente calou fundo em nossas almas. Cada um de nós jurou lá por dentro levar avante a campanha do petróleo custasse o que custasse, sofrêssemos o que sofrêssemos, houvesse o que houvesse. Tínhamos de nos manter na altura daquele negro.
A campanha do petróleo tem sofrido variados desenvolvimentos. Guerra grande. Luta peito a peito. E se o desânimo não nos vem nunca, é que as palavras do negro ultrabranco não nos saem dos ouvidos. Nos momentos trágicos das derrotas parciais (e têm sido muitas), nos momentos em que os lidadores no chão ouvem o juiz contar o tempo do nocaute, aquelas palavras sublimes fazem que todos se ergam antes do DEZ fatal.
— “E preciso ajudar o Brasil..."
Hoje sabemos de tudo. Sabemos das forças invisíveis, externas e internas, que puxam para trás. Sabemos os nomes dos homens. Sabemos da sabotagem sistemática, dos móveis da difamação ao ouvido, do perpétuo dar-para-trás da administração. Isso, entretanto, deixa de ser obstáculo porque é menor que a força haurida nas palavras do negro.
Abençoado negro! Um dia teu nome será revelado. O primeiro poço de petróleo em São Paulo não terá o nome de nenhum ministro nem presidente. Terá o teu. Porque talvez tenham sido tuas palavras a secreta razão da vitória. Os teus três contos foram mágicos. Amarraram-nos para sempre. Trancaram com pregos a porta da deserção...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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